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sábado, 23 de fevereiro de 2019

AINDA A MORTE DE GERALDES LINO – O IMORTAL APAIXONADO – TEXTO DE NUNO SARAIVA

Foto de Jorge Machado-Dias
No 226º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa, em 2 de Dezembro de 2003

AINDA A MORTE DE GERALDES LINO
TEXTO DE NUNO SARAIVA 

Republico aqui, com a devida autorização do autor o post que colocou na sua página do facebook 

O IMORTAL APAIXONADO 

Entramos na capela do do Cemitério do Alto de São João e as pernas tremem-nos. Tenho 16 anos, o Filipe Abranches tem 14, o Ricardo Tércio está com 10, o João Fazenda tem 11 acabados de fazer, o João Maio Pinto está mais velho que eu hoje, apareceu aqui com 30 anos. Neste momento sentimos ter todos a idade em que o conhecemos.
É toda uma espécie de família desunida, desigual, afastada no estilo e gosto, aqueles dos clássicos ou aqueles do Underground ou lá o que isso possa significar, que hoje encontra um significado num denominador comum: reconhecemos todos ser filhos e filhas da paixão de um só homem, o nosso querido Geraldes Lino. Por não lhe querermos falhar, estamos pela última vez a fazer-lhe companhia, estupidamente convencidos que o Lino nos está a ver e a responder-nos com um sorriso, inchado de satisfação e corado de vergonha.

Todos aqueles que começaram, desde os oitentas, a sonhar fazer BD e ver os seus primeiros trabalhos publicados, sentem uma dívida de gratidão para com o Lino. Soa mal chamar-lhe de padrinho, seria mais um parteiro que insistia em ajudar a parir novos autores, mesmo que a ferros, independentemente do estilo ou tendência artística. Se hoje temos uma panóplia de estilos no pensamento e engenho, muito se deve ao Lino defensor do contrário, do diferente, do reverso das coisas. Era daqueles que tanto podia aparecer num Grémio Literário como de seguida num encontro de fanzines LGBT.

Fundador do Clube Português de Banda Desenhada em 1976, franco conhecedor e presença assídua nos principais festivais internacionais de BD, um permanente viajante cuja vida de funcionário da TAP ajudava muito nesse sentido, pioneiro em Portugal na edição de fanzines, divulgador e organizador de eventos, o Lino nunca conseguia estar parado. Sempre pronto para opinar, discutir, construir e acima de tudo apoiar os mais jovens. Junto dos mais jovens, e por ele passaram gerações, os seus pequenos olhinhos transformavam-se em faróis luminosos cheios de alegria.

E nós aqui a chorar. Nós, passados os anos e já mulheres e homens feitos, sempre que tínhamos um livro para lançar, uma exposição a inaugurar ou uma conferencia para o debate das ideias, sabíamos que o Lino iria lá estar. O Lino nunca nos falhou, estivesse ele doente ou com impossíveis engarrafamentos de trânsito encontrava sempre uma maneira de conseguir estar presente, não apenas por “militância” mas porque sabia que o seu apoio era importante para nós. O Lino aparecia, intervinha sempre mesmo quando, em esforço, forçava as muito magoadas cordas vocais, (quase as perdia numa agitada conferencia no Forum Picoas nos finais dos oitentas) e depois fazia questão de se despedir de todos um-a-um. “-Então Lino, já vais? Vamos a uma jogatana no Snooker club?” “-ehpá, hoje não dá, tenho que acabar um texto para o meu blog... Quem é aquela garota contigo? Bonita pá! Ok, vamos lá."

Escondido atrás do seu grande bigode, um sorriso maroto ocultava um genuíno sedutor, parecia o Bertrand Morane do filme do Truffaut un homme qui aime les femmes, o Lino amava as mulheres tanto quanto as respeitava. E recebia delas um carinho desmedido de tão estranhas proporções que chegava a ser invejado por muitos. “-A menina também faz BD? Gosta de fanzines? Dá-me o seu contacto?". Eros em puro êxtase.

De baixa estatura e franzino, tinha colhões do volume de toda a colecção reunida do Cavaleiro Andante mais todas as séries do Mundo de Aventuras, resmas de coragem, defendia um amigo em qualquer ocasião. Alguns recordarão um episódio no Intercidades em que uma comitiva regressada de um Festival do Porto assiste a um agitado confronto entre dois colossos da BD e, carruagem repleta, é o Lino que salta a separar os amigos, vermelho que nem um tomate.

Despedimos-nos agora do Lino. O nosso imortal. O imortal apaixonado. Aquele que nunca morrerá porque não se matam as paixões. Mesmo combalidas, todos aqui sabem que as paixões voltam sempre a florescer.
E a paixão do Lino deve estar neste momento a nascer no peito de algum pequenote. Acreditamos.

Adeus e obrigado, Lino.
Nuno Saraiva

no Alto de São João, em Lisboa.

Última aparição pública de Geraldes Lino no 416º Enconto da Tertúlia BD de Lisboa, 
em 8 de Janeiro de 2019.

COMENTÁRIO DE JOSÉ RUY A ESTE TEXTO DE NUNO SARAIVA

Estimado amigo Nuno Saraiva, estou comovido com o que escreve sobre o saudoso Geraldes Lino, amigo do seu amigo, e amigo das causas da BD a que dedicou toda a vida. Foi-me impossível, como sabem, de estar presente nessa despedida; para nós dois, a despedida foi na sede do CPBD umas semanas atrás, quando foi visitar a exposição do centenário de ETCoelho, que muito admirava. Todos temos muito a recordar sobre a conduta e dedicação desta figura ímpar que marcou a nossa BD, em todos os escalões etários. O Geraldes Lino manteve sempre o espírito jovem e era entre os jovens que se sentia mais útil, ora aconselhando, ora ajudando mesmo. É com grande carinho que o vamos manter na nossa memória viva, pois assim ele continuará connosco. Obrigado, Nuno Saraiva pelo seu gesto, obrigado Machado Dias por dar este relevo no prestigiado «Kuentro». Profunda saudade, querido amigo Geraldes Lino, e um até já.
José Ruy

