sexta-feira, 25 de abril de 2014

40 ANOS DO 25 DE ABRIL – Dois Textos em Recortes de Imprensa: VIRTUDES E DEFEITOS DE ABRIL e LEGITIMIDADES + HOMENAGEM A EDUARDO GAGEIRO


40 ANOS DO 25 DE ABRIL

Publicamos hoje dois textos sobre o 25 de Abril – ambos publicados no Público –, como recortes de imprensa. O primeiro, VIRTUDES E DEFEITOS DE ABRIL (1), de João Miguel Tavares, publicado em 22 de Abril passado e o segundo, LEGITIMIDADES, de Vasco Pulido Valente, publicado em 18 de Abril. São dois textos quase complementares, como poderão constatar. 

Depois seguem-se uma série de fotos – a preto e branco – realizadas no dia 25 de Abril de 1974 por Eduardo Gageiro, que quisemos assim homengear aqui no Kuentro.

VIRTUDES E DEFEITOS DE ABRIL*
João Miguel Tavares 

in Público, 22/04/2014 

Se há coisa em que os norte-americanos são realmente bons é a criar heróis e memoriais. Toda a sua mitologia está assente na figura do homem normal que em momentos extraordinários se consegue superar a si próprio, seja ele Abraham Lincoln, Rocky Balboa ou Chesley Sullenberger, o comandante do avião que em Janeiro de 2009 conseguiu amarar nas águas geladas do rio Hudson, salvando todas as pessoas a bordo.

Por muito filme de Hollywood que a gente veja, nós não temos essa cultura em Portugal, nem, segundo parece, esse tipo de herói. Já desde os tempos da padeira de Aljubarrota que o herói português é invariavelmente do tipo relutante, mais dado à astúcia do que à coragem desabrida. É como nas velhas anedotas do português, do inglês e do francês – o português sai-se sempre melhor, mas nunca por fazer uso de qualquer espécie de heroísmo espampanante; sai-se melhor porque é o chico-esperto, o manhoso, o campeão dos improvisadores.

Recentemente, o PÚBLICO divulgou um longo excerto do texto que Adelino Gomes escreveu para o óptimo livro Os Rapazes dos Tanques, centrado na figura do cabo apontador José Alves Costa, que na manhã de 25 de Abril de 1974 se recusou a disparar sobre a coluna de Salgueiro Maia, mesmo após o brigadeiro Junqueira dos Reis lhe ordenar directamente “dá fogo já a direito”. O que é extraordinário na descrição de Adelino Gomes não é a recusa em si – já antes o alferes Fernando Sottomayor havia feito o mesmo, recebendo ordem de detenção –, mas sim a forma tão portuguesa como Alves Costa resolveu o imbróglio que tinha à sua frente.

Em primeiro lugar, explicou ao brigadeiro que não percebia lá muito de tanques. “Fui improvisado para aqui. Sei pouco trabalhar com isto. Vou ver se consigo, mas eu não sei”, desculpou-se. E quando o brigadeiro o ameaçou “ou dá fogo ou meto-lhe um tiro na cabeça!”, Alves Costa decidiu-se por um desenrascanço 100% nacional: enfiou-se dentro da torre e trancou a porta. “Eu, fechando-me dentro do carro, ninguém abre, porque aquilo é blindado, entende?” E assim se fez Abril.

Nós somos o povo para quem Herman Melville criou, sem saber, o seu Bartleby, o desconcertante escrivão que fazia da passividade uma filosofia existencial. A tudo o que lhe era pedido Bartleby respondia: “Preferiria não o fazer.” Também José Alves Costa preferiria não atirar sobre os revoltosos de Santarém. E não atirou. No entanto, nunca afrontou de forma directa o seu superior: “A gente sabia o regime que tinha. Se calhava as coisas não correrem bem, a minha vida podia ir para o maneta”, explicou a Adelino Gomes.

É certo que o espírito luso-bartlebyano, na mão de burocratas, é de modo a conduzir qualquer alma ao desespero – como pode comprovar quem já passou dias numa repartição pública. No ramerrão diário, “preferiria não o fazer” é um inferno paralítico, que nos faz sonhar com as virtudes da disciplina teutónica. Mas na Alemanha dificilmente haveria um 25 de Abril com cravos enfiados nos canos das espingardas, porque um qualquer Alves Costa da Baviera nunca mandaria o seu brigadeiro dar uma curva enquanto fingia cumprir ordens. Para citar José Gil, a não-inscrição chega ao próprio heroísmo – o cabo apontador que impediu que a revolução se tornasse num banho de sangue viveu 40 anos no anonimato de uma aldeia da Póvoa de Varzim. Afinal, ele não fez nada. O que é tão absurdo quanto comoventemente português.

