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quarta-feira, 17 de abril de 2019

O INCÊNDIO NOTRE-DAME A CAPA DE CHARLIE HEBDO É UMA PROVOCAÇÃO A MACRON

Reformas - "Eu começo pela carpintaria"

O INCÊNDIO DE NOTRE-DAME
A CAPA DE CHARLIE HEBDO 
É UMA PROVOCAÇÃO A MACRON 

Promessa de restauração da catedral de Notre Dame, no dia em que o país esperava respostas para os protestos dos Coletes Amarelos, gera críticas.

Acapa desta terça-feira do jornal satírico Charlie Hebdo reporta ao incêndio na Catedral de Notre-Dame, materializando uma crítica ao presidente francês Emmanuel Macron.

Sobre um fundo vermelho, a publicação usa uma caricatura de Macron, em que os seus cabelos formam a catedral em chamas. Nela não se esquece a promessa de Macron, que na noite passada garantiu que o monumento será reconstruído.

A promessa é o alvo da crítica da publicação, fazendo referência às reformas que o país tanto pede. Isto porque a tragédia fez com que Macron adiasse o discurso onde iria anunciar as medidas relacionadas com os sucessivos protestos dos coletes amarelos.

A capa já está a dar que falar com muitos a consideraram que se trata de uma opção de mau gosto, tendo em conta a inigualável perda a que França e o mundo assistiram ontem.

A revista está, segundo a própria indica, disponível em 50 quiosques de Paris.

Jornal satírico francês é conhecido pela abordagem controversa a temas da actualidade.
O jornal satírico francês Charlie Hebdo foi um dia mais cedo para as bancas (normalmente, sai às quartas-feiras) devido a incêndio que deflagrou na catedral de Notre-Dame, na capital parisiense. A publicação colocou o presidente francês, Emmanuel Macron, na capa da edição desta semana aludindo ao incêndio no monumento histórico.

Macron surge em fundo vermelho, em forma de caricatura, com os cabelos em chamas, no formato da catedral de Notre-Dame. Em reação ao acontecimento da noite passada, o presidente garantiu prontamente reconstruir o monumento e adiou um discurso à nação onde iria anunciar medidas para responder aos protestos dos "coletes amarelos".

A par com alguns críticos, o jornal critica esta postura de Macron pode dar prioridade ao incêndio em detrimento de um protesto que dura há meses no país. Como habitualmente a capa está a gerar controvérsia. Há quem apoie a crítica, outros consideram esta uma opção de mau gosto, tendo em conta a perda de parte de um património cultural inigualável, Património Mundial da Humanidade desde 1991.

 Como era o edifício da Notre Dame...
... e como ficou.


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Bdpress #455: O CHARLIE JÁ NÃO SERÁ O CHARLIE


O Festival Internacional de BD de Angoulême termina hoje. Já foi escolhido o Grande Prémio do ano: Katsuhiro Otomo e foi atribuído um Grande Prémio Especial à redacção do Charlie Hebdo – assunto que domina o Festival deste ano, como não podia deixar de ser. Falta noticiar quais os livros premiados deste ano, que esperamos publicar amanhã aqui no Kuentro. Hoje deixamo-vos um texto excelente de José Marmeleira publicado no PÚBLICO de quinta-feira, dia 29 – complementado com um curto de Claudia Carvalho – que faz a História do Charlie Hebdo.


O CHARLIE JÁ NÃO SERÁ O CHARLIE

 Publico, 29 JAN 2015

A história do Charlie Hebdo é indissociável da história da banda desenhada francesa. Ouvimos três especialistas para pensar o futuro no dia da abertura do Festival de Angoulême

Cartoon

José Marmeleira

Foi em 1995 que a banda desenhada francesa se viu dividida por uma po­lémica inédita. A entrega do Grande Prémio, em Angoulême, a Philippe Vuillemin provocou a ira de Morris e o incómodo de outros autores. O desenhador de Lucky Luke che­gou mesmo a abandonar o júri do famoso Festival, que regressa hoje [quinta feira, dia 29] sob o signo de Charlie Hebdo, o semanário satírico francês alvo de um atentado em Janeiro que matou doze pessoas.

A que se deveu aquela polémica em An­goulême? Mais do que ao estilo de desenho, ao conteúdo das bandas desenhadas de Vuillemin, em parti­cular Hitler=SS, com textos de Jean-Marie Gourio. A sua publicação em formato de jornal e a exposição em galerias fora proibida em 1989 e os dois autores acabaram condenados, apesar das intervenções do advogado Thierry Levy e do autor Gotlib (am­bos franceses de origem judia). O que continham as páginas de Hitler=SS? Uma sátira brutal ao Holocausto, que representava, com o mesmo escár­nio, vítimas e algozes.

