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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

BDpress #346: ENTREVISTA COM REGINA PESSOA, SOBRE “KALI, O PEQUENO VAMPIRO” ESTEVE A CONCURSO NOS ANNIE AWARDS



Regina Pessoa: “Estar nomeada para os Annie Awards já é muito bom para o meu trabalho” 

Público online, 06/01/2013 

Sérgio C. Andrade

"Kali, o Pequeno Vampiro" é a curta-metragem que valeu à realizadora a nomeação para os mais importantes prémios norte-americanos do cinema de animação. O filme encerra uma trilogia sobre a infância, e foi o primeiro em que a animadora desenhou directamente no computador. “No início, foi uma violência, mas depois funcionou”, confessa Regina Pessoa. 


A cerimónia de entrega dos Annie Awards, os prémios americanos para o cinema de animação, que se realiza a 2 de Fevereiro em Los Angeles, vai ter este ano, inesperadamente, um nomeado português: Regina Pessoa, com a sua curta-metragem Kali, o Pequeno Vampiro (2012).

Estreado no último Indie Lisboa e já com um palmarés de dezena e meia de prémios e citações por todo o mundo – o Libération descreveu-o como “uma obra visual e plástica que vai além da narração ou ilustração de uma história” –, o novo filme de Regina Pessoa (n. Cantanhede, 1969) surge, assim, como uma lança do cinema de autor em pleno território da indústria americana. A realizadora não tem grandes ilusões quanto às suas possibilidades de competir com produções da Walt Disney ou da Sony Pictures, mas nota que a nomeação é já uma grande vitória.

Com Kali, o Pequeno Vampiro, Regina Pessoa encerra uma trilogia sobre o tema da infância. Entretanto, tem compensado a dificuldade de viver da animação no nosso país trabalhando também para a publicidade. Depois de um vinho do Porto, acaba de fazer o rótulo para uma cerveja italiana, a que o produtor decidiu mesmo atribuir o seu nome, “Regina d’Inverno”.

Temas para uma conversa demorada na nova casa da realizadora numa aldeia de Lousada, ao lado do seu companheiro e produtor Abi Feijó – que também nos apresenta o projecto de um Museu da Imagem Animada.

Abi Feijó e Regina Pessoa

A nomeação para os Annie Awards foi uma surpresa? Sabia que o filme tinha sido candidatado?
Sim, mas foi uma surpresa. Eu tenho a vantagem de ter coprodutores canadianos, que têm acesso a outra rede de distribuição e de festivais, e que têm outros canais que nós não temos cá. Sabia que eles tinham candidatado aos Annie Awards alguns dos filmes que produziram, e que o Kali era um deles. Mas não estava à espera de ele ser nomeado.

O filme está nomeado numa lista de oito produções, que tem títulos da Walt Disney, da Sony Pictures, de Bill Plympton... Tem alguma expectativa de vencer?
Os Annie Awards fazem parte da indústria americana, e esta privilegia as suas produções, tal como os Óscares. Terei mesmo poucas hipóteses de ganhar. Mas estar nomeada já é muito bom para o meu trabalho. O facto de esse núcleo duro da indústria americana ter seleccionado o meu filme é uma grande honra.

A nomeação poderá ter reflexos na distribuição do filme na América?
O filme ganhou, claro, outra visibilidade e receptividade nos festivais e nos circuitos próprios das curtas-metragens, que têm uma distribuição muito limitada. Os nomeados vêm, grande parte deles, da indústria americana, que valoriza mais o humor, a narrativa mais infantil. O meu sai um bocadinho dessa lógica.

Pode-se dizer que Kali, o Pequeno Vampiro é um filme de autor no território da indústria.
Exacto. É um filme de autor no meio daquela selecção. É claro que eles vão premiar o filme que está dentro dos seus cânones. Isso verifica-se sempre. Mas é muito bom estar nomeado.


Vai à cerimónia de entrega dos prémios?
São os produtores canadianos que têm apoiado toda a promoção do filme. Infelizmente, desta vez, não tivemos apoio à promoção, de Portugal. Assim não tenho meios para fazer a viagem e assistir à cerimónia. Estamos em negociações com os nossos produtores canadianos para ver essa hipótese de ir lá.

Mas já esteve na América a fazer a promoção do filme.
Sim. Fiz uma pequena tournée de cerca de uma semana na Califórnia. Fiz sessões em S. Francisco, no Walt Disney Family Museum, na Universidade San Jose, em Silicon Valley, e também em Hollywood, para a associação dos animadores da Califórnia, onde está a massa pesada dos profissionais da animação nos Estados Unidos.

O filme foi bem acolhido?
Foi muito bem acolhido. Eles não estão habituados a ver este tipo de curta-metragem, vêem mais os cartoons – That’s all folks! [risos]. As sessões foram promovidas pelos produtores canadianos: apresentávamos os meus três filmes, mais dois de outra realizadora, a canadiana Michèle Lemieux – que ganhou o Grande Prémio do Cinanima 2012, com Le Grand Ailleurs et le Petit Ici –, e fazíamos uma palestra sobre o nosso processo criativo e de trabalho. O facto de irmos a esses sítios, ao Walt Disney Family Museum – a sua história fala por si... São pessoas que se dedicam mesmo à animação, e verem filmes que não entram dentro do cânone americano também despertava muita curiosidade.

