quarta-feira, 18 de setembro de 2019

A BEDETECA DE BEJA EM BRUXELAS: LA BANDE DESSINÉE PORTUGAISE EST SUPER!

A BEDETECA DE BEJA EM BRUXELAS:
LA BANDE DESSINÉE PORTUGAISE 
EST SUPER!
SUPER-HEROS, SCIENCE-FICTION ET MONDES POST-APOCALYPTIQUES...
FÊTE DE LA BD / STRIP FEEST, BRUXELAS, DE 13 A 15 DE SETEMBRO

Queridos amigos: depois da exposição “Bande Dessinée Portugaise - 22 Auteurs Contemporains”, que fizemos o ano passado na Fête de la BD – Festival de Banda Desenhada de Bruxelas, levámos agora até ao país do Tintin a exposição “La Bande Dessinée Portugaise Est Super! - Super-héros, science-fiction et mondes post-apocalyptiques...”, organizada pela Embaixada de Portugal em Bruxelas, pelo Instituto Camões de Bruxelas e pelo Município de Beja / Bedeteca de Beja.

A exposição contou com pranchas de André Lima Araújo, Daniel Henriques, Daniel Maia, Eliseu Gouveia, Filipe Andrade, João Lemos, Jorge Coelho, Miguel Mendonça, Miguel Montenegro, Nuno Plati, Ricardo Tércio e Ricardo Venâncio. Também levámos connosco algumas edições destes autores, para dar a conhecer aos belgas (e não só) o que se vai fazendo entre nós.

Aqui vos deixamos o link do Festival: fetedelabd.brussels Vamos dando notícias! Um abraço!

Paulo Monteiro

terça-feira, 17 de setembro de 2019

NOVELA GRÁFICA V - VOL. 11 – O NÚMERO 73304-23-4153-6-96-8 – AS SOMBRAS DE THOMAS OTT


NOVELA GRÁFICA V - VOL. 11
O NÚMERO 73304-23-4153-6-96-8 


AS SOMBRAS DE THOMAS OTT 

Novela Gráfica V - Vol. 11
O Número 73304-23-4153-6-96-8
Argumento e Desenhos – Thomas Ott
Quinta-feira, 12 de Setembro
Por+10,90€
BDpress #514, recorte de imprensa sobre BD. Artigo de João Miguel Lameiras, publicado no jornal Público em 7 de Setembro 2019.

AS SOMBRAS DE THOMAS OTT

Em 1833, o suíço Rodolphe Topfer, um dos pioneiros da banda desenhada, definiu assim, numa carta ao seu amigo Goethe, a originalidade do trabalho que acabava de criar: "Este pequeno livro é de uma natureza mista. É composto por uma série de desenhos autografados a traço. Cada um desses desenhos é acompanhado de uma ou duas linhas de texto. Os desenhos sem o texto teriam um significado obscuro; o texto, sem os desenhos, não significaria nada. O conjunto dos dois forma uma espécie de romance, tanto mais original porque não se assemelha mais a um romance do que a qualquer outra coisa. "É justamente nessa articulação e diálogo entre o texto e o desenho que reside a força e a originalidade da linguagem da BD.

Mais de 150 anos depois, Thomas Ott, um compatriota de Topfer, que, além de autor de BD e ilustrador, é também vocalista de uma banda rock e cineasta, demonstra que é possível contar histórias em BD recorrendo apenas ao desenho. O Número 73304-23-4153-6-96-8, décimo primeiro volume da colheita de 2019 da colecção Novela Gráfica V, distribuído pelo PÚBLICO, utiliza o registo policial como ponto de partida de uma história estética e narrativamente estimulante, contada apenas com recurso às imagens, sem uma única linha de diálogo. 