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

MORREU GERALDES LINO


Post do blogue de Geraldes Lino, Divulgando Banda Desenhada
editado hoje por seu filho Pedro Lino


MORREU GERALDES LINO
04Jan1936 – 19Fev2019


Notas biográficas reunidas e completadas por Leonardo De Sá 

De seu nome completo, António Geraldes Lino nasceu em Lisboa a 4 de Janeiro de 1936 e faleceu a 19 de Fevereiro de 2019 (também em Lisboa). Fez o Curso Comercial da Escola Comercial Veiga Beirão e tinha o curso geral do Liceu, tendo também frequência da Faculdade de Letras de Lisboa, em Germânicas. Foi funcionário da TAP, nomeadamente como instrutor de acompanhantes de bordo [onde ficou meio surdo e completamente rouco] — tendo partido bastante cedo em pré-reforma, o que lhe permitiu dedicar-se mais completamente ao seu hobby. Divulgador, “militante” e estudioso de banda desenhada, foi autor de textos dispersos englobando críticas, entrevistas, actualidades, biografias de autores e personagens. Foi colaborador esporádico em diversos jornais: semanário O País, Correio da Manhã, Diário Popular, JL: Jornal de Letras e Artes. Colaborador eventual em revistas: Atlantis, Bibliotecas. Colaborador de revistas de BD: Mundo de Aventuras, Jornal da BD, Selecções BD (1ª série), Heróis Inesquecíveis, Selecções BD (2ª série). Comissário de exposições: “A História na Banda Desenhada” (Museu de Arqueologia, Lisboa); “A II Guerra Mundial na Banda Desenhada” (Biblioteca-Museu da República e Resistência, Lisboa); “Lisboa na Banda Desenhada” (Museu da Cidade, Lisboa). Foi um dos muitos chamados sócios-fundadores do Clube Português de Banda Desenhada, em Junho de 1976 e integrou depois os seus corpos directivos. Com mais propriedade, foi fundador da Tertúlia BD de Lisboa em Junho de 1985, mantendo-se durante décadas como dinamizador desta iniciativa bedéfila mensal, que tem por finalidade homenagear autores consagrados e outras individualidades ligadas à BD, e como incentivo aos novos autores da BD portuguesa. Foi responsável por programas radiofónicos sobre BD, na Rádio Onda Livre da Amadora e na Rádio Popular de Lisboa. Foi ainda editor de diversos fanzines de banda desenhada: Eros, Tertúlia BDzine, Folha Volante, Autobiografias Ilustradas, Ad Hoc e Preciosidades da BD. Foi revisor ortográfico de textos de diversos autores. Em parceria com Leonardo De Sá, foi co-autor da obra Dédalo dos Fanzines: O Catálogo das Publicações Amadoras de Banda Desenhada em Portugal (Edições Temporárias, 1997) — que seria o único livro onde deixou o seu nome.


Geraldes Lino no 226º Encontro  da Tertúlia de Banda Desenhada de Lisboa - 2-12-2003

NOTA - AMANHÃ COLOCAREI AQUI UM POST MAIS PESSOAL

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

MORREU ZÉ MANEL (1944-2019)


MORREU ZÉ MANEL
(1944-2019) 

O cartoonista Zé Manel, 75 anos, Prémio de Honra do Amadora BD 2011, que publicou no Diário de Notícias, entre outras publicações, morreu em Lisboa, na quinta-feira, disse hoje à agência Lusa o ex-diretor daquele jornal Dinis de Abreu.

Zé Manel, de seu nome de registo José Manuel Domingues Alves Mendes, nasceu em Lisboa a 22 de janeiro de 1944, era filho do ilustrador António Alves Mendes, 'Méco’.

O 'desenhador’ Zé Manuel, “como gostava de ser tratado”, recordou Dinis de Abreu, estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, "da qual falava sempre com um agudo sentido de pertença".

Zé Manel é autor de “uma obra multifacetada, repartida por uma invulgar galeria de cartoons políticos, publicados, sobretudo, no Diário de Notícias, que chegaram, a ser expostos no Palácio Galveias, numa mostra comemorativa dos 120.º aniversário do jornal", disse Dinis de Abreu, recordando igualmente "inúmeros trabalhos de ilustração infantojuvenil e de banda desenhada", áreas que sempre o seduziram.

Entre as muitas obras para a infância por si ilustradas, destaca-se a edição original de "O Soldado João", uma história anti belicista de Luísa Ducla Soares, que, em 1973, inaugurou a coleção Cor Infantil da Editorial Estúdios Cor, então dirigida por José Saramago.

A história, com o seu apelo à paz, concebida originalmente para o suplemento infantil do Diário Popular, onde fora proibida pela censura.

O artista plástico “dedicou-se igualmente ao desenho satírico” e trabalhou na ilustração de livros escolares, tendo sido ainda autor de vários vitrais em diversas igrejas nacionais, onde deu "largas ao seu talento criativo e a uma componente mística que o acompanhava”.

As revistas Século Ilustrado, Rádio & Televisão, o jornal O Emigrante, as publicações humorísticas Os Ridículos, Bomba H, A Chucha e O Cágado, os livros “Manual da Má-Língua” e “Os Salazarentos”, assim como os quatro álbuns das “Histórias do Renato, Um Menino muito Chato”, destacam-se no percurso de Zé Manel, iniciado aos 17 anos, na Parada da Paródia, segundo o Clube Português de Imprensa.

Além do Diário de Notícias, Zé Manel trabalhou também para O País, semanário para o qual concebeu uma série de caricaturas de políticos portugueses. Desenhou ainda para discos e revistas do “Fungagá da Bicharada” e para publicações como O Brincalhão, Pisca-Pisca e Pão com Manteiga, revista que acompanhou o antigo programa humorístico da Rádio Comercial.

“Macau a tinta-da-China” é apontado por Dinis Abreu como “um dos mais importantes livros-álbum que [Zé Manel] deu à estampa, resultado de uma divagação por aquele antigo território sob administração portuguesa”.

Zé Manel participou em várias exposições, individuais e coletivas, “embora avesso a vender os seus trabalhos, que gostava de cativar para si ou de partilhar com família e amigos”.