(*) Trata-se do primeiro texto que J.M.Tavares publicou com este título no Público - o segundo texto não nos pareceu com o mesmo interesse.

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LEGITIMIDADES
Vasco Pulido Valente

in Público, 18/04/2014 

Uma "revolução" (ou um pronunciamento militar) contra um regime político ilegítimo é, por definição, legítima. Mas dela não deriva uma legitimidade revolucionária. A legitimidade revolucionária não existe. Não passa de um poder de facto. Desde o primeiro momento que os "capitães de Abril" não perceberam (ou mesmo rejeitaram) esta realidade. Quando saíram à rua, já traziam um "programa" para Portugal, feito não se sabe por quem e largamente copiado do programa do PCP. Não viram, ou viram bem de mais, que estavam assim a substituir a sua vontade à vontade do país. Por outras palavras, que estavam a criar uma nova ilegitimidade. Isto não os comoveu. Os putativos "valores" da "revolução" serviram para justificar qualquer espécie de arbítrio ou de violência.

Sob a tutela, e com a colaboração, do PC e da extrema-esquerda, o MFA descolonizou, nacionalizou, ajudou a ocupar a terra no Alentejo e no Ribatejo, "saneou", onde o deixaram, personagens que não lhe pareciam, e às vezes não eram, de confiança, censurou a imprensa e a televisão, prendeu a torto e a direito, sem processo ou mandato, e acabou com uma campanha que se destinava a desprestigiar e a suprimir a Assembleia Constituinte. Em quase tudo, seguiu, letra a letra, o manual de Lenine. Quando, em 2014, as "luminárias" da política, do jornalismo e da cultura e até a dra. Assunção Esteves, a segunda figura do Estado, se esforçam por manifestar aos "capitães de Abril" o seu "carinho", o seu "afecto" e a sua "gratidão", esquecem que, entre os primeiros dias do Verão de 1974 e o "25 de Novembro" de 1975, não existiu em Portugal verdadeira liberdade; e que só oito anos mais tarde os portugueses conseguiram abolir a tutela militar do Conselho da Revolução.

O coronel Vasco Lourenço e os seus consócios querem agora falar na Assembleia da República, presumivelmente para defender aquilo a que chamam "ideais" de Abril, que, na sua douta opinião, o Governo anda por aí a trair. Sucede que o Governo foi eleito e que nenhum título assiste aos militares, que se consideram depositários de uma herança hoje desacreditada e morta, para expender no Parlamento as suas frustrações. Verdade que a fúria contra a "austeridade" vai tomando formas cada vez mais dúbias. Mas seria intolerável que a República se comprometesse com um gesto que afectaria gravemente a sua própria legitimidade.

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Eduardo Gageiro


Fotógrafo português nascido em 1935, em Sacavém. Durante os anos 40 e 50 foi empregado de escritório na Fábrica de Loiça de Sacavém (1947-1957). Convivia diariamente com artistas plásticos que tiveram grande influência na sua decisão de se tornar foto jornalista. Com 12 anos publicou, com honras de primeira página, a sua primeira fotografia no Diário de Notícias. Mais tarde, com 20 anos, começou a sua actividade de repórter fotográfico no Diário Ilustrado. A partir desta altura começa a colaborar com publicações como O Século Ilustrado, Eva, Match Magazine, Sábado (da qual era editor), entre outras.

Torna-se também fotógrafo de instituições como a Companhia Nacional de Bailado, Presidência da República e Assembleia da República. É membro de honra de várias organizações fotográficas internacionais e detentor de vários prémios.

Vive em Lisboa onde mantém a actividade como free lancer.


Eduardo Gageiro em serviço...

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quinta-feira, 24 de abril de 2014

ONDE É QUE EU ESTAVA NO 25 DE ABRIL?



