quarta-feira, 28 de setembro de 2016

«O Mosquito» e «Chicos» AS PUBLICAÇÕES INFANTO-JUVENIS QUE ABALARAM A PENÍNSULA IBÉRICA (02) – Por José Ruy


AS PUBLICAÇÕES INFANTO-JUVENIS
QUE ABALARAM A PENÍNSULA IBÉRICA
«O Mosquito»
e «Chicos»
(02)

Por José Ruy

CONSUELO GIL ROËSSET
A DIRETORA DE «CHICOS»

Em 1938 na Cidade de San Sebastian, em Espanha, o empresário catalão Juan Baygual ofereceu a Consuelo Gil um modestíssimo salário de 50 pesetas para criar e dirigir uma nova revista dirigida aos rapazes. Consuelo, devido às circunstâncias em que se encontrava, refugiada de Madrid por causa da Guerra Civil, aceitou pois precisava de sustentar os filhos e começou por se rodear de um grupo de colaboradores competentes, todos emanados no mesmo sonho: fazer uma revista à margem de tendências políticas, mantendo-se numa linha de liberdade e de independência dirigida aos rapazes (daí o nome «Chicos») e não só ao escalão etário infantil. Mas a publicação era concebida igualmente para as raparigas tal como acontecia com «O Mosquito» em Portugal.

Retrato de Consuelo Gil da altura em que fundou «Chicos» em 1938.
Consuelo Gil Roësset de Franco (1905-1995) foi uma importante editora do pósguerra em Espanha. Entre as revistas produzidas por ela, destacam-se “Chicos” (1938-1955) e “Mis Chicas” (1941-1950). 
Era irmã da escultora Margarita Gil Roësset.

Em relação à conjuntura no país parecia tratar-se de uma missão impossível. Havia escassez de tudo, desde a matéria-prima até conseguir transportes seguros para a distribuição, tudo isto somado à instabilidade constante provocada pelo confronto fratricida.

Desde os anos trinta que as histórias em quadrinhos norte americanas invadiam a Europa e naturalmente também a Espanha. Mas estas publicações não resistiram à Guerra Civil. Em 1938 acabaram as principais revistas de Barcelona.

Antonio de Mateo, estudioso neste campo diz-nos: Ao aparecer «Chicos» alguns dos autores que trabalhavam para outras revistas em publicação, como «Pocholo» (que custava também 10 cêntimos) ofereceram-se para colaborar na nova revista, como Opisco, Longoria, Arturo Moreno, Riere Rojas e o muito jovem Jesus Blasco.



Uma outra revista, «Pichi», era constituída por material importado e dirigida por Arturo Moreno. «Boliche», «Gente Menuda» e «Michey», esta com direção de Huertas Ventosa, tinha um desenho cuidado de origem americana apresentando os míticos heróis dos Estados Unidos, mas também trabalhos dos espanhóis Riera Rojas e Emilio Freixas, que ilustravam trechos literários.

Havia ainda as revistas «Tym Tyler», «Rim Tin Tin», «Aventurero», «Leyendas» e outras, algumas editadas em catalão.


Mas a grande originalidade do semanário «Chicos» foi de os seus autores serem exclusivamente espanhóis e produzirem criações próprias. Os temas escolhidos e as personagens passaram a ser nacionais, construídas com uma grande qualidade, tanto nos desenhos como nos argumentos, não ficando a dever nada ao material vindo do estrangeiro, pelo contrário. Superou as revistas infantis e juvenis do Regime, tendenciosas e de pura propaganda.

«Chicos» foi uma lufada de ar fresco no enraivecido ambiente do país em 1938.

No belo refúgio de San Sebastian Consuelo Gil reuniu sob a sua disciplinada organização um grupo de artistas e escritores, os melhores do século, alguns formados, outros em formação como Emilio Freixas e Jesus Blasco, que tanto prestígio viriam a dar a «Chicos» e também a’«O Mosquito».


 Autorretratos de Jesus Blasco e de Emilio Freixas. 

Estes autores eram acompanhados por Riera Rojas e os veteranos Opisso, Valenti Castanys, Serra Massana, Mercè Llimona, Arturo Moreno, num total de mais de setenta desenhadores.