Em 2014, foi feita uma retrospetiva da sua obra, “Eros uma vez… O Humorista Zé Manel”, no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, na Amadora, que deu origem à publicação de uma coletânea do seu trabalho.

Entre os mais recentes trabalhos de Zé Manel contam-se as ilustrações para os livros de António Gomes de Almeida “Como era antes de haver”, adotado pelo Plano Nacional de Leitura, “Os Maias – Uma Análise ilustrada”, além de um álbum dedicado a Manuel da Fonseca, o escritor de "Seara de Vento".

O Clube Português de Imprensa destaca o Museu Sammlung, de cartoon e caricatura, de Basileia, na Suíça, entre as coleções em que Zé Manel se encontra representado.

Em 2011, recebeu o Prémio de Honra do festival Amadora BD.

Apesar de “reservado”, como recordou Dinis de Abreu, Zé Manel fazia parte, “com gosto”, de tertúlias, “onde pontificavam artistas e intelectuais, mas sem nunca lhe apetecer o palco e as luzes, nem ceder à tentação do deslumbramento, mesmo no auge da sua brilhante carreira”.

In Sapo 24 online







domingo, 2 de dezembro de 2018

MORREU JORGE MAGALHÃES


MORREU JORGE MAGALHÃES 


Jorge Magalhães, morreu ontem à noite, dia 1 de Dezembro no Hospital de Cascais. Os textos biográficos que constam abaixo, são da autoria de Leonardo De Sá e de Geraldes Lino.

O mais prolífico dos argumentistas portugueses de banda desenhada das últimas décadas, Jorge Arnaldo Sacadura Cabral de Magalhães nasceu a 22 de Março de 1938, no Porto. Publicou o seu primeiro conto no Mundo de Aventuras, em 1959, e depois em O Mosquito (2ª série). A partir de 1961, teve uma prolongada estada em Angola, como funcionário público, tendo colaborado no Comércio de Luanda (foi coordenador da página juvenil Águia), Trópico, com textos sobre BD em A Província de Angola (1968) e outras participações no suplemento Bambi, para além de intervenções na rádio e numa companhia de teatro amador. Nesse período publicou na metrópole vários artigos no jornal República, assim como outras colaborações no Pisca-Pisca e nos fanzines Copra e Quadrinhos. De regresso ao continente, iniciou a sua actividade na Agência Portuguesa de Revistas em 1973, tornando-se no ano seguinte oordenador do Mundo de Aventuras (5ª série) e de outras revistas da editora, para as quais fez traduções e escreveu também contos, artigos, etc., em nome próprio ou sob diversos pseudónimos ("Roy West", etc.). A partir de 1976, começou a sua actividade como argumentista de banda desenhada, no Mundo de Aventuras, com "A Lenda de Gaia", quadriculada por Baptista Mendes, e depois em Quadradinhos (2ª série), Tintin, O Mosquito (5ª série), Jornal da BD, Jornal do Exército, BDN (suplemento do Diário de Notícias), etc. Trabalhou com os desenhadores Augusto Trigo, António Carichas, Catherine Labey, José Abrantes, Vítor Péon, Zénetto, Eugénio Silva, Fernando Bento, José Garcês, Ricardo Cabrita, João Mendonça, Carlos Alberto Santos, Rui Lacas, etc. Foi coordenador da totalidade da produção da Editorial Futura, incluindo O Mosquito (5ª série), dirigido por José Chaves Ferreira, assim como dos excelentes Cadernos de Banda Desenhada.

Editou, desde há alguns anos, vários fanzines especializados: Fandaventuras, Fandwestern, e outros. Tem mais de duas dezenas de álbuns publicados, desde 1985. Publicou artigos sobre banda desenhada em diversos fanzines, bem como no Especial Quadradinhos de A Capital e outras secções especializadas em jornais, assim como nas publicações de sua responsabilidade.

Colaborou com textos para as Edições Época de Ouro, tendo assegurado a coordenação de O Mosquito: 60º Aniversário (1996). Para as Edições Rodrigues Chaveiro coordenou a revista de reedições americanas Heróis Inesquecíveis, em 1997-98. Representou Portugal, juntamente com José Ruy, na 1ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 1989. Recebeu inúmeros prémios. É redactor-em-chefe e coordenador da 2ª série de Selecções BD, da Meribérica/Liber, desde o início da revista em Novembro de 1998.

In Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, de Leonardo De Sá, NonArte – Cadernos do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, Edições Época de Ouro, 1999.
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Jorge Arnaldo Sacadura Cabral de Magalhães,22 de Março de 1938, Porto.
Tem textos vários, incluindo contos, publicados nas revistas debanda desenhada Mundo de Aventuras, Mosquito (2ª série e 5ª série), Pisca-Pisca, Jornal da BD, Heróis Inesquecíveis, Selecções BD (2ª série), sendo chefe de redacção desta última, e nos fanzines Copra e Quadrinhos.
Foi coordenador da revista Mundo de Aventuras (5ª série), e em 1976 iniciou-se como argumentista em "A Lenda de Gaia", com desenhos de Baptista Mendes.
Fez argumentos para grande número de desenhadores, designadamente Augusto Trigo, Catherine Labey, Vítor Péon, Zenetto, Eugénio Silva, Fernando Bento, José Garcês, Ricardo Cabrita, Carlos Alberto, Rui Lacas, entre outros.

Tem co-autoria com Augusto Trigo nosseguintes álbuns:
Wakantanka (1º e 2º volumes, 1985 e 1988 respectivamente), Ranger, 1988, Excalibur, 1988
Lendas de Portugal (1º e 2º volumes, 1988 e 1989), Fez o argumento, para a curta desenhada por Trigo, Um Lusitano na Corte do Rei Artur parao livro Vasco Granja. Uma Vida...1000 Imagens, editado em Maio de 2003.