Onde é que eu estava no 25 de Abril?*

Bem, exactamente há 40 anos, eu estava no “Centro de Recruta”, ou “Destacamento” (ou lá como se chamava) da Escola Prática de Cavalaria, na Avenida do Brasil em Santarém, desde o dia 23, quando “assentei praça” convocado para o Serviço Militar obrigatório. Nesse dia 23, depois das formalidades burocráticas, em bichas que demoraram horas, recebemos o fardamento (também em bichas que demoraram horas) – com provas das fardas e trocas, até se acertar com os tamanhos mais ou menos certos. Depois foi altura de engraxar botas, preparar a farda para o dia seguinte e tratarmos da instalação na caserna, onde passariamos os três meses seguintes. No dia 24 recebemos as armas (as célebres G3 - de Gewehr 3) e depois formámos os pelotões, na parada, ouvimos muita treta meio “psicológica” dos Aspirantes e Cabos Milicianos que, segundo nos pareceu, estavam muito inquietos, falavam muito uns com os outros e por vezes formavam grupinhos em “conversas misteriosas”...

Engraxanço de botas, tardinha de 24 de Abril de 1974 - tinhamos que as engraxar todos os dias...

Nessa noite, cerca das 3h40, fomos acordados pela barulheira infernal de carros na rua para onde dava a caserna (soubemos mas tarde que era a coluna do Capitão Salgueiro Maia a caminho de Lisboa) e levantou-se uma vozearia irada do pessoal acordado, por não nos deixarem dormir – “cabrões de merda”, “sacanas”, “isto faz parte para não nos deixarem dormir”, “é guerra psicológica”, etc... Passados instantes, entrou na caserna o Sargento-de-Dia e com voz de “trovão” dá ordem de “está toda a gente a vestir-se à civil para ir para casa – estamos em guerra!!!”

Saímos pela porta-de-armas, um de cada vez, com instrução de “correr em ziguezague” para atravessar a Avenida do Brasil, em direcção à Estação da CP. No comboio para Lisboa, sem perceber patavina do que se estava a passar, reparei que alguns passageiros ouviam marchas militares nos rádios transistores. Apanhei o barco para Almada, no Terreiro do Paço, sem reparar no aparato militar que lá se encontrava... Enfim, estava completamente “a Leste do Paraíso”...

Por volta das 8h30, já em Almada, ao atravessar uma rua em direcção a casa, cruzei-me com o meu pai, que vinha de carro, parou com ar preocupado quando me viu e perguntou: “Eh, pá, não me digas que desertaste?” – “Não desertei nada, mandaram-nos embora, não sei porquê!”, respondi. “Então, não sabes que houve um Golpe de Estado?” respondeu ele. Então, em vez de ir para minha casa, fui para casa do meu vizinho e amigo Carlos Guerreiro (actualmente dos Gaiteiros de Lisboa) e ficámos os dois, uma data de tempo a ouvir as notícias... Depois, bem, depois fui namorar - com a televisão em fundo, em transmissão directa e "ao vivo" do 25 de Abril, no Largo do Carmo, com a minha futura sogra a choramingar "ai coitadinho do Marcelo, o que é que vão fazer ao homem?" e com o meu futuro sogro em silêncio mas com um sorriso de felicidade, que não cabia nele.

Foi assim que soube que se tinha dado o “25 de Abril”...

Só regressei a Santarém no dia 29 e depois foi toda a gente para casa passar o 1º de Maio, regressando de novo a 6 de Maio. O meu serviço militar terminaria em meados de Outubro de 1975, depois de uma “Comissão de Serviço” de seis meses em Angola. Não vivi portanto nada da "loucura" colectiva de 1974, nem do PREC (Processo Revolucionário Em Curso), nem o “Verão Quente” de 1975, nem nenhuma das trapalhadas que aconteceram nesse ano e meio – estive sempre metido em quartéis (e depois em Angola), excepto nos fins-de-semana ou no gozo de uma ou outra licença entre mudanças de quartéis. Mas andava bem informado sobre o que se estava a passar, claro.

Depois da "licença" do 1º de Maio de 1975 (o único de bigode)...


Durante a Recruta, em Santarém...

Semana de Campo - Vale de Cavalos, Santarém...

Cartão de Identificação Militar - Porto, Janeiro de 1975 ...

(*) Da pergunta criada por Herman José num dos seus programas humorísticos – quando ainda tinha humor – e depois utilizada por jornalistas em centenas de entrevistas “sérias”.