O facto de a história do seu filme ser sobre um vampiro, um personagem e um tema que estão de novo na moda, terá tido alguma influência na sua boa aceitação?
Foi uma coincidência. Esta ideia surgiu-me imediatamente a seguir a História Trágica com Final Feliz [2005], mas depois demorou tempo a conseguir os financiamentos e a arrancar com o projecto. Mas o facto de os vampiros estarem na moda não me parece que traga qualquer benefício, nem malefício, ao filme. Podia até ter acontecido o contrário: “Lá vem mais um filme de vampiros…”

Está prevista a entrada de Kali, o Vampiro no circuito comercial português, como aconteceu com os filmes anteriores?
O Abi [Feijó] já falou com a Atalanta, para ver se o nosso filme poderá sair com uma longa. Mas agora, com a crise, as coisas complicaram-se para toda a gente. A Noite saiu com O Quadro Negro, de Samira Makhmalbaf, História Trágica com Final Felizsaiu com O Caimão, de Nanni Moretti. Temos de voltar a falar com eles para ver com que filme é que o Kali se adaptaria.

Ter a voz de Christopher Plummer e música dos Young Gods facilita a afirmação internacional do filme?
Permite atingir outros públicos – há gente que quando sabe que o filme tem música dos Young Gods dispõe-se a ir vê-lo –, facilita o cruzamento de audiências, e isso é interessante. É isso que tentamos sempre fazer, mesmo quando organizamos uma exposição. A curta-metragem já tem uma vida tão… curta, e um mercado inexistente, que nós tentamos criar outros circuitos – uma exposição, uma edição… – para prolongar a vida do filme.

Depois das exposições realizadas com os filmes anteriores, já está a montar uma nova com Kali?
Sim. E já temos duas exposições anunciadas para França, na zona de Paris, em Fevereiro, e depois – se tudo correr bem –, no Rio de Janeiro, em Julho.

Como é que conseguiu Christopher Plummer e os Young Gods?
Os Young Gods... Eu estava a trabalhar no story board e a ouvir música, como sempre faço quando desenho. E quando passava um tema dos Young Gods, achava que a música deles ia mesmo bem com a história do filme, porque ele tem momentos mais de reflexão, mais intimistas, e outros de acção, como quando o comboio passa... Os Young Gods também têm esse tipo de temas, uns mais esotéricos e espaciais, outros de rock industrial. Essa música ficava mesmo bem com as imagens. Mas eu não tinha qualquer ilusão. Depois, no festival de Zagreb, encontrei uma amiga suíça e falei-lhe do meu projecto, e de como gostaria de poder trabalhar com os Young Gods. Ela disse que isso seria fantástico, e que me ia arranjar os contactos deles. E assim foi: falei com eles, e eles foram muito receptivos; pediram-me para eu enviar o material, e aceitaram. Como eles são, apesar de tudo, uma banda bastante conhecida, o orçamento do filme não dava para lhes pagar o cachet. Perguntámos a uns amigos suíços, que também são produtores e realizadores – entre eles o Georges Schwizgebel –, se não seria possível conseguir uma pequena coprodução para pagar a música. Ele disse que era uma boa ideia, e entrou nessa loucura. E arranjou-se, de facto, dinheiro na Suíça para ter a música dos Young Gods.

A música que eles compuseram correspondeu àquilo que sonhava?
Completamente. E foi muito bom conhecê-los, principalmente o líder, o Franz Treichler. Depois que acabou o filme, ficámos amigos.

E a voz de Christopher Plummer?...
Eu queria uma voz de alguém de idade, que desse a sensação de sabedoria, para dar a ideia de que o personagem não morreu, que continua a viver algures, que encontrou o seu lugar. Os produtores canadianos trabalham com actores muito bons, do país. Falei com a minha coprodutora, e ela achou boa ideia que tivéssemos uma voz canadiana. Havia três ou quatro opções – a primeira não resultou…

Quem era?
O Leonard Cohen. Mas ele andava em tournée, e não estava disponível. A seguir era o Christopher Plummer. A minha produtora contactou-o e ele aceitou muito naturalmente.

E a voz de Fernando Lopes para a versão portuguesa?
Um dia estávamos a ouvir rádio e ouvimo-lo numa entrevista, ou a fazer a leitura de um texto. Gostámos muito. Ele tinha também uma voz que reflectia sabedoria. O Abi falou com ele, e ele ofereceu a sua voz, não quis dinheiro nenhum. Já estava doente; gravámos em Outubro de 2011...

 Fernando Lopes (1935-2012) e Christopher Plummer (1929)

Kali, o Pequeno Vampiro encerra a sua trilogia sobre o tema da infância. Isto vem resolver alguma questão psicológica consigo própria?
Não posso falar deste filme sem falar dos anteriores. No caso do primeiro, A Noite [1999], a ideia era muito simples, e não foi intencional falar de mim, embora, de facto, eu tivesse muito medo do escuro quando era pequena. O Abi arranjou um estágio de formação com o estúdio francês Lazennec Bretagne, que tinha praticamente os mesmos problemas de formação que nós, no Filmógrafo. E uma das etapas era criar uma história. Todos nós, praticamente, vínhamos do meio do desenho artístico e não tínhamos experiência de como contar ou escrever uma história, e tivemos muitas dificuldades. Aí o Abi disse-nos algo, que me continuou a ajudar sempre: “Não se preocupem em escrever, em procurar as palavras numa estrutura clássica; falem de algo que seja importante para vocês, que vos diga algo; se se empenharem, isso vê-se nas imagens, e quem vir essas imagens também o sente”. Eu pensei que quando era pequena tinha medo do escuro, e isso criava boas imagens. Pensei que seria um bom começo. Não era preciso propriamente criar uma história, era mais criar uma situação e passar uma emoção. Foi assim que comecei o meu primeiro filme. Não foi intencionalmente para falar de mim e dos meus medos. Foi a solução fácil para falar de algo que conhecia. Também aprendi que, quando falamos de algo que conhecemos, somos mais credíveis, as coisas saem mais facilmente. Com essa experiência, fiz o meu segundo filme, a História... e quando o acabei, dei-me conta de que havia temas em comum: a infância, a diferença, o medo... E achei que havia um problema por resolver. Decidi então criar este filme, Kali, o Pequeno Vampiro, mais uma vez abordando o tema da diferença, mas permitindo ao personagem encontrar o seu lugar e fazer as pazes com a infância.