Co-autoria com Catherine Labey
Contos de Entre Douro e Minho, 1989
Contos de Guerra Junqueiro, 1990
Contos de Anderson, 1991
Lendas de Portugal, 1991
Contos dos Irmãos Grimm, 1992
Novos Contos das Mil e Uma Noites, 1994

Co-autoria com José Garcês
O Tambor, 1992

Co-autoria com João Mendonça
Joaninha dos Olhos Verdes, 1993

Co-autoria com Fernando Bento
Regresso à Ilha do Tesouro, 1993

Co-autoria com Ricardo Cabrita
Contos do Sul, 1993

Co-autoria com AAVV (Catherine Labey, Eugénio Silva, José Garcês, Carlos Alberto
Contos das Ilhas, 1993

Co-autoria com Rui Lacas
Maldita Cocaína, 1994
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Créditos:
A foto de Jorge Magalhães foi-me cedida por Machado-Dias, do blogue Kuentro, que, por sua vez, terá aproveitado o trabalho fotográfico de algum texiano, visto o ilustre argumentista estar a manusear ostensivamente um álbum do Tex.

Resposta de Jorge Magalhães:
Caríssimo Geraldes Lino,

Muito obrigado, em meu nome e no do Augusto Trigo, pelas amáveis e extensas referências deste blogue ao nosso trabalho em comum na área da BD.
A título de curiosidade, informo que a foto em que estou a ler uma revista do Tex (edição da Mythos) foi tirada aqui em Cascais, num ameno dia de inverno, pela Catherine Labey e postada pela primeira vez no Tex Willer Blog (de onde o Machado-Dias a deve ter sacado). Portanto, o crédito da mesma deve ser atribuído à Catherine.
Outro assunto: os títulos publicados na colecção "Lendas de Portugal em Banda Desenhada" (da Asa) são três e não dois, sendo o terceiro "A Moura Cassima". Talvez por gralha, indicaste entre as obras que realizei com a Catherine umas tais "Lendas de Portugal" que nunca existiram. Com ela só fiz, para a Asa, os "Contos Tradicionais" e os "Contos para a Infância", entre os quais os de Andersen (não Anderson), que foram reeditados em 2005, no bicentenário do H. C. Andersen.
Na primeira daquelas colecções, também fiz a adaptação dos "Contos Tradicionais de Entre-Douro e Minho" para o Renato Abreu, outro jovem desenhador (na altura) com quem gostei muito de trabalhar.
Nos prémios atribuídos pelo CPBD a A. Trigo, assinalo-te outra pequena "gralha": Desenhador Revelação do Ano de 1981 (e não de 1984).
Acho que a tua lista está bastante extensa e detalhada, mas é claro que haveria ainda mais coisas a registar, como por exemplo outra "curta" que fiz com o Trigo para o álbum da Moura Salúquia, editado pela C.M. de Moura em 2009 (com coordenação de Carlos Rico).
E há outras histórias encetadas em várias épocas (e incompletas), que para o caso não interessam... pois provavelmente nunca verão a luz da publicidade.
Ultimamente, ando a ver se consigo estabelecer uma lista dos (muitos) textos que escrevi em revistas e jornais angolanos, alguns deles sobre banda desenhada (isto ainda em 1967-68). Mas perdi muitas dessas peças (ao voltar para Portugal, em 1973), como por exemplo a colecção do "Angola Infantil" (que era um suplemento do jornal "Comércio de Luanda"). Foi neste suplemento que saiu a 1ª versão de "O Príncipe Olaf", anos depois publicada em livro na colecção "Galo de Oiro", da Portugal Press. E também um trabalho a que dei o título "Os Heróis de Coração de Papel", dedicado, já se vê, aos principais heróis da BD... e do qual escrevi cerca de 15 capítulos (entre 1971 e 1972).
Nalguns casos, fiquei com cópias dactilografadas (na minha velhinha Olivetti) desses escritos, o problema é conseguir encontrá-las no meio de tanta papelada que acumulei ao longo dos anos. Coisa que tu sabes tão bem como eu :-)
Um grande abraço, com os agradecimentos e a velha amizade do
Jorge Magalhães

In Divulgando Banda Desenhada (http://divulgandobd.blogspot.com/2016/06/augusto-trigo-jorge-magalhaes-em.html), em 20 de Junho de 2016, por Geraldes Lino


 Foto publicada no Tex Willer Blog

 Jorge Magalhães e Fabio Civitelli. Foto publicada no Tex Willer Blog, em que José Carlos Francisco realiza uma grande entrevista com  Magalhães, in http://texwillerblog.com/wordpress/?p=6659

Mário João Marques e Jorge Magalhães debatendo os conteúdos da revista nº 6  do Clube Tex Portugal




sexta-feira, 16 de novembro de 2018

MORREU STAN LEE
(1922-2018)
A LENDA DOS COMICS DA MARVEL 

Stan Lee, uma das lendas dos comics e criador de personagens como o Homem-Aranha, Incrível Hulk, Homem de Ferro, X-Men, Demolidor, Pantera Negra, Thor, entre muitos outros, morreu segunda-feira passada, 12 de Novembro de 2018. Tinha 95 anos.


Stanley Martin Lieber nasceu em Manhattan, Nova Iorque, em 28 de Dezembro de 1922, filho do casal Jack e Celia Lieber, ambos judeus imigrantes da Roménia. A família de Lee era relativamente pobre, tendo ele morado boa parte da infância e da adolescência em um "quarto-e-sala" na região do Bronx, periferia de Nova Iorque, em que ele e o irmão dividiam o pequeno e único quarto do apartamento e os pais dormiam em um sofá-cama na sala. Durante a adolescência, Lee estudou na DeWitt Clinton High School, também no Bronx.

Desde pequeno, Lee gostava de escrever, e o seu sonho durante a adolescência era escrever um dia um grande romance. Inteligente, Lee formou-se na escola relativamente cedo, aos 15 anos, tendo começado por escrever obituários em jornais; entregando sanduíches em escritórios do Rockefeller Center; trabalhando como office boy num fábrica e como "arrumador" no Teatro Rivoli na Broadway.

Tinha 95 anos e morreu no Cedars-Sinai Medical Center em Los Angeles, Califórnia, depois de ter sido levado para lá numa emergência médica no início do dia.

Com a ajuda do seu tio Robbie Solomon, Lee tornou-se assistente em 1939 da editora Timely Comics, divisão de revistas, pulps e comics, de Martin Goodman, que na década de 1960, evoluiria para a Marvel Comics. Lee, cuja prima Jean, era a esposa de Goodman, foi formalmente contratado pelo editor da Timely, Joe Simon.


