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terça-feira, 25 de setembro de 2012

JOBAT NO LOULETANO — 9ª ARTE — MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (LXXII e LXXIII) — A PAIXÃO DE ROUSSADO PINTO (4 e 5 - conclusão) — TEXTO DE MANUEL CALDAS



NONA ARTE 
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(LXXII — LXXIII) 

O Louletano, 20, Setembro, 2005 

A PAIXÃO de ROUSSADO PINTO (4) 

por: Manuel Caldas 

De qualquer modo, a verdade é que o Jornal do Cuto deixava de se publicar, o que era uma perda irreparável. Para trás haviam ficado páginas de excelentes bandas desenhadas, em especial três episódios do Rip Kirby de Alex Raymond, dois do Buz Sawyerà de Roy Crane notavelmente reproduzidos, um do Garth de Steve Dowling e outro de Prank Bellamy, a série Moira, a Escrava de Roma, de Alberto Salinas, A Casa da Azenha, de Vitor Peon e Raul Correia, uma enorme parte do Cisco Kid, vári­as histórias de­senhadas origi­nalmente para O Mosquito por Eduardo Tei­xeira Coelho (em especial A Lei da Selva, O Tesouro, Lobo Cinzento e o iní­cio de O Cami­nho do Oriente) e várias dese­nhadas por Jesus Blasco (os seus clássicos Anita Diminuta, Cuto nos Domínios dos Sioux e Tragédia no Oriente, de que foi também o argumentista, repro­duziram-se a partir dos originais do artista no primeiro caso e de excelentes provas no segundo e terceiro, infelizmente comple­tamente remontadas), assim como um episódio do extraordiná­rio "western" Matt Marriott. E para além disso, destaque espe­cial para o facto de ter sido no Jornal do Cuto que pela primeira vez em Portu­gal se publi­cou o início de Prince Valiant e de Mandrake, as pranchas do­minicais do Tarzan de Russ Manning e (numa reprodução perfeita) o Flash Cordon de Alex Raymond; e que tiveram estreia mundial as primeiras vinte e seis pranchas do episódio de Cuto Crime Mundial Inc (que, de resto, o autor não chegaria a concluir). Estas pranchas de um espanhol e seis do português José Batista no número 49, sob o título de Trinca-Fortes, foram as únicas absolutamente inéditas que o Jornal do Cuto publicou.

O REGRESSO

Poucos meses depois da interrupção da sua publicação, a ausên­cia do Jornal do Cuto seria em grande parte colmatada pelo Mundo de Aventuras, ao entrar, sob coordenação de um certo Jorge Maga­lhães, na melhor fase da sua já longa existência. Mas, ainda que o novo Mundo de Aventuras se apresentasse também com a tal capacidade de surpreender que era uma das características do Jornal do Cuto, a revista de Roussado Pinto continuava a fazer falta devido às outras características muito próprias.



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O Louletano, 27, Setembro, 2005

A PAIXÃO de ROUSSADO PINTO (5) 

por: Manuel Caldas 

O primeiro número da nova fase não era, no entanto, o número um de uma nova série. Antes se retomava a numeração, o que foi pena porque a revista tinha características que a distinguiam enormemente do que tinha sido e teria sido muito mais correcto o início de uma nova série. E os números seguintes permitiram bem depressa ver o quanto era diferente: apesar de se publicar semanalmente — com trinta e seis páginas, a primeira e a última a cores, e custando 10$00 —, já não retoma a fórmula das séries cm continuação, antes prefere as histórias comple­tas, ignora as que haviam ficado por concluir, recorre a coisas antigas apenas excepcionalmente, não mais volta a publicar Eduardo Teixeira Coelho nem destacáveis ou separatas, os artigos sobre autores de banda desenhada deixam de ser de Roussado Pinto, o correio dos leitores não regressa e... nunca recupera a capacidade para surpreender. É mesmo assim uma revista bastante interessante, agora com um aspecto gráfico bom (apesar de se manter a abundância de gralhas), algumas histórias já legendadas manualmente, as indispensáveis me­mórias do seu director (lamentavelmente tendo durado pouco) e em todos os números uma prancha de Prince Valiant dos anos 50 muito bem reproduzida.