Isso tirou-lhe o medo do escuro?
De facto, já não tenho medo do escuro, agora [risos].

Significa que o seu próximo projecto seguirá um caminho diferente? Quer revelar-nos algo sobre ele?
Sim. Já tenho um novo projecto, com o título provisório que é A Contabilidade dos Dias. Queria abordar o tema do que é ser adulto. Baseei-me num tio meu, de que gostava muito, que saía completamente das normas que a sociedade hoje exige a um adulto: ser bem sucedido, ter uma família, filhos, uma casa, um emprego... O Tio Tomás era completamente fora disto: não era casado, não tinha filhos, nem família, nem emprego fixo. E, no entanto, ele era importante para mim. A ideia que eu gostaria de passar – vou ver se consigo – é que não é preciso fazer nada de extraordinário para se ser excepcional para alguém. Foi com esse tio que aprendi a desenhar. Eu era pequenina, nós éramos muito pobres, mas morávamos numa aldeia, onde há espaço, e paredes em casas abandonadas. Ele ensinava-nos a desenhar nessas paredes, com carvão.

Em Kali, utilizou pela primeira vez o computador, mas conseguiu manter a imagem e a marca estética dos filmes anteriores. Foi difícil adaptar-se às novas tecnologias?
No início, sim. Eu sempre fiz desenhos à mão. O trabalho físico, o contacto com os materiais, sempre foi muito importante. Isso foi uma imposição dos produtores. Disseram-me: “Regina, os tempos evoluíram, desta vez tens que tentar outra solução, que não seja tão morosa”… E, lá está, com a parte financeira sempre implícita. No início, foi uma violência. Eu não gostava mesmo nada, até mesmo o interface era desagradável. Até que conseguimos. Alguém falou de uma nova versão do Photoshop, que seria mais aconselhável para o meu tipo de desenho. Experimentei, tive algumas “dicas”, e depois há um momento em que se dá um clique. E percebi que aquilo podia funcionar. E funcionou. Escrevi mesmo um manual para uso pessoal, porque sabia que ia ter dois ou três colaboradores e, tal como eu, eles usavam o Photoshop para corrigir uma imagem mas não para criar um desenho do início ao fim. Então achei que era bom, pelo menos, dar nota de como eu queria que se usassem os tools do Photoshop. A equipa acabou por se adaptar e correu muito bem.


Neste filme usou cor pela primeira vez, apesar de ser só o vermelho…
E é uma grande cor [risos].

O próximo também vai ser a cores?
Ainda não sei. Kali saiu e tenho andado ocupada com a sua promoção, e com a exposição. Além disso, ainda não recebi o subsídio de apoio ao desenvolvimento do projecto. Sofro do mesmo problema do resto do país. Foram-me atribuídos fundos em 2011, mas ainda não recebemos.

Qual é a expectativa relativamente a este ano, com o anúncio da abertura dos concursos?
Espero que os concursos só abram depois de pagarem os subsídios atribuídos em 2011. Mas o facto de anunciarem a sua abertura já é muito bom. É sinal de que pode haver continuidade na produção. Eu e toda uma geração temos assistido a um crescimento na produção de filmes, e os resultados estão aí. Eu tenho feitos alguns filmes, e outros realizadores também. É bom sabermos que vai haver uma continuidade da política de apoios. Espero, e desejo, que isso possa acontecer. Os meus filmes têm sido feitos em coproduções com outros países, porque o dinheiro que recebemos em Portugal – cerca de um terço do orçamento – não chega. No caso do Kali, a França é o produtor maioritário, depois Portugal, o Canadá e a Suíça. O dinheiro que nos é atribuído em Portugal não dá para fazer o filme, mas dá-me acesso, e credibilidade, para ir ter com outros produtores estrangeiros e dizer: “Já tenho um pequeno apoio”. E isso ajuda a que outros países entrem na produção.


É possível viver da animação, ainda por cima numa situação de crise como a que actualmente vivemos?
Até à data, eu tenho vivido só da animação. Por exemplo, todas estas palestras que fiz nos Estados Unidos são pagas. Por outro lado, tenho feito alguns trabalhos paralelos de publicidade. E vivo com o que consegui também economizar durante a produção do Kali.

Já uma vez disse que não gosta de dar aulas...
Se calhar, vou ter que pôr esse cenário. Mas não sinto grande motivação. Ou não tenho à-vontade – é mais isso –, não reajo bem em frente de uma multidão. Acho que não sou boa comunicadora, e isso é fundamental. Prefiro desenhar. Mas – lá está: é um paradoxo – gosto de ensinar, individualmente.

Como disse, tem sido convidada a fazer trabalhos de publicidade e, curiosamente, na área das bebidas: primeiro foi um vinho do Porto, agora uma cerveja, em Itália…
Foi uma surpresa. Em 2010, o Dick e a Verena Niepoort viram os meus filmes e pediram-me para eu fazer um livro em que se explicasse a diferença entre os dois principais vinhos do Porto, o Ruby e o Tawny. Essa foi a minha experiência de entrada neste ramo dos álcoois [risos]. Depois, como gostaram muito da minha proposta, resolveram pedir-me para eu criar também os rótulos a partir das personagens que eu tinha criado para o livro. Entretanto, fiz uma exposição e uma retrospectiva em Bérgamo [em Abril de 2011], e uma companhia de cerveja italiana, não sei como, viu o meu trabalho; pelos vistos gostou e contactou-me para eu criar um rótulo para uma cerveja para o Inverno, que eles queriam lançar na altura do Natal. Enviei-lhes uma proposta, e fiquei muito surpresa quando vi que eles decidiram chamar à cerveja “Regina d’Inverno”. Além de me pedirem para eu fazer o rótulo, e pagarem, ainda deram o meu nome à cerveja!