Stan Lee na década de 1960

O seu primeiro trabalho publicado foi uma conto ilustrado por Jack Kirby”, intitulado Captain America Foils the Traitor's Revenge, publicado em em Captain America Comics #3 (de maio de 1941), usando o pseudónimo Stan Lee. Lee explicou mais tarde na sua autobiografia, que pretendia salvar seu nome dado para outros trabalhos mais literários. Esta história inicial também introduziu o uso do escudo do Capitão América como uma arma de arremesso. Iniciou-se criando histórias em banda desenhada para as revistas Headline Hunter e Foreign Correspondent. A primeira criação de super-heróis de Lee foi o Destroyer, na Mystic Comics #6 (Agosto de 1941). Outras personagens que criou durante este período, a que os fãs e historiadores chamam de Era de ouro dos comics americanos incluem Jack Frost, estreando em USA Comics #1 (Agosto de 1941), e Father Time, estreando em Captain America Comics #6 (Agosto de 1941).


Quando Joe Simon e o seu parceiro criativo, Jack Kirby, saíram no final de 1941, após uma disputa com Goodman, o editor de 30 anos nomeou Lee, com menos de 19 anos, como editor interino. Um talento para o negócio que o levou a permanecer como editor-chefe da divisão de revistas de comics, bem como director de arte até 1972, quando sucederia a Goodman como publisher.

Lee ingressou no Exército dos Estados Unidos no início de 1942 e serviu como membro do Signal Corps, consertando postes telegráficos e outros equipamentos de comunicação. Mais tarde, foi transferido para a Divisão de Filmes de Treinos, onde trabalhou a escrever manuais, filmes de treinos, slogans e, ocasionalmente, criando cartoons. A sua classificação militar, afirmou, era a de dramaturgo; acrescenta que apenas nove homens no exército dos Estados Unidos receberam esse título. Vincent Fago, editor da secção "animation comics" do Timely, que publicava comics de animais, até que Lee retornou de seu serviço militar na Segunda Guerra Mundial em 1945. Em meados da década de 1950, quando a empresa passou a ser conhecida como Atlas Comics, Lee escreveu histórias em vários géneros, incluindo romance, faroeste, humor, ficção científica, aventuras medievais, terror e suspense. Na década de 1950, Lee uniu-se ao seu colega Dan De Carlo para produzir a tira de jornal, My Friend Irma, baseada na comédia de rádio interpretada por Marie Wilson. No final da década, Lee não estava satisfeito com a sua carreira e pensou em abandonar o ramo.

Revolução da Marvel
No fim da década, a DC Comics reanimou o género dos super-heróis com um sucesso imenso com a super equipa da Liga da Justiça da América. Em resposta, Martin Goodman, o publisher (chefe editorial) da Marvel, deu a Lee a tarefa de criar um grupo novo de super-heróis. Lee estava a chegar aos 40 anos e considerava-se velho para aquele tipo de trabalho: escrever comics de super-heróis estereotipados. Foi então, no início dos anos 60, que sua mulher, Joan, sugeriu que ele deveria realmente criar as suas próprias personagens, ao seu modo. Não teria nada a perder, pois estava mesmo a pensar em abandonar a carreira. Lee seguiu o conselho da esposa e, de repente, a sua carreira mudou completamente.

Com a ajuda de Jack Kirby, Lee deu aos seus novos super-heróis sentimentos mais humanos, uma mudança dos seus outros heróis, que eram tipicamente escritos para pré-adolescentes. Os seus heróis tinham um temperamento que pode considerar-se fraco, ficavam melancólicos, cometiam erros humanos normais. Preocupavam-se em pagar as suas contas e impressionar as suas namoradas, e às vezes ficavam até doentes fisicamente. Os super-heróis de Lee agarraram a imaginação dos adolescentes e jovens adultos, e as vendas aumentaram brutalmente.

O primeiro trabalho conjunto entre Lee e Jack Kirby foi o grupo de super-heróis conhecido como O Quarteto Fantástico (Fantastic Four). A sua popularidade imediata fez com que Lee e os ilustradores da Marvel produzissem vários novos títulos. Lee criou o Incrível Hulk, o Homem de Ferro, Thor e os X-Men com Kirby; Demolidor (Daredevil) com Bill Everett; Doutor Estranho e o personagem de maior sucesso da Marvel: o Homem-Aranha, criado com Steve Ditko. E também criou o Capitão Marvel (Marvel Comics), pois existiam em outras editoras como a Fawcett Comics que possuíam heróis com o nome de “Capitão Marvel”, e para não usar o nome 'Marvel' num personagem que não fosse da Marvel Comics. foi feito para Marvel o seu próprio Capitão Marvel.


Pela década de 1960, Lee escreveu, coordenou a vertente ilustrativa e editou a maior parte das séries da Marvel, moderou as páginas de cartas e escreveu uma coluna mensal chamada "Stan's Soapbox", escreveu muito material promocional, sempre assinando com a frase que é a sua marca registrada: "Excelsior!".

Carreira posterior
Nos últimos anos, Lee tornou-se um ícone e a cara pública da Marvel Comics. Fez aparições em convenções de histórias de comics pelos EUA, participando em palestra e em discussões. Mudou-se para a Califórnia em 1981 para desenvolver as propriedades de televisão e filmes da Marvel.

Lee também apareceu em Os Simpsons e fez a voz de uma personagem na série animada produzida pela MTV do Homem-Aranha. Durante a revolução da Internet, criou o StanLee.net, que pertencia a uma companhia separada e administrada por outros que tinha como conceito misturar animação online com tiras de comics tradicionais, mas a companhia ficou conhecida pela sua má administração e irresponsabilidade financeira.

Na década de 2000, Stan Lee fez seu primeiro trabalho para a DC Comics, lançando a série Just Imagine… ("Apenas Imagine…"), na qual Lee recriava vários super-heróis incluindo Superman, Batman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde e Flash. Lee também criou a série animada para adultos Stripperella para a Spike TV e em 2004 anunciou planos para colaborar com Hugh Hefner numa série animada, das coelhinhas da Playboy.