Não que Ott tenha inventado a "BD muda" (chamemos-lhe assim por uma questão de comodidade), género com uma importante tradição que vai desde The City de Franz Masereel até ao Arzach de Moebius, passando por títulos como Gon de Masashi Tanaka, ou a série Lave, de Frédéric Brrémaud e Federico Bertolucci, entre (muitos) outros. Usa-a com uma eficácia e elegância pouco habituais, muito por via da técnica do scratchboard, ou grattage, em que o desenho é raspado a branco numa folha previamente coberta de tinta-da-china, criando assim uma imagem em negativo, em que a luz rasga as sombras.

Nascido em 1996, em Berna, na Suíça, Ott estudou no Kunstgewerbeschule em Zurique, antes de começar a publicar em revistas independentes na segunda metade da década de 1980. Desde as suas primeiras histórias curtas que o imaginário e a técnica que encontramos neste O Número 73304-23-4153-6-96-8 estão presentes.

Como o próprio refere numa entrevista: "Desde criança, tenho pensamentos sombrios: No meu trabalho, preocupo-me com coisas que me deixam doente, que são muito sombrias.

Quando vejo esboços que fiz aos dez anos, vejo as mesmas coisas: fantasmas e monstros. A temática do meu trabalho não mudou, apenas ficou mais específica."

O mesmo pode ser dito em relação à técnica dagrattage, que se tomou a sua imagem de marca e que o próprio define "como estar num quarto preto e ir deixando lentamente entrar a luz". Dando mais uma vez a palavra a Ott: "Experimentei a técnica pela primeira vez quando era estudante de Arte na Escola de Design de Zurique. Pensei em fazer apenas uma história usando essa técnica, mas a verdade é que a continuo a usar."

O resultado desta obsessão são dezenas de histórias sombrias, pequenos contos de crime e castigo, entre o terror e o policial, na linha da produção da mítica editora americana EC Comics, ambientados em cenários americanos típicos do filme noir.

Pequenas pérolas de narrativa visual, publicadas em diversas revistas europeias e recolhidas posteriormente em livro. Livros como Tales of Error, Hellville, Tales from the Edge, ou Cinema Panopticum, publicados em editoras com o prestígio da L'Association, em França e da Fantagraphics nos Estados Unidos.

Primeira história de fôlego feita por Thomas Ott, O Número 73304-23-4153-6-96-8 é uma perturbadora narrativa circular que conta a história de um guarda da prisão que encontra um pequeno pedaço de papel com uma combinação de números, ao limpar a cela de um prisioneiro que foi condenado à morte e posteriormente executado. Como o guarda vive uma vida solitária e monótona, os números no papel despertam a sua curiosidade.

Mas, tratando-se de uma história de Thomas Ott, esses números, que primeiro lhe vão garantir uma sorte inesperada, acabam por se revelar uma verdadeira maldição, conforme o leitor poderá ver/ler.

João Miguel Lameiras

Thomas Ott


sábado, 7 de setembro de 2019

A ERA DOURADA DO UNIVERSO MARVEL PARTE 2 - Um Ensaio de Art Spiegelman

A ERA DOURADA DO UNIVERSO MARVEL
PARTE 2 

Um Ensaio de Art Spiegelman

Um novo super-herói

William Blake "Bill" Everett, colega de Burgos na Funnies, Inc., era um caso à parte neste meio. Para começar, não era judeu. Everett provinha de uma família tradicional instalada há 300 anos no estado do Massachusetts e era efectivamente um descendente directo do seu homónimo [o senador e governador do Massachusetts William Everett]. Alcançou o seu estatuto de outsider, que o empurrou para os comics, através de uma personalidade propensa aos vícios – aos 12 anos já era um ávido consumidor de bebidas alcoólicas e fumava três maços de cigarros por dia –, ou se calhar foi a sua sensibilidade de outsider que o levou para a bebida. Foi um dos mais talentosos desenhadores que já trabalharam em livros aos quadradinhos. Desenhava fluentemente, sentia-se à vontade em muitos géneros, e tinha um sentido de planificação da página que permitia que o olhar do leitor encontrasse pequenos tesouros visuais escondidos enquanto vogava sem esforço através do enredo. ·

O seu anti-herói alienado Namor, the Sub Mariner, foi o precursor de uma longa linhagem de personagens problemáticas que iriam povoar o universo Marvel algumas décadas depois. Nos anos 1940, o Sub-Mariner era único – em franco contraste com os tradicionais, pesadões e bem-intencionados vigilantes que residiam na vizinhança, menos complicada, da DC Comics. Nunca totalmente à vontade quer no oceano quer no ar, Namor era orgulhoso, arrogante e mais volátil do que o Tocha Humana, o seu oposto e complementar.