Quando trabalha para a publicidade, fá-lo com o mesmo entusiasmo que dedica aos filmes?
É muito divertido. Não tenho assim tanta experiência como isso, mas as propostas que tenho tido têm-me dado liberdade total. Algumas, não aceitei por falta de tempo, mas as que tenho aceite são um bocado malucas [risos], como fazer rótulos para uma cerveja... E permitem-me continuar a criar e manter uma ligação com o meu trabalho. 

 Regina Pessoa e Abi Feijó, com Geraldes Lino, no Festival de BD de Beja de 2010






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Nota do Kuentro 

O filme produzido pelos estúdios Walt Disney, Wreck-It Ralph, ganhou na noite do passado sábado (madrugada de domingo em Portugal) cinco prémios Annie, incluindo os de melhor filme de animação e de melhor realização (Rich Moore), na 40.ª edição dos prémios que são considerados os Óscares do cinema animado.

Pela primeira vez, a gala, que se realizou no UCLA Royce Hall, em Los Angeles, teve uma produção portuguesa nomeada, na categoria de curta-metragem: o filme de Regina Pessoa, Kali, o Pequeno Vampiro.

A entrevista que reproduzimos acima foi publicada um mês antes da gala dos Annie Awards e, embora o Público na sua edição de sábado, dia 2 de Fevereiro (o dia da gala), tenha publicado um extenso artigo sobre a animação portuguesa, preferimos esta entrevista com Regina Pessoa, que nos transmite o ponto de vista pessoal da autora. O recorte do referido artigo do Público ficará para a próxima semana aqui no Kuentro.


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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

ANDRÉ OLIVEIRA ENTREVISTA NUNO DUARTE



ENTREVISTA COM NUNO DUARTE
ARGUMENTISTA DE "O BAILE" 

17 Janeiro 2013-01-22 

"O Baile" é o mais recente álbum de banda desenhada da autoria de Nuno Duarte, desta vez ilustrado pela muito jovem e talentosa Joana Afonso, com a chancela Kingpin Books. Tem sido um dos mais regulares e consistentes argumentistas nacionais ao longo dos anos, com obras como "Paris Morreu", "Quebra Queixo – Technorama" ou "A Fórmula da Felicidade" e deixa a quem acompanha o seu trabalho uma clara indicação que está para ficar e para subir a fasquia da BD portuguesa. 

Acerca de "O Baile" e não só, aqui fica uma breve entrevista com o autor... 


Zombies e Estado Novo… Como te ocorreu relacionares estas duas temáticas?

A ideia não partiu tanto de um relacionamento destes dois temas mas sim de um exame do que é que temos como fazendo parte do nosso “cancioneiro fantástico popular” e que podia ser usado como ponto de partida para uma história. Foi aí que me ocorreu a temática dos inúmeros mortos na faina, nas narrativas sombrias e no entanto tão presentes pelo litoral Português de Norte a Sul.

Há um conjunto de imagens fortes quando pensamos nos nossos pescadores, nas carpideiras, na tragédia destas gentes, mas…e se os mortos puxassem as redes de volta? Não seria este apenas mais um fado para juntar a todos os demais?

Encontrado o “quê” e “onde”, faltava-me o “quando?”. O secretismo e o clima de esquizofrenia, paranóia e repressão do Estado Novo surgiram então como a tela ideal para pintar esta narrativa, construído a partir daí as personagens e as situações.

  
Tiveste de fazer muita pesquisa para escrever “O Baile”? Quais foram as tuas referências?

O nascimento deste conceito deu-se entre a escrita de dois projectos para cinema e televisão, por coincidência baseados em histórias reais localizadas temporalmente no Estado Novo. A pesquisa foi assim recuperada do trabalho exaustivo que fiz para esses trabalhos, tendo no entanto dirigido mais atenção para a recolha de dados sobre referências de usos, costumes e etnografia das pequenas vilas piscatórias das décadas de 50 e 60, coleccionando sempre que possível imagens para guiar e inspirar a ilustradora do projecto.


Como foi trabalhar com a Joana Afonso? Foi muito diferente da dinâmica que tiveste com o Osvaldo Medina na “Fórmula da Felicidade”?

Trabalhar com a Joana foi acima de tudo um processo de colaboração e de maturação, já que ao longo dos meses em que se estendeu a escrita, “emperrada” aqui e ali pelos meus afazeres profissionais, não só o estilo, como a atitude e confiança dela me foram dando cada vez mais certezas na hora de escolher certas cenas e indicações, como gerando novas ideias para explorar o talento dela.


Como parti de um método “full script”, com pranchas todas planificadas e diálogos escritos, o processo foi por isso diferente do que usei com o Osvaldo na “Fórmula da Felicidade”, onde descrevia pranchas inteiras, compondo depois os diálogos à medida que a imensa experiência de “storyboarding” dele compunha em esboços as pranchas finais.

Pessoalmente não considero que haja um método mais correcto para escrever banda desenhada, já que o que há, isso sim, são maneiras mais específicas de colaborar com diferentes talentos, tentando corresponder às suas melhores qualidades e forças artísticas. 

A colaboração com a Joana é para repetir no futuro? Têm outro álbum apalavrado/pensado?

Na minha cabeça esta é uma história com espaço para respirar e com uma sequela evidente.