Em Agosto de 2004, Lee anunciou o lançamento da "Stan Lee's Sunday Comics", para serem hospedadas no Komikwerks.com, onde assinantes mensais poderão ler uma nova e actualizada história todos domingos. A Stan's Soapbox voltaria como uma coluna semanal junto da tira de domingo.

Em 2006 Stan criou e participou no reality show Who Wants to Be a Superhero?. Em Abril de 2008, na New York Comic Con, a Viz Media anunciou que Lee e Hiroyuki Takei estavam a colaborar no mangá Karakuri Dôji Ultimo, da empresa-mãe Shueisha. Em 2009 escreveu o argumento do mangá Heroman, ilustrado por Tamon Ohta, em 2011 escreveu o argumento do musical The Yin and Yang Battle of Tao.



sábado, 3 de outubro de 2015

MORREU HOJE JOSÉ VILHENA (7-7-1927 – 3-10-2015)


JOSÉ VILHENA 
MORREU HOJE 
7 de Julho de 1927 - 3 de Outubro de 2015

Escritor, cartoonista e pintor, José Vilhena foi o grande sátiro da condição portuguesa, em ditadura e em liberdade, sem poupar nos alvos e com gosto declarado pelo erotismo. Morreu este sábado, aos 88 anos.

Nascido em Figueira de Castelo Rodrigo, a 7 de Julho de 1927, José Vilhena foi Cartoonista, humorista, escritor e pintor. Quatro condições interligadas na vida e obra de um homem que, desde a década de 1950, se dedicou a satirizar, sem poupar ninguém, dos poderosos ao povo oprimido, a realidade política e social do país em que nasceu. Antes do golpe de Estado de 25 Abril de 1974, viveu com a censura à perna de forma quase ininterrupta, ou não tivesse assinado quase seis dezenas de livros, todos censurados, todos vendidos ao seu público fiel por baixo da mesa nas tabacarias.

O velório de José Vilhena realiza-se no domingo a partir das 18 horas na Basílica da Estrela, em lisboa, estando o funeral previsto para as 11 horas para o cemitério do Alto de S. João, onde se realiza a cerimónia de cremação, pelas 12 horas, disse um familiar à Lusa.

Natural de Figueira de Castelo Rodrigo, no distrito da Guarda, estudou Arquitetura na Escola Superior de Belas-Artes, no Porto, vindo a instalar-se em Lisboa, onde na década de 1950 assinou cartunes para os jornais "Diário de Lisboa", "Cara Alegre" e "O Mundo Ri", (de que foi um dos fundadores).

"José Vilhena foi o autor incontornável de três ou quatro décadas do humor em Portugal. A sua obra, na tradição de Gil Vicente, Bocage ou Bordalo Pinheiro, é uma crónica dos tempos. Umas vezes pela crítica de costumes, outras vezes no olhar sobre a política, outras sobre a Igreja e quase sempre sobre a mulher", afirma em comunicado enviado à Lusa, o seu sobrinho Luís Vilhena.






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domingo, 20 de julho de 2014

MORREU ESTROMPA (1942 – 2014)

Estrompa na Vilelivros (a loja do José Manuel Vilela), em 2 de Dezembro de 2003. 
Foto J. Machado-Dias.

MORREU ESTROMPA (1942 – 2014)

Ainda não conhecemos as circunstâncias (nem a data) da morte de João Estrompa, que nos foi comunicada ontem à tarde (19 de Julho) por Leonardo De Sá.

Aqui ficam a Biografia do autor, do Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, de Leonardo De Sá e António Dias de Deus e uma peça de Geraldes Lino publicada no Tertúlia BDzine #64, de 4 de Março de 2003. Deixo também o Tertúlia BDzine #63 com a história Batman, de Estrompa, editada nesse mesmo Encontro. Estrompa viria a ser Homenageado no 264º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa em 7 de Novembro de 2006.
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José João Amaral Estrompa nasceu a 8 de Fevereiro de 1942, em Lisboa. Cursou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e começou a sua carreira como desenhador litógrafo. Foi um dos colaboradores gráficos das versões portuguesas de Tintin e Spirou, assim como dos álbuns da Colecção Banda Desenhada, da Bertrand. No Diário de Notícias Semanal teve a secção "Humor de Estrompa" (1982-83), colaborando em Pão Com Manteiga, Tintin, O Mosquito (5ª série), Jornal de Almada, Selecções BD, Notícias do Entroncamento. Publicou várias histórias e ilustrações em fanzines como Protótipo, Almada B.D. Fanzine, Banda, Comic Cala-te, Boom!!!, Classe Média, BD & Roll, Seasons of Glass, Vertigens, Cafénopark, e Shock Fanzine, sendo editor destes dois últimos. Um dos seus personagens carismáticos é o detective de paródia, "Tornado", numa Nova Iorque que mais parece o Bairro Alto ou o Cais do Sodré que o Bronx... Essa figura de gabardina voltou às investigações sumárias na 2ª série de Selecções BD, em 1999. Participou no álbum colectivo Entroncamento de BD's, em 1996, e em diversas exposições, tendo recebido prémios nas categorias BD e cartoon.

In Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal, de Leonardo De Sá e António Dias de Deus, NonArte – Cadernos do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, Edições Época de Ouro, Costa de Caparica 1999.

Acrescentemos também que Estrompa participou na Mutate & Survive (Colecção Chili Com Carne #2; 2001), na Lx Comics nº 13 (Tornado – Só me Saem Dukes!), em Outubro de 2002 e Vasco Granja: Uma Vida... Mil Imagens, em 2003. Colaborou ainda no BDjornal #5, de Setembro de 2005, com as sete pranchas de Uma História Triste - que republicaremos aqui amanhã, na íntegra.



