quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Gazeta da BD #65 – HERÓIS DA BD PORTUGUESA 1 – Quim e Manecas – de Stuart Carvalhais



Gazeta da BD #65
16 Dezembro 2016


HERÓIS DA BD PORTUGUESA - 1

QUIM E MANECAS
DE STUART CARVALHAIS


Jorge Machado-Dias


Depois de ler os textos do volume das comunicações apresentadas no Colóquio Internacional – Figuras do Herói, na Literatura, Cinema e Banda Desenhada, que se realizou no Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho em Abril de 2012, tenho vindo a pensar numa série de textos, evocando alguns dos principais heróis da BD portuguesa.

Escrevem os organizadores do Colóquio, na nota introdutória:

“Desde tempos imemoriais, os grupos humanos têm criado heróis para neles projectarem a sua estrutura ética. Desde o semi-deus antigo ao héroi urbano pós-moderno, as configurações histórico-culturais da figura heróica apresentam-se múltiplas e variadas. Há, pois, heróis míticos, trágicos, cómicos, épicos, romanescos, picarescos, clássicos, tradicionais, modernos, contemporâneos, assim como anti-heróis e super-heróis. Numa palavra, o herói tem mil caras.(...)

Sendo dissidente, desertor, mestiço, pirata, missionário, repórter, viajante, sedutor, detetive, explorador, arqueólogo, justiceiro – estas e outras figuras heróicas, como seria expectável, encontram-se, no masculino e no feminino, em mitos, contos, romances, teatro, cinema, banda desenhada ou vídeo-jogos (...)”

Nas comunicações apresentadas, apenas duas delas analizam concretamente personagens da BD: Corto Maltese, de Hugo Pratt e o Barão Wrangel, de José Carlos Fernandes.

Para esta série sobre Heróis da BD Portuguesa elenquei doze personagens, começando por Quim e Manecas, de Stuart Carvalhais. Vejamos então.

Stuart Carvalhais (Vila Real, 1887 – Lisboa, 1961) teve uma formação convencional incipiente e foi, sobretudo, um autodidacta. Começou a trabalhar como pintor de azulejos em 1905 e depois de um curto período como repórter fotográfico, tornou-se num artista plástico multifacetado, fazendo carreira como pintor, desenhador, ilustrador, caricaturista, autor de BD e artista gráfico, dedicando-se também à decoração, cenografia e até ao cinema. Em 1911 foi um dos responsáveis pela revista humorística A Sátira e colaborou na fundação da Sociedade de Humoristas Portugueses, que teve como presidente Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (filho de Rafael Bordalo Pinheiro). Em 1912-13 viveu alguns meses em Paris, sobrevivendo precariamente, colaborando como ilustrador no jornal Gil Blas.

Embora republicano e mais tarde também antifascista, colaborou em 1914 no jornal satírico monárquico Papagaio Real, então sob a direcção artística de Almada Negreiros. Deu início à sua banda desenhada Quim e Manecas em Janeiro de 1915, considerada a série pioneira e mais longa da BD portuguesa, com mais de 500 episódios, nas páginas do suplemento humorístico do jornal O Século e depois espalhada por vários outros jornais e revistas, terminando em 1953.

Quim e Manecas são dois rapazes endiabrados, que brincam à solta pelas ruas e cujas acções têm sempre consequências imprevistas. Originalmente de cariz infantil, as histórias evoluem para a crítica de questões sociais e políticas. As narrativas assentavam nas partidas aplicadas pelos dois personagens sem olhar a quem, em que o gato ou o cão, os guardas republicanos ou os ‘talassas’, a Dona Leocádia ou os boches são algumas das vítimas, sempre com diatribes escolhidas a preceito.

Mas Stuart não reduziu as aventuras dos dois rapazes à chalaça das partidas, envolvendo-os nos acontecimentos que marcavam o país e o mundo quando, por exemplo, os faz prisioneiros dos alemães ou combatentes nas trincheiras dos Aliados, ou quando os coloca no cenário arruaceiro dos confrontos entre facções republicanas, ou mesmo quando os promove a inspectores dos serviços secretos, procurando resolver o Crime do Barreiro. Nestas acções, o autor dava-lhes voz para comentar, com o mesmo grau de interesse, os seus dissabores quotidianos de “rapazolas” e as grandes questões nacionais, através de uma parafernália de recursos verbais, que cruzam o calão popular de Lisboa com a suposta erudição do latim macarrómico, o jargão republicano com provérbios e adágios.

