sábado, 15 de abril de 2017

BDpress #477 – João Ramalho Santos no JL: sobre "Rendez-vous em Phoenix" de Tony Sandoval

BDpress #477
Criado em Janeiro de 2004 como fanzine impresso até ao #15, em Março 2005, passando depois a ser editado no Kuentro

No JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias
12 Abril 2017

BANDA DESENHADA
João Ramalho Santos

Fronteiras


Quando certos debates estão na ordem do dia, muitas vezes há a tentação de considerar tudo quanto possa estar relacionado como tendo surgido como reação. Mas o oscarizado "Moonlight" fala de uma dupla ostracização (ser homossexual na comunidade negra norte-americana) muito anterior a 2017. Já a banda desenhada "Rendez-vous em Phoenix" de Tony Sandoval (Kingpin Books) evoca a emigração ilegal para os EUA atraves da fronteira mexicana, materia com longo historial em termos de representação. Mas, apesar da data em que foram concebidos, o momento em que são apreciados cola-se, inevitavelmente à "era Trump", no caso concreto do trabalho de Sandoval a tentativa por parte dos EUA de fechar (simbolicamente ou menos) fronteiras.

Fugindo dos registos anteriores do autor em termos temáticos, mas mantendo o traço semi-caricatural, "Rendez-vous em Phoenix" é um relato autobiográfico da passagem do autor para os EUA, em busca de um futuro melhor. Só que esta e uma história distante das habituais, patentes em filmes como "Sin Nombre" (Cary Joji Fukunaga, 2009), ou o recente, e algo esquemático, "Desierto" (Jonás Cuarón, 2015). Desde logo e imediata a perceção de que Tony Sandoval não é o imigrante ilegal mexicano típico. A sua situação pessoal não é a mesrna da maioria dos migrantes, e, para além de ter uma namorada norte-americana a sua espera (em Phoenix, no Arizona), a tentaliva de passar a fronteira relaciona-se mais com alguma inconsciência juvenil e pressa em retornar aos EUA, que já visitara (legalmente), de modo a assumir o sonho de desenhar "comics" de super- heróis, do que com necessidade. Se é interessante ver representado percurso menos habitual, a distância é visível no modo como a história se desenrola, sobretudo na relação com os outros companheiros de aventura, com os quais se estabelece uma distância narrativa que a custo se transcende. Mas sobretudo o que transparece é mais inconveniência e repetição do que propriamente perigo, como se o autor vivesse uma versão mais radical de umas férias em percursos naturais pelo deserto; uma sensação que o traço de Sandoval não consegue ajudar a resolver, apesar da cor, sobretudo a luminosidade opressiva do branco, ser muito boa a deflnir o ambiente.

O final do livro, o reencontro numa cidade cujo nome sugere novas oportunidades, não dá grandes indicações sobre o futuro a médio prazo (nem tinha de dar) mas não deixa de ser algo irónico que, apesar do sonho americano, Tony Sandoval esteja a fazer carreira sobretudo na BD francófona, nomeadamente na edltora Paquet. Na verdade, "Rendez-vous em Phoenix" é um livro mais interessante que os algo pueris, mas profissionalmente consistentes, e premiados, registos de fantasia do mesmo autor ("As Serpentes de Agua", "Mil Tormentas", também edltados em Portugal pela Kingpin). Mas, e sem pôr em causa a honestidade do projeto, este livro parece sobrevalorizado pelo facto de Sandoval estar a fazer algo distinto daquilo a que habituou os leitorcs, num tema "sério" de relevo, mas sem grande profundidade. E com urn estito gráfico que Ihe dá uma "leveza" que certamente não era o objetivo. O registo autobiográfico ou o glosar de um tema candente não são garantes automáticos de autenticidade ou qualidade, que por vezes se concede nestes casos, como se fosse urn dado adquirido.

Argumento e desenhos de
Tony Sandoval
RENDEZ-VOUS EM PHOENIX
Kingpin Books. 80 pp., 13 Euros

 

Tony Sandoval


________________________________________________________

segunda-feira, 10 de abril de 2017

REPORTAGEM – 394º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA – CONVIDADA ESPECIAL PATRÍCIA FURTADO


REPORTAGEM
394º ENCONTRO 
A TERTÚLIA BD DE LISBOA

CONVIDADA ESPECIAL 
PATRÍCIA FURTADO

 Patrícia Furtado nasceu no ano do Star Wars e cedo se assumiu como pequena nerdette com a mania que sabe tudo. Aprendeu a ler aos três anos, e pelos seis, já ostentava um belíssimo par de óculos e devorava livros como se fossem leite condensado à colher.