Havia também os argumentistas e guionistas Huertas Ventosa, J. Canellas Casals, Torralbo Marin, Tony Lay, que sob a orientação de Consuelo Gil ajudaram a criar o melhor semanário infantil em Espanha no século XX.

A própria Consuelo Gil, declarou não ter tido necessidade de convidar colaboradores. Os desenhadores e guionistas das outras revistas, quando souberam que estava a formar uma equipa, ofereceram-se de imediato.

O título desta revista foi tão popular em Espanha, que os leitores ao se dirigirem aos quiosques para adquirirem um jornal infantil, pediam um «Tebeo». O mesmo sucedeu também em Portugal: o nome de «O Mosquito» significava uma qualquer revista infantil.

AS MÁQUINAS QUE IMPRIMIRAM «O MOSQUITO» EM PORTUGAL E «CHICOS» EM ESPANHA

Em Portugal devido ao preço acessível e ao bom conteúdo do jornal, a tiragem que inicialmente foi de 5000 exemplares subiu vertiginosamente, e quando atingiu os 15000 exemplares a oficina onde iniciara a impressão, a «Litografia Castro», começou a ter dificuldade em responder numa semana à quantidade de exemplares que os leitores exigiam. Se mudassem de máquina de impressão para outra mais moderna, com mais capacidade, não poderiam manter o orçamento tão ajustado que possibilitava o preço de capa de 5 tostões.

«O Mosquito» era impresso nesta máquina da Litografia Castro, em Lisboa, com o papel marginado manualmente, um modelo já muito antigo mesmo na época.

Em Espanha, «Chicos» era impresso em rotativa na melhor oficina gráfica do País, «Offset Nerecán». Rapidamente atingiu a tiragem de 90 000 exemplares.

Tenhamos em conta a diferença territorial e populacional dos dois países.

A rotativa da Oficina «Offset Nerecán» onde sempre foi impresso «Chicos» até ao final da sua existência. Alguns redatores da revista e pessoal técnico emolduram a máquina. Observe-se do lado esquerdo, em baixo, a bobina do papel.

«Chicos», bem como todas as outras revistas entretanto criadas por Consuelo Gil, foi realmente impresso sempre na mesma oficina até 1956, quando terminou a sua publicação. E todas nesta rotativa.

Como havia colaboradores colocados nos dois lados da contenda, os originais viajavam semanalmente de Madrid e Barcelona até San Sebastian, numa verdadeira ginástica devido ao conflito armado. Mas o relacionamento entre todos os autores era salutar e mesmo exemplar unidos na neutralidade conseguida por Consuelo.

A 1 de abril de 1939 cessou a Guerra Civil, mas o pior estava para vir.

Os vencidos foram sujeitos a apertado controlo em todas as atividades, até mesmo nas revistas infantis. Tudo devia ser censurado e «Chicos» também.

«O Mosquito» em 1939 teve de optar por montar uma oficina própria, com uma impressora Offset, último modelo da fábrica alemã Rolland, uma máquina que desse reposta adequada às necessidades exigidas. Esta impressora conseguia numa hora a tiragem que a Litografia Castro só realizava numa semana.

Como a Segunda Guerra Mundial teve início nesse mesmo ano, pouco depois da máquina ter chegado a Portugal, as dificuldades em conseguir matéria-prima, como o papel, obrigaram os diretores do jornal a um enorme esforço e imaginação para contornar o problema.

A Rolland Offset que fez parte das oficinas próprias de «O Mosquito».

A sua tiragem veio a atingir 60 000 exemplares por semana, facto de que não há memória na história do jornalismo infantojuvenil no nosso País. Nesse período o interior do jornal era impresso em papel muito fino, de tom azul, verde ou amarelo, o que os seus diretores conseguiam no mercado, devido à escassez. Mas sobre isso voltaremos a falar.

Na mesma altura em Espanha «Chicos» conseguia 120 000 exemplares que esgotavam todas as semanas.

No próximo artigo:

SOLUÇÕES CRIADAS PELAS DUAS REVISTAS 
PARA FAZEREM FACE À CRISE 
MOTIVADA PELAS GUERRAS.

José Ruy

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