Tendo eu e a Joana expressado gosto por voltarmos a colaborar, acho importante que ela se imponha neste meio com projectos próprios que anseia por fazer (e nós por ler…), guardando para mais tarde uma outra colaboração.

O que é que mais gostas e o que menos gostas no panorama da BD nacional? Na tua opinião, qual o caminho a seguir? 

O panorama da BD nacional sempre esteve no fundo como o do país: tremido.

No entanto, diferentemente do que se passa na política ou economia do país, há um mar de gosto e talento a despontar pela BD portuguesa que parece impelir as produções nacionais a públicos cada vez mais abrangentes.

Muito importante para isso parece estar a ser o papel da reentrada de material infanto-juvenil nas bancas, para formar novos públicos, para além do uso das novas plataformas multimédia para a divulgação e edição de projectos que, de outra forma, não veriam a luz do dia.

Se considero que a relativa “guetização” em nichos fechados da BD das últimas décadas estava a matar o meio, vejo hoje como caminho a seguir a profusão de temas, edições e plataformas, algo que contribuirá não só para uma maior abrangência de leitores como de interesse por uma arte que é cada vez mais vista como isso mesmo.

Além disso, há a ideia feita de que os argumentistas nacionais são fracos e não conseguem cativar o público. Os considerados bons são sempre os mesmos 2 ou 3. Concordas com este cliché ou tens opinião diferente?

Considerados “bons” por quem e porquê? Uma série de prémios “nacionais” dados ao longo de anos por um júri desconhecido?

Cá só há dois tipos de argumentistas que têm “nome”: os que estão associados às poucas grandes editoras que vão surgindo e que vão publicando mais do que duas ou três centenas de livros por edição, ou aqueles que provêm e singram noutros meios e que arrastam outros públicos consigo.

Pessoalmente, seja cliché ou não, gosto de histórias e de quem despende tempo e atenção para as contar, alcançando fama ou não, mas dizendo algo verdadeiramente único, logo gostava que os argumentistas portugueses escrevessem mais e se queixassem menos.

Na tua opinião, quais as 3 melhores obras da BD portuguesa até à data? 

Inconstante como sou, provavelmente a resposta amanhã seria outra, mas hoje menciono três títulos: “As investigações de Filipe Seems” do Nuno Artur Silva e do António Jorge Gonçalves, “Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos” do Pedro Brito e do João Fazenda, e “Obrigada patrão” do Rui Lacas. 



Para finalizar, o que tens preparado para 2013 e para os anos seguintes?

Para 2013 e em primeira mão, está programada a edição de “F(r)icções”, uma adaptação para BD de vários contos meus pela arte do João Sequeira, a editar pela El Pep.

Posteriormente tenho no prelo um argumento de aventura e ficção com implicações espacio-temporais, pensado para o mercado estrangeiro; e de algo mais contido e pessoal, uma espécie de parábola sobre os fardos da passagem à idade adulta por uma série de adolescentes endeusados, estando ainda em busca dos artistas ideais para estes conceitos.

Entrevista publicada no blogue Ave Rara


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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

BDpress #367: ENTREVISTA COM JORGE MAGALHÃES – CONDUZIDA POR JOSÉ CARLOS FRANCISCO NO TEX WILLER BLOG



ENTREVISTA COM JORGE MAGALHÃES
CONDUZIDA POR JOSÉ CARLOS FRANCISCO
NO TEX WILLER BLOG

Republicamos aqui hoje, uma entrevista de José Carlos Francisco com Jorge Magalhães, publicada no Tex Willer Blog em 9, Dezembro, 2007.


Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente? 

Nasci na nobre cidade do Porto, rua de Cedofeita, em 22 de Março de 1938. Tive vários empregos, nomeadamente na função pública, antes de enveredar pela Banda Desenhada, em 1974, quando comecei a coordenar o “Mundo de Aventuras” da Agência Portuguesa de Revistas, função que exerci durante 12 anos, passando depois a colaborar com outras editoras, como a Futura, a Distri, a Meribérica e a Asa. Em suma, mais de 30 anos dedicados profissionalmente à 9ª Arte, com muitos obstáculos pelo caminho mas sem nunca me arrepender da opção que tomei quando, após o 25 de Abril, decidi não voltar a Angola, onde era funcionário do Instituto do Café. Actualmente, estou reformado mas ainda escrevo de quando em quando e faço traduções, além de ler muita BD (risos…). 


Quando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex? 

A paixão pelas histórias aos quadradinhos nasceu, por assim dizer, logo que aprendi a soletrar. Nesse tempo, com cinco anos, já gostava de folhear o “Mosquito“, que me ajudou bastante a decifrar as primeiras letras. Fui sempre um leitor assíduo de revistas infanto-juvenis e, depois do “Mosquito” e do “Diabrete“, comecei a coleccionar o “Cavaleiro Andante” e o “Mundo de Aventuras“. Não houve praticamente revista de BD que não me tivesse passado pelas mãos.


Quando fui para Angola, em 1961, desfiz-me de muitas delas, mas ao regressar a Portugal, alguns anos depois, voltei a sentir a febre do coleccionador e o resultado foi a colecção enorme que hoje possuo e que me rouba muito espaço em casa.

O meu interesse pelo Tex surgiu mais tarde, como é evidente, pois as edições brasileiras só começaram a circular entre nós nos anos 70. Mas a série não me agarrou logo. Só quando descobri nas bancas os primeiros números com histórias desenhadas por Jesús Blasco, comecei a procurar a revista. Esse primeiro passo levou-me a comprar também o Tex Coleção, desde o 1º número (mas infelizmente com algumas faltas pelo meio), e a partir daí todas as séries de Tex editadas no Brasil.


Porquê o Tex e não outra personagem? 