Desenhar era outro dos seus vícios, quer fosse nas toalhas dos restaurantes, quer fosse nos cadernos escolares, em vez dos apontamentos. Escreveu e desenhou a sua primeira banda desenhada para a disciplina de Educação Visual.

Depressa percebeu que, se conseguisse fazer da bonecada o seu trabalho, nunca teria realmente de trabalhar. Há um provérbio que fala disto, e foi inventado por um sábio chinês que nunca ouviu falar em reuniões, alterações e todos os outros papões do divertimento laboral, mas adiante.

Licenciou-se em Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes e começou de imediato a trabalhar num atelier de design em Lisboa, onde aprendeu tudo o que a faculdade se tinha esquecido de ensinar sobre o mundo real.

Em 2001, ganhou coragem e mudou-se para Londres, onde coleccionou uma impressionante pilha de cartas de rejeição de agências e estúdios de design. Acabou a trabalhar na loja de fotocópias onde ia regularmente imprimir os currículos.

Iniciou assim a sua carreira de freelancer, o modo de trabalho perfeito para uma nerdette pouco social que preza a liberdade de escolher a sua própria banda sonora, o conforto de trabalhar em pijama, e a paz de espírito de não ter de enfrentar o trânsito e o mau tempo todos os dias.

Depois de cinco anos, já com uma lista de clientes considerável, que incluía nomes como a PepsiCo e a Haagen Dazs, regressou a Lisboa, onde arranjou um cantinho num estúdio de gente criativa e talentosa, o The Lisbon Studio. Lentamente, foi abandonando o web-design e, passado um ano, a ilustração editorial dominava a sua agenda. Começou trabalhar regularmente para jornais e revistas, a fazer capas para o público infanto-juvenil (A colecção de “As Gémeas” de Enid Blyton, por exemplo), ilustrou os dois volumes da Caderneta de Cromos de Nuno Markl, bem como livros de Valter Hugo Mãe, de Alice Vieira e de Álvaro Magalhães entre muitos outros.

Em 2013, já com os seus dias no TLS para trás, escreveu e ilustrou um livro de receitas e pequenas histórias pessoais, o Café Patita.

Juntar a escrita às imagens continua a ser a sua ocupação de sonho, pelo que tenciona investir cada vez mais tempo na banda desenhada. Pública diariamente um cartoon em quarenta.eu e tem vários projectos e colaborações na calha, tanto de escrita como de desenho.

Portfólio: Http://patriciafurtado.net
Cartoon Quarenta!: Http://quarenta.eu
Facebook: http://Facebook.com/patriciafurtado.illustration
____________________________________________________

COMIC JAM

Autores participantes :
1 - Patrícia Furtado
2 - Ricardo Venâncio
3 - Jorge Coelho
4 - Pedro Potier
5 - Ana Freitas 
6 - Nuno Duarte


FOTOS
(de Álvaro)











_____________________________________________________

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Gazeta da BD #71 – Heróis da BD Portuguesa – 5 – O Espião Acácio – de Fernando Relvas

Gazeta da BD #71, 31 de Março de 2017

Heróis da BD Portuguesa – 5
O Espião Acácio – de Fernando Relvas


Com O Espião Acácio, de Fernando Relvas, as nossas escolhas de Heróis da BD Portuguesa entram na fase do humor. Este artigo pretende também ser uma pequena homenagem ao autor.

A publicação de histórias em BD de Fernando Relvas (Lisboa, 1954) iniciou-se em 1975 nas páginas dos fanzines O Estripador e O Gorgulho, e depois no jornal Gazeta da Semana. Mas o grande "salto" na sua carreira deu-se com a publicação das 110 páginas de O Espião Acácio na versão portuguesa da revista Tintin, entre 1978 e 1980. A inclusão desta e de outras histórias na revista só foi possível quando os directores, Dinis Machado e Vasco Granja, decidiram incluir um caderno a preto e branco, onde foram publicadas também Corto Maltese, de Hugo Pratt, The Spirit, de Will Eisner ou A Sombra do Corvo, de Didier Comés, por exemplo.