Nesta nova fase, o Jornal do Cuto também não chega nunca a melhorar, mas sofre mesmo assim várias transformações: primeiro torna-se quinzenal, depois reduz para vinte o número de páginas e para vermelho (mais tarde substituído por verde) apenas as cores da pri­meira e da última páginas, e por fim passa a mensal, retomando as co­res perdidas e as trinta e seis pági­nas. Era evidente o esforço de Roussado Pinto para que, acima de tudo, a revista em que punha toda a sua paixão pela banda desenhada sobrevivesse. De referir que ele, ao mesmo tempo e desde sempre, foi publicando outras revistas de BD de vida mais ou menos curta e de qualidade entre o muito mau e o bom, sendo de destacar, porque verdadeiros complementos do Jornal do Cuto, a Enciclopédia 'O Mosquito', a Colecção Jaguar e O Grilo.

O FIM

Apesar dos muitos esforços, com o número 174, datado de 1 de Julho de 1978, o Jornal do Cuto suspende pela segunda vez a sua publica­ção. As razões agora apresentadas eram ainda mais negras do que aquando da primeira. Rous­sado Pinto queixava-se da falta de papel e do aumento do seu custo em mais de 300 % (mais uma vez, o Mundo de Aventuras e o Tintin continuaram a publicar-se durante meses sem aumento de preço - concluindo-se que os núme­ros apresentados por Roussado Pinto tinham zeros a mais), de outros aumentos e de um fantasma que o perseguiria nos últimos anos: o da televisão. Escreveria ele que os revendedores só se interessavam por aquilo que vinha da televisão e "tudo se encaminha para o está­dio perfeito da sociedade de consumo, isto é, só é exposto e vendido aquilo para o qual as 'massas' são manipuladas através dos grandes meios de comunicação social."

E despedia-se com um "até breve - até à normalização da nossa vida económica".

Sabe-se que manteve sempre a vontade de retomar a sua revista, a sua paixão, que falou várias vezes de que estaria para breve, mas os sucessivos adiamentos e a sua morte inesperada em 1985, com 58 anos, impedi­ram-no definitivamente. Não tenho dúvi­das de que se tivesse vivido ainda o tempo que lhe era legítimo esperar viver, nos anos seguintes, de enorme pobreza no que res­peita a publicações periódicas de banda desenhada, teria campeado heróica e nota­velmente com uma nova fase do Jornal do Cuto. E como o seu pessimismo sempre foi passageiro, nem a proliferação de canais televisivos o teria impedido! ■





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O PERRO NEGRO em A MORTE DA ÁGUIA
(2 e 3)
Benoit Despas (arg), José Pires (des)



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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

BDpress #367: ENTREVISTA COM JORGE MAGALHÃES – CONDUZIDA POR JOSÉ CARLOS FRANCISCO NO TEX WILLER BLOG



ENTREVISTA COM JORGE MAGALHÃES
CONDUZIDA POR JOSÉ CARLOS FRANCISCO
NO TEX WILLER BLOG

Republicamos aqui hoje, uma entrevista de José Carlos Francisco com Jorge Magalhães, publicada no Tex Willer Blog em 9, Dezembro, 2007.


Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente? 

Nasci na nobre cidade do Porto, rua de Cedofeita, em 22 de Março de 1938. Tive vários empregos, nomeadamente na função pública, antes de enveredar pela Banda Desenhada, em 1974, quando comecei a coordenar o “Mundo de Aventuras” da Agência Portuguesa de Revistas, função que exerci durante 12 anos, passando depois a colaborar com outras editoras, como a Futura, a Distri, a Meribérica e a Asa. Em suma, mais de 30 anos dedicados profissionalmente à 9ª Arte, com muitos obstáculos pelo caminho mas sem nunca me arrepender da opção que tomei quando, após o 25 de Abril, decidi não voltar a Angola, onde era funcionário do Instituto do Café. Actualmente, estou reformado mas ainda escrevo de quando em quando e faço traduções, além de ler muita BD (risos…). 