Bem, no meu caso, a paixão pelo Tex não é exclusiva, pois (e cingindo-me só ao campo do ‘western’) coleccionei também a “Epopeia-Tri” — com a magnífica História do Oeste criada por Gino d’António, Renzo Calegari, Sergio Tarquinio e outros — e Ken Parker, um dos ‘westerns’ que mais admiro e que me agrada tanto como Tex, por ser uma série diferente, que trata os temas do Oeste numa dimensão simultaneamente realista, psicológica e poética.

Mas como sou desde miúdo um adorador fanático do ‘western’, as minhas referências na BD vão muito mais além e devorei montes de histórias com personagens das mais variadas origens, como Jerry Spring, Comanche, Mac Coy, Jonathan Cartland, Buddy Longway, Sunday, Matt Marriott, Matt Dillon, Wes Slade, Cisco Kid… sem esquecer naturalmente Blueberry.

Aproveito a oportunidade para relembrar alguns dos ‘westerns’ italianos que li no “Cavaleiro Andante“, como “Lobo Branco” e “Forte Laramie“, de Renato Polese, “Dakota Jim“, de Caprioli, “O Forte do Huron“, de Gino D’Antonio, e “Pocahontas, a Princesa Pele-Vermelha“, de Sergio Tarquinio, que me revelaram essa magnífica escola nascida nas páginas da célebre revista “Il Vittorioso” e com ligações também à editora Bonelli.

E por que não referir, já agora, as inolvidáveis criações da ‘prata da casa’ no “Mosquito” e no “Mundo de Aventuras“, como Falcão Negro, de E.T. Coelho, e Tomahawk Tom, de Vítor Péon, dois grandes e saudosos mestres da BD portuguesa, que tive a honra e o privilégio de conhecer pessoalmente.


O que Tex representa para si? 

De certa forma, um regresso ao passado, quando as histórias de ‘cowboys’ estavam na moda, uma viagem nostálgica por um tempo em que a BD ainda era uma forma de entretenimento sem pretensões intelectuais, tal como os ‘westerns’ de série B que nos atraíam ao cinema, muitos deles rotulados hoje de clássicos que moldaram o género.

Qual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si? 

Nunca cheguei a contabilizar os exemplares que possuo, mas já devem rondar as quatro centenas, pelo menos, contando com todas as colecções paralelas de Tex. Quando as revistas da Mythos chegaram às bancas, também comprei Zagor, Mister No, Martin Mystère, Dylan Dog, Mágico Vento, Júlia e outras, mas infelizmente a distribuição desses títulos tornou-se tão irregular, a partir de certa altura, que me fui desinteressando.

É difícil escolher a revista de Tex com mais significado para mim, porque já me proporcionaram muitas horas de emocionante leitura, mas simbolicamente e por uma razão sentimental elejo a primeira que chamou a minha atenção, aquele nº 214 com o início da grande aventura “A Volta da Mão Vermelha“, desenhada pelos irmãos Blasco.


Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem? 

Até hoje, só livros e revistas. Já não tenho espaço para mais, mas continuo à procura dos números que me faltam, cada vez mais difíceis de encontrar, sobretudo em bom estado. Há alguns meses, na Feira do Livro de Cascais, tive a sorte de comprar, por um preço bastante razoável, um pequeno lote que incluía o nº 100! Também possuo algumas edições estrangeiras, especialmente monografias, porque há tanta coisa a aprender sobre Tex… e eu só sei que ainda sei muito pouco (risos…).

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?

Também não é fácil responder a esta pergunta, pois são muitas as histórias de Tex que me deixaram uma recordação indelével, como tantos ‘westerns’ do passado. Do saudoso Galep, cito a aventura “A Lança de Fogo“, publicada no nº 200, com uma montagem dinâmica de planos, pouco vulgar nas edições normais de Tex, por causa do formato mais pequeno. Não sei se em Itália ela foi publicada noutro formato, mas foi a primeira vez que pude admirar a arte de Galep liberta da regra tirânica das três tiras por página. Nesse episódio, ele constrói a página como uma unidade, usando os mais variados recursos estilísticos para embelezar a composição, como vinhetas circulares, imagens grandes e tiras que se entrecruzam, à maneira de uma ‘graphic novel‘.


Outra história que especialmente aprecio é “O Vale do Terror“, de Nizzi e Magnus, que pelo seu ineditismo gráfico e pelo recorte humano e psicológica das personagens ficou certamente na memória de muitos, embora o estilo de Magnus, na minha opinião, seja completamente anti-Tex e anti-‘western’, o que não diminui o seu impacto estético.

Outro grande nome da BD italiana que passou fugazmente por Tex, mas deixando uma marca inconfundível, foi Guido Buzzelli, com a aventura escrita por Nizzi “Tex, o Grande“, que tive a ventura de ler numa das primeiras Edições Gigantes da Globo, comemorativa dos 40 anos do Ranger.

À parte estes exemplos, e num contexto mais genérico, a aventura de Tex que mais me empolgou e que aguardei com mais impaciência, foi incontestavelmente “O Cavaleiro Solitário“, publicada pela Mythos no Tex Gigante nº 9. Ou não fosse eu um grande admirador do Joe Kubert!… A propósito: alguém me pode informar se esta aventura foi publicada integralmente nos Estados Unidos pela Dark Horse? É uma teima que tenho há já algum tempo com o José Carlos Francisco (risos…).


Mas em relação aos desenhadores de Tex, não há dúvida que, desde que descobri Civitelli, o seu estilo límpido e harmonioso, de uma elegância que, de certa forma, me faz lembrar a de Caprioli e Giardino (dois dos maiores mestres da BD italiana), se impôs ao de todos os outros. E isto sem desprimor para artistas de tão grande calibre como Ticci, Villa, Fusco, Repetto, Ortiz, Font, De la Fuente, Ambrosini e outros, que igualmente muito admiro.