Mas a água e o fogo juntaram-se para obter um caldo primordial para a Marvel Comics.

No final de 1940, mais de um ano antes dos ataques a Pearl Harbor, enquanto os nazis atacavam Londres com a sua guerra-relâmpago, Simon, um empenhado freelancer que colaborava com a Funnies, Inc., foi contratado por Goodman para escrever, desenhar e editar para ele directamente. Simon mostrou-lhe o conceito visual para um novo super-herói que ele e Kirby tinham imaginado – um herói que se vestia com uma bandeira dos Estados Unidos, com bíceps gigantescos e músculos abdominais de aço que invadia o quartel-general dos nazis e derrubava Hitler com um soco nos queixos. Goodman começou a tremer, percebendo o impacto que este livro iria causar e permanecendo ansioso até o primeiro número de Capitão América, datado de Março de 1941, ter chegado às bancas. Goodman ficara aterrorizado com a hipótese de alguém assassinar Hitler antes de o livro ser publicado!

Ilustração de Simon

O Capitão América era um apelo ao recrutamento de soldados, enfrentando os verdadeiros supervilões nazis, enquanto o SuperHomem ainda estava a lutar contra criminosos de meia-tigela, furadores de greves, senhorios gananciosos e Lux Luthor – e os Estados Unidos continuavam confusos e divididos acerca da sua entrada, ou não, no conflito. Não é de espantar que o livro de banda desenhada de Simon e Kirby se tenha revelado um enorme êxito, vendendo quase um milhão de exemplares ao longo da guerra.


Mas nem toda a gente em 1941 era fã – segundo Simon, o German American Bund [organização pró-nazi] e a American First [comité contra a entrada dos EUA na guerra] inundaram os escritórios da editora com cartas a insultar e telefonemas obscenos e em que gritavam "Morte aos judeus!". O presidente da câmara Fiorello La Guardia, um herói da vida real, ligou-lhe para o sossegar: "A cidade de Nova Iorque não permitirá que lhe façam qualquer mal." .

O início e o fim

As figuras hipercinéticas de Kirby, com músculos hipertrofiados, deixavam a anatomia nas covas. As suas personagens eram belicosas, sem sentido de humor, casmurras e iradas, como surgiam de painéis recortados em serra e planos gerais que ocupavam páginas duplas. A.sua arte lançou o caminho para as acções super-heróicas, não apenas durante os anos da guerra mas também sempre desde então.

Bem sei que Kirby foi um portentoso original enquanto criador de livros de banda desenhada, bem como um verdadeiro herói de guerra, mas confesso que existe uma área que me escapa no que toca ao género de super-heróis que cresceu a partir do modelo que ele criou. Mesmo com apenas 12 anos, os super-heróis eram a minha metadona – eu estava profundamente viciado em revistas satíricas como a Mad, e nas tiras de velhos jornais que encontrava nos arquivos da minha biblioteca municipal. Eu preferia material mais avançado, como o Pato Donald e a Luluzinha. Sabem, eu adoro o formato dos livros de banda desenhada – as páginas cheias de palavras e imagens misturadas a lutar umas com as outras, todas aquelas pequenas caixas que temos de comparar e meter em contraste para extrair a narrativa; e adoro as bizarras idiossincrasias da linguagem dos cartoons em todos ás seus sotaques.
Aqueles que acham que os super-heróis são o início e o fim da banda desenhada colocam a data do fim da idade dourada algures nos anos 1940, no pós-guerra, em que o interesse pelo género esmoreceu.
Os soldados desiludidos, que já não constituíam um público ávido e conquistado, talvez tenham percebido que não foi o Capitão América que venceu a guerra. Se calhar foram os russos! De qualquer forma, os soldados desmobilizados ou cresceram e abandonaram o hábito de ler livros de banda desenhada, ou viraram a sua atenção para outros géneros.