QUEM QUISER, PODE VER AQUI TODA A CRONOLOGIA PORMENORIZADA DO 25 DE ABRIL E DIAS ANTERIORES

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AMANHÃ
RECORTES DE IMPRENSA
O 25 DE ABRIL VISTO POR
VASCO PULIDO VALENTE E JOÃO MIGUEL TAVARES 
E AS FOTOS A PRETO E BRANCO 
DE EDUARDO GAGEIRO

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EXPOSIÇÃO DE CARICATURAS – 40 ANOS DE ABRIL – EM MOURA


EXPOSIÇÃO DE CARICATURAS
40 ANOS DE ABRIL
ESPAÇO "INOVINTER" EM MOURA
ATÉ 4 DE MAIO

O desenho que ilustra o cartaz da exposição é de Onofre Varella, publicado no Jornal de Notícias, em 2 de Abril de 1998.


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quarta-feira, 23 de abril de 2014

NOVO PROJECTO “AVE RARA” – DE ANDRÉ OLIVEIRA


NOVO PROJECTO “AVE RARA”
DE ANDRÉ OLIVEIRA
FEATHERS

Está online o mais recente projecto da Ave Rara: uma pequena revista digital aperiódica e gratuita chamada FEATHERS.

A ideia é, a par dos mini-comics, passar a editar pequenas histórias autoconclusivas de 10 páginas (ou teasers para projectos maiores) assim como dar novidades acerca das outras publicações da marca.

Este primeiro número conta com uma curta escrita por André Oliveira e ilustrada por Pepedelrey chamada "Last Supper". Trata-se de uma prequela para o álbum "Lugar Maldito", realizado pelos mesmos autores.

As últimas páginas da webmag contêm ainda um update à série Living Will com o lançamento do segundo número.

A REVISTA PODE SER VISTA AQUI



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terça-feira, 22 de abril de 2014

JOBAT NO LOULETANO – MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (163-164) – JESUS BLASCO – O PAI DE “CUTO” (4) + CUTO – HERÓI DE UMA GERAÇÃO (1)


O Louletano, 2 | Fevereiro | 2009

O PAI DE CUTO - 4
Por José Batista

Em "Tragédia no Orien­te" uma aventura de Cuto, Blasco retrata um regime autoritário e faz uma subtil alusão ao bombardeamento da aldeia de Guernica, pela aviação nazi, a pedido de Franco, exterminando deze­nas de habitantes, incluindo mulheres e crianças. A censura fascista não se apercebeu da subtil referência...

Também em Espanha faltaram duas páginas do Flash Gordon, em publicação no semanário Leyendas.

Jesus Blasco foi solicita­do a colmatar a falha, o que fez nos números 160 e 161, concluindo o episódio, com o seu reconhecido profissionalismo, embora não fosse Alex Raymond a sua referência, no que respeitava às histórias aos quadradinhos.

Livro didáctico ilustrado por Jesús Blasco, do qual houve, em 1974, uma edição em português (Brasil), que teve distribuição em Portugal - apenas em Lisboa. A informação sobre esta edição portuguesa foi-nos fornecida por Leonardo De Sá já depois deste post ter sido editado. 

O seu modelo foi Milton Caniff, o genial criador de "Terry e os Piratas" e "Steve Canyon" (sem esquecer "Miss Lace") que, com a cumplicidade de outro talentoso cria­dor, Noel Sickles (autor de "Scorchy Smith") introduziu nos "quadra­dinhos" processos narra­tivos inspirados nas téc­nicas cinematográficas, tais como a variação de planos, caracterização e expressão dos persona­gens e no desenho um maior realismo, com a introdução de sombras e silhuetas e a valoração do tratamento em claro-escuro.

Cuto em "O Caso dos Rapazes Desaparecidos" 

A INTERNACIONALIZAÇÃO

Em 1954, Jesus Blasco iniciou a sua colaboração com a editora inglesa Fleetway. Buffalo Bill, Billy the Kid, Robin Hood, Dick Turpin e Rob Riley foram alguns dos personagens que desenhou, além de clássicos da literatura e histórias curtas.

O maior sucesso só chegou com " Garra deAço" (The Steel Claw), a história de um vilão convertido em herói, publicada na revista Valiant de 1962 a 1973, com argumentos de Tom Tully.