E depois há também as invenções de Manecas, momentos sublimes de delírio tecnológico, em que se cruzam a imaginação sem limites, com o seu quê de diabólico do personagem, com as possibilidades narrativas que cada maquineta permite. Veja-se o motor a gato-e-rato que resolve a crise do carvão e merece mesmo uma condecoração pelo próprio Afonso Costa, o avião transformado em cana de pesca que prende vários alemães pelo nariz ou a lupa gigante que incendeia Berlim.

O primeiro ciclo de Quim e Manecas conclui-se em 1918, uma semana depois do Armistício que põe fim à I Guerra Mundial, a série só reaparecerá com regularidade nos anos de 1930, com excepção de uma rara e curiosíssima passagem pela nova Rússia, incluindo mesmo um encontro com Lenine, logo em 1919, publicada em duas páginas do jornal Os Sports. Lembremos que Tintin só se dirigirá ao País dos Sovietes dez anos mais tarde...

A dupla Quim e Manecas foi recuperada pelo traço de Richard Câmara em 2010, para as Comemorações do Centenário da República Portuguesa. Em 2010 foi também publicado Quim e Manecas, 1915-1918, um volume organizado por João Paiva Boléo, contendo uma colectânea de pranchas desse período.
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FONTES

Comunicações do Colóquio Internacional – Figuras do Herói, na Literatura, Cinema e Banda Desenhada, que se realizou no Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho em Abril de 2012.
Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, Leonardo De Sá e António Dias de Deus (Época de Ouro, 1999).
Centenário de Quim e Manecas de Stuart Carvalhais, João Paiva Boléo (Conferência na Biblioteca Nacional, 30 de Novembro 2015).
Quim e Manecas à Conquista da Modernidade, Sara Figueiredo Costa (Revista Ler, Fevereiro 2011).
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

BDpress #470 – JOSÉ RUY NA REVISTA “DOMINGO” DO CORREIO DA MANHÃ (20/11/2016)


BDpress #470

O MESTRE DOS QUADRADINHOS

JOSÉ RUY É O ILUSTRADOR PORTUGUÊS 

COM MAIS ÁLBUNS EDITADOS: 81. 
MAIS DE METADE SÃO DE BANDA DESENHADA


Publicado no Correio da Manhã, suplemento Domingo, 20 Novembro 2016
Texto de Teresa Fidalgo
Fotos de Pedro Catarino





Começou a desenhar "garatujas" com quatro ou cinco anos.

Mas foi a primeira edição do mítico jornal de banda desenhada O Mosquito, que entrou em casa de José Ruy pelas mãos do pai, que fez nascer repentinamente “aquele fascínio por contar histórias aos quadradinhos”! Corria o ano de 1936 e José Ruy, o ilustrador português com maior número de álbuns publicados (81) e um dos maiores da banda desenhada nacional, tinha então apenas cinco anos e estava longe de adivinhar que aquilo seria o seu futuro.

O mítico jornal de banda desenhada custava então 50 centavos e os cinco mil exemplares de tiragem, consideravel para a altura, egotaram-se rapidamente. Tal como os números seguintes, que no auge chegaram a vender 80 mil exemplares e que marcaram a memória de varias gerações de adeptos da BD. José Ruy incluia-se nesse naipe de seguidores, até que em 1945, com apenas 15 anos, ele próprio foi tarnbem desafiado a sentar-se nos estiradores de O Mosquito. "Era preciso um rapaz para dar cor" e o então jovem aluno da António Arroio não hesitou em sentar-se ao lado dos mestres António Cardoso Lopes Júnior (conhecido por 'Tiotónio') e Raul Correia.

(Nota do Kuentro: O Mosquito começou a publicar-se em 14 de Janeiro de 1936)

Lá se iam os planos paternos para que cursasse arquitetura!

“O meu pai era da opinião de que o desenho e a pintura não davam nada. E efetivamente não dão. Mas dão muito gozo a quem tem o privilégio de poder fazer deles profissão”, admite José Ruy, rodeado de esboços e recordações no seu atelier na Amadora, cidade que o viu nascer (bem como a 'Tiotónio') e que, por causa deles, fez por se afirmar capital da BD. E como início das colaborações para O Mosquito e mais tarde para O Papagaio veio a mesada extra para comprar “melhor papel e tinta da china”. Melhor do que aquela de marca nacional, a Cisne, "que era cinzenta e não tinha opacidade e era dificil de ser captada graficarnente!”

Na António Arroio, onde foi discípulo do mestre Rodrigues Alves, especializou-se em Artes Gráficas, que viriam a providenciar-lhe o sustento durante décadas e décadas, ao mesmo tempo que em paralelo fazia banda desenhada para jornais e revistas.