Este intróito é útil para contextua­lizar culturalmente o Charlie Hebdo e pensar a sua eventual singularidade francesa. Vuillemin também dese­nhou na revista satírica que (renas­ceu em 1970 das cinzas da "bete et méchant" Hara-Kiri, proibida pelas autoridades depois de fazer humor com a morte de Charles de Gaulle. Resumindo, o jornal que deve o seu nome a Charlie Brown (sim, é verda­de: foi emprestado pela irmã Charlie Mensuel, uma notável revista de BD) [Nota do Kuentro: na verdade, o nome Charlie não tem nada a ver com os outros Charlie que o autor do texto menciona, mas sim com o petit nom de Charles – Charlie – De Gaulle, por causa do último número do Hara-Kiri, que parodiava a morte do antigo Presidente Francês e ter sido, por isso, proibido pelo então Presidente Pompidou – tratou-se, portanto de uma pequena vingança] inscreve-se na tradição do desenho humorístico e da banda desenhada francesa. "Nasceu do Maio de 68, da laicidade, de uma tradição rabelaisiana", sublinha o historiador e crítico francês Jean-Christophe Boudet, evo­cando François Rabelais (1494-1553), autor de Pantagruel e Gargântua, co­mo um antepassado directo do jor­nal. "Tem antepassados na imprensa satírica francesa, como o Le Charivari [publicação do século XIX]. A sua sátira significa emancipação da censu­ra. Troça de todos os poderes, sejam políticos, religiosos ou económicos. Não tem mestre, nem Deus".

Já no mundo anglófono a realida­de é distinta, e por várias razões. "O espírito do Maio 68 extinguiu-se rapi­damente nos Estados Unidos e na In­glaterra", lembra Jeet Heer, jornalista e crítico canadiano. "E as publicações dependem mais da publicidade do que as francesas, os anunciantes não gostam de imagens controversas. No mundo anglófono, os editores são muito sensíveis a esse tipo de humor, pois as minorias estão mais atentas e mais bem organizadas politicamente. E os seus protestos são eficazes."

Curiosamente, a Hara-Kiri e o Charlie Hebdo, nas suas diferentes encarnações, foram bastante perme­áveis à influência da banda desenha­da americana. A Mad, revista humo­rística fundada por Harvey Kurtzman em 1952, e na qual colaboraram Will Eisner, Tom Wolfe ou Jules Feiffer, "teve um impacto libertador nos au­tores franceses, como teve o Robert Crumb", polémico e premiado autor americano de BD, recorda o crítico canadiano. "A tradição do underground americano revelar-se-ia mais profunda em França que nos EUA, in­clusive na composição das páginas".

O QUE MUDOU

O historiador Jean-Christophe Bou­det concorda e acrescenta o nome do Saul Steinberg, ilustrador e cartoonista, que figurou em 1947 ao lado de Arshille Gorky e Robert Motherwell na exposição Fourteen Americans. "No entanto", assevera, "a partir dos anos 70, a mais importante in­fluência surgiu da primeira geração de autores franceses da Hara-Kiri". Charb, o director do Charlie Hebdo que morreu no atentado, e Riss, que estava na redacção na altura do ata­que, continua Boudet, "encontraram as suas referências em Cabu [também vítima do atentado] e Jean-Marc Reiser", que publicou em várias revistas de BD e cujo humor cru e minima­lista não poupava as classes popu­lares. "Em contrapartida, o Charlie não teve qualquer impacto na banda desenhada anglófona”.

A história do Charlie Hebdo é indis­sociável das mutações que a banda desenhada e a sociedade francesa co­nheceram desde os anos 70. Apagado o nome Hara-Kiri, a Charlie Hebdo so­breviveria até 1981: a descida do nú­mero de assinaturas e das vendas nas bancas assinalava o progressivo de­clínio das revistas periódicas de ban­da desenhada, que atingirá a Charlie Mensuel. Regressará em 1992, com os autores da primeira geração, mas a outra sociedade. "Sim, é verdade, vão encontrar uma sociedade mais conservadora, de que o regresso das religiões me parece um sintoma, e um contexto económico mais difícil. O politicamente correcto e o merca­do transformaram-se em ideologias. Eles tiveram a oportunidade, no en­tanto, de 'capitalizar' a sua gloriosa luta contra a censura, o que lhes permitiu manter a independência".

O arqueólogo português Cláu­dio Torres, especialista em cultura islâmica, também acompanhou a evolução do jornal. "Um autor co­mo o Wolinski”, outra das vítimas, "foi muito importante para a minha geração, pelo modo como cultivou, no seu desenho atávico, o protesto e o humor. Simbolizou, mais do que a França, a Paris do Maio do 68, da contestação". Mas os tempos foram mudando. "Era uma publicação de esquerda, anticlerical, que troçava dos poderosos, e começou a troçar dos mais fracos, dos pobres, dos que estão em baixo. A sua sátira deixou de ter a mesma imaginação e subti­leza", lamenta. Entretanto, o jornal terá esquecido que também Paris mudara e que, sobretudo, reflectia uma realidade mais complexa. "Esse espírito herdado dos anos 60 e 70 confronta-se ainda hoje com uma for­te comunidade magrebina que fugiu da guerra e da pobreza dos seus paí­ses e à qual só resta a religião. É com o Islão que tem forjado a sua identi­dade, no seguimento da colonização e do terrível conflito que foi a Guerra da Argélia".

