terça-feira, 25 de junho de 2019

A ARTE ESQUECIDA DE NARRAR RIO ACIMA - BDpress #500 – Recorte de imprensa sobre BD – Texto publicado na revista do jornal Expresso, de 22-06-2019

BDpress #500 – Recorte de imprensa sobre BD
Texto publicado na revista do jornal Expresso, de 22-06-2019

A ARTE ESQUECIDA 
DE NARRAR RIO ACIMA 
O excelente artigo de José Mário Silva, sobre as cinco histórias de José Carlos Fernandes 
ilustradas por Roberto Gomes, que se “desdobrou” em cinco ilustradores diferentes…


Na primeira das cinco histórias que compõem este álbum, algo de muito estranho acontece no cada vez mais encolhido Mar de Aral 

Mais do que um bom argumentista, José Carlos Fernandes é um magnífico escritor, tout court. A principal riqueza da sua obra nasce do cruzamento de uma prosa imaculada — autêntico primor de elegância clássica e verve vocabular — com um cocktail de ironia, enciclopedismo erudito, sarcasmo e imaginação delirante. Foi esta mistura rara que fez as delícias de quem leu “A Pior Banda do Mundo” (seis volumes), “A Última Obra-prima de Aaron Slobodj” ou “A Agência de Viagens Lemming”. Os encómios, porém, não se estendem ao plano gráfico. O Fernandes ilustrador fica a anos-luz do Fernandes escritor. Felizmente, há sempre a alternativa de convidar alguém que se encarregue dessa parte. Foi o que aconteceu em 2007, quando Luís Henriques ilustrou, mudando camaleonicamente de estilo entre as várias histórias, o belíssimo “Tratado de Umbrografia”, primeiro volume da série Black Box Stories.

Mais de dez anos e muitos adiamentos depois, a “caixa negra” volta a ser aberta, revelando mais “histórias insólitas e aparentemente sem nexo”, desta vez ilustradas por Roberto Gomes que, tal como Henriques, é capaz de adequar muitíssimo bem o seu traço e a sua paleta à atmosfera própria de cada narrativa. Nuns casos, as imagens respiram, demoram-se em pequenos detalhes, criando uma tensão complementar à que o próprio texto instaura. Noutros, as pranchas assumem uma certa vertigem cinematográfica. Em todos, há uma espécie de sincronicidade feliz entre o plano visual e o da palavra.

A história mais longa é a que dá título ao livro. Na paisagem agreste do Mar de Aral, um lago de água salgada, em tempos o quarto maior do mundo (antes de encolher dramaticamente, ao ponto de estar hoje reduzido a 10% do que já foi), tudo remete para uma ideia de desolação. Como “um cavalo assustado”, o mar fugiu, deixando a seco enormes navios ferrugentos e “aldeias piscatórias encalhadas na areia”. Neste cenário apocalíptico, algo de muito estranho acontece. Adaptando-se às condições extremas, os peixes evoluem e procuram novas estratégias de sobrevivência, alterando a dinâmica da eterna luta com os pescadores. No fio que separa o humano do animal, dão-se metamorfoses fantásticas, sublinhadas pelo assombrado tom crepuscular a que o ilustrador em boa hora recorreu.

‘Um Boi sobre o Telhado’ pode ser lido como uma brincadeira e uma piscadela de olho culta, ao jogar com o sentido literal do título de um famoso bailado surrealista composto por Darius Milhaud. ‘Roupas de Defunto’ é narrado por um morto que se queixa do facto de os vivos nem sempre se lembrarem de vestir a melhor indumentária a quem vai ficar debaixo da terra para sempre, em campas com flores apodrecidas ou (pior ainda) de plástico. ‘A Inauguração do Canal do Panamá’ concentra-se toda numa vinheta melancólica — em apenas três páginas! — sobre alguém que espera para lá de todos os limites, evocando as “labaredas” acesas pelo sol em instrumentos e botões dourados nas fardas de outrora. Por fim, ‘A Arte Esquecida de Nadar Rio Acima’ dialoga com as ruínas e a fauna incerta do Mar de Aral, ao mostrar-nos o vazio deixado pelos salmões de viveiro numa obsoleta mas fascinante “escola” que ensinava os peixes a subirem os rios até aos locais da desova. Como tantas vezes em José Carlos Fernandes, a história começa por parecer apenas uma boa ideia, uma curiosidade, para depois se transformar em metáfora poderosa que nos instiga e perturba.

José Mário Silva










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