No tocante aos argumentos, destaco o trabalho e as ideias renovadoras de Mauro Boselli, mas também aprecio bastante a obra de Claudio Nizzi, numa abordagem mais convencional do universo de Tex… sem esquecer, é claro, o seu fundador, o grande Giovanni Luigi Bonelli, que criou, dentro da série, personagens tão carismáticas como o próprio Tex, feito que mais nenhum argumentista conseguiu ainda igualar. É claro que Bonelli imaginou Tex numa época diferente, em que as histórias de ‘cowboys’ eram mais elementares, em que a acção e a forma importavam mais do que o fundo, mas os seus extraordinários dotes de novelista revestiram-no de uma aura especial, que captou rapidamente a adesão dos leitores. Tex, como muita gente sabe, foi mesmo um herói que, para surpresa do próprio autor, não tardou a ultrapassar todas as suas outras criações.

E o facto de G.L. Bonelli ter sido o primeiro, em histórias do Faroeste, a criar cenários transcendentes, explorando temas como a magia negra e o fantástico, contribuiu largamente para essa carreira de sucesso.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos? 

Para mim, Tex é o autêntico ‘homem do Oeste’, cujo padrão não foi corrompido pelo tempo nem pelas transformações da cultura popular, que quase ditaram o fim do ‘western’, nos moldes em que o conhecemos. Felizmente que em Itália ainda existe um editor como Sergio Bonelli, que não se deixa manietar pela ditadura da crítica moderna – pouco receptiva, na sua maioria, a este género de histórias -, e um público fiel, que de geração em geração continua a apreciar a personagem e o seu modelo original, fenómeno que era quase impossível acontecer noutro sitio, pois fora de Itália as séries do Oeste, com excepção de Blueberry, têm definhado uma a uma. Nem mesmo Tintin, noutra vertente, escapou a essa morte súbita e hoje é uma espécie de ‘cadáver‘ de que uma multidão de biógrafos se aproveita, dissecando-o de todas as formas e feitios.

A cadeia de produção criada por Bonelli pai e mantida até hoje, com inegável ‘savoir faire’, permitiu que o Tex de Galep não envelhecesse nem morresse com os seus criadores, tornando-se uma personagem intemporal. Tex está vivo e de boa saúde e todos os críticos e estudiosos que multiplicam também as suas análises sobre ele, sabem que o futuro será tão aliciante como o passado. É um dos raros exemplos em que o método de criação americano foi aplicado com sucesso na Europa, mas continuando a permitir aos autores a expressão da sua individualidade artística (o que nem sempre acontece quando há dois ou mais desenhadores a fazer o mesmo trabalho, como na indústria dos ‘comic books’).

Quanto à característica de Tex que menos me agrada, talvez o seu exagerado conservadorismo nas relações com as mulheres, que na fase actual já devia ter sido ultrapassado. Quando Jordi Bernet desenhou “O Homem de Atlanta” (quem já se esqueceu da insinuante Lola Dixieland?), esperava-se que o seu exemplo pudesse abrir um pouco mais o véu da censura que ainda pesa sobre o Ranger, apesar da galeria feminina da série ser vasta e variada. Mas as expectativas não se confirmaram…


Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é? 

Precisamente a fidelidade à matriz original, aos mitos do Velho Oeste que enformaram a sua criação, embora, nalguns aspectos, tenha evoluído com o tempo, sem perder as suas características primitivas. Tex representa para muitos leitores a personificação de valores éticos e morais como a coragem, a nobreza, a justiça e a lealdade, que definem – ainda que idealmente, na tradição romântica e folclórica do ‘western’ – os pioneiros da nova fronteira, os aventureiros que desbravaram o Oeste americano.

Mas os fãs de Tex, da velha e da nova guarda, apreciam também a estrutura clássica das narrativas e a escola realista implantada por mestres como Galleppini, Nicolò, Muzzi, Letteri e outros, cujos parâmetros, em linhas gerais, se têm mantido até hoje. A meu ver, o principal segredo da longevidade de Tex reside nesse conceito básico, que todos os continuadores de Giovanni Bonelli e Aurelio Galleppini — incluindo Guido Nolitta (Bonelli filho) — nunca esqueceram: embora evoluindo e modificando-se graficamente, a figura do Águia da Noite permanece, no âmago literário, igual a si própria.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger? 

Promissor, considerando o batalhão de novos desenhadores – alguns deles autênticas revelações – que já se preparam para substituir os veteranos. Mesmo que os sinais de esclerose pareçam, por vezes, imperceptíveis, os heróis de ficção têm a tendência de envelhecer como os autores que lhes dão vida. Com Tex está garantido que isso nunca acontecerá. E acredito que, apesar da relutância de Sergio Bonelli, a sua personalidade possa sofrer gradualmente alguns retoques, sobretudo na abertura a um relacionamento mais adulto com o belo sexo… O que não contraria a minha afirmação anterior, pois para que um herói com 60 anos de existência continue a manter a sua popularidade impõe-se que haja algumas transformações subtis, em sintonia com a mentalidade dos próprios leitores, que não é imune à evolução dos costumes e da sociedade. Nessa lógica, e por ilusório que pareça, o cenário mítico do Faroeste só ‘fisicamente‘ é um espaço imutável. Mas os mitos consolidam-se e reforçam-se com o seu crescimento interior, como o próprio Tex… 

Prezado pard Jorge Magalhães, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.