Popularizaram-se os livros sobre crimes, cowboys, romance, terror e temas relacionados com a guerra, muitas vezes com temas mais adultos – e mesmo sombrios e picantes –, destinados a leitores mais velhos.

Eu coloco a data do final da era dourada em 1954. O pânico moral baseado na falsa assunção de que o meio era estritamente para miúdos e que estava a transformá-los em delinquentes juvenis levara a queimas de livros de banda desenhada em fogueiras e a audiências no Senado dos Estados Unidos que acabaram por obrigar muitas editoras a abandonar o negócio e a estropiar as restantes.

Super-heróis limpinhos conseguiram ressuscitar o meio moribundo em 1956 (actualmente considerado o ano do início da era prateada), mas o meio nunca recuperou a ubiquidade que tivera no seu apogeu – através de livros. Através dos filmes, conquistou o mundo!

De regresso à idade dourada, se se quisesse ver um tipo vestido com uma capa a sobrevoar um arranha-céus ou a transformar Nova Iorque em ruínas, os quadradinhos dos livros de banda desenhada eram a melhor maneira de o conseguir. No século XXI, graças ao milagre das imagens geradas por computador, muitos milhões de pessoas em todo o mundo que nunca leram um livro de banda desenhada ou ouviram falar de novelas gráficas dirigem-se aos complexos de salas de cinema para adorar as novas divindades que encarnam o ADN dos comics.

Salvadores míticos

Os jovens judeus criadores dos primeiros super-heróis inventaram salvadores míticos – quase divinos – seculares para lidar com as ameaçadoras alterações económicas que os envolviam na Grande Depressão e deram forma às suas premonições relativas à guerra mundial que se avizinhava. Os livros de banda desenhada permitiram que os seus leitores escapassem para um mundo de fantasia, ao projectarem-se nos heróis invulneráveis.

Auschwitz e Hiroxima fazem muito mais sentido como cataclismos em sombrios livros de banda desenhada do que como acontecimentos no nosso mundo real.

No nosso mundo actual e demasiado real, o pior vilão de Capitão América, o Caveira Vermelha, está vivo nos ecrãs, e um Caveira Laranja assombra a América. O fascismo internacional surgiu de novo em força (quão rapidamente os seres humanos esquecem – meninos e meninas, estudem a fundo estes comics da era dourada!) e as perturbações que se seguiram ao afundamento global da economia em 2008 contribuíram para nos trazer até um ponto em que o próprio planeta parece prestes a derreter.

O Caveira Laranja

De certa forma, o Armagedão parece plausível e estamos todos transformados em crianças indefesas receosas de forças mais poderosas do que conseguimos imaginar, procurando alívio e respostas em super-heróis a voar através de ecrãs na nossa capela dos sonhos.