Quando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex? 

A paixão pelas histórias aos quadradinhos nasceu, por assim dizer, logo que aprendi a soletrar. Nesse tempo, com cinco anos, já gostava de folhear o “Mosquito“, que me ajudou bastante a decifrar as primeiras letras. Fui sempre um leitor assíduo de revistas infanto-juvenis e, depois do “Mosquito” e do “Diabrete“, comecei a coleccionar o “Cavaleiro Andante” e o “Mundo de Aventuras“. Não houve praticamente revista de BD que não me tivesse passado pelas mãos.


Quando fui para Angola, em 1961, desfiz-me de muitas delas, mas ao regressar a Portugal, alguns anos depois, voltei a sentir a febre do coleccionador e o resultado foi a colecção enorme que hoje possuo e que me rouba muito espaço em casa.

O meu interesse pelo Tex surgiu mais tarde, como é evidente, pois as edições brasileiras só começaram a circular entre nós nos anos 70. Mas a série não me agarrou logo. Só quando descobri nas bancas os primeiros números com histórias desenhadas por Jesús Blasco, comecei a procurar a revista. Esse primeiro passo levou-me a comprar também o Tex Coleção, desde o 1º número (mas infelizmente com algumas faltas pelo meio), e a partir daí todas as séries de Tex editadas no Brasil.


Porquê o Tex e não outra personagem? 

Bem, no meu caso, a paixão pelo Tex não é exclusiva, pois (e cingindo-me só ao campo do ‘western’) coleccionei também a “Epopeia-Tri” — com a magnífica História do Oeste criada por Gino d’António, Renzo Calegari, Sergio Tarquinio e outros — e Ken Parker, um dos ‘westerns’ que mais admiro e que me agrada tanto como Tex, por ser uma série diferente, que trata os temas do Oeste numa dimensão simultaneamente realista, psicológica e poética.

Mas como sou desde miúdo um adorador fanático do ‘western’, as minhas referências na BD vão muito mais além e devorei montes de histórias com personagens das mais variadas origens, como Jerry Spring, Comanche, Mac Coy, Jonathan Cartland, Buddy Longway, Sunday, Matt Marriott, Matt Dillon, Wes Slade, Cisco Kid… sem esquecer naturalmente Blueberry.

Aproveito a oportunidade para relembrar alguns dos ‘westerns’ italianos que li no “Cavaleiro Andante“, como “Lobo Branco” e “Forte Laramie“, de Renato Polese, “Dakota Jim“, de Caprioli, “O Forte do Huron“, de Gino D’Antonio, e “Pocahontas, a Princesa Pele-Vermelha“, de Sergio Tarquinio, que me revelaram essa magnífica escola nascida nas páginas da célebre revista “Il Vittorioso” e com ligações também à editora Bonelli.

E por que não referir, já agora, as inolvidáveis criações da ‘prata da casa’ no “Mosquito” e no “Mundo de Aventuras“, como Falcão Negro, de E.T. Coelho, e Tomahawk Tom, de Vítor Péon, dois grandes e saudosos mestres da BD portuguesa, que tive a honra e o privilégio de conhecer pessoalmente.


O que Tex representa para si? 

De certa forma, um regresso ao passado, quando as histórias de ‘cowboys’ estavam na moda, uma viagem nostálgica por um tempo em que a BD ainda era uma forma de entretenimento sem pretensões intelectuais, tal como os ‘westerns’ de série B que nos atraíam ao cinema, muitos deles rotulados hoje de clássicos que moldaram o género.

Qual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si? 

Nunca cheguei a contabilizar os exemplares que possuo, mas já devem rondar as quatro centenas, pelo menos, contando com todas as colecções paralelas de Tex. Quando as revistas da Mythos chegaram às bancas, também comprei Zagor, Mister No, Martin Mystère, Dylan Dog, Mágico Vento, Júlia e outras, mas infelizmente a distribuição desses títulos tornou-se tão irregular, a partir de certa altura, que me fui desinteressando.