Com Luís Louro, no FIBDA 2005
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BIOGRAFIA DE ESTROMPA
AUTOR DE BD 
E TORNADO 1989
O SEU HERÓI PREDILECTO 

por Geraldes Lino

José João Amaral Estrompa nasceu em Lisboa, em mil novecentos e quarenta e dois (mas parece ter a idade do Tornado, desde que rapou a barba). Frequentou a Escola António Arroio, sem ter concluído o respectivo curso. A sua área profissional foi sempre a Publicidade e Artes Gráficas. Nas revistas Tintin, Pão com Manteiga, DN Semanal, Mosquito (5ª série) e Selecções BD (1ª série) publicou cartoons e bedês cómicas, de uma página, com animais de características antropomórficas – Pink (um gato) e Smaile (um cão que tem um gato amigo chamado Smool). Mas a sua maior produção é mesmo nos fanzines, com destaque óbvio para os numerosos episódios da sua série de referência, o Tornado 1989 – este já com duas merecidas promoções: ao fazer dez anos de existência (1999) teve publicação na revista Selecções BD (2ª série), surgindo posteriormente em álbum editado pela Bedeteca de Lisboa. Foi de igual modo nos fanzines que, embora de forma esporádica, Estrompa fez viver a comportamentalmente subversiva Família Darling.

Sempre com a fusca calibre 69 pronta a entrar em acção, uma beata permanente ao canto da boca, chapéu, gravata amarela sobre camisa de seda azul (apesar de a série sempre ter sido publicada a preto e branco, sabemos que são essas as suas cores, graças às descrições do narrador), mais as suas inseparáveis luvas de genuína pele de porco – tão inseparáveis que nem nas cenas de sexo as tira ! –, Tornado 1989 é um dos raros heróis fixos da banda desenhada portuguesa. Com a particularidade de ter nascido e vivido até há pouco unicamente nas páginas dos fanzines – Banda, Comic Cala-te, BD & Roll, Shock, Almada BD Fanzine, CaféNoPark, Seasons of Glass, Boom e Tertúlia BDzine, por onde já se espalham duas dezenas de episódios. O seu aparecimento em Julho de 1999, no nº 2 (2ª série) da revista Selecções BD correspondeu à oportunidade de saltar das publicações amadoras para uma profissional. Três anos depois, Tornado voltou a ter a oportunidade de mostrar-se em suporte de prestígio, a colecção LX Comics editada pela Bedêteca de Lisboa.

Estrompa, o autor (argumento e desenho) do Tornado 1989, considera-o como que “um cavaleiro andante do asfalto”. Ternuras cúmplices de criador... Do que não há dúvidas é que, seja no nome, seja no aspecto físico, ou até no vestuário, ele tem semelhanças com Torpedo 1936, personagem de referência na banda desenhada espanhola, criada pelo traço de Jordi Bernet sob o argumento de Enrique Sanchez Abulí. Quando Estrompa viu pela primeira vez o Torpedo, em 1985, nos álbuns da entretanto extinta Editorial Futura, apercebeu-se que ele lhe fazia voltar à memória as imagens de alguns actores que o tinham impressionado na infância, uns tais Humphrey Bogart, James Cagney, Edward G. Robinson... Daí a criação de Tornado 1989, anti-herói que o autor admite ter desenhado um tanto à maneira de pastiche do Torpedo, embora sejam de sua autoria, enquanto argumentista, as diferentes e muito especiais características de malandro profissional evidentes no Tornado – o qual tem sido um pouco de várias coisas: polícia, mas também ladrão, detective, dono de um bar em Casablanca... – versatilidade que lhe confere uma personalidade desconcertante e muito própria.

Tornado foi criado graficamente em 1989, pormenor em destaque no nome de guerra com que se apresenta. Ao longo da sua existência tem-se constatado que ele possui tendências, humorísticas e críticas, diferentes da do respectivo modelo. Os constantes apartes, brejeiros ou sardónicos, que intercalam os diálogos e pensamentos da personagem, bem como os comentários mordazes do narrador, criam à série, por sua vez, uma textura interventiva que rareia nas suas congéneres. Aliás, Estrompa, o seu manipulador literário e gráfico, envolve-o nas mais insólitas peripécias, desde obrigá-lo a fazer-se passar por travesti (a “menina” Tornada, no episódio Torpedo contra Tornado), a deixá-lo apanhar uma doença venérea (no episódio Uma História de Cowboys), até não o poupar a uma cena imprópria para um protótipo de machão latino: a de ser sodomizado por dois ou três “gorilas”, às ordens dum mafioso com voz cavernosa e cara de Marlon Brando (episódio O Padrinho). Estas e outras situações insólitas, conferem-lhe uma dimensão ficcional de grande originalidade no universo da banda desenhada portuguesa, tornando-o num anti-herói exemplar.

Para quem entrar pela primeira vez em contacto com Tornado, há que esclarecer que o seu nome real é Bogarte – para os amigos já foi Garte, passou depois a ser Bogey, mas, para as “girls”, foi sempre e apenas o Boga. Tornado é simples alcunha, criada por ele expressamente para a bófia, mas serve igualmente para os tansos e “nalfabétus”, conforme diz no seu português rasca em ocasionais confidências. Quanto à idade, tem a que aparenta : quarenta sombrias “prima-beras” – assim escreve o seu “biógrafo” Estrompa – completadas num qualquer mês do signo de Carneiro; no que se refere ao local de nascimento, os elementos fornecidos na sua apresentação (Banda nº 10, Agosto de 1990) não são minimamente credíveis, visto que mencionam em simultâneo, dois locais geograficamente bem distantes: Nova Iorque e Casal Ventoso! Será que, afinal, é português de origem, embora naturalizado americano? Com efeito, ele conhece bem Lisboa, tão bem que até gosta, como diz a certa altura, “de ir beber um uísque com gêlo a uma espelunca ali p’rós lados do Parkmayer” (citação textual). Mesmo a sua divulgada filiação – pai polaco, mãe italiana, emigrantes – poderá ter sido forjada, para despistar a bófia. Onde estará a verdade ? Alguma vez se virá a saber ?

Estrompa & Tornado formam uma dupla muito sabidona, sempre com trunfos escondidos na manga...

Editor : Geraldes Lino – Tiragem 500 exemplares

Este nº foi dedicado ao ciclo Quem é quem no Tertúlia BDzine, que incluiu a biobibliografia de Estrompa, deu especial relevo à sua personagem “Tornado 1989”

in Tertúlia BDzine, Nº 64, 4 Marco 2003 – Distribuição gratuita na Tertúlia BD de Lisboa


À direita, Estrompa e João Miguel Lameiras...

