quarta-feira, 24 de outubro de 2018

BDpress #492 

Recorte do artigo do JL – Jornal de Letras de 10/10/2018 

MS MARVEL I - FORA DO NORMAL



MUÇULMANA 

Texto de João Ramalho Santos

Vivemos num mundo multicultural que se vai tornando global; ou num mundo globalizado no qual o multiculturalismo assume contornos locais, entre a normalidade, o trágico e o turístico? Seja como for é necessário conviver com a diferença, se bem que pareça sempre haver, em cada contexto especifico, "diferenças mais diferentes do que outras". Algo que também se tem de refletir do universo dos super-heróis, e um dos exemplos mais interessantes, relevante para lá da banda desenhada, é a nova "Ms.Marvel" (G. Floy Studio).

Americana de New Jersey, a premiada argumentista G. Willow cresceu numa família ateia, e foi um período de descoberta sobre as diversas religiões a conduzi-la, já em adulta, ao Islão, ao qual se converteu, tendo vivido um período no Egito e adotado o "hijab". E é na sua comunidade norte-americana de origem que a adolescente filha de imigrantes paquistaneses Kamala Khan, se vai transformar na nova "Ms. Marvel", equilibrando a vontade de inserção com o valor de tradições, mesmo quando estas parecem repressivas. E, sobretudo, mostrando com os seus retratos do dia a dia que a "cultura muçulmana" é tão variada como qualquer outra, e não se reduz a arquétipos. Ou que estes também têm as suas nuances, de afirmação a refúgio num contexto onde a aceitação não é total, apesar de todas as referências culturais comuns, sobretudo para a geração que cresce nos EUA.

Apesar da premissa estar nos antípodas de outras personagens, esta é também uma história sobre dominar os "poderes" que se obtêm quando se passa da adolescência para a idade adulta, e de conjugar a vida para fora de casa com a vida familiar, urna tradição que vem da Marvel dos anos 1960, com o "Homem-Aranha" criado por Stan Lee e pelo recentemente falecido Steve Ditko.

Destinado a um público que se identifique com a realidade da protagonista, " Ms. Marvel" enquadra-se no tom da chamada literatura "YA" ("young adult") na qual pontificam contemporaneamente muitas autoras (de S.E. Hinton a J.K. Rowling). É um rótulo como qualquer outro, mas, trabalhando uma mescla inteligente de banal e extraordinário, o traço na fronteira entre o realismo e a caricatura do canadiano Adrian Alphona ("Runaways") é aqui fundamental, ao não deixar a história resvalar, nem para o dramatismo (onde tem mais dificuldades), nem para a leveza.

É certo que, neste primeiro volume, o contorcionismo da protagonista para acomodar as diferentes realidades que compõem o seu mundo subitamente em mutação é bastante mais interessante do que as suas aventuras como o novo (e ainda pouco hábil) paladino de Jersey City. Mas é um começo promissor para uma ideia tão original como necessária. Será "Ms. Marvel" capaz de captar um público potencialmente relevante que poderá não conseguir olhar para além dos super-heróis, que são, na verdade, o que menos importa aqui? Por exemplo, leitoras ou todos os interessados no lidar simultâneo de diferentes diferenças? Seja como for, esta é uma série estimulante, que consegue provocar com a sua busca de uma normalidade que não se sabe qual seja, em circunstândas que nunca serão normais. Bem vindos ao mundo real.

Argumento de G. Willow Wilson,
Desenhos de Adrian Alphona.
MS MARVEL I - FORA DO NORMAL
G. Floy Studio 120 pp.
13 Euros.


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