O historiador português não pre­tende explicar o massacre de 7 de Ja­neiro, mas enfatizar, cautelosamente, a complexidade das circunstâncias que são também políticas e globais. "Não podemos desligar o massacre terrível da reacção dos EUA ao 11 de Setembro e à criação de Israel numa zona que foi sempre um ponto de encontro entre civilizações. Foram acções estúpidas e retrógradas que arrastaram as pessoas para um am­biente de violência e guerra".

Nesta encruzilhada terrível e ex­plosiva, faça-se a pergunta: é possível encontrar representações de Mao­mé no mundo muçulmano? "Sempre existiram, sobretudo no mundo de expressão xiita, influenciada pela cul­tura persa. Mas nunca se represen­tou a grande divindade. O deus-pai nunca foi representado em nenhuma religião. As representações dentro da iconografia religiosa são muito recentes. É uma figura tão forte que não é representável." Esta iconofobia religiosa não é um atributo apenas do Islão. Marcou a história do Judaísmo e do Cristianismo. "De uma forma geral, nas religiões monoteístas, há uma tendência para a abstracção, sobretudo quando a dominante civili­zacional é o grande comércio. Nas zo­nas rurais, no mundo dos mosteiros, no continente europeu, sobreviveu uma representação figurativa muito forte. Foi dominante no catolicismo bizantino e romano, enquanto no Mediterrâneo sobreviveu uma re­presentação abstractizante".

IR MAIS LONGE

Regresse-se, entretanto, ao Charlie Hebdo. Ouviram-se críticas ao modo como o jornal representava as mi­norias, ultrapassando, várias vezes, a fronteira da sátira racista, com as suas óbvias distorções. Nada de no­vo. Apesar de importantes excepções (Farid Boudjella, Baru, Yvan Alagbé, entre outros), a história da BD franco-belga está cheia de estereótipos, de imagens que reduzem o outro asiáti­co, africano, árabe a uma caricatura (quem se recorda de Iznogoud, de Goscinny e Tabary?).

No universo dos comics e das no­velas gráficas americanas, embora com os seus casos – destaque-se o debate provocado por Habibi, de Craig Thompson –, o cenário alte­ra-se, pois os críticos e os jornalistas são velozes a identificar os exageros e os "desvios" dos autores. Robert Crumb que o diga: depois de várias controvérsias em torno da sua re­presentação de homens e mulheres afro-americanos, abandonou o pa­ís natal e estabeleceu-se numa vila francesa.

Fale-se então de sátira racista que, como toda a sátira racista, se abate, nos países ocidentais, sobre as minorias. "Sim é verdade, ela existe [no Charlie Hebdo]. Mas a melhor resposta a esse tipo de sátira só po­de ser uma: a da crítica, nunca a da violência", diz Jeet Heer.

Jean-Christophe Boudet tem reser­vas quanto ao uso da palavra "racis­ta". "Os desenhos humorísticos do Charlie Hebdo troçam de todas os sistemas e estruturas. São imagens de imagens e, por isso, incompre­ensíveis para quem olha para uma imagem apenas como uma represen­tação. A capa do 'Charlie dos sobre­viventes' é nesse aspecto exemplar. Não é o profeta que é caricaturado, mas as imagens que algumas pessoas têm do profeta, por razões que nem sempre têm a ver com a religião".

Para o historiador, o que está em causa é um "analfabetismo" de imagens que ainda grassa na so­ciedade, por isso "gostava de ver o mundo muçulmano a debater ou a clarificar a sua posição em relação às imagens". Mas não terão ido os caricaturistas longe de mais na sua sátira? "Não, pelo contrário. Os seus trabalhos denunciavam, pelo riso, tudo o que era norma ou que se es­tava a tornar norma, como o racis­mo. É importante também salientar que, no Charlie, todo o insulto que prometia a morte e o sofrimento era visto como um encorajamento para ir mais longe. O radicalismo das edi­ções mais recentes, antes do ataque, foi proporcional ao aumento cres­cente das ameaças".

Todavia, no ano passado, o Islão e a comunidade muçulmana não cons­tituíram os alvos preferidos do jornal. O "pódio" foi ocupado pela família Le Pen, o Presidente François Hollande e o primeiro-ministro Manuel Valls. A acusação de islamofobia soará, portanto, injusta. Mais adequada é a conclusão de que o mundo em que morreu e ressuscitou o Charlie He­bdo – aquele em que cresceram os irmãos Kouachi e em que os EUA são aliados assumidos da Arábia Saudita – não é o mesmo que o viu nascer. Que futuro o aguarda? "Não há uma resposta, apenas perguntas", sugere Jean-Christophe Boudet. "Passará a deter um poder editorial inédito? Correrá o risco de se transformar numa instituição? Ver-se-á obrigado a reinventar-se na Internet? Tornar-se-á numa revista mensal, reservando as polémicas para as redes sociais, para os blogues? Não sei."