Quando era menino exercitava furiosamente o traço. “Fiz milhares de desenhos, de estudos, desde a anatomia dos anirnais ao movimento das ondas do mar. Depois das aulas, ia para o jardirn zoolóico e desenhava as feras. Cheguei a assistir ao parto de uma leoa e depois desenhei todo o processo de crescimento de uma das crias. Isso permitiu-me ganhar uma grande versatilidade e facilidade no desenho.

Desenho tudo de uma forma muito rápida, sem grandes dúvidas ou hesitações. Quase nunca apago!” Essa velocidade de produção ainda hoje, aos 86 anos, o acompanha.

Continua a desenhar muitas horas por dia e, seguramente, muito mais do que aquilo que consegue editar. Também continua a sentir a urgência de acabar um desenho apertar-lhe o peito, tal como quando era criança “ou gerindo a vida conforme os desenhos. Se quero acabar um, almoço mais tarde. Ou então como primeiro, para depois poder dedicar-me só a ele” confessa.

Geralmente, é a mulher que tem de lhe bater à porta do atelier a lembrá-lo dessas coisas mundanas...

Até porque o privilegio de se poder dedicar somente à banda desenhada só chegou muitos anos de trabalho depois nas artes gráficas.

“Foi mais ou menos em meados dos anos 80, quando a Editorial Notícias me desafiou para trabalhar na BD a tempo inteiro.” Quando começou a trabalhar para a ASA, passou então a trabalhar no seu atelier a partir de casa, cujas paredes não deixam dúvidas quanto ao legado do homem que entre elas vive: estão forradas de homenagens, caricaturas, dedicatórias de carinho e admiração.


NA ERA DOS COMPUTADORES 

Nos últimos tempos, José Ruy conheceu, com os computadores, uma verdadeira revolução no seu trabalho.

Primeiro, estranhou-os, mas depois rendeu-se a eles.

"Eu era contra os computadores porque eliminavam postos de trabalho. Na gráfica onde trabalho, por exemplo, a máquina que antes tinha quatro pessoas para trabalhar, hoje precisa apenas de uma porque os corpos são comandados por computador”, começa por contar. Mas a filha lá o foi convencendo de que o PC iria perrnitir-lhe fazer "um trabalho mais limpo" e que, caso se enganasse, não teria de apagar tudo e começar do inicio. Perfecionista e rigoroso como é – assim o descrevem os pares – ,a perspetiva de melhorar a qualidade do produto final convenceu-o: "Logo a mim, que até ainda continuava a usar uma maquina de escrever Hermes Baby, que era do meu pai. Mas a verdade é que, de cada vez que me enganava, tinha de rasurar. Ou se caía um pingo de tinta a mais.” recorda.

Agora, José Ruy faz os esboços a carvão, passa os originais a tinta da china e depois digitaliza-os. “O computador permite-me ainda ampliar os desenhos e fazer retoques ou detetar imperfeições que nos escapam no papel e que na graftca nunca corrigem, porque eles naturalmente têm medo de mexer no desenho”, explica. Finalmente, chega a parte de colorir, que antes era feita a aguarela.

José Ruy conseguiu dar a volta à técnologia e formatá-la de modo a usar a sua "paleta própria" de cores.

"Por outro lado, como faço muitas sessões em escolas, também me facilitou a vida nas apresentações: dantes levava as fases do meu trabalho em diapositivos, hoje levo tudo em PowerPoint”. E os miúdos adoram. E brindam José Ruy com as mais inusitadas questões. “Um dos rapazitos, de nove anos talvez, pergunta-me a propósito dos Lusiadas porque é que ainda no compreendia bem aquilo. Expliquei-lhe que era algo que ia passar conforme fosse crescendo!”

Sinais que os tempos não perdoam e José Ruy viveu muitos ao longo da sua carreira.

Antes do 25 de Abril, por exemplo, tinha de ter muito cuidado. "Tinhamos a censura dentro dos jornais e o nosso objetivo era que as coisas não fossem cortadas. Portanto havia que ter cuidado. Lembro que uma vez, numa história do Fernão Mendes Pinto, pintei-o como um rapaz imberbe, quando o previsivel seria que ao firn de tantos meses no mar tivesse uma longa barba. Só que isso fazia lembrar muito os piratas norte-americanos... e não podia ser!“

Dos jornais de banda desenhada também já há muito que não há sinais. "Passou-se para o livro de BD, o que é mau para os autores. Nos jornais havia sempre os colaboradores de maior gabarito, os estrangeiros e, claro, os iniciados, como eu também comecei por ser. As pessoas compravam pelos grandes ou pelos que gostavam, mas ao mesmo tempo iam ficando a conhecer os novos. Com o livro já não é assim. Se não se gosta ou não se conhece, não se compra. Até porque é um investimento muito mais caro do que era um jornal”, lamenta.