É difícil escolher a revista de Tex com mais significado para mim, porque já me proporcionaram muitas horas de emocionante leitura, mas simbolicamente e por uma razão sentimental elejo a primeira que chamou a minha atenção, aquele nº 214 com o início da grande aventura “A Volta da Mão Vermelha“, desenhada pelos irmãos Blasco.


Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem? 

Até hoje, só livros e revistas. Já não tenho espaço para mais, mas continuo à procura dos números que me faltam, cada vez mais difíceis de encontrar, sobretudo em bom estado. Há alguns meses, na Feira do Livro de Cascais, tive a sorte de comprar, por um preço bastante razoável, um pequeno lote que incluía o nº 100! Também possuo algumas edições estrangeiras, especialmente monografias, porque há tanta coisa a aprender sobre Tex… e eu só sei que ainda sei muito pouco (risos…).

Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?

Também não é fácil responder a esta pergunta, pois são muitas as histórias de Tex que me deixaram uma recordação indelével, como tantos ‘westerns’ do passado. Do saudoso Galep, cito a aventura “A Lança de Fogo“, publicada no nº 200, com uma montagem dinâmica de planos, pouco vulgar nas edições normais de Tex, por causa do formato mais pequeno. Não sei se em Itália ela foi publicada noutro formato, mas foi a primeira vez que pude admirar a arte de Galep liberta da regra tirânica das três tiras por página. Nesse episódio, ele constrói a página como uma unidade, usando os mais variados recursos estilísticos para embelezar a composição, como vinhetas circulares, imagens grandes e tiras que se entrecruzam, à maneira de uma ‘graphic novel‘.


Outra história que especialmente aprecio é “O Vale do Terror“, de Nizzi e Magnus, que pelo seu ineditismo gráfico e pelo recorte humano e psicológica das personagens ficou certamente na memória de muitos, embora o estilo de Magnus, na minha opinião, seja completamente anti-Tex e anti-‘western’, o que não diminui o seu impacto estético.

Outro grande nome da BD italiana que passou fugazmente por Tex, mas deixando uma marca inconfundível, foi Guido Buzzelli, com a aventura escrita por Nizzi “Tex, o Grande“, que tive a ventura de ler numa das primeiras Edições Gigantes da Globo, comemorativa dos 40 anos do Ranger.

À parte estes exemplos, e num contexto mais genérico, a aventura de Tex que mais me empolgou e que aguardei com mais impaciência, foi incontestavelmente “O Cavaleiro Solitário“, publicada pela Mythos no Tex Gigante nº 9. Ou não fosse eu um grande admirador do Joe Kubert!… A propósito: alguém me pode informar se esta aventura foi publicada integralmente nos Estados Unidos pela Dark Horse? É uma teima que tenho há já algum tempo com o José Carlos Francisco (risos…).


Mas em relação aos desenhadores de Tex, não há dúvida que, desde que descobri Civitelli, o seu estilo límpido e harmonioso, de uma elegância que, de certa forma, me faz lembrar a de Caprioli e Giardino (dois dos maiores mestres da BD italiana), se impôs ao de todos os outros. E isto sem desprimor para artistas de tão grande calibre como Ticci, Villa, Fusco, Repetto, Ortiz, Font, De la Fuente, Ambrosini e outros, que igualmente muito admiro.

No tocante aos argumentos, destaco o trabalho e as ideias renovadoras de Mauro Boselli, mas também aprecio bastante a obra de Claudio Nizzi, numa abordagem mais convencional do universo de Tex… sem esquecer, é claro, o seu fundador, o grande Giovanni Luigi Bonelli, que criou, dentro da série, personagens tão carismáticas como o próprio Tex, feito que mais nenhum argumentista conseguiu ainda igualar. É claro que Bonelli imaginou Tex numa época diferente, em que as histórias de ‘cowboys’ eram mais elementares, em que a acção e a forma importavam mais do que o fundo, mas os seus extraordinários dotes de novelista revestiram-no de uma aura especial, que captou rapidamente a adesão dos leitores. Tex, como muita gente sabe, foi mesmo um herói que, para surpresa do próprio autor, não tardou a ultrapassar todas as suas outras criações.