Enquanto o conteúdo dos livros de banda desenhada se apropriou dos nossos filmes, a forma dos comics – brilhantemente disfarçados como novelas gráficas – infiltrou-se no que resta da nossa cultura literária. Quando a Folio Society, a venerável editora de livros ilustrados desde 1947, decidiu abalançar-se numa luxuosa compilação da era dourada da Marvel, convidou-me, enquanto autor de novelas gráficas e especialista em livros de banda desenhada, a escrever uma introdução para o livro. Talvez tenham pensado, erradamente, que eu poderia dar à iniciativa um mínimo de respeitabilidade.
Entreguei o ensaio no final de junho, sendo ele essencialmente o mesmo que surge neste artigo. Em tom de desculpa, um editor da Folio Society comunicou-me que a Marvel Comics (que obviamente era co-editora do livro) estava agora a tentar manter-se "apolítica", e não permitia que as suas publicações tomassem posições políticas. Pediram-me para alterar ou remover a frase onde refiro o Caveira Vermelha, caso contrário a introdução não seria publicada. Quando penso em mim, nomeadamente em comparação com alguns dos meus companheiros de profissão, não me considero especialmente activista a nível político, mas quando me pediram para retirar uma referência bastante inofensiva a um Caveira Laranja percebi que talvez tivesse sido irresponsável da minha parte brincar com a terrível ameaça existencial em que vivemos hoje, e retirei a minha introdução.
Uma notícia esclarecedora apareceu-me fortuitamente no meufeed esta semana. Fiquei a saber que o bilionário presidente e ex-director executivo da Marvel Entertainment, Isaac "Ike" Perlmutter, é amigo de longa data de Donald Trump, seu influente conselheiro oficioso e membro do clube de elite Mar-a-Lago, em Palm Beach, estado da Florida, que pertence ao Presidente. E Perlmutter e a sua esposa recentemente doaram cada 360.000 dólares (o máximo legalmente permitido) para o Trump Victory joint Fundraising Committee, para a campanha eleitoral do Caveira Laranja de 2020. Também tive de aprender, mais uma vez, que tudo mete política ... tal como o Capitão América a esmurrar Hitler no queixo.




quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A ERA DOURADA DO UNIVERSO MARVEL PARTE 1 - Por Art Spiegelman

Enquanto o conteúdo dos livros de banda desenhada se apropriou dos nossos filmes, a forma dos comics – brilhantemente disfarçados em novelas gráficas – infiltrou-se no que resta da nossa cultura literária. 

A ERA DOURADA DO UNIVERSO MARVEL
PARTE 1 

Um Ensaio de Art Spiegelman

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NOTA DO EDITOR DO KUENTRO2

O jornal Público publicou no passado domingo uma verdadeira “separata” sobre banda desenhada, nas suas páginas centrais – nada menos que oito páginas – sendo seis delas com um ensaio de Art Spiegelman sobre a Era Dourada do Universo Marvel e duas dedicadas ao novo álbum de Asterix, o qual, segundo se percebe, estará ainda a ser realizado e será editado pelas edições Asa ao mesmo tempo que a edição francesa. A matéria sobre o álbum de Asterix, Mistério na Aldeia à espera da Filha de Vercingetórix, republiquei-a no BDpress #512 com o respectivo recorte do artigo e imagens no passado dia 2. Segue-se agora o BDpress #513 com a matéria escrita por Spiegelman, dividida em duas partes, devido à sua extensão.
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BDpress #513 – Recorte de imprensa sobre BD matéria publicada no jornal Público – Domingo, 1 de Setembro de 2019 reproduzido aqui aqui no Kuentro em duas partes, devido à extensão da matéria.
Jerry Siegel e Joe Shuster (em cima) são os criadores de Super-Homem. O ex-director executivo da Marvel Entertainment, Isaac "lke" Perlmutter, é amigo de longa data de Donald Trump.
Nas incultas trevas do século XX, os livros de banda desenhada eram vistos como lixo sem nível literário, destinado a crianças e adultos pouco desenvolvidos intelectualmente – mal escritos, desenhados à pressa e pessimamente impressos. Martin Goodman, o fundador e editor daquilo que actualmente é conhecido como a Marvel Comics, em certa ocasião disse a Stan Lee que não valia a pena tentar fornecer qualidade literária às histórias, nem se preocupar com o aprofundamento das personagens: "Basta dar-lhes muita acção, e não uses muitas palavras. "É uma verdadeira maravilha [marvel, em inglês] que esta fórmula tenha conduzido a obras que se revelaram tão poderosas e duradouras. 