Se nos devemos congratular com o poder que o papel e a caneta ainda conservam, também devemos acei­tar que a memória do Charlie (Bro­wn) está cada vez mais distante.



ANGOULÊME ENTRE RISOS E LÁGRIMAS

Cláudia Carvalho

É considerado um dos mais impor­tantes festivais de banda desenhada e arranca hoje, ainda na sombra do ataque de Janeiro ao Charlie Hebdo. Na 42.a edição do Festival Interna­cional de Banda Desenhada de An­goulême, a liberdade de expressão vai ser celebrada, mas as medidas de segurança foram reforçadas.

É às doze vítimas do atentado, entre as quais cinco importantes desenhadores de imprensa, que Angoulême dedica esta edição, des­de logo com a entrega do primeiro Prémio Charlie da Liberdade de Expressão e com a atribuição sim­bólica do Grande Prémio Especial à redacção do jornal (paralelamente à entrega do Grande Prémio, como dita a tradição, a um autor de BD). Há ainda uma exposição consagrada ao Charlie Hebdo, onde se poderão ver alguns dos mais controversos cartoons.

Sob o lema Aproximemo-nos do de­senho porque o desenho aproxima-nos, mais do que lembrar a tragé­dia, o Festival quer celebrar o espí­rito Charlie. Não pode ser esquecido que Angoulême é a festa da banda desenhada e não faltarão persona­gens conhecidas como Mafalda ou Astérix.

"O Festival vai ser para lembrar mas também para demonstrar que a vida continua", disse na apresenta­ção aos jornalistas Franck Bondoux, um dos organizadores de Angoulê­me, revelando que a organização do evento espera bater o recorde do ano passado, em que passaram pelo Festival 200 mil pessoas.

O Festival, que este ano tem como presidente Bill Waterson, que mante­rá a sua postura discreta e não estará no Festival, prolonga-se até domingo, dia 1, e contará com a visita, entre outras, do japonês Katsuhiro Otomo (criador de Akira) e do argumentista britânico Alan Moore (Watchmen, V de Vingança). Destaque ainda para a primeira grande retrospectiva na Europa do japonês Jirô Taniguchi. A programação completa pode ser consultada no site do Festival.


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

BDpress #453: QUEM TEM MEDO DE "CHARLIE"?

QUEM TEM MEDO DE "CHARLIE"?

Caríssimos amigos, agora que está a decorrer o Festival de Angoulême – e como não podia deixar de ser – sob o signo “Je Suis Charlie” e que vai atribuir um Prémio para a Liberdade de Imprensa, não podemos deixar de falar de “Charlie Hebdo”, continuando a republicar em “BDpress – recortes de imprensa” aquilo que de relevante se vem escrevendo nos nossos jornais sobre o tema. Hoje é um excelente texto de Pedro Mexia, na nova revista E do Expresso, exactamente sobre o significado da Liberdade de Imprensa, amanhã será um texto de José Marmeleiro, publicado no jornal Público sobre toda esta questão: “Charlie” e a liberdade total de dizermos – e publicarmos – o que pensamos. Tenham paciência, mas o crime contra o “Charlie Hebdo” foi gravíssimo (mais que não seja foram 12 pessoas mortas) e temos que continuar a falar sobre tudo isto. Inclusivamente publicaremos, um dia destes um texto sobre os problemas que estão por detrás destas movimentações criminosas jihadistas, que têm a ver mais com um défice da civilização islâmica do que da religião...

Revista E do Expresso, 24 Janeiro 2015-01-30
Pedro Mexia

UMA VERDADEIRA LIBERDADE DE IMPRENSA, OU LIBERDADE DE EXPRESSÃO EM GERAL, É UMA LIBERDADE SEM "MAS"

Quando surgiu o "Je suis Charlie", imediatamente após a matança dos jornalistas em Paris, era fácil entender que esse sílogan significava "eu defendo a liberdade de expressão". Milhões de pessoas de todas as ideologias fizeram sua essa frase, tanto nas manifestações como online. E não havia milhões de pessoas que lessem ou conhecessem o "Charlie Hebdo". O "Charlie" é um jornal satírico de esquerda libertária e soixante-huitard, violentamente hostil ao bom senso e ao bom gosto, às autoridades e à deferência, às instituições e às religiões. As manchetes e os cartoons do "Charlie" pertencem a uma tradição iconoclasta ou desbragada, que em França vem da poesia dos goliardos, de Rabelais, da literatura de cordel, do caricaturista Daumier, das afrontas surrealistas e situacionistas ou das canções de Brassens e Gainsbourg. Herdeiro do "Hara-Kiri", o jornal "bete et méchant" proibido por Pompidou, o "Charlie" ofende todos os quadrantes, embora tenha especial gosto num anticlericalismo ecuménico, que também é uma tradição gaulesa.