E o facto de G.L. Bonelli ter sido o primeiro, em histórias do Faroeste, a criar cenários transcendentes, explorando temas como a magia negra e o fantástico, contribuiu largamente para essa carreira de sucesso.

O que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos? 

Para mim, Tex é o autêntico ‘homem do Oeste’, cujo padrão não foi corrompido pelo tempo nem pelas transformações da cultura popular, que quase ditaram o fim do ‘western’, nos moldes em que o conhecemos. Felizmente que em Itália ainda existe um editor como Sergio Bonelli, que não se deixa manietar pela ditadura da crítica moderna – pouco receptiva, na sua maioria, a este género de histórias -, e um público fiel, que de geração em geração continua a apreciar a personagem e o seu modelo original, fenómeno que era quase impossível acontecer noutro sitio, pois fora de Itália as séries do Oeste, com excepção de Blueberry, têm definhado uma a uma. Nem mesmo Tintin, noutra vertente, escapou a essa morte súbita e hoje é uma espécie de ‘cadáver‘ de que uma multidão de biógrafos se aproveita, dissecando-o de todas as formas e feitios.

A cadeia de produção criada por Bonelli pai e mantida até hoje, com inegável ‘savoir faire’, permitiu que o Tex de Galep não envelhecesse nem morresse com os seus criadores, tornando-se uma personagem intemporal. Tex está vivo e de boa saúde e todos os críticos e estudiosos que multiplicam também as suas análises sobre ele, sabem que o futuro será tão aliciante como o passado. É um dos raros exemplos em que o método de criação americano foi aplicado com sucesso na Europa, mas continuando a permitir aos autores a expressão da sua individualidade artística (o que nem sempre acontece quando há dois ou mais desenhadores a fazer o mesmo trabalho, como na indústria dos ‘comic books’).

Quanto à característica de Tex que menos me agrada, talvez o seu exagerado conservadorismo nas relações com as mulheres, que na fase actual já devia ter sido ultrapassado. Quando Jordi Bernet desenhou “O Homem de Atlanta” (quem já se esqueceu da insinuante Lola Dixieland?), esperava-se que o seu exemplo pudesse abrir um pouco mais o véu da censura que ainda pesa sobre o Ranger, apesar da galeria feminina da série ser vasta e variada. Mas as expectativas não se confirmaram…


Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é? 

Precisamente a fidelidade à matriz original, aos mitos do Velho Oeste que enformaram a sua criação, embora, nalguns aspectos, tenha evoluído com o tempo, sem perder as suas características primitivas. Tex representa para muitos leitores a personificação de valores éticos e morais como a coragem, a nobreza, a justiça e a lealdade, que definem – ainda que idealmente, na tradição romântica e folclórica do ‘western’ – os pioneiros da nova fronteira, os aventureiros que desbravaram o Oeste americano.

Mas os fãs de Tex, da velha e da nova guarda, apreciam também a estrutura clássica das narrativas e a escola realista implantada por mestres como Galleppini, Nicolò, Muzzi, Letteri e outros, cujos parâmetros, em linhas gerais, se têm mantido até hoje. A meu ver, o principal segredo da longevidade de Tex reside nesse conceito básico, que todos os continuadores de Giovanni Bonelli e Aurelio Galleppini — incluindo Guido Nolitta (Bonelli filho) — nunca esqueceram: embora evoluindo e modificando-se graficamente, a figura do Águia da Noite permanece, no âmago literário, igual a si própria.

Para concluir, como vê o futuro do Ranger? 