O formato do livro de banda desenhada pode ser atribuído a Maxwell Gaines, um vendedor de publicações que em 1933 tentava descortinar uma forma de manter as impressoras de suplementos de jornais em funcionamento, fazendo reimpressões de colecções de tiras de banda desenhada de jornais populares num formato de meio tablóide. Experimentou colar um autocolante de dez cêntimos num punhado de panfletos grátis e percebeu que eles se vendiam rapidamente numa banca de jornais próxima.

Da esquerda para a direita: William Moulton Marston , HG Peter , Sheldon Mayer e Gaines 

Rapidamente, a maior parte das famosas tiras começou a ser reunida em livros de banda desenhada por uma série de editoras – e eram necessários novos conteúdos, a preços reduzidos para novas edições. Este novo material era essencialmente composto por imitações de baixo nível das tiras de banda desenhada que já existiam nos jornais, ou histórias que se inspiravam nos livros "pulp", baratos e populares, de aventuras, policiais, de índios e cowboys ou na selva. Tal como Marshall McLuhan fez notar, cada meio de comunicação recupera o meio de comunicação que o antecede antes de encontrar a sua própria identidade. 

Surgem então em cena Jerry Siegel, um escritor adolescente com grandes ambições, e Joe Shuster, outro jovem que tencionava ser artista – ambos judeus estudiosos socialmente inadequados, muitas décadas antes de esta combinação ser minimamente apelativa. 

Sonhavam alcançar fama, fortuna e olhares de admiração por parte das raparigas que poderiam conseguir através de uma tira de banda desenhada distribuída em cadeias de jornais, e desenvolveram uma ideia acerca de um extraterrestre sobre-humano proveniente de um planeta moribundo e que iria lutar pela verdade, a justiça e os valores do programa New Deal do Presidente Franklin D. Roosevelt. As ideias dos dois jovens, eles próprios ainda mal saídos da infância, foram rejeitadas pelos distribuidores das bandas desenhadas nos jornais como sendo ingénuas, infantis e tecnicamente fracas, mas, por fim, Gaines adquiriu as 13 páginas das suas amostras do Super-Homem para a Action Comics, a dez dólares por página uma verba que englobava todos os direitos relativos à personagem. A criação de Siegel e Shuster tornou-se o modelo para um novo género que viria a definir o seu meio de comunicação, e as suas vidas tornaram-se o trágico paradigma para os criadores, espoliados dos grandes proventos que as suas personagens permitiram às editoras.

É geralmente consensual que o Super-Homem iniciou a era dourada da banda desenhada em junho de 1938, com a sua estreia na edição número 1 da Action Comics, publicada por aquela que hoje é conhecida como DC Comics. Siegel e Shuster tinham criado um novo arquétipo – ou talvez, mais exactamente, um novo estereótipo –, e em 1940, assim que o novo género demonstrou que conseguia levar milhões de miúdos a gastar milhões de moedas por mês, vagas de imitadores catapultaram hordas de heróis em quatro cores para os céus, todos em busca de ouro nesta época dourada. 

A ingenuidade juvenil do Super-Homem era, segundo parecia, uma qualidade escolhida, e não uma anomalia – convidava os jovens para um novo tipo de história, especialmente dedicada aos mais novos, cujas fantasias eram ainda mais desprovidas de lógica do que os livros "pulp", apresentando imagens esquemáticas em cores primárias e secundárias que conseguiam transformar cada página numa cortina de teatro pronta a ser levantada e revelar novas imagens apelativas e... muita acção. 

Goodman, que fora inovador no lançamento de alguns dos mais provocantes "pulps", foi um dos primeiros a cavalgar a onda dos super-heróis, conseguindo imediatamente um enorme impacto com o primeiro número da Marvel Comics, em Outubro de 1939.

(À primeira edição de 80 mil livros seguiu-se uma segunda edição de mais 800 mil exemplares.) 