Quase toda a gente percebeu que "ser Charlie" é invocar o direito a escrever, desenhar e publicar aquilo que se queira, com as excepções de difamação ou de injúria previstas na lei penal. Não significa, de todo, concordar com a linha editorial do "Charlie". Mas houve quem se fingisse desentendido, quem fizesse fine bouche, quem censurasse a "amálgama", a "hipocrisia" ou o "sentimentalismo". E houve quem garantisse que a liberdade de expressão tem limites, um dos quais é a ofensa às religiões.

Há quatro décadas, em 1976, um acórdão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem desfez esta última mistificação: "(...) a liberdade de expressão vale não apenas para as informações ou ideias acolhidas com fervor ou consideradas inofensivas, mas também para aquelas que ferem, chocam ou inquietam o Estado ou uma qualquer fracção da população. Assim exige o pluralismo, a tolerância e o espírito de abertura, sem os quais não há sociedade democrática". É uma formulação de uma clareza meridiana e de uma intransigência total, que alegraria Benjamin Constant, liberal oitocentista que sustentou que sem uma verdadeira liberdade de imprensa as outras liberdades ficam severamente diminuídas.

Uma verdadeira liberdade de imprensa, ou liberdade de expressão em geral, é uma liberdade sem "mas", uma liberdade que inclui, e que inclui forçosamente, a insensatez e o mau-gosto, a invectiva e a blasfémia, o asco e o gozo. Uma liberdade onde os ofendidos podem contestar, protestar, ou recorrer aos tribunais. Mas uma liberdade a que se responde em liberdade. Victor Navasky, director emérito da revista progressista "The Nation", e autor de "The Art of Controversy: Politicai Cartoons and Their Enduring Power" (2013), explicou há dias que um cartoon é de certo modo "irrespondível", e que isso assusta os intolerantes. E "The Economist" sublinhou em editorial que "mesmo quando uma imagem ou opinião é imprudente ou de mau-gosto, não deve ser proibida, excepto se incite directamente à violência".

A crítica às religiões, ainda que violenta, é uma liberdade à qual as pessoas religiosas (como é o meu caso) têm de se conformar, se for demasiado pedir-lhes que a aceitem. E o mesmo vale para os multiculturalistas, que só respeitam as religiões "dos outros". Ou para quaisquer outras convicções, respeitáveis mas criticáveis. Lembrou "The Economist" que há um mundo de diferença e séculos de pensamento «político liberal entre ficarmos ofendidos e eliminarmos quem ofendeu». Dizer "eu sou Charlie" é defender essa diferença.


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sábado, 24 de janeiro de 2015

BDpress #452: MUSEU HERGÉ CANCELA HOMENAGEM AO CHARLIE HEBDO





MUSEU HERGÉ 
CANCELA HOMENAGEM 
AO CHARLIE HEBDO

Público, 23 Janeiro 2015

Luís Miguel Queirós

Para não colocar em risco os funcionários da casa e os habitantes de Lovaina-a-Nova, director do museu suspendeu homenagem

O Museu Hergé, na povoação belga de Lovaina-a-Nova, decidiu cancelar uma exposição de homenagem ao jornal satírico francês Charlie Heb­do, cuja inauguração estava previs­ta para ontem. O director do museu dedicado ao criador de Tintin, Nick Rodwell, esclarece que a decisão foi tomada por razões de segurança, e admite que a exposição poderá ainda vir a abrir, "se o nível de alerta dimi­nuir nos próximos dias ou semanas".


O anúncio do cancelamento foi feito na sequência de uma reunião de Rodwell com o presidente da Câ­mara de Lovaina-a-Nova, Jean-Luc Roland, e responsáveis da polícia, que expuseram as medidas de segurança excepcionais que seria necessário pôr em mar­cha se a exposição abrisse na data prevista, e que alertaram ainda para os riscos que o pes­soal do museu e os próprios muní­cipes correriam.

Já depois do ataque de dia 7 ao Charlie Hebdo, que fez 12 mortos, as forças de segurança belgas des­mantelaram no dia 15 uma célula jihadista (sem ligação conhecida aos irmãos Kouachi, autores do atenta­do em França), que incluía alguns elementos acabados de regressar da Síria e que pretenderia cometer vários atentados no país. A operação policial decorreu simultaneamente em Bruxelas e noutras localidades belgas, designadamente Verviers, onde dois jihadistas foram mortos num confronto com a polícia.