O Espião Acácio é uma espécie de crónica humorística sobre a Primeira Guerra Mundial e que, infelizmente ainda nenhum editor se lembrou de publicar em livro. Na revista Tintin, Relvas iria ainda publicar, até 1982, Rosa Delta Sem Saída, Cevadilha Speed, L123, Slow Motion e Kriz 3. No meio disto ainda publicou n’O Mundo de Aventuras, as onze pranchas de O Controlador Louco (que foi capa da revista) e a prancha O Povo de Ferro.


Em 1982, passou a colaborar no semanário Se7e, para o qual escreveu e desenhou Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo, Nunca Beijes a Sombra do Teu Destino, Este Chavalo Seria Tão Barilo Se..., Sangue Violeta e, sobretudo, inventou Karlos Starkiller, genial mistura de James Bond e Zé Povinho. Publicaria ainda mais catorze histórias no Se7e até 1988. Segue-se em 1989 parte de O Rei dos Búzios na revista Sábado e, em 1990 ganha o 1º prémio do Concurso “Navegadores Portugueses”, do Centro Nacional de Cultura, com a história Em Desgraça, publicada mais tarde em álbum pelas edições Asa.

Fernando Relvas foi um dos autores portugueses na exposição colectiva, comissariada por João Paulo Cotrim, Carlos Pessoa e Júlio Moreira, Perdidos no Oceano – 17 Autores Portugueses no 25º Festival International de la Bande Dessinée D'Angoulême, de 1998.

No meio disto tudo correram sempre notícias, no “diz-que-disse” lisboeta, do género “o Relvas parece que mora num moinho em Almoçageme...”, ou “o tipo agora vive num batelão ancorado num cais e vai à noite para o Bairro Alto, fazer caricaturas, para pagar o jantar...” etc...

Para além das suas múltiplas deambulações na BD, em género (história, humor, ficção científica, triller urbano...) e em grafismo, Relvas realizou também outros trabalhos, como de publicidade, de que pode recordar um anúncio da Lee em 1983, onde aparece uma personagem de BD que criara, ou as ilustrações para manuais escolares da Areal Editores. Em 2001 trabalhou na Livraria Dr. Kartoon, de Coimbra, tendo publicado alguns cartoons do Marreco, um delirante chefe de mesa de pequena estatura, no boletim da livraria, que antes tinham surgido em outras publicações.

Em 2002 conhece a artista plástica croata Nina Govedarica e partem os dois, em Dezembro de 2003, para Málaga, de onde seguem para a Croácia. A partir dessa altura, Relvas aproveitou a internet, criou uma série de blogues para ir mostrando e publicando o seu trabalho, iniciando também a publicação online de alguns livros, vendidos no sistema print-on-demand. Data também dessa aventura na Croácia a passagem do autor para o desenho em ambiente digital, da qual resultou como corolário, o livro Nau Negra, The Last Black Ship, editado em pela Pepdelrey em 2015.

O seu projecto de curta-metragem animada Fado na Noite, foi seleccionado para o apoio à produção, no concurso de curtas-metragens de animação de 2010 do Instituto do Cinema e do Audiovisual. Para se entregar à realização deste projecto, regressa a Portugal em Setembro desse ano.


O Espião Acácio é constituido por 55 episódios de duas páginas, sem grande continuidade entre eles. Iniciando-se com a história do pequeno Acácio de Mello, desde cedo muito dado à bisbilhotice, passando depois, como espião, para cenários da Primeira Guerra Mundial, com o “cabo Adolfo” a disparar um canhão sobre Paris, encontros com o barão Von Richthofen, o coronel inglês Robert Arbuthnot, Lawrence da Arábia, com russos, sérvios, turcos... e até com Darth Vader, derivando a certa altura para ambientes surrealistas, sempre no meio das maiores trapalhadas e acabando por já não ter nada a ver com a Primeira Grande Guerra.