Os editores ingleses raramente permitiam que os artistas assinassem os seus trabalhos, no entanto, para Jesus Blasco, abriram uma excepção, aceitando que, nos seus desenhos, o artista incluísse a sua assinatura.

Outra demonstração do apreço que lhe dedicavam é o facto de que, quando o catalão se deslocava a Londres, para reuniões com os editores, estes enviavam um luxuoso Rolls-Royce, com motorista fardado, recolhê-lo no aeroporto, para o conduzir à Fleetway House, em Farringdon Street.

CHARLAS & COPAS

Nos anos 80 do século passado, Jesus Blasco foi, por várias vezes, presidente da comissão organizadora do Salón del Cómic de Barcelona.

O mestre catalão era um anfitrião caloroso para os "peregrinos" portugueses: artistas, argumentistas, coleccionadores, fans e cronistas que se deslocavam ao festival, eram depois acolhidos na privacidade da mítica torre dos Blasco, ocasião ideal para animadas charlas e reconfortantes copas. »»

 
Cuto em "Tragédia no Oriente" 

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O Louletano, 9 | Fevereiro | 2009


Quando eu tinha os meus cinco anos, já lia (ou melhor, soletrava) jornais infantis. Nesse tempo, publicava-se em Portu­gal um jornal de pequeno formato, O Mosquito, que, devido ao módico preço de capa (cinco tos­tões) e às aventuras que inseria, se tornara bas­tante popular. Com uma tiragem semanal capaz de fazer inveja à dos seus confrades mais recen­tes (60.000 exemplares, aproximadamente), O Mosquito ocupava uma posição privilegiada entre as publicações da época, apesar do seu reduzido número de páginas e da fraca qualidade do papel em que era impresso.

Essa popularidade atingiu o auge quando começou a publicar, no n° 508, de 6/5/1944, as aventuras de Cuto, um pequeno herói de cabelo ruivo e rosto cheio de sardas, corajoso, perspicaz e ágil como um gato. Cuto era uma criação do jovem artista espanhol Jesús Blasco, que iniciou a sua carreira aos 14 anos — como já foi referido nesta rubrica —, depois de ter sido premiado num concurso de desenhos organizado pela revista Mickey.

Pequeno, desenvolto, inteligente, com um agudo sentido de observação e reflexos prontos como o raio, Cuto não tar­dou a tornar-se o maior ídolo dos rapazes portugueses desse tempo, que vibravam com as suas aventuras e desejavam em segredo imitá-lo, identificando-se facilmente com aquele rapaz tão humano, tão pare­cido com eles, que nada tinha de um super-herói, "um rapaz como qual­quer outro (como escreveu o críti­co espanhol Luis Gasca), embora vivesse aventuras excepcionais e experiências que normalmente es­tavam vedadas aos rapazes da sua idade, conduzindo com mão segura lanchas a motor, aviões e velozes automóveis desportivos".

Capa de "O Mosqui­to" n° 508, início das historietas do Cuto

Mais popular ainda do que Tintin — que, ao tempo, se publicava n'O Papagaio —, Cuto foi o ídolo, o herói indiscutível de uma geração, que ainda hoje o recorda com emoção e saudade. Após um eclipse que durou vários anos — entretanto, Blasco começou a trabalhar para Inglaterra, criando outras personagens que lhe deram mais fama e dinheiro, como o misógino Garra de Aço —, Cuto voltou a ressurgir em Portugal, numa revista que herdou até o seu nome: o Jornal do Cuto, meritória iniciativa de Roussado Pinto, homem a quem a história da Banda Desenhada no nosso país muito deve.

Exemplo de vocação precoce, Blasco tomou para modelo de Cuto o seu irmão Alejandro, a quem todos em família tratavam por essa carinhosa alcunha. Cuto e os seus amigos Gurripata y Camarilla formavam uma pandilha de garotos travessos que apareceu pela primeira vez nas páginas de uma pu­blicação chamada Boliche. Mais tarde, abandonando a faceta cómica, Blasco iniciou uma nova etapa da sua carreira no semanário Chicos, editado em San Sebastian, do qual viria a tornar-se, ao longo dos anos, um dos mais apreciados colaboradores. »»

Capa do 1° número do "Jornal do Cuto" 

  


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CUTO EM NÁPOLES (4 e 5)


(Continua..)

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