A ideia de fazer esta exposição, "uma homenagem de Hergé, que foi também caricaturista, aos ca­ricaturistas assassinados", surgiu "espontaneamente", conta Rodell, logo após o massacre de 7 de Janeiro. Mas o director do museu reconhece agora que foi "um pouco ingénuo" e agradece à polícia e ao autarca de Lo­vaina-a-Nova que o tenham alertado para os perigos que a exposição po­deria implicar. "O Museu Hergé não existe para atiçar o fogo", diz Rodell, acrescentando que "seria inconcebí­vel expor ao mínimo risco" tanto os funcionários da instituição como os habitantes de Lovaina-a-Nova.

Um desenhador que estaria repre­sentado na exposição, Nicolas Vadot, concorda que houve "precipitação" do museu e que este "não escolheu o melhor momento", quando o pa­ís acabara de aumentar o nível de alerta. Mas também acha que, não existindo uma ameaça concreta, a solução agora encontrada pode comprometer a imagem do museu. "Uma exposição contra a censura que se autocensura quando não exis­tia uma ameaça é problemático", diz Vadot, concluindo: "Isto quer dizer que os terroristas ganharam". É bem possível que Tintin, o jovem e valente repórter criado por Her­gé, sempre pronto a meter-se em arriscadas aventuras para defender a causa da justiça, tendesse a concor­dar com Vadot.


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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

MUSEU NACIONAL DA IMPRENSA (PORTO) – VIAGEM PELO CHARLIE HEBDO E HOMENAGEM A WOLINSKI




MUSEU NACIONAL DA IMPRENSA (PORTO) 
VIAGEM PELO CHARLIE HEBDO
E HOMENAGEM A WOLINSKI

Diário de Notícias, 17 de janeiro de 2015

O Museu Nacional da Imprensa organizou em tempo recorde a exposição Wolinski-Hebdo, que abriu hoje portas, para honrar o nome do desenhador francês que durante a última década ajudou a transformar o Porto em capital internacional do cartoon e que sonhou acabar os seus dias neste "pais despretensioso". O diretor espera trazer mais público ao museu

Por Sérgio Pires

O Presidente da República, Cavaco Silva, aperta a mão a Georges Wolinski, que recebe uma martelada na cabeça em noite de São João... Na página 10 da edição de 4 de julho de 2012 do Charlie Hebdo não há caricaturas passíveis de provocarem a ira, apenas a homenagem bem-humorada no traço e nas palavras de um dos mais conceituados cartoonistas franceses ao Porto e ao festival de cartoon da cidade.

Desde que em 2004 foi convidado para ser presidente do júri do Porto Cartoon que o desenhador francês (nascido na Tunísia) cultivou o seu enamoramento pela Invicta. Durante a última década, presidiu ao júri do festival, contribuiu para a proclamação do Porto como capital internacional do cartoon e, recentemente, confessou a vontade de vir viver para Portugal: "Um dia, comprarei uma ruína e acabarei os meus dias neste país despretensioso..."

A cidade retribuiu o afeto e a autarquia, que esta semana fez um voto de pesar pelo desaparecimento de Wolinski, tem desfraldada no seu edifício uma tarja negra gigante com o nome do jornal satírico e o rosto do autor.

Tal como Charb, Tignous, Cabu e Honoré, Wolinski está no rol dos ilustres artistas que perderam a vida naquela manhã de quarta-feira no massacre na redação do Charlie Hebdo. Quando soube da notícia do atentado de há semana e meia, Luís Humberto Marcos, diretor do Museu Nacional da Imprensa e do Porto Cartoon, não perdeu tempo a tentar contactar o amigo Wolinski. ''Estás bem? Diz-me o que está a acontecer." Deixei-lhe essa mensagem. Infelizmente, já não tive resposta. Em março de 2012, meses depois de a redação ter sido incendiada, ele falou sobre a ameaça ao jornal sem preocupação ou medo. Estava seguro da legitimidade do seu trabalho e acreditava muito no sistema securitário de França. Disse que nunca conseguiriam calar o Charlie Hebbdo, recorda ao DN, explicando que o luto e o choque brutal com os factos se transformaram rapidamente em vontade de erguer em tempo recorde a exposição Charlie-Wolinski, que hoje abre no Museu Nacional da Imprensa.

"Concluímos que havia material suficiente para se fazer uma boa exposição (mais de duzentas obras), que vai assentar na história do Charlie Hebdo, desde os primeiros números, com imensas capas feitas pelo Wolinski e também pelo Cabu, sobretudo das décadas de 1970 e 1980.Vamos expor também livros do Wolinski, que é o cartoonista com mais obras mais editadas em França, alguns originais e também trabalhos que ele fez para a Paris Match ou o Le Journal du Dimanche", conta ao DN Luís Humberto Marcos, reconhecendo que a extraordinária mediatização do caso poderá trazer muito público ao museu. "Há duas semanas, talvez só uma em cada cem pessoas por cá soubesse o que é afinal este jornal... Admito que agora haja muita gente que queira vir à exposição para conhecer um pouco da história, mas o objetivo primeiro é honrar o nome de um cartoonista genial e divertido e através dele homenagear a liberdade de imprensa e o humor como elementos essenciais da vida."

