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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Gazeta da BD #86 na Gazeta das Caldas (em 1Dez.2017) SOBRE RELVAS

Gazeta da BD #86 na Gazeta das Caldas (em 1Dez.2017)

MORREU FERNANDO RELVAS 
(1954-2017)
Um dos criadores mais importantes e inovadores 
da BD portuguesa

Foto realizada por mim no Amadora BD 2010

O autor da BD portuguesa Fernando Relvas, morreu no passado dia 21, já sofria de Parkinson e foi vítimado por uma infecção. Foi considerado como um dos mais talentosos e personalizados autores portugueses de banda desenhada das últimas décadas. Era também considerado como o eterno boémio da BD portuguesa.

As suas primeiras bandas desenhadas conhecidas surgiram em 1974, começando depois a publicar no jornal/fanzine O Estripador em Janeiro de 1975 e em Novembro desse ano fundou um fanzine, O Gorgulho. Em Abril de 1976 publicou a história O Chico, no jornal Gazeta da Semana. Em 1977, na revista Fungagá da Bicharada, de Júlio Isidro, publicou Uki, o Pequeno Esquimó, Espaço 99 1/2, Chin Lung e O Justiceiro do Rio Amarelo. Em 1978 estreou-se na revista Tintin, com O Espião Acácio, cuja publicação terminou em Março de 1980 e sobre o qual escrevemos aqui, na Gazeta da BD #71, em Março passado. Foi o grande “salto” na sua carreira, continuando a publicar nesta revista até 1982, onde publicou também Rosa Delta Sem Saída, Cevadilha Speed e L123 em registos muito diferentes de Acácio.

Outra "grande aventura" na vasta produção de Relvas, foi a publicação de histórias em continuação no Se7e, o célebre semanário de espectáculos, onde foram publicadas Concerto para Oito Infantes e um Bastardo, Niuiork, Sabina, Herbie de Best, O Diabo à Beira da Piscina, Nunca Beijes a Sombra do Teu Destino e Karlos Starkiller, entre 1982 e 1988. Inicialmente as histórias do Se7e surgiram a preto e branco, mas depois também a cores.

Participou ainda nas revistas de BD Mundo de Aventuras (V serie), O Mosquito (V série), LX Comics e no jornal humorístico O Fiel Inimigo. Colaborou também em outros periódicos como Notícias da Amadora, Pão Com Manteiga, TV Mais (com caricaturas), Sábado (I série, onde se publicou de modo incompleto a história O Rei dos Búzios, em 1989) e Quadrado. O Rei dos Búzios acabou por surgir na íntegra num CD-ROM que acompanhou a revista Biblioteca de setembro de 1999, publicada pela Câmara Municipal de Lisboa. Este CD-ROM inclui uma entrevista ao autor, antigos trabalhos e textos de alguns especialistas, comemorando desta forma 25 anos de carreira de Fernando Relvas. Dizem alguns críticos que, por ironia do destino, nunca chegando a ser publicada em álbum, foi considerada a melhor história produzida por Relvas.

Em 1993 foi publicado o álbum Em Desgraça, pela ASA, história que tinha sido distinguida em 1990 com o Prémio do Concurso "Navegadores Portugueses". Outros álbuns do autor editados nos anos 90 foram As Aventuras do Pirilau - O Nosso Primo em Bruxelas, pela Livros Horizonte, em 1995, Çufo, pelo Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, em 1995, Karlos Starkiller, que foi o título inaugural da colecção "Bedeteca", em 1997, e L123 (seguido de Cevadilha Speed), pela Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, em 1998. Neste ano foi um dos autores portugueses presentes no 25.º Festival Internacional de BD de Angoulême (França), no ano em que Portugal foi o país convidado no maior Festival europeu de BD, com a exposição Perdidos no Oceano.

Foi em 1995 que conheci Relvas, no VI Festival de BD da Amadora, na saudosa Fábrica da Cultura, quando estávamos a montar as respectivas exposições com as quais iriamos participar no Festival, estava ele a preparar a exposição de Çufo e algumas pranchas e esboços de A Rainha Ginga, história que nunca seria publicada. A partir daí mantivemos contactos frequentes até à última vez em que nos encontrámos, em abril de 2017, durante a exposição que lhe foi dedicada, na Bedeteca da Amadora, onde já o encontrei num estado físico muito degradado, devido à doença de Parkinson.

Mas em 2002, Relvas casou-se com a artista plástica Nina Govedarica e, quando o encontrei por puro acaso à saída dos Cacilheiros no Cais do Sodré, ele disse-me “Eh pá, tou farto deste país, vou para Espanha com a Nina e logo se vê!” Em Espanha escreveu a sua única novela literária O Urso Vai a Espanha – com esta obra inicia o uso do auto-epíteto “o urso”, que define a sua desilusão com o mercado editorial português de BD. Na Croácia inaugurou vários blogues onde publicou inúmeras histórias inéditas, que foi produzindo. Regressou a Portugal em 2010, onde já lhe notei os inícios da Parkinson. Publicou ainda Li Moonface (pela Peranocharco), Sangue Violeta e outros contos e Nau Negra (pela ElPep).

Mas como escreveu o crítico Pedro Moura, a obra de Relvas “foi um percurso nervoso por entre géneros e humores, métodos e técnicas, veículos de publicação e modos de produção e circulação, que servirá de retrato a uma incessante e intranquila busca pela expressividade própria da banda desenhada, e outros territórios contíguos, mas cuja leitura e apreciação atenta desvenda um autor que é um verdadeiro sismógrafo da sociedade portuguesa das últimas décadas. A sua imensa galeria de personagens, nenhuma das quais assumiria o papel de “herói clássico”, é igualmente um espelho das gentes comuns que se tentam eclipsar às imposições dessa mesma sociedade.

Tumultuosa, variegada, por vezes virulenta e quase sempre sarcástica, a lavra de Relvas é uma obra-maior no panorama nacional, ainda que sob muitos aspetos fragmentária. O que não deixa de contribuir para um horizonte coeso, vincado, pessoalíssimo, onde repousará a tranquilidade do leitor.”

O seu corpo esteve em Câmara Ardente na Câmara Municipal da Amadora, numa iniciativa que me parece inédita nos Municípios Portugueses e que é de louvar.