 
Os quatro títulos da Colecão J.M. (de Jorge Magalhães) editados pelo Salão Moura BD

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sábado, 23 de junho de 2012

ANDRÉ OLIVEIRA EM ENTREVISTA COM MARCO MENDES



in Ave Rara, quarta-feira, 20 de Junho de 2012 


ENTREVISTA 
COM O AUTOR DE BD MARCO MENDES ACERCA 
DO SEU NOVO ÁLBUM 
"DIÁRIO RASGADO"

Para quem ainda não te conhece, fala-nos do teu percurso até te tornares ilustrador, docente e banda desenhista. 

Estudei Design Gráfico, nas Belas artes do Porto, mas nunca exerci, propriamente. Desde cedo me dediquei ao ensino e a banda desenhada, desde os tempos de estudante, foi sempre uma paixão, mais do que uma tentativa de fazer carreira, ou algo desse tipo. Comecei por publicar desenhos e bds em fanzines como toda a gente, e mais tarde formei A Mula, com o Miguel Carneiro, antes de me concentrar no meu trabalho “a solo”, recentemente editado em livro.


Este “Diário Rasgado” também existe online sob a forma de webcomic. Porquê o blogue antes do livro?

E porque não? O meu blog e ultimamente o facebook são os meios através dos quais consigo chegar ao maior número de leitores. Cada publicação minha online ultrapassa num dia facilmente as 100 visualizações, mais do que o número de livros que consigo vender num mês, ou o número de visitantes de muitas exposições que fiz. Contudo no blog ou no facebook não se tem a possibilidade, como no livro, de apreciar em detalhe as imagens, ou ler as histórias na sequência certa. Uma coisa não exclui a outra. 

  
Achas que a internet é uma plataforma importante para a BD actual? Para ti, quais as suas vantagens e desvantagens? 

A internet é uma plataforma essencial num contexto como o português, onde não há um mercado para a bd, nem instituições dedicadas à divulgação dos nossos autores. É através da web que pelo menos uma minoria interessada de leitores toma contacto com a obra de autores como eu, sem uma grande editora ou máquina promocional por trás.

E os fanzines? Fala-nos da tua experiência nesse universo.

Os fanzines são um espaço de experimentação e liberdade para qualquer autor. O primeiro que fiz, devia ter uns 8 ou 9 anos, serviu para angariar dinheiro para as actividades do meu grupo escutista. Desenhos, bds e passatempos, em folhas A4 fotocopiadas, dobradas e agrafadas, distribuídas e vendidas por nós próprios. Essa sensação de autosuficiência, de poder fazer tudo sem a intervenção de terceiros, a diversão e a vontade de comunicar coisas muito concretas, é o que hoje ainda procuro, nos meus projectos editoriais.

“Diário Rasgado” tem uma forte componente autobiográfica mas também ficcional. Qual dessas vertentes se verifica mais?

Os personagens são reais, as histórias ficcionadas. Cada personagem desempenha um papel próximo da sua vida real, mas de resto é tudo invenção. Os textos, as situações, etc. Com excepção para as histórias familiares, do meu avô, por exemplo, que resultaram de entrevistas e pretendem ser o mais documentais possível.


Esta tua obra é quase exclusivamente realizada a preto e branco, com apenas algumas pranchas a cores. É por uma questão de economia de tempo ou preferes mesmo o monocromatismo?

Cada caso é um caso.

Ao longo do livro, também mostras um interessante contraste entre o humor e o drama. Qual dos géneros te interessa mais desenvolver?

São muito próximos esses dois. Não vejo maneira de os separar.

Podes deixar-nos algumas referências de autores que admires e que foram / são referências para ti?

Todos os grandes autores de bd, nacionais e internacionais. Sendo que para mim há uma cisão muito clara entre aquilo que é banda desenhada de autor, e apenas entretenimento. Não leio bd de super-heróis, nem a bd japonesa mais comercial, porque não me interessa. Portugueses: Raphael Bordallo Pinheiro, Carlos Botelho, Cottineli Telmo, Sérgio Luís, Stuart de Carvalhais, Sérgio Luís, Isabel Lobinho, Carlos Zíngaro, Relvas, Filipe Abranches, Ana Cortesão, João Fontesanta, José Carlos Fernandes, Janus, etc.

Estrangeiros: Alberto Breccia, José Munoz, Will Eisner, Harvey Kurtzman, Yoshihiro Tatsumi, Nicolai Maslov, Martí, Ramon Boldu, Carlos Giménez, Nazario, Justin Green, Robert Crumb, Jerry Moriarty, Art Spiegelman, Joe Sacco, Raymond Briggs, Daniel Clowes, Joe Matt, Chester Brown, Peter Kuper, Gilbert Hernandez, Charles Burns, Eddie Campbell, etc.

E, além da tua, que obras nos aconselharias a ler?

Sobrevida, de Carlos Pinheiro e Nuno Sousa, lançado pela imprensa Canalha, este mês. Na galeria mundo Fantasma no Porto, onde poderão ver os originais expostos até meados de Julho. 


Para terminar, quais os teus planos para o futuro? O que podemos esperar da tua parte para os próximos meses?

Este ano queria editar um livro de desenhos a lápis, retratos, naturezas mortas e paisagens, mas isso depende de como correrem as vendas do “Diário Rasgado”. Fora isso vou continuar o meu trabalho em banda desenhada, no registo habitual, embora planeie também algumas histórias um pouco mais longas. 


O álbum "Diário Rasgado", editado pela Mundo Fantasma, já se encontra à venda. Entretanto, pode acompanhar o percurso do autor aqui.

ESTA ENTREVISTA É UM EXCLUSIVO "AVE RARA"
De André Oliveira


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Já agora, vejam aqui, uma nota do blogue italiano afnews.info sobre a exposição comemorativa do CENTENÁRIO DE FRANCO CAPRIOLI
em Moura.



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