Uma liberdade difundida através dos desenhos e dos pensamentos do autor que durante a mais de meio século de carreira feitos de traços que expressavam sarcasmo, lascívia ou a bonomia que o caracterizavam, embora Wolinski preferisse definir-se de uma forma despretensiosa e cheia de humor: "Sou um idiota, mas quando vejo o que pessoas inteligentes fizeram ao mundo..." 


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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

AMANHÃ – DIA 20 – MESA REDONDA SOBRE O ATAQUE AO CHARLIE HEBDO – NO MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO/LISBOA


AINDA CHARLIE HEBDO...

AMANHÃ – DIA 20

MESA REDONDA SOBRE 
O ATAQUE 
AO CHARLIE HEBDO
NO MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO/LISBOA



Mesa-redonda aberta sobre o ataque ao Charlie Hedbo: o poder dos cartoons editoriais, liberdade de imprensa e expressão, limites sociais, contextos históricos da imprensa ilustrada.

Sara Figueiredo Costa, Nuno Saraiva, Osvaldo Macedo de Sousa e Eduardo Salavisa, com moderação de Pedro Moura. 

Terça-feira, 20 de Janeiro, às 18h30, no Museu Arqueológico do Carmo.

Entrada livre. 

O crime perpetrado contra o jornal satírico francês Charlie Hedbo colocou na ordem do dia junto ao grande público uma discussão que tem tido lugar em círculos especializados. Qual o papel do cartoon editorial nas democracias modernas, cujas leis de liberdade de expressão permitem um qualquer grau de negociação entre o que se entenderá por "aceitável" e "pertinente", por um lado, e "exagerado" e "ofensivo", por outro. Se se acreditar numa tal categorização, porém, há que compreender que ambas pertencem a uma longa tradição de trabalhos, e com particular presença na cultura francesa. A questão desta liberdade vai embater noutras questões, como os posicionamentos ideológicos, os ditos limites da imprensa, a censura prévia e as decisões judiciais, assim como a conjuntura actual a nível mundial cujas fricções são vistas por alguns como um "choque de civilizações". Não é difícil começar uma discussão sem tropeçar em controvérsias ou mesmo afirmações elas mesmas insustentadas, já que tudo isto implica emoções, limites ao nosso conhecimento, posicionamentos extremados, etc.

A comunidade de artistas de banda desenhada, ilustração e cartoon editorial, assim como investigadores e críticos da área têm multiplicado a sua expressão de solidariedade, assombro e até mesmo incompreensão nos mais variados canais de comunicação. Alguns dos seus membros não sabem bem como começar a articular o que pensam e sentem, mas sentem também a urgência em fazer algo mais. Esta é uma oportunidade, entre outras, de dialogar. 


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domingo, 18 de janeiro de 2015

GAZETA DA BD #37 (NA GAZETA DAS CALDAS) – AFINAL O QUE É O “CHARLIE HEBDO”?

Nota: a Gazeta das Caldas nesta sua edição de 16 de Janeiro levou à página primeira matéria sobre o atentado ao Charlie Hebdo e dedicou-lhe também as páginas centrais (além da nossa rubrica Gazeta da BD sobre o mesmo tema), onde se destacam os cartoons de Bruno Prates, cartoonista desta cidade e cujas páginas reproduzimos abaixo:



GAZETA DA BD #37 
(NA GAZETA DAS CALDAS) 

AFINAL O QUE É O “CHARLIE HEBDO”? 

Gazeta das Caldas, 16 de Janeiro de 2015

Jorge Machado-Dias

O ataque levado a cabo no passado dia 7, por jihadistas muçulmanos ao semanário satírico e humorístico “Charlie Hebdo” em Paris, causando 12 mortos, deixou o mundo consternado e revoltado, apesar da esmagadora maioria das pessoas não saber muito bem o que o “Charlie Hebdo”. Dois homens envergando vestes de combate negras e armados de Kalashnikov, aos gritos de Allahu Akbar (Deus é grande) entraram na sede da publicação durante a reunião semanal da redacção e começaram a disparar. À saída ainda gritaram “Vingámos o Profeta Maomé! Matámos o Charlie Hebdo!!!” Penso que muita gente perguntará: mas afinal o que é o “Charlie Hebdo”?

Vejamos: para o mundo da banda desenhada e do cartoon (mas também para milhões de cidadãos pelo mundo fora), este ataque foi um choque tremendo. Em causa está a total liberdade de expressão – neste caso expressa através do cartoon, da caricatura, da ilustração.

Digamos que tudo isto (a vingança muçulmana) já remonta a 2006, quando o “Charlie Hebdo” republicou as caricaturas de Maomé, publicadas inicalmente no jornal dinamarquês “Jyllands-Posten”, em Setembro de 2005. Em Novembro de 2011, a redacção da revista é destruída com uma bomba incendiária, depois de ter lançado uma edição com o no­me Charla Hebdo (um trocadilho com a palavra "sharia", a lei islâ­mica), e apresentada como obra do próprio profeta Maomé.