Os conteúdos eram fornecidos pela Funnies, lnc., uma empresa de livros de banda desenhada que podia produzir obras completas, desde a ideia inicial até à arte final, para editoras em início de actividade que queriam ter poucas despesas. Estas "lojas" tinham algo em comum com as oficinas de roupas e alfaiates, onde muitos dos membros das famílias dos artistas trabalhavam. Muitas vezes feitas como um trabalho colectivo e em contra-relógio com muitas mãos (argumentistas, desenhadores, coloristas e letristas) a abordar as páginas originais quase simultaneamente, isto era mais uma pequena indústria do que uma forma de arte. 

Cartaz a anunciar uma nova historia do Capitão Marvel (1941)

Recrutaram jovens sem experiência, velhos profissionais já muito desgastados e até mesmo – quando se iniciou a Segunda Guerra Mundial e se alistaram muitos dos homens novos que respondiam à crescente procura de livros banda desenhada – mulheres, pessoas de cor e outros forasteiros. (Já agora, estes intrusos tinham de fornecer os estereótipos racistas e sexistas que há muito eram uma pedra fundamental de todo este meio.) 

Identidades secretas 

Aqui chegados, poderá ser importante notar que (e não devido a orgulho étnico, mas sim porque poderá lançar alguma luz sobre a crueza e os temas específicos dos primeiros comics) os pioneiros por trás deste meio em embrião baseado em Nova Iorque eram essencialmente judeus e de outras minorias étnicas. Não eram apenas Siegel e Shuster, mas também toda uma geração de imigrantes recentes e os seus filhos – ou seja, os mais vulneráveis aos danos da Grande Depressão – que estavam  especialmente cientes do crescimento do violento anti-semitismo na Alemanha. Criaram um Ubermenschen [super- homem nietzschiano] que iria lutar por uma nação que iria, pelo menos em princípio, acolher "os exaustos, os pobres, as mas as amontoadas que aspiram a respirar livremente ... ". 

Refiramos apenas alguns desses judeus seculares que, como Clark Kent, adoptaram identidades secretas: Gaines nascera Max Ginzberg; os pais de Goodman tinham imigrado de Vilnius, na Lituânia; Jack Kirby (de verdadeiro nome Jacob Kurtzberg), a força por detrás da criação do Capitão América, juntamente com Joe Simon, nasceu nos bairros degradados do Lower East Side de Nova Iorque, e Stan Lee, que se tornou o símbolo da Marvel Comics, era primo da esposa de Goodman – numa demonstração de nepotismo, foi contratado com 17 anos para paquete no escritório, sendo o seu nome verdadeiro Stanley Lieber. Apesar de não serem bem recebidos nos altos níveis da edição e da publicidade, conseguiram descobrir e ocupar o seu nicho nos estratos inferiores do ramo. 


Os inexperientes artistas plásticos nestas fábricas de livros aos quadradinhos descobriram as possibilidades de uma nova forma de arte sob a pressão de prazos inadiáveis. Aprofundaram os seus talentos copiando-se uns aos outros ou roubando descarada e directamente dos mestres das tiras de aventura publicadas nos jornais: Alex Raymond (Flash Gordon, Agente Secreto X-9), Hal Foster (Tarzan, Príncipe Valente) e Milton Caniff (Terry e os Piratas). Por outro lado, Carl Burgos (nascido Max Finkelstein), que criou a história principal do número 1 da Marvel Comics, o Tocha Humana, afirmou orgulhosamente: "Se quisessem Raymond ou Caniff, podiam ler Raymond ou Caniff. Já os desenhos miseráveis eram todos meus." Desenhador e argumentista, o seu rudimentar talento para desenhar era apoiado por uma intuitiva capacidade para contar histórias de forma visual, e foram aplicados a uma personagem muito inspirada: o Tocha Humana. A personagem – um raio antropomórfico de chamas vermelhas e amarelas – tinha uma intensidade gráfica que se infiltrava nos olhos dos leitores e personificou a energia pura e violenta dos livros de banda desenhada iniciais antes de estes terem sido domesticados.

O Tarzan de Burne Hogarth
Prince Valiant, de Hal Foster
(...) Continua...