O episódio do Cabo Adolfo, páginas 24 e 25 (contabilidade minha) d’O Espião Acácio, publicado na revista Tintin #30, ano 11:




Para quem estiver interessado pode ler: 
FERNANDO RELVAS – PARA UMA BIOBIBLIOGRAFIA – publicada no BDjornal #27 (Maio de 2011)http://kuentro.blogspot.pt/2014/05/fernando-relvas-para-uma.html
________________________________________________________

terça-feira, 4 de abril de 2017

BDpress #476 – VIAGENS NO CÉREBRO – no Público, 24 Março 2017

BDpress #476
Criado em Janeiro de 2004 como fanzine impresso até ao #15, de Março 2005


VIAGENS NO CÉREBRO
Público, 24 Março 2017

Coordenação e texto: João Ramalho-Santos e Sara Varela Amaral
Desenhos: André Caetano
Com a participação dos investigadores: Ana Cristina Rego, Ana Luísa Carvalho, Ana Rita Álvaro, Carla Lopes, Carlos Duarte, Cláudia Cavadas, Cláudia Pereira, João Peça, Luana Naia, Luís Pereira de Almeida, Nuno Empadinhas, Paula Moreira, Paulo Pinheiro, Ramiro Almeida, Ricardo Rodrigues, Sandra Morais Cardoso e Sandra Mota

A Semana Internacional do Cérebro, lançada em 1996 pela Fundação Dana, nos Estados Unidos, decorre no mês de Março e promove actividades de comunicação da ciência pelo mundo fora. De Portugal, entre outras, participa o Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra – e esta aventura no Pùblico sobre o cérebro é uma dessas iniciativas para aproximar a ciência da sociedade.


_____________________________________________________

segunda-feira, 3 de abril de 2017

394º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA – 4 DE ABRIL 2017 – CONVIDADA ESPECIAL PATRÍCIA FURTADO


394º ENCONTRO 
DA TERTÚLIA BD DE LISBOA

4 de Abril 2017

CONVIDADA ESPECIAL 
PATRÍCIA FURTADO



Patrícia Furtado nasceu no ano do Star Wars e cedo se assumiu como pequena nerdette com a mania que sabe tudo. Aprendeu a ler aos três anos, e pelos seis, já ostentava um belíssimo par de óculos e devorava livros como se fossem leite condensado à colher.

Desenhar era outro dos seus vícios, quer fosse nas toalhas dos restaurantes, quer fosse nos cadernos escolares, em vez dos apontamentos. Escreveu e desenhou a sua primeira banda desenhada para a disciplina de Educação Visual.

Depressa percebeu que, se conseguisse fazer da bonecada o seu trabalho, nunca teria realmente de trabalhar. Há um provérbio que fala disto, e foi inventado por um sábio chinês que nunca ouviu falar em reuniões, alterações e todos os outros papões do divertimento laboral, mas adiante.

Licenciou-se em Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes e começou de imediato a trabalhar num atelier de design em Lisboa, onde aprendeu tudo o que a faculdade se tinha esquecido de ensinar sobre o mundo real.

Em 2001, ganhou coragem e mudou-se para Londres, onde coleccionou uma impressionante pilha de cartas de rejeição de agências e estúdios de design. Acabou a trabalhar na loja de fotocópias onde ia regularmente imprimir os currículos.

Iniciou assim a sua carreira de freelancer, o modo de trabalho perfeito para uma nerdette pouco social que preza a liberdade de escolher a sua própria banda sonora, o conforto de trabalhar em pijama, e a paz de espírito de não ter de enfrentar o trânsito e o mau tempo todos os dias.

Depois de cinco anos, já com uma lista de clientes considerável, que incluía nomes como a PepsiCo e a Haagen Dazs, regressou a Lisboa, onde arranjou um cantinho num estúdio de gente criativa e talentosa, o The Lisbon Studio. Lentamente, foi abandonando o web-design e, passado um ano, a ilustração editorial dominava a sua agenda. Começou trabalhar regularmente para jornais e revistas, a fazer capas para o público infanto-juvenil (A colecção de “As Gémeas” de Enid Blyton, por exemplo), ilustrou os dois volumes da Caderneta de Cromos de Nuno Markl, bem como livros de Valter Hugo Mãe, de Alice Vieira e de Álvaro Magalhães entre muitos outros.

Em 2013, já com os seus dias no TLS para trás, escreveu e ilustrou um livro de receitas e pequenas histórias pessoais, o Café Patita.

Juntar a escrita às imagens continua a ser a sua ocupação de sonho, pelo que tenciona investir cada vez mais tempo na banda desenhada. Pública diariamente um cartoon em quarenta.eu e tem vários projectos e colaborações na calha, tanto de escrita como de desenho.

Portfólio: Http://patriciafurtado.net
Cartoon Quarenta!: Http://quarenta.eu
Facebook: http://Facebook.com/patriciafurtado.illustration





 _____________________________________________________________________

 
Locations of visitors to this page