domingo, 29 de outubro de 2017

Gazeta da BD #84 - na Gazeta das Caldas 27Out2017


Gazeta da BD #84 - 27/10/2017

Heróis da BD Portuguesa – 12

ARNALDO O PÓS CATALÉPTICO 
DE JÚLIO PINTO E NUNO SARAIVA

Nada mais apropriado do que apresentar Arnaldo, o Pós Cataléptico, de Júlio Pinto (1949-2000) no argumento e Nuno Saraiva no desenho, quando este último será o autor em destaque no Amadora BD deste ano – de 27 de Outubro a 12 de Novembro – por ter conquistado o prémio de melhor álbum no Festival do ano passado, com Tudo Isto é Fado, sobre o qual escrevemos aqui na Gazeta da BD #64.

Temos, evidentemente que fazer uma referência ao argumentista, Júlio Pinto, falecido em 2000, com apenas 51 anos e que escreveu os textos para três dos livros mais emblemáticos de Saraiva, Filosofia de Ponta (1995-99), Arnaldo... (1999) e A Guarda Abília (2000).

Ora Júlio Pinto Iniciou a actividade política em finais dos anos 60 do século XX, vindo a aderir ao PCP, de que foi funcionário na clandestinidade. Desertor da guerra colonial, viria a ser preso e enviado para o forte da Trafaria, de onde fugiu durante uma saída precária. Após o 25 de Abril, fez parte do gabinete de Correia Jesuíno (ministro da Comunicação Social) durante os governos provisórios de Vasco Gonçalves. Em 1981 foi expulso do PCP devido a uma crónica de solidariedade com os ex-dirigentes do PRP, Carlos Antunes e Isabel do Carmo que se encontravam presos e em greve de fome. Colaborou entretanto com uma série de jornais e fundou e dirigiu o semanário satírico O Inimigo (1993-1994). Júlio Pinto era um homem corrosivo, falava muito e uma vez definiu-se como sendo “sem paciência para a esquerda mansinha, toda cheia de pruridos e de boas maneiras burguesas. Sou um simples liberal de extrema-esquerda. Não se pode ser de meia esquerda. Chateiam-me um bocado os gajos que são de esquerda moderada". Pronto, era assim e morreu no ano seguinte, sempre a afirmar coisas deste género...

Júlio Pinto, durante o Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, na Standard Eléctrica...

Já Nuno Saraiva, frequentou os cursos de Design do IADE e das Belas Artes. Na década de 80 iniciou a sua actividade como ilustrador de livros de BD e extensa colaboração como ilustrador e autor de BD para a imprensa. Venceu o Prémio Navegadores Portugueses em 1988, com a história Os Dias de Bartolomeu. Obteve vários troféus para melhor livro e melhor desenhador atribuídos no Amadora BD. E é docente de BD e ilustração do Ar.Co desde 2000. Tem doze álbuns de BD publicados e numerosas histórias dispersas por quase todos os jornais portugueses e participações em várias edições colectivas.

Nuno Saraiva

Quanto a Arnaldo, o Pós Cataléptico, do grego kataleptikós – aquele que sofre de catalepsia – um estado mórbido, ligado à auto-hipnose ou à histeria, caracterizado pela suspensão, de duração variável, da inteligência e dos movimentos voluntários, com tensão e contração muscular, insensibilidade total e respiração superficial, quase imperceptível. A dada altura, em Lisboa, Outubro de 1997, quando o PS está no governo, Vale e Azevedo foi eleito para a presidência do Benfica e Pedro Abrunhosa canta "Se eu fosse um dia o teu olhar", Arnaldo F. acorda do estado cataléptico onde permaneceu durante 22 anos (após ter sido lançado ao Tejo no "Verão Quente" de 1975). O que este maoista vai encontrar só poderia levá-lo a confundir a realidade: fragmentos de tempos que se modificaram, mas acima de tudo, um mundo em que acordou e que não compreende, e onde vai descobrir que antigos camaradas do partido estão no governo ou que as únicas bandeiras vermelhas erguidas são as do Benfica.

É assim o início de Arnaldo, o Pós-Cataléptico, série que para os seus autores se tornava uma vez mais a hipótese de jogar com os desajustes de linguagens. Ou seja, continuando o que havia sido em anteriores obras, uma veia irónica para histórias que eram quase sempre um decalque paródico da realidade portuguesa. Ao transpor essa realidade aquando da sua pré-publicação no semanário O Independente, Arnaldo, permitia mostrar o traço elegante e modernista mas algo retorcido de Nuno Saraiva e um olhar para além das convenções.

Nuno Saraiva diria em entrevista que "hoje em dia é tudo cheio de artifícios de sedução e claro que isso passa pelas palavras que cada um usa. É tudo mais maquiavélico – já não temos somente corpo mas também uma imagem".

É sempre uma questão de corpo, a mesma que também volta a subsistir em Arnaldo... É depois de ressuscitar do seu sono cataléptico que descobre que a sua irmã tem um PC em casa; afinal, tratava-se de um computador pessoal, e não de um membro do Partido Comunista Português, como a príncipio pensou. Quando sai para as ruas de Lisboa, para seu espanto, vê a sede do partido transformada num banco. Desiludido, entre outras situações não menos caricatas decide lançar-se ao mar. Só que é salvo por Cláudia de Calcutá, esposa de um agente do SIS viciado em escutas telefónicas.

Mas as revoluções já não existem em lado nenhum e a nostalgia acaba por torná-lo "num herói equivocado", salienta Júlio Pinto. "Porque perdeu um mundo, por impossibilidade de comparência, o que o torna um herói kitsch e desfazado da realidade". Contudo outras e mais extraordinárias situações vão desenrolar-se a um ritmo verdadeiramente caótico: desde o rapto do sociólogo João Carlos Espada até uma passagem por Timor, com Arnaldo a juntar-se à guerrilha de libertação...

ATENÇÃO

A DIRECÇÃO DA GAZETA DAS CALDAS DISPONIBILIZOU 15 EXEMPLARES DESTE NÚMERO DO JORNAL, PARA SER OFERECIDO NO 28º AMADORABD 2017.
ESTARÃO À DISPOSIÇÃO DE EVENTUAIS INTERESSADOS, PARTIR DE DIA 1 DE NOVEMBRO, NA RECEPÇÃO DO FESTIVAL!!!

VÃO ESTAR TAMBÉM À VENDA EXEMPLARES DO BDjornal #30 (e último) DEDICADO A NUNO SARAIVA, NO STAND DA POLVO EDITORA!!!

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