segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Gazeta da BD #82, na Gazeta das Caldas, 22Set2017 – FILIPE SEEMS, DE NUNO ARTUR SILVA E ANTÓNIO JORGE GONÇALVES


Gazeta da BD #82, na Gazeta das Caldas, 22Set2017 

HERÓIS DA BD PORTUGUESA – 11


FILIPE SEEMS
DE NUNO ARTUR SILVA 
E ANTÓNIO JORGE GONÇALVES

Incluo as histórias do investigador Filipe Seems, com argumentos de Nuno Artur Silva e desenhos de António Jorge Gonçalves, nesta série de “heróis da BD portuguesa”, numa escolha em que pretendo também mostrar a evolução da própria BD portuguesa, não só em termos formais, como de novas experiências gráficas narrativas.

Estas obras em que a figuração narrativa de António Jorge Gonçalves se distancia de tudo o que foi anteriormente publicado (penso eu) de uma forma avassaladora, tanto em termos de narrativa como de figuração, são verdadeiras obras primas. Se o primeiro álbum Ana, segue mais ou menos os cânones da BD franco belga clássica, no segundo, A História do Tesouro Perdido, as coisas começam a certa altura a sair dos cânones tradicionais, atingindo no terceiro álbum, A Tribo dos Sonhos Cruzados, um paradigma mais consentâneo com a novela gráfica, desconstruindo o cânone inicial. Daí que a considere (e não só eu) como uma trilogia histórica na BD portuguesa.

No álbum Ana, inicialmente publicado no antigo semanário Se7e, o investigador Filipe Seems e o seu gato Schröe recebem a visita de uma mulher, de nome Ana Lógica, que pretende encontrar uma irmã gémea, que ela não conhece nem sabe onde reside, mas que existe. Para já, António Jorge Gonçalves apoia-se numa concepção retrofuturista da cidade de Lisboa, juntando-lhe elementos improváveis, como as gôndolas venezianas a cruzarem um Terreiro do Paço inundado, elementos voadores “não identificados” nos céus, ou outros elementos completamente fora de época, incorporados na paisagística. Mostra mesmo a Costa de Caparica no modelo futurista idealizado pelo arquitecto Cassiano Branco em 1930. Tudo isto serve, penso eu, para descontextualizar temporalmente a história, num efeito que não deixa de ser espectacular.

Com a ajuda do seu amigo Eugénio, que está sempre a ralhar com os filhos (penso que adoptivos), no meio da conversa e utiliza por tudo e por nada a expressão “é curiosíssimo...” descobrem que, exactamente na mesma data de nascimento de Ana Lógica, nasceu outra mulher no Rio de Janeiro, com o nome de Ana Bela. Começam a colocar a hipótese de clínicas de clonagem genética, de uma empresa japonesa de estudos genéticos. Mais tarde encontram outra gémea, Ana Hera, nascida em Macau, exactamente na mesma data das outras duas... Claro que o final da história é para quem a quiser ler. Tudo isto é dividido em cinco capítulos que têm como “separadores capitulares” as magníficas aguarelas do autor.

Já em A História do Tesouro Perdido, não existem separadores de capítulos, mas de cenas. E para estes são usadas fotografias de cèu, ora solar, ora tempestuoso, nocturno, etc... Claro que estes separadores vão adquirindo uma contextualização: os apontamentos do desenhador (ou do autor do texto?) para realizar as cenas. Mas Filipe Seems aparece-nos no início a percorrer a zona antiga de Lisboa, com um texto na mão, à procura de qualquer coisa. Depois vai dar um mergulho numa praia e aparece-lhe uma garrafa a boiar com um enigma para resolver: “Encontramo-nos no Desejo...”

Mais tarde, com a colaboração do Eugénio “curiosíssimo”, encontram um modelo de caravela dentro de uma garrafa – ao que parece a “Flor do Mar” (não a “Frol de la mar”, que era um galeão e naufragou no Estreito de Malaca), naufragada perto da ilha do Pessegueiro – e após alguns mergulhos, encontram peças do eventual tesouro e chegam à conclusão de que não existe tesouro nenhum, até que Seems encontra uma referência de que o tesouro estará num deserto (ou não?)... só lendo o livro.

“(...) Neste álbum mistura-se Casablanca e A Ilha do Tesouro de Stevenson, Corto Maltese e os Descobrimentos Portugueses, Al Berto (poeta, pintor, editor e animador cultural português) aparece, himself, como director de um museu, depois há um misterioso casal de atlantes. Mas os andróides/atlantes/replicants vêm do primeiro álbum. Numa citação explícita de “Blade Runner”, Harrison Ford fica mesmo cara a cara com Filipe Seems. E fiquemos por aqui quanto a esta história (...)”*

Quanto a A Tribo dos Sonhos Cruzados, os problemas de interpretação são mais complicados. Publicado 10 anos depois de Tesouro, A Tribo... é outra coisa. Atrevo-me a dizer que não há descrição fiável para este álbum, uma vez que se trata de uma história de introspecção. Do herói? Dos autores? Talvez de todos.

“(...) em vez de um tom luminoso e solar, há fantasmas por resolver. Tudo se passa no undergroung, nos subterrâneos dele próprio – Seems – e de Lisboa.

Filipe Seems deve, então, seguir a sua songline. Sair dos escombros. (Todo o cenário do último álbum, aliás, é pré e pós apocalíptico). Uma rede terrorista faz atentados. A sociedade sucumbe a uma overdose de imagens e sons.

António Jorge Gonçalves: “N’A Tribo, somos já outros a revisitar um lugar onde muito tinha acontecido”. Graficamente, é outro objecto. “Achei que era eu que estava a marcar demasiado a diferença, por incapacidade de voltar a uma linguagem de "juventude"; mas a certa altura percebi que o Nuno também não era o mesmo, e que já tínhamos mudado de século, e que já tinha acontecido o 11 de Setembro, e que... (...)”**

Assinalados com * e **: Pequenos excertos do texto de Anabela Mota Ribeiro – publicado no jornal Público em 2009, sobre estes livros.


Páginas nº 39 de Ana e pág. 36 (não numeradas neste álbum) de A Tribo dos Sonhos Cruzados

Páginas do semanário Se7e com o início das histórias de Filipe Seems, conseguidos na Biblioteca Nacional por Leonardo de Sá, para este artigo.


 

Páginas de A História do Tesouro Perdido

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