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

MISTÉRIO NA ALDEIA À ESPERA DE - A FILHA DE VERCINGÉTORIX

MISTÉRIO NA ALDEIA

À ESPERA 
DE 

Esta mini aventura, Mistério na Aldeia, foi imaginada pela dupla Jean-Yves Ferri e Didier Conrad em antecipação do lançamento do 38º livro da série Astérix, A Filha de Vercingétorix (Edições ASA), que irá para as livrarias portuguesas a 24 de Outubro, no mesmo dia em que é lançada a edição original em francês. 

BDpress #512 – Recorte de imprensa sobre Banda Desenhada – no Público • Domingo, 1 de Setembro de 2019

Faltam menos de dois meses para o lançamento mundial de A Filha de Vercingétorix, quarto livro que Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, actuais argumentista e desenhador da série Astérix, fazem em comum. O álbum, será publicado em Portugal pela Asa e irá para as livrarias a 24 de Outubro. Enquanto se espera, Ferri e Conrad criaram a mini-história Mistério na Aldeia para apresentar o livro e algumas das novas personagens.

São seis tiras que aqui divulgamos.

A heroína deste novo livro de Astérix tem 17 ou 18 anos e "é uma adolescente difícil", desvendou Ferri no Le jornal du Dimanche. A personagem herdou alguns traços psicológicos do pai, Vercingétorix, que foi um dos líderes da revolta gaulesa contra Júlio César e que já figura noutros livros de Astérix.

É a quarta vez que uma mulher tem um papel importante na série, depois das protagonistas de Astérix e Cleópatra (1965), A Rosa e o Gládio (1991) e Astérix e Latraviata (2001). "Esta é uma mulher mais jovem do que as anteriores, uma adolescente que não é da aldeia e vai dar uma visão mais moderna deste mundo. A dificuldade é que temos de escolher personagens fortes, mas que não devem ofuscar Obélix e Astérix", explicou Ferri.

A heroína de A Filha de Vercingétorix, explica Didier Conrad ao Le Jornal du Dimanche, também não podia ser parecida com Falbala, a mulher de Agecanonix; ou com Zaza, a adolescente que tenta seduzir Obélix em Astérix e o Presente de César (os autores não contam com Rahàzade que deu nome a um álbum mas só aparece no final da história). E lembra que além de Goudurix no álbum Astérix e os Normandos, nunca um adolescente foi personagem central.

Do leque de novas personagens fazem parte os dois jovens que aparecem nesta pequena história que se antecipa ao livro, Selfix (à direita) e Blinix, amigos da heroína. Também aparecerá o irmão de Blinix, Surimix, de quem já se falava no livro Astérix na Córsega. Entre as personagens inéditas que acompanham a filha de Vercingétorix à aldeia, uma parece-se com Churchill e outra com De Gaulle.

Ferri vive em França e Conrad nos Estados Unidos. Nunca se encontram, mas os oito mil quilómetros que os separam não os impedem de trabalhar em conjunto. "Entre nós, não há nada de físico, é tudo cerebral", brincou Ferri na conversa: com o Le Jornal du Di manche.

São os sucessores de René Goscinny e Albert Uderzo, que revelaram Astérix pela primeira vez na revista Pilote, a 29 de Outubro de 1959, embora o primeiro álbum, Astérix, o Gaulês, só tenha sido publicado em 1961. A parceria terminou em 1977 com a morte de Goscinny, mas o nome do argumentista foi sempre mantido na assinatura das histórias. Albert Uderzo, de 88 anos, retirou-se em 2011, alegando cansaço.

E Jean-Yves Ferri e Didier Conrad ficaram com a tarefa de criar as aventuras.



O original da primeira prancha de A Filha de Vercingetórix...

Juntamente com o argumentista Jean-Yves Ferri e o desenhador Didier Conrad (à direita), Uderzo, aos 86 anos, co-organiza a capa deste 35º álbum.



 
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