Agora partiram para o assassinato! Alguns dos autores mortos: Stéphane Charbonnier, conhecido como Charb, era o diretor do “Charlie Hebdo”, tinha 43 anos e dizia: “prefiro morrer de pé do que viver de joelhos”. Jean Cabut, ou Cabu, 76 anos. Georges Wolinski, 80 anos. Bernard Verlhac, conhecido como Tignous, 57 anos. Bernard Maris, que escrevia sob o pseudónimo Oncle Bernard. Phillipe Honoré, 73 anos. Eram gente que estava nesta “cruzada” desde 1960!

Insteressa-nos, nesta altura, depois deste bárbaro ataque ter sido amplamente acompanhado nos canais informativos da televisão e por todos os jornais, contar como tudo isto – o “Charlie Hebdo” – começou. Em Setembro de 1960, foi criado o magazine mensal satírico “Hara Kiri”, onde colaborariam François Cavanna, Roland Topor, Moebius, Wolinski, Gébé, Cabu, entre outros nomes do cartoon, ilustração e BD europeias. Em 1969 o “Hara Kiri” passa a hebdomadário (semanário portanto) com o nome “L’Hebdo Hara Kiri”. Contudo o seu número 94, de 16 de Novembro de 1970 ditará o seu fim, por ter publicado uma capa com o título “Bal tragique à Colombey: 1 mort” (Baile trágico em Colombey: 1 Morto) em referência à morte do general Charles de Gaulle, que falecera na sua residência de Colombey-les-Deux-Églises, parafraseando a notícia de dias antes, de um incêndio num “dancing”: “Baile Trágico em Saint-Laurent-du-Pont: 146 mortos!” O então presidente Georges Pompidou proibiu a revista!

Uma semana depois é criado um novo hebdomadário: “Charlie Hebdo”, cujo nome Charlie é uma referência mordaz ao primeiro nome do falecido ex-Presidente Charles de Gaulle. A provocação não pára! O primeiro director do jornal foi Georges Wolinski – agora um dos assassinados. Depois, durante 10 anos “Charlie Hebdo” deixa de se publicar (entre 1982 e 1992) devido à escassez de vendas. Reaparecerá em 1992 sob a direcção de Phillippe Val. Em Março de 2006, o Ministério da Cultura de França realiza uma sessão de homenagem ao desenho de imprensa, para saudar os desenhadores e caricaturistas que trabalhavam em França.

Em 2005 no Festival Internacional de BD de Angoulême, Georges Wolinski recebe o Grande Prémio da Cidade de Angoulême, realizando no ano seguinte o cartaz do Festival.

Mas deve dizer-se que apesar de os momentos mais con­troversos – e trágicos – terem sido provocados por sátiras ao extremis­mo islâmico, o “Charlie Hebdo” nunca poupou nada nem ninguém. Uma semana depois de ter sido alvo do atentado de 2011, a equipa do semanário respondeu com uma capa em que se vê um cartoonista a beijar um muçulmano na boca, debaixo do título "O amor é mais forte do que o ódio". Charb, o director sem medo (agora também assassinado), disse então ao jornal “Le Monde” que não iriam suavizar nem o seu discurso nem os seus desenhos: "É preciso continuar até que o islão seja tão ba­nal como o catolicismo." Na mesma altura, Gerard Biard, chefe de redac­ção, explicou o que está nos genes do “Charlie”: "Somos contra as religi­ões quando entram nos domínios público e político. Não é suposto que uma pessoa se identifique através de uma religião, pelo menos num Estado laico." Mas não são só as religiões os motivos (no seu sentido mais lato e mesmo laico) do “Charlie”, são também os políticos, como já percebemos acima no caso de De Gaulle, ou em outras situações como as caricaturas e cartoons sobre os Le Pen (pai e filha), ou do ex-Presidente Sarkozy e até do actual François Hollande.

Sobretudo, a filosofia do “Charlie Hebdo” guia-se pelo que os seus jornalistas, caricaturistas, cartoonistas... entendem ser a liberdade de expressão num Estado laico: "Somos um jornal que respeita a lei francesa. Se houver uma lei diferente em Cabul ou em Riad, não vamos sequer dar-nos ao trabalho de a respeitar."

 

A afirmação "Eu sou Charlie" ("Je suis Charlie") tornou-se, depois de 7 de Janeiro, o símbolo da defesa da liberdade de expressão e de imprensa em todo o mundo.

Stéphane Charbonnier “Charb” (assassinado em 7 de Janeiro de 2015) em frente da redacção destruída do “Charlie Hebdo” depois do ataque com bombas incendiárias, em Novembro de 2011

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A NOVA EDIÇÃO DO “CHARLIE HEBDO” PODE SER VISTA AQUI

 
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A NOVA EDIÇÃO DO CHARLIE  HEBDO
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