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segunda-feira, 14 de julho de 2014

AS NOTÍCIAS DA MORTE DE NUNO SAN-PAYO (1 de Maio de 1926 – 10 de Julho de 2014) – EXERCÍCIOS DE “JORNALISMO MINIMALISTA”.


AS NOTÍCIAS DA MORTE 
DE NUNO SAN-PAYO 
(1 de Maio de 1926 – 10 de Julho de 2014) 
EXERCÍCIOS DE 
“JORNALISMO MINIMALISTA”

A nota necrológica sobre o falecimento do arquitecto, ilustrador e artista plástico Nuno Belger Alves de San-Payo, falecido a 10 de Julho, e que no final da passada semana apareceu em quase todos os jornais portugueses, foi distribuida pela agência Lusa – que, note-se, não fez mais que o seu trabalho. Agora, que jornais como o Público, Correio da Manhã, Diário de Notícias e outros, se tenham limitado simplesmente a divulgar a mesma nota – tal e qual –, parece-me uma atitude indigna do tratamento que deveria ser atribuído a uma das mais ilustres figuras da cultura portuguesa do séc. XX. Este tratamento foi aquilo a que chamamos “jornalismo minimalista”, se calhar devido a outras coisas mais importantes, como o Campeonato do Mundo de Futebol, a crise do BES, ou a enésima demonstração da prepotência israelita sobre os palestinianos...

Daí que tal nota necrológica tenha merecido de Leonardo De Sá, investigador meticuloso sobre biografias e obras de diversos autores de banda desenhada e não só, a cujo trabalho já nos habituámos há muito, o comentário que transcrevemos abaixo e que nos motivou a avançar um pouco mais sobre “quem foi Nuno San-Payo”.

Comentário de Leonardo De Sá:

“Também ignoram aparentemente que foi ilustrador, cartoonista, cartazista e, já agora, que também fez histórias aos quadradinhos no jornal Os Sports, no Diário de Notícias, nas revistas Lusito, Camarada e Diabrete. Nem referem o irmão, Vasco San-Payo, também arquitecto e desenhador, e que, esse sim, nasceu em Lisboa...

O DN nem refere que foi colaborador do próprio jornal, santa ignorância!”

Biografia de Nuno San-Payo, publicada na Infopédia – com alguns erros, nomeadamente o local de nascimento:

Artista plástico, filho do célebre fotógrafo San-Payo, nasceu em Lisboa em 1926. Licenciou-se em Arquitetura, frequentando a Escola de Belas-Artes tanto de Lisboa como do Porto. Desde pequeno que se iniciou no desenho mas a sua arte preferida é a pintura, expondo desde 1948 nas exposições gerais de artes plásticas da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Dedicou-se a esta instituição, ocupando durante mais de duas décadas cargos nos corpos diretivos, no conselho técnico, na direção, sendo presidente desta entre 1971 e 1979 e, depois presidente da assembleia-geral.

A habilidade para o desenho permite a Nuno San-Payo realizar uma obra de estilo variado. Figurativo-expressionista no início da década de 1950, passa depois a um abstracionismo geométrico, onde são por vezes reconhecíveis estilizações de objetos, nomeadamente no final desta década, e elementos dos vegetais dos trópicos, consequência, talvez, das suas viagens. Nos anos 1960 pratica um abstracionismo lírico, com delicados efeitos de transparências e aproveitamento do escorrer livre das tintas e da sua absorção no suporte. Durante os anos 1970 realiza pinturas neofigurativas inspiradas em fotografias em alto contraste, representando cenas da vida quotidiana, em silhuetas e estilizações de contornos. Nos anos 1980 intensifica a sua atividade como pintor, abandonando completamente a arquitetura. A sua pintura torna-se mais complexa, em composições apoiadas na estrutura da natureza-morta que persegue, porém, um sentido abstratizante na construção de um espaço dinâmico e onde se insere um sensível jogo de valores luminosos.
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Biografia de Nuno San-Payo, publicada no Dicionário dos Autores de Banda desenhada e Cartoon em Portugal, de Leonardo De Sá e António Dias de Deus, Colecção NonArte (Cadernos do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem), Edições Época de Ouro, Almada, 1999:

San-Payo, Nuno

Filho do fotógrafo e artista plástico Manuel Alves San-Payo, Nuno Belger Alves de San-Payo nasceu a 1 de Maio de 1926, em Petrópolis, no Brasil, e frequentou o Colégio Alemão. Formou-se em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto e pela de Lisboa, tendo sido discípulo de Cristino da Silva. Fez parte da direcção da Sociedade Nacional de Belas Artes durante dezasseis anos, metade dos quais como presidente. Pintor, tem trabalhos seus em várias instituições e junto de particulares, tendo participado em diversas mostras nacionais e estrangeiras, colectivas e individuais. Foi membro do júri em exposições e concursos de arquitectura, pintura, fotografia e medalhística. Realizou cenários e figurinos para o cinema e fez cenografia, nomeadamente no Teatro da MP. Cartazista, também ilustrou livros e revistas, tendo feito histórias aos quadradinhos no jornal Os Sports, no Diário de Notícias, e na revista Camarada, em Lusito (1944) e Diabrete. Participou no Jornal da MP, com boas ilustrações em "Tângio", de 1945. Colaborou em Guião (1949) e em Imagem (1952).

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Nota do Catálogo da Exposição antológica no Museu do Neo-Realismo (Vila Franca de Xira), com curadoria de Rui-Mário Gonçalves. 
Patente de 19 de Outubro de 2013 a 24 de Agosto de 2014, cujo vídeo de apresentação se pode ver AQUI

A obra de Nuno San-Payo encontra-se representado em diversas colecções importantes: Fundação Calouste Gulbenkian, Museu do Chiado, Museu do Neo-Realismo, Museu Municipal do Sabugal, Ministério da Cultura, Caixa Geral de Depósitos, EPAL, Colecção de Arte Moderna do Funchal, Secretarias de Estado do Comércio e da Indústria, Câmara Municipal de Góis, Galeria de Desenho do Museu Municipal de Estremoz, sendo apontado como uma referência na pintura contemporânea portuguesa.


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