Caricatura da autoria de Vasco Gargalo, realizada após a morte de Relvas.

Conheci de perto o humor - por vezes negro - de Fernando Relvas, penso que ele próprio poderia ter dito esta frase, com que finaliza o Espião Acácio...

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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Gazeta da BD #83 na Gazeta das Caldas – Os Descobrimentos na Banda Desenhada


Gazeta da BD #83 – na Gazeta das Caldas 20-Outubro-2017

Os Descobrimentos na Banda Desenhada
Cerca de 50 histórias em 70 anos

Ilustração de Tiago da Silva

Penso que foi a Exposição do Mundo Português de 1940, organizada pelo Estado Novo, que despoletou o “vício” das histórias sobre os descobrimentos na banda desenhada portuguesa. Isto porque foi logo em 1946 que começou a aparecer n’O Mosquito a obra de Eduardo Teixeira Coelho, sobre textos de Raul Correia, O Caminho do Oriente, que foi, segundo me parece, a história inicial desta saga bedéfila “descobrimentística”, publicada depois em seis álbuns da editorial Futura em 1983.

Devo acrecentar que a minha selecção de histórias dos Descobrimentos Portugueses na BD, para este texto, inclui algumas histórias paralelas, de aventuras de navegadores portugueses, que se afasta da temática descobridora em si própria, como Porto Bomvento de José Ruy, ou Nau Negra de Fernando Relvas. Aliás a inclusão de uma página desta história, pretende ser também uma pequena homenagem a Relvas, por ser muito provavelmente, a sua última obra.

Seguiram-se mais quase cinquenta histórias sobre o tema, muitas delas dedicadas aos mesmos protagonistas, com o recorde a pertencer ao Infante D. Henrique, com nove histórias biográficas ao longo deste tempo, sendo a última que conheço do italiano Sergio Toppi, Algarve 1460 (sobre a morte do Infante), publicada na revista Selecções BD #8 – 2ª série – em 1999. É uma história graficamente espectacular em 15 páginas, sem comparação com tudo o resto que se publicou.

Mas pelas minhas contas, foi José Ruy quem bateu o recorde de publicações sobre este tema, com mais de dez histórias publicadas, entre as quais Os Lusíadas, de Camões, ou a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto – sendo esta primeiro publicada no Cavaleiro Andante em 1957. Isto para além das histórias ficcionais de As Aventuras de Porto Bomvento, de que foram publicados oito álbuns, depois condensadas em dois volumes.

A par com José Ruy, surge-nos Baptista Mendes, também com quase uma dezena de histórias publicadas. Outros autores, desde José Garcês a Fernando Relvas, passando por Vítor Péon, José Pires, Carlos Alberto, Nuno Saraiva, o belga Albert Weinberg, ou o italiano Sergio Toppi, que já referi, produziram histórias, algumas curtas, outras mais longas, sobre a saga dos Descobrimentos.

No entanto, penso que, a par da já referida Exposição do Mundo Português de 1940, o aparecimento d’O Mosquito em 1936, que chegou a atingir tiragens de 30 mil exemplares, teve alguma coisa a ver com o autêntico boom na produção de BD em Portugal, especialmente destinada a pré-adolescentes e adolescentes, começando a abrir as suas páginas aos autores portugueses, que irromperam em força no mercado, com a BD de aventuras, de acentuada influência castelhana, inglesa e americana. Refira-se também que me parece que foi esta revista que inaugurou a famosa frase “continua no próximo número...” no final de cada episódio publicado, em histórias de maior fôlego. E a grande figura d’O Mosquito seria, de facto, Eduardo Teixeira Coelho, tendo sido a sua história O Caminho do Oriente um êxito absoluto. Talvez daí se tenha iniciado a saga das histórias sobre os Descobrimentos, criadas por diversos autores, em que a sua temática seria, em certos casos, repetida quase até à exaustão. Daí existirem diversas histórias de “Vascos da Gama”, “Pedros Álvares Cabral”, “Bartolomeus Dias”, etc...

Mas, como referem Marie Manuelle Silva e Rui Malheiro, no estudo A Banda Desenhada Portuguesa – autores, temas e tendências, publicado em 2006 no Boletin Galego de Literatura: “observamos nas estantes das livrarias generalistas ou nos catálogos das editoras, o denso apelo da história. Será o nosso saudosismo que está na origem desta importante subcategoria narrativo-didáctica? Em parte, talvez. Mas, é no aspecto financeiro que devemos procurar a resposta mais provável. Com efeito, num mundo editorial em permanente crise, a produção histórica representa poucos riscos...”

“(...) No entanto, quatro pontos se destacam nesta sub-categoria da História. A primeira é a façanha dos Descobrimentos. É um momento chave que motiva particularmente os nossos autores. De todos os álbuns queremos destacar o trabalho de José Ruy. Através da personagem que criou – Bomvento e dos dois amigos inseparáveis – o capitão Batávias e o armador Dias Gaia –, assistimos às aventuras marítimas de gerações sucessivas de portugueses anónimos.

E é neste pormenor que reside a originalidade da série proposta por José Ruy. As suas personagens são capazes de praticar feitos heróicos, mas com as virtudes e imperfeições dos homens comuns (...)”

Para conclusão, devo referir que desde a “obra inaugural” do tema, de Eduardo Teixeira Coelho, em 1946, até Nau Negra, de Fernando Relvas, em 2015, decorreram 64 anos e, dividindo as cerca de 50 histórias sobre Descobrimentos publicadas em todos esses anos, temos a módica quantia de duas histórias publicadas por ano – é uma quantidade incrível em relação a todos os outros temas publicados em banda desenhada neste país! Isto sem contar com todas as outras histórias dedicadas à História de Portugal, sem serem os Descobrimentos. É obra, não haja dúvidas, apesar de as coisas não serem assim tão lineares, mas quase.

Tenho que agradecer aos meus amigos José Ruy e Geraldes Lino, a paciência com que me ajudaram a elencar os cerca de 50 títulos de BD sobre este tema. Sem eles não o teria conseguido!

O Caminho do Oriente, de Eduardo Teixeira Coelho

Nau Negra, de Fernando Relvas
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Anexo do post Gazeta da BD #83 na Gazeta das Caldas – Os Descobrimentos na Banda Desenhada – Algarve 1640, a extraordinária obra de Sergio Toppi, (sobre a morte do Infante D. Henrique), publicada na revista Selecções BD #8 – 2ª série – em 1999. 

NO SEGUINTE POST:

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Gazeta da BD #82, na Gazeta das Caldas, 22Set2017 – FILIPE SEEMS, DE NUNO ARTUR SILVA E ANTÓNIO JORGE GONÇALVES


Gazeta da BD #82, na Gazeta das Caldas, 22Set2017 

HERÓIS DA BD PORTUGUESA – 11


FILIPE SEEMS
DE NUNO ARTUR SILVA 
E ANTÓNIO JORGE GONÇALVES

Incluo as histórias do investigador Filipe Seems, com argumentos de Nuno Artur Silva e desenhos de António Jorge Gonçalves, nesta série de “heróis da BD portuguesa”, numa escolha em que pretendo também mostrar a evolução da própria BD portuguesa, não só em termos formais, como de novas experiências gráficas narrativas.

Estas obras em que a figuração narrativa de António Jorge Gonçalves se distancia de tudo o que foi anteriormente publicado (penso eu) de uma forma avassaladora, tanto em termos de narrativa como de figuração, são verdadeiras obras primas. Se o primeiro álbum Ana, segue mais ou menos os cânones da BD franco belga clássica, no segundo, A História do Tesouro Perdido, as coisas começam a certa altura a sair dos cânones tradicionais, atingindo no terceiro álbum, A Tribo dos Sonhos Cruzados, um paradigma mais consentâneo com a novela gráfica, desconstruindo o cânone inicial. Daí que a considere (e não só eu) como uma trilogia histórica na BD portuguesa.

No álbum Ana, inicialmente publicado no antigo semanário Se7e, o investigador Filipe Seems e o seu gato Schröe recebem a visita de uma mulher, de nome Ana Lógica, que pretende encontrar uma irmã gémea, que ela não conhece nem sabe onde reside, mas que existe. Para já, António Jorge Gonçalves apoia-se numa concepção retrofuturista da cidade de Lisboa, juntando-lhe elementos improváveis, como as gôndolas venezianas a cruzarem um Terreiro do Paço inundado, elementos voadores “não identificados” nos céus, ou outros elementos completamente fora de época, incorporados na paisagística. Mostra mesmo a Costa de Caparica no modelo futurista idealizado pelo arquitecto Cassiano Branco em 1930. Tudo isto serve, penso eu, para descontextualizar temporalmente a história, num efeito que não deixa de ser espectacular.

Com a ajuda do seu amigo Eugénio, que está sempre a ralhar com os filhos (penso que adoptivos), no meio da conversa e utiliza por tudo e por nada a expressão “é curiosíssimo...” descobrem que, exactamente na mesma data de nascimento de Ana Lógica, nasceu outra mulher no Rio de Janeiro, com o nome de Ana Bela. Começam a colocar a hipótese de clínicas de clonagem genética, de uma empresa japonesa de estudos genéticos. Mais tarde encontram outra gémea, Ana Hera, nascida em Macau, exactamente na mesma data das outras duas... Claro que o final da história é para quem a quiser ler. Tudo isto é dividido em cinco capítulos que têm como “separadores capitulares” as magníficas aguarelas do autor.

Já em A História do Tesouro Perdido, não existem separadores de capítulos, mas de cenas. E para estes são usadas fotografias de cèu, ora solar, ora tempestuoso, nocturno, etc... Claro que estes separadores vão adquirindo uma contextualização: os apontamentos do desenhador (ou do autor do texto?) para realizar as cenas. Mas Filipe Seems aparece-nos no início a percorrer a zona antiga de Lisboa, com um texto na mão, à procura de qualquer coisa. Depois vai dar um mergulho numa praia e aparece-lhe uma garrafa a boiar com um enigma para resolver: “Encontramo-nos no Desejo...”

Mais tarde, com a colaboração do Eugénio “curiosíssimo”, encontram um modelo de caravela dentro de uma garrafa – ao que parece a “Flor do Mar” (não a “Frol de la mar”, que era um galeão e naufragou no Estreito de Malaca), naufragada perto da ilha do Pessegueiro – e após alguns mergulhos, encontram peças do eventual tesouro e chegam à conclusão de que não existe tesouro nenhum, até que Seems encontra uma referência de que o tesouro estará num deserto (ou não?)... só lendo o livro.

“(...) Neste álbum mistura-se Casablanca e A Ilha do Tesouro de Stevenson, Corto Maltese e os Descobrimentos Portugueses, Al Berto (poeta, pintor, editor e animador cultural português) aparece, himself, como director de um museu, depois há um misterioso casal de atlantes. Mas os andróides/atlantes/replicants vêm do primeiro álbum. Numa citação explícita de “Blade Runner”, Harrison Ford fica mesmo cara a cara com Filipe Seems. E fiquemos por aqui quanto a esta história (...)”*

Quanto a A Tribo dos Sonhos Cruzados, os problemas de interpretação são mais complicados. Publicado 10 anos depois de Tesouro, A Tribo... é outra coisa. Atrevo-me a dizer que não há descrição fiável para este álbum, uma vez que se trata de uma história de introspecção. Do herói? Dos autores? Talvez de todos.

“(...) em vez de um tom luminoso e solar, há fantasmas por resolver. Tudo se passa no undergroung, nos subterrâneos dele próprio – Seems – e de Lisboa.

Filipe Seems deve, então, seguir a sua songline. Sair dos escombros. (Todo o cenário do último álbum, aliás, é pré e pós apocalíptico). Uma rede terrorista faz atentados. A sociedade sucumbe a uma overdose de imagens e sons.

António Jorge Gonçalves: “N’A Tribo, somos já outros a revisitar um lugar onde muito tinha acontecido”. Graficamente, é outro objecto. “Achei que era eu que estava a marcar demasiado a diferença, por incapacidade de voltar a uma linguagem de "juventude"; mas a certa altura percebi que o Nuno também não era o mesmo, e que já tínhamos mudado de século, e que já tinha acontecido o 11 de Setembro, e que... (...)”**

Assinalados com * e **: Pequenos excertos do texto de Anabela Mota Ribeiro – publicado no jornal Público em 2009, sobre estes livros.


Páginas nº 39 de Ana e pág. 36 (não numeradas neste álbum) de A Tribo dos Sonhos Cruzados

Páginas do semanário Se7e com o início das histórias de Filipe Seems, conseguidos na Biblioteca Nacional por Leonardo de Sá, para este artigo.


 

Páginas de A História do Tesouro Perdido

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sábado, 9 de setembro de 2017

Gazeta da BD #81 – 8 Set. 2017 – A MINHA CASA NÃO TEM DENTRO – de António Jorge Gonçalves – MEMÓRIAS DA “QUASE MORTE” DO AUTOR

Gazeta da BD #81 – 8 Set. 2017
Jorge Machado-Dias
(já agora, penso que a Gazeta das Caldas está a ficar muito mal impressa...)


A MINHA CASA NÃO TEM DENTRO
de António Jorge Gonçalves

Memórias da “quase morte” do Autor


Tenho pena de nunca ter trabalhado com António Jorge Gonçalves, que é um autor/ilustardor que admiro bastante. Aliás conhecemo-nos muito pouco, uma vez que as vicissitudes da vida, raramente nos premitiram encontros pessoais, senão mesmo os muito esporádicos, em festivais de BD da Amadora e pouco mais. Daí que tenha recebido, com alguma estupefacção, o livro A Minha Casa Não tem Dentro, editado pela Abysmo, de João Paulo Cotrim, com um autógrafo do próprio autor e que me sensibilizou e agradou muito. Mas só quando o comecei a ler, percebi que este era o resultado imagético de uma complicada intervenção cirurgica de AJG, de que felizmente recuperou.

Como o próprio autor refere na pequena introdução ao livro: “No dia 22 de Fevereiro de 2016 – por causa de uma veia que rebentou no meu estômago – morri e regressei à vida, num acontecimento que atravessou espaço e tempo separando e unindo em simultâneo. Descrevê-lo com desenhos fez parte dessa viagem.”

Claro que o trabalho de AJG é sempre visto com “alguma desconfiança” pelos puristas da BD. Isto porque, como justamente refere João Ramalho Santos, em artigo publicado no Jornal de Letras sobre este livro, “classificar o trabalho de António Jorge Gonçalves como ‘inclassificável’ é uma opção possível, mas fácil”.

Ora neste livro, a classificação que pode surgir de imediato nas cabeças dos tais puristas (ou mesmo nos mais comuns leitores de BD), é de facto o “inclassificável”. Logo porque AJG recorre a um tipo de discurso gráfico puro, em que as palavras se encontram em páginas separadas das ilustrações. E, mais “grave” ainda, aquelas palavras parecem não ter nada a ver com as ilustrações. “Isto alguma vez é banda desenhada?” Perguntaram-me já duas ou três pessoas a quem emprestei o livro e que estão habituadas a ler os “balões”, arrumados em cada vinheta, por cima das respectivas ilustrações.


As últimas seis páginas de A Minha Casa Não Tem Dentro:


Para nos situarmos na questão da “leitura” deste livro, posso dizer que, como seria normal, vi as imagens e li as legendas, sequencialmente do princípio ao fim, depois vi todas as imagens e de seguida li todas as legendas e por fim, inverti a ordem: li todas as legendas e de seguida “li” todas as imagens demoradamente. Nestas leituras o livro fez todo o sentido. É só uma questão de leitura e o livro ganha um fascínio, que uma leitura apressada não contribui para o seu entendimento. Quase posso afirmar que este, é um livro “que se mastiga” e depois, quando se “digere”, é o fascínio absoluto, pela dôr, dúvida e finalmente o regresso à vida, que a última página regista magistralmente. Isto tudo na minha opinião, claro.

Mas é preciso fazer aqui um pequeno périplo pela carreira do autor, para se perceber quem é ele e o que fez até agora. Nasceu em 1964 em Lisboa, é autor de banda desenhada, cartoonista, performer visual, ilustrador, cenógrafo e professor. Em 1978, António Jorge Gonçalves editava o fanzine Graphic, em 1981 criou para o semanário Se7e, a rúbrica Disco na Pranhceta, onde ao que parece ilustrava músicas de discos. Depois colaborou no Correio da Manhã, na Capital, etc... As suas primeiras influências foram, segundo confessa, de Moebius, Loustal e principalmente Didièr Comes. Em 1985 publicou Balas Perdidas... no suplemento Tablóide, do antigo Diário Popular, na rúbrica Divulgação BD, de Geraldes Lino.


Em 1993 estreou-se em álbum, editado pela Asa, com Filipe Seems – Ana, com argumento de Nuno Artur Silva. Desta série sobre o investigador Filipe Seems, seriam publicados mais dois álbuns que serão tema de próxima Gazeta da BD, na série Heróis da BD Portuguesa #11.

É certo que essas obras iniciais como As aventuras de Filipe Seems tinham uma matriz de BD franco-belga filiada na retoma contemporânea da "linha clara", que se foi desvanecendo (em termos de história e estilo) especialmente no último volume da trilogia e depois nas colaborações com Rui Zink (A arte suprema, Rei), e em trabalhos a solo, como O Sr. Abílio, etc...

Contudo, quanto a mim, o melhor exemplo do trabalho de AJG é, sem sombra de dúvidas, Subway Life (Vida Subterrânea), onde ele retrata 43 pessoas sentadas em carruagens do metropolitano, em 10 cidades de cinco continentes. Esta obra teve exposições, espalhadas um pouco por todo o país e foi editada em álbum pela Assírio e Alvim em 2010.


Claro que tudo isto é muito pouco para descrever a já extensa carreira do autor.
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OBRAS PUBLICADAS DE ANTÓNIO JORGE GONÇALVES 

BANDA DESENHADA

EUROVISIONI-VIAGGIO A FUMETTI TRA LE CITTA D’EUROPA (colectivo). Mondatori. 1989
FILIPE SEEMS - ANA (argumento de Nuno Artur Silva) Ed. Asa. 1993.
LISBOA ÀS CORES. Câmara Municipal de Lisboa - Pelouro da Cultura. 1993.
À PROCURA DO FIM (argumento de Nuno Artur Silva). Encomenda de Lisboa Capital da Cultura 94. 1994.
FILIPE SEEMS - A HISTÓRIA DO TESOURO PERDIDO (argumento de Nuno Artur Silva) Ed. Asa. 1994.
PLANO ESTRATÉGICO DE LISBOA (argumento de Nuno Artur Silva). Publicado pela CM de Lisboa - Departamento do Plano Estratégico. 1995.
A ARTE SUPREMA (argumento de Rui Zink) Ed. Asa. 1997.
O SENHOR ABÍLIO. Ed. Asa. 1999.
FILIPE SEEMS - A TRIBO DOS SONHOS CRUZADOS (argumento de Nuno Artur Silva) Ed. Asa. 2003.
REI (argumento de Rui Zink) Ed. Asa. 2007.
VIH, O BICHO DA SIDA (com Rui Zink) Almedina/Abraço. 2008
SUBWAY LIFE. Assírio & Alvim. 2010
O GRUPO DO LEÃO (com Rui Zink). Museu do Chiado de Arte Contemporânea. 2010.
HERÓIS DO MAR (livro+cd). EMI/Diário de Notícias|Jornal de Notícias. 2011.
BARRIGA DA BALEIA, Pato Lógico, 2013
UMA ESCURIDÃO BONITA (com Ondjaki), Caminho 2014.
EU QUERO A MINHA CABEÇA, Pato Lógico, 2015.
A MINHA CASA NÃO TEM DENTRO, Abysmo, 2017
O CONVIDADOR DE PIRILAMPOS, Ondjaki e António Jorge Gonçalves, Leya-Caminho, 2017.

CARTOON

CARTOONS DO ANO 2007 (com António, Cid, e Maia) Assírio & Alvim. 2008.
CARTOONS DO ANO 2008 (com António, Cid, Cristina e Maia) Assírio & Alvim. 2009.
NOM DE DIEUX! (colectivo) Pal a Pan. 2010
CARTOONS DO ANO 2009 (com António, Carrilho, Cid, Cristina e Maia) Assírio & Alvim. 2010.
CARTOONS DO ANO 2010 (com António, Carrilho, Cid, Cristina e Maia) Assírio & Alvim. 2011.
CARTOONS DO ANO 2011 (com António, Carrilho, Cid, Cristina, Monteiro, Maia e Viana) Documenta. 2012.
BEM DITA CRISE! Documenta. 2012
CARTOONS DO ANO 2013 (com António, Carrilho, Cid, Cristina, Monteiro e Maia) Documenta. 2014.
CARTOONS DO ANO 2014 (com António, Carrilho, Cid, Cristina, Monteiro e Maia) Documenta. 2015.
CARTOONS DO ANO 2015 (com António, Carrilho, Cid, Cristina, Monteiro, Maia e Rodrigo) Documenta. 2016.

E ainda uma extensa obra em Realização Plástica para Teatro e Desenho Digital em tempo real.

Só para rematar, António Jorge Gonçalves disse uma vez, numa entrevista, que 
“na ilustração gosto do exercício de me imaginar com 4 ou 70 anos”.

António Jorge Gonçalves no Metro - A magnífica fotografia de Enric Vives-Rubio (Público, 2014)

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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Gazeta da BD #80 – HERÓIS DA BD PORTUGUESA #10 – A PIOR BANDA DO MUNDO DE JOSÉ CARLOS FERNANDES

Gazeta da BD #80 - 25 Agosto 2017

HERÓIS DA BD PORTUGUESA #10
A PIOR BANDA DO MUNDO
DE JOSÉ CARLOS FERNANDES 

Atenção: este "recorte" da Gazeta da BD contém um extra: uma entrevista com José Carlos Fernandes para o blogue ÁreaBD (que me parece ter sido entretanto extinto), publicada em 29 de Dez. de 2005.


Obviamente não vou deixar aqui a biografia bedéfila de José Carlos Fernandes, que ficará para uma próxima Gazeta da BD. Agora o que nos interessa é a sua Pior Banda do Mundo que, pela extensão de livros publicados (seis no total), pode figurar perfeitamente nesta série de “heróis” na BD portuguesa, neste caso uma banda de “música”.

Em 1991, quando conheci Victor Borges, ele editava o fanzine Dossier Top Secret e estava com alguns problemas financeiros para continuar a editar e decidi juntar-me “à festa”. Desse modo comecei a co-editar o fanzine, anexando-lhe a chancela “Pedra Pomes” e assim foram publicados mais sete números, entre Março e Setembro de 1992, do nº 49 o nº 55. Acontece que no nº 51, de Maio de 1992, publicámos a história Singin´in the Rain – as The Ozone Layer Grows Thinner, de José Carlos Fernandes. E foi aí que tudo começou. Conheceria mais tarde José Carlos Fernandes pessoalmente, num qualquer Salão de BD da Sobreda de Caparica, embora não me recorde em qual. Mais tarde, já depois de ter fundado a editora Pedranocharco Publicações, editaria em 1996 Lou Velvet - Abaixo de Cão e Um Catálogo de Sonhos,  em 1997 Alguém Desarruma estas Rosas e ainda nesse ano, As Aventuras do Barão Wrangel. Fui portanto, e com muita honra, o primeiro editor de José Carlos Fernandes.

Depois, José Carlos Fernandes teria um rúbrica mais ou menos fixa no BDjornal, onde escreveria uma série de artigos, desde o BDjornal #15, de Novembro de 2006, com o texto “O Magnífico Mausoléu da Banda Desenhada”, que é de facto, um texto avassalador em relação à publicação de banda desenhada.

Mas em 2002, a editora Devir tinha começado a publicar a série A Pior Banda do Mundo, com O Quiosque da Utopia, a que se seguiriam mais cinco títulos até 2007:
2003 O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante
2003 - As Ruínas de Babel
2004 - A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto
2006 - O Depósito dos Refugos Postais
2007 - Os Arquivos do Prodigioso e do Paranormal


José Carlos Fernandes teria ainda mais alguns títulos em carteira para esta série, que não publicaria, por vontade própria. Isto porque depois de 2011, após publicar Agencia De Viajes Lemming (na versão castelhana) deixaria, definitivamente de se dedicar à banda desenhada, devido a um problema de falta de cumprimento do contrato com a Devir, quanto a recebimentos por direitos de autor, segundo uns, ou porque alguém terá escrito uma crítica feroz acerca da sua BD, que o afectaram muito, segundo outros e em que não acredito muito.

De qualquer modo, a Pior Banda do Mundo composta pelo saxofonista Sebastian Zorn, o lider, que profissionalmente era serrilhador de selos, pelo teclista Idálio Alzheimer, profissionalmente verificador meteorológico, pelo contrabaixista Ignacio Kagel, fiscal municipal de isqueiros e pelo baterista Anatole Kopek, criptógrafo de segunda classe, juntava-se na cave de uma alfaiataria encerrada desde 1958, para ensaiar uma música que se ouvisse. O que era altamente improvável devido à completa falta de preparação dos ditos “músicos”. Foi este o início de A Pior Banda do Mundo.

Acrescente-se que, oito pisos acima da cave onde “ensaiava” a Pior Banda do Mundo, vivia o compositor Dimitri Sikorsky, que havia posto termo a uma aclamada carreira como maestro, para criar enfim, a sua “obra-prima” absoluta. Contudo ao fim de 22 anos de esforços, o maestro não conseguiu mais do que inutilizar resmas e resmas de pautas. Contudo, o maestro não podia imaginar que a música que tentava compor, já existia, três pisos abaixo, nas cabeças das gémeas Glatz. Estas gémeas foram as únicas sobreviventes do luxuoso paquete Okeanos, naufragado ao largo da Patagónia. Três pisos acima de onde ensaia a Pior Banda... existe a sede da Sociedade da Terra Plana. Os seus membros acreditam piamente que a terra é plana e imóvel e que o sol gira em seu torno.

Outro dos habitantes do prédio, Tomás Flugelhorm passa horas a consultar a lista telefónica, em busca de cidadãos anónimos, que tenham, os mesmos nomes de personalidades famosas. Depois de ter encontrado uma longa série de coincidências, Flugelhorm, que não sabe que tem o mesmo nome do inventor do trompete de bolso, pensa que “e se tudo isto fôr apenas obra de um designio divino?”

Portanto é mais ou menos este o mundo que José Carlos Fernandes criou para situar a sua Pior Banda do Mundo.

Depois de uma série de cerca de 38 livros editados, terminando com Agência de Viajens Lemming, José Carlos Fernandes ficou definitivamente “calado” em termos de BD, embora continue a escrever sobre música para a revista Time-Out, optando por assinar como JCF. São opções que temos que respeitar e, da minha parte, nem sequer coloco a hipótese de o contactar como autor de BD, por muito que me apeteça, tendo em conta o historial mutuo que temos nesse aspecto.

Páginas de A Pior Banda do Mundo
pág.6 de O Quiosque da Utopia e pág. 20 de O Depósito de Refugos Postais
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As obras de José Carlos Fernandes que editei:


1992


1996

1996

1997

1997

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ENTREVISTA COM JOSÉ CARLOS FERNANDES
publicada em 29 Dezembro 2005

Esta entrevista foi realizada com José Carlos Fernandes, exclusivamente para a ÁreaBD. A entrevista foi realizada via e-mail.

ÁreaBD – Quando é que começou a fazer os seus primeiros desenhos?

José Carlos Fernandes – Como quase toda a gente, muito cedo, mas intermitentemente e sem método ou objectivo. Portanto os progressos foram, durante anos quase nulos. Entre os 18 e os 25 anos quase não desenhei. Só considero que comecei a desenhar a sério aos 25 anos. E poucos meses depois estava a fazer a minha primeira BD. Foi por isso que precisei de fazer quase 100 pranchas de BD até que a qualidade do desenho ficasse a par com os textos e a narrativa.

ÁreaBD – E quando é que começou a produzir os primeiros textos?

JCF – Também aí não existia prática prévia. Nunca escrevi nada. O meu primeiro texto surgiu quando tive de fazer a minha primeira BD.

ÁreaBD – Sempre foi fã de BD?

JCF – Sim. Comecei pelas BD's de Walt Disney, pouco depois de ter aprendido a ler, passei depois à revista "Tintin", que publicava várias histórias em continuação (o que nos deixava suspensos até à semana seguinte, para saber como se iria o herói desenvencilhar), e aos álbuns do Astérix e Tintin.

ÁreaBD – Quais foram os seus primeiros trabalhos para editoras?

JCF – Durante vários anos trabalhei para mim mesmo, não esperando vir a ser publicado, até porque o panorama da edição de BD em Portugal pouco tinha a ver com os meus trabalhos. Fui publicando em fanzines. Até que em 1993 surgiu o "Quadrado", um fanzine "profissional", com qualidade equiparada à de revista, editado por pessoas ligadas ao Salão de BD do Porto. Publiquei aí regularmente e o editor do "Quadrado" desafiou-me a fazer uma história de 32 págs. em formato comic-book, que iria inaugurar a colecção "Quadrado Comics". Foi assim que em 1994 fiz "A lâmina fria da lua", que seria o primeiro nº (e último, creio) da dita colecção. Entretanto já tinha publicado, em 1993, em edição de autor, "Controlo remoto". Ainda em edição de autor fiz "Irrealidades quotidianas" e depois em 1996 comecei a publicar pela Pedranocharco, que foi um projecto editorial que naufragou mal saiu do porto(*). Editei em diversas editoras até chegar à Devir. Mas, salvo raras excepções, não tenho concebido livros a encomenda de editoras – faço o que me dá na gana e depois espero que alguém esteja disposto a editar-me (veja-se o caso de "A última obra-prima de Aaron Slobodj", que fiz em 1997 e só foi editado em 2005).

* Nota do Kuentro: (Devo referir aqui que, a frase de JCF “comecei a publicar pela Pedranocharco, que foi um projecto editorial que naufragou mal saiu do porto” não está totalmente correcta. A Pedranocharco não naufragou. “Encalhou” mal saiu do porto, mas foi desencalhada em 2004 e aguentar-se-ia à tona até Outubro de 2013, quando resolvi colocar o navio na doca seca do Alfeite, eh, eh...)

ÁreaBD – Houve alguém em especial que o motivou a seguir esta carreira?

JCF – Não. Nem sequer a planeei como carreira. Fiz a primeira BD, fiquei interessado, fui fazendo mais, fui explorando diferentes temas e grafismos e sem que eu me apercebesse disso ou o tivesse planeado, tornei-me num "profissional".

ÁreaBD – O público só conhece os seus desenhos de pessoas “normais”. Nunca teve curiosidade em desenhar Super-Heróis?

JCF – Não, os super-heróis não me interessam de todo. As pessoas "normais" são suficientemente ricas e interessantes.

ÁreaBD – A série “A Pior Banda do Mundo” é um dos seus mais conceituados trabalhos. Mas reparámos que nunca põe pontos finais no fim das frases. Há algum motivo em especial?

JCF – Não é só em "A Pior Banda do Mundo". Deixei de usar pontos finais. Se o discurso já está fechado dentro do balão ou do cartucho, não sinto necessidade de o fechar com um ponto final.

ÁreaBD – Só por curiosidade, onde é que vai arranjar nomes tão esquisitos para as suas personagens?

JCF – É uma história complicada. Por um lado, o meu cérebro, que facilmente se esquece de nomes como Sousa, Silva ou Antunes, retém facilmente nomes como Szymborska, Zelenka ou Zulfikarpašić. Por outro, muitos dos nomes que uso não se limitam a ser esquisitos ou a soar-me bem (isto também é importante), mas remetem para figuras reais, personagens literárias, lugares, etc. Não é indispensável que o leitor compreenda essas alusões para que perceba a história, mas quem conhecer essas referências culturais terá um bónus de entendimento. Raros são os nomes que são escolhidos ao acaso. Por exemplo, criei o nome de Sebastian Zorn, a partir dos nomes de dois dos meus músicos favoritos: Johann Sebastian Bach (1685-1750) e John Zorn, um músico de jazz norte-americano (actualmente com cerca de 50 anos). Não podiam ser mais diferentes: enquanto a música de JS Bach é um monumento de equilíbrio, rigor, serenidade e harmonia, a de Zorn assenta no improviso, no paroxismo, na imprevisibilidade e pode misturar elementos tão díspares como música tradicional judaica e o thrash metal. Ah, e Zorn, em alemão, quer dizer "ira".

ÁreaBD – E como é que consegue ter tanta inspiração para criar estórias tão bizarras?

JCF – Quem sabe de onde vêm as ideias? Esse é o mistério da imaginação. As ideias aparecem de onde menos se espera. O meu trabalho é estar atento, agarrá-las quando passam e voltar a pô-las em liberdade se verificar que não têm serventia. Às vezes são-me sugeridas por uma leitura enviesada: salto uma linha no jornal e aparece-me uma situação insólita. Vou registando as ideias em folhas soltas e depois sistematizo-as numa base de dados de ideias para histórias. Também vou recolhendo nomes de pessoas, lugares, livros, máquinas, inventos, tudo o que possa ser usado numa história.

Mas as minhas histórias não são tão bizarras como podem parecer à primeira vista. Pois são, no fundo, sobre nós mesmos, pessoas banais de uma qualquer sociedade ocidental no princípio do século XXI:

ÁreaBD – Está a pensar em levar esta série até que número?

JCF – Não sei. "A Pior Banda do Mundo" é um projecto aberto. Tenho planos para pelo menos mais 3 volumes: "O Teatro Vegetal Zucchini", "A Sede Provisória do Governo Mundial", "O Atlas Ilustrado da Ilusão Humana". Depois logo se verá.

ÁreaBD – Já tem o 6# volume terminado? Quando o poderemos ver nas bancas?

JCF – O vol.6, "Os Arquivos do Prodigioso e do Paranormal", está pronto há 2 anos e será lançado provavelmente em Outubro de 2006. O vol.5 estava pronto desde Abril de 2001.

ÁreaBD – Já está trabalhar no próximo número?

JCF – Estava a organizar as sinopses para os volumes 7, 8 e 9, mas surgiu a oportunidade de fazer "A Agência de Viagens Lemming" e deixei-os momentaneamente de parte.

ÁreaBD – Já sabemos que está trabalhar no projecto Black Box Stories. Pode adiantar-nos alguma coisa sobre a continuidade do mesmo? E porquê a escolha de tal nome?

JCF – Durante muitos anos só tive ideias para histórias que fosse eu mesmo capaz de desenhar. Como sou um desenhador limitado, isto definiu o âmbito do tipo de histórias que criava. Um dia decidi deixar a imaginação à solta, e gostei dos resultados. Na verdade, posso dizer que são as minhas histórias favoritas, de quantas fiz até à data. Mas estas histórias pediam, para serem plenamente realizadas, alguém com mais "visão" gráfica do que eu. Foi então que me pus em busca de cúmplices: propus colaboração aos meus desenhadores portugueses favoritos. Só o Miguel Rocha é que respondeu afirmativamente.

Depois "descobri" o Roberto Gomes num workshop de BD que orientei na Biblioteca Municipal de Loulé. O Luís Henriques encontrei-o noutro workshop, que orientei no curso de BD do Centro de Imagens e Técnicas Narrativas da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Quem me chamou a atenção para a Susa Monteiro foi o José Freitas e o João Miguel Lameiras, da Devir, durante o 1º Festival de BD de Beja, para o qual ela fez o cartaz.

Posso adiantar que há mais 2 "recrutas" que muito possivelmente entrarão no projecto, o Vitor Hugo, português e sem experiência na BD, e Ken Niimura, que vai ser a nossa lança no Japão e nos vai permitir dominar o mercado mundial de manga e ficarmos obscenamente ricos. OK, a verdade é que Ken é espanhol (de origem japonesa) e tem já vários livros publicados. O Ken juntou-se ao projecto porque me pediu um prefácio para o seu último livro e eu, ao ver o seu portofólio, achei que ele era suficientemente versátil para se enquadrar nas BBS.

Quanto ao nome: vejo a inspiração como uma "black box", uma "caixa negra". Há inputs: vive-se, assiste-se, lê-se, ouve-se. E há outputs: peças de teatro, filmes, livros. No meio está o processo criativo: misterioso, insondável, imprevisível. Dei o nome de "Black Box Stories" a esta série não só em referência à caixa negra dos aviões (a BBS nº1 é precisamente sobre a caixa negra de um avião que cai na selva do Yucatan), mas também ao enigma do processo criativo. As primeiras 30 ou 40 BBS surgiram do nada, sem avisar, durante um mês ou dois, sem esforço. Depois acabaram, por mais que espremesse as meninges não surgia nem mais uma. Passado um ano e meio surgiram mais umas 80, em 3 ou 4 meses. E depois a fonte voltou a secar.

ÁreaBD – Não vai desenhar nenhuma estória desse projecto?

JCF – Em princípio não, pois nunca fez parte dos meus planos e as BBS desenhadas até à data têm excedido as minhas expectativas.

ÁreaBD – Sabemos que tem estado a trabalhar noutro projecto – A Agência de Viagens Lemming. Em que consiste?

JCF – "A Agência de Viagens Lemming" surgiu em resposta ao desafio lançado pelo João Miguel Tavares, do "Diário de Notícias", para fazer uma tira diária em continuação para as páginas de Verão do jornal. A única condição é que o tema tinha de estar relacionado com o verão. Achei que as viagens seriam um tema rico e diversificado. Como acho que uma tira em continuação não tem "substância" suficiente para manter o interesse do leitor, propus antes duas tiras, ou seja uma pequena página de BD. Foi uma maratona, pois tive que fazer uma página por dia, da concepção da história à arte final, durante 62 dias (Julho e Agosto). Como muitas das ideias que tive não couberam nessas 62 págs. e estava "embalado" aproveitei e fiz mais 62, ou seja um 2º volume. Estou agora a tratar das artes finais.

ÁreaBD – Pode-nos revelar a data da publicação destes seus projectos pela Devir?

JCF – "A Agência de Viagens Lemming vol.1: Dez mil horas de jet-lag" sairá no início de 2006 pela Devir, possivelmente com o "Diário de Notícias". O vol.1 das "Black Box Stories", desenhado pelo Luís Henriques, sairá em Abril de 2006, no Festival de BD de Beja. Algumas "Black Box Stories" desenhadas pelo Miguel Rocha estão a ser pré-publicadas na revista "C", do Centro Comercial Colombo.

ÁreaBD- Quais são as suas preferências de leitura a nível de BD?

JCF – Não leio BD de super-heróis (o único livro desta área de que gosto é "Arkham Asylum", de McKean/Morrison) nem de manga. Mas a BD nem sequer é o que me ocupa mais tempo de leitura. Leio poesia, ficção, ensaio (sobre biologia evolutiva, economia, religião, mitologia, música clássica – interesso-me por muitas coisas diferentes), enciclopédias, atlas, dicionários. Se tiver que reencarnar como insecto, quero ser um peixinho-de-prata, um daqueles bichos que se alimentam de livros.

Os autores favoritos da minha biblioteca são:

Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Roberto Juarroz, Carlos Drummond de Andrade, Gonzalo Torrente Ballester, Camilo José Cela, Manuel Vázquez Montalbán, Francisco de Quevedo, Miguel de Cervantes, Enrique Vila-Matas, Antonio Gamoneda, Franz Kafka, Bohumil Hrabal, Milan Kundera, Milorad Pavić, Hans Magnus Enzensberger, Czeslaw Milosz, Heiner Müller, Rainer Maria Rilke, Marin Sorescu, Wisława Szymborska, Albert Camus, André Malraux, Georges Perec, Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Alessandro Baricco, Italo Calvino, Andrea Camilleri, Umberto Eco, Sergio Solmi, Francesco Petrarca, Julian Barnes, Bruce Chatwin, Virginia Woolf, T.S. Eliot, Seamus Heaney, William Shakespeare (os sonetos), Charles Tomlinson, Ray Bradbury, Douglas Coupland (até "Polaroids from the Dead"), Sam Shepard, E.B. White, Robert Bringhurst, Frank O'Hara, Walt Whitman, António Lobo Antunes, Rui Nunes, Eça de Queirós, José Saramago (antes do declínio iniciado com "Ensaio sobre a cegueira"), Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Herberto Helder, Luis Miguel Nava, Almada Negreiros, Alexandre O'Neill, Fernando Pessoa (sobretudo Álvaro de Campos). Estou agora embrenhado na leitura de um ensaio fascinante (e espesso: quase 700 pg) de David Landes, intitulado "The wealth and poverty of nations: Why some are so rich and some are so poor", uma história económica do mundo desde a Idade Média aos dias de hoje.

ÁreaBD – Qual é a sua personagem de BD favorita?

JCF – Identifico-me mais com autores e livros do que com personagens. Se tivesse mesmo de escolher uma seria Corto Maltese.

ÁreaBD – Quais são os seus autores preferidos?

JCF – Na BD: Will Eisner, Neil Gaiman, Ben Katchor, Winsor MacCay, David Mazzucchelli, Dave McKean, Jon J. Muth, George Pratt, Chris Ware, François Boucq, François Bourgeon, Nicolas De Crecy, Hermann, Jacques Loustal/Paringaux, François Schuiten/Benoît Peeters, Alberto Breccia, José Muñoz/Carlos Sampayo, Hugo Pratt, Stefano Ricci, Miguelanxo Prado.

ÁreaBD – Pode dar um conselho para aqueles que querem seguir a carreira de artista de BD?

JCF – Guardaram para o fim a pergunta mais difícil.

Não há receitas nem fórmulas de aplicação geral. Cada um tem que descobrir o seu caminho, consoante a sua personalidade, os seus interesses e os seus objectivos. A minha experiência pessoal de pouco servirá para quem queira vir a desenhar os "X-Men".

Os conselhos que posso dar são necessariamente muito genéricos:

1) Para quem desenha, praticar até cair para o lado, e evitar copiar os desenhadores idolatrados. Desenhar a partir do natural, de modelos, de fotos (tiradas por si mesmo ou pilhadas a revistas e jornais), mas não dos desenhos de outros, senão será difícil desenvolver um estilo pessoal.

2) Para quem quer ser argumentista, ler muito e de forma alguma só BD. Ler muito, não para tomar modelos, mas a) para se ter uma noção da vastidão do mundo da literatura e da experiência humana, b) para se perceber o que já foi feito (não vale a pena tentar inventar a roda outra vez) e c) o que não deve ser feito (nesta área não vale a pena perder muito tempo).


José Carlos Fernandes nas sessões de autógrafos do Festival de BD da Amadora de 2008. 
Penso que foi o último Festival onde esteve, uma vez que já não tenho qualquer foto dele nos Festivais seguintes e... se ele lá estivesse, eu teria fotos!
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