SEMPRE A PRODUZIR

Aos 86 anos, José Ruy não tem vontade de abrandar. Um dos seus mais recentes livros foi a biografia em BD de Carolina Beatriz Ângelo, lançado na última edição do festival de BD da Amadora, com o apoio do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos.

Mas em abono da verdade, a história começou a nascer na ponta dos seus dedos há cinco anos, por sugestão da filha, Teresa Pinto, membro da Comissão pela Igualdade do Género. Estava-se perto do centenário da sufragista, cirurgiã e a primeira mulher a votar em Portugal. José Ruy investigou a sua vida para a poder fazer renascer nos quadradinhos, mas não se livrou da sina da própria Beatriz Angelo. "O livro demorou cinco anos a ser publicado por falta de um apoio na distribuição”.

Mas projetos nao lhe faltam. Tem prontos a sair um livro sobre a Ordem dos Templários, outro sobre as origens da cidade de Coimbra e está a terminar urna obra sobre a forma heróica como os habitantes da ilha do Corvo venceram os corsários com pedras de lava. Como usa sempre modelos vivos, viajou recentemente para a ilha, para poder transpor para o papel rostos de verdade.

Será mais um álbum a juntar aos outros 81 já no início de 2017. Mais um para imortalizar o homem e o artista.



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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

REPORTAGEM DO 390º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA

REPORTAGEM DO PROGRAMA 
DO 390º ENCONTRO 
DA TERTÚLIA BD DE LISBOA
(6 Dezembro 2016)

CONVIDADA ESPECIAL
DANIELA VIÇOSO 

  

Daniela Viçoso (1990, Faro). Tirou a Licenciatura em Pintura nas Belas-Artes de Lisboa e é mestre em Ilustração pela Kingston University de Londres.

Teve a honra de ganhar o primeiro prémio do escalão A da Amadora BD do ano passado, e é a autora do livro “O Infante” publicado pela El Pep edições. Este é o primeiro livro de Boy’s Love português. Os seus interesses e trabalho baseiam-se muito em cultura e folclore português mas também em cinema contemporâneo e literatura clássica, especialmente os românticos.

O seu trabalho foca-se neste subgénero de origem japonesa (histórias de amor entre rapazes), mas interessam-lhe outros temas LGBTQ, história e cultura portuguesas e sobretudo, folclore. É freelancer, trabalha nos seus próprios projectos pessoais, tais como livros, fanzines, doujinshi homoerótico e outro merchandise. Recentemente foi uma das premiadas da “Bolsa do Centro Nacional de Cultura” Jovens Criadores 2016, com o projecto em resolução “BL à portuguesa”.

Clientes incluem a americana BOOM STUDIOS!, a Formato Verde, a Feira das Almas e trabalho encomendado pela internet. De momento, aparte do “BL à portuguesa” e à participação em feiras como a ThoughtBubble de Leeds ou a Comic Con do Porto onde vende o seu trabalho, trabalha muito por encomendas online. Também é frequente participar em fanzines internacionais, normalmente em torno de trabalho de fandom.

Fica também a dica que está a trabalhar em mais dois livros/histórias em BD: “O romance do Tejo” e o “Hora das Bruxas”, de temas lusos, homoeróticos e para quem não crê em bruxas mas que as há, há.
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Comic Jam 
Autoras participantes:
1 - Daniela Viçoso 
2 - Mariana Serra 
3 - Ana Bastardo
4 - Margarida Carmelo
5 - Diana Gomes 
6 - Catarina João

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Lista de presentes e presentas 
na Tertúlia de 6 de Dezembro de 2016

Álvaro Santos
Ana Bastardo
Ana Lunara
Andreia Rechena
António Isidro
Carlos Gonçalves
Carlos Moreno
Catarina João
Daniela Viçoso (Convidada Especial)
Diana Gomes
Diogo Elias
Fábio Veras
Falcato
Filipe Duarte
Gastão Travado
Geraldes Lino
Helder Jotta
Helena Vaz
Hugo Tiago
Isabel Viçoso
Joana Duarte
Joana Sequeira
João Paulo Sá-Chaves
José Abrantes
Leonor Távora
Luís Cruz
Luís Graça
Margarida Carmelo
Mariana Serra
Miguel Costa Ferreira
Nuno Duarte (o Outro)
Paulo Costa
Pedro Bouça
Pedro Correia
Rodrigues Vaz
Rui Domingues 
Simões dos Santos
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FOTOS
(de Álvaro e Isabel Viçoso)


































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