Promissor, considerando o batalhão de novos desenhadores – alguns deles autênticas revelações – que já se preparam para substituir os veteranos. Mesmo que os sinais de esclerose pareçam, por vezes, imperceptíveis, os heróis de ficção têm a tendência de envelhecer como os autores que lhes dão vida. Com Tex está garantido que isso nunca acontecerá. E acredito que, apesar da relutância de Sergio Bonelli, a sua personalidade possa sofrer gradualmente alguns retoques, sobretudo na abertura a um relacionamento mais adulto com o belo sexo… O que não contraria a minha afirmação anterior, pois para que um herói com 60 anos de existência continue a manter a sua popularidade impõe-se que haja algumas transformações subtis, em sintonia com a mentalidade dos próprios leitores, que não é imune à evolução dos costumes e da sociedade. Nessa lógica, e por ilusório que pareça, o cenário mítico do Faroeste só ‘fisicamente‘ é um espaço imutável. Mas os mitos consolidam-se e reforçam-se com o seu crescimento interior, como o próprio Tex… 

Prezado pard Jorge Magalhães, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.


 
Os quatro títulos da Colecão J.M. (de Jorge Magalhães) editados pelo Salão Moura BD

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sexta-feira, 13 de julho de 2012

MATT MARRIOTT – A ARTE ÍMPAR DE TONY WEARE – POR JOSÉ PIRES


Imagem no blogue The Crib Sheet, de Domingos Isabelinho

A ARTE ÍMPAR DE TONY WEARE 

Um autor inglês, de génio, que merece ser observado e compreendido por quem gosta de BD 

Por José Pires 

Quando mostrámos este projecto a um grupo de amigos nossos, houve alguém entre eles que opinou: "eu prefiro a tira original". Nada temos contra. Até eu preferia o formato original, a tira, pois esta série foi projectada e realizada para ser publicada num vespertino britâ­nico, o Evening News, e nos jornais, já se sabe, ou se publicam tiras diárias ou páginas dominicais. E no caso de Matt Marriott era a tira. Mas isso traria para nós um problema de resolução impossível. É que para publicarmos as tiras no seu for­mato original, a nossa publicação teria de aparecer em formato A3, e isso estragáva­-nos toda a nossa estratégia de publica­ção, que é o formato A4! Podíamos apre­sentar a coisa neste formato, claro, mas assim os esplêndidos desenhos de Tony Weare iriam aparecer muito mais reduzi­dos, diminuindo na mesma proporção a capacidade dos nossos leitores para ürarem todo o proveito da maestria deste génio da BD.

No entanto, para todos aqueles que prefe­rem Matt Marriott no esplendor das tiras originais, recomendo a edição italiana da Ed C. Conti*, que respeita a série, tal como ela apareceu no vespertino inglês. O problema é que, para além de aparecerem com textos em italiano, o formato é o A3 (só podia!), o que torna números algo incómodos para se arrumarem numa estante. Lá terá de haver uma prate­leira especial.

Mas para pu­ristas, como aquele nosso amigo, não conheço nada melhor. A Ed. C Conti tem uma colecção de Matt Marriott muito completa e bem cuidada, que fará as delícias dos apreciadores do western de qualidade. É que as his­tórias de Matt Marriott, por terem sido publicadas em jomal, também possuíam, por isso mesmo, conteúdos mais adultos, diferentes em quase tudo das histórias de álbuns, cujo público consumidor é maioritariamente o juvenil. Esta série foi publicada em Portugal, na sua esmaga­dora maioria, no Mundo de Aventuras, formato A5! Ora aqui, para que os paginado­res conseguissem encai­xar as vinhetas de Tony Weare num formato tão re­duzido, desenhos havia que eram pura e simplesmente obliterados. E na sua quase totalidade surgiam ou ampoutados ou acrescentados de forma atroz, para preencherem páginas minúsculas, para as quais não haviam sido dimensionadas, roubando assim toda a magia dos maravilhosos enquadramentos que o seu autor usava para explanar as histórias de Matt Marriott! Era o exemplo mais acabado do velho ditado, “meter o Rossio na rua da Betesgal” Mas não obstante, a série obteve um sucesso notável, arregimentando uma verdadeira legião de admiradores, entre os quais eu próprio!

Só quando Jorge Magalhães tomou conta da coordenação das publicações da Agência Portuguesa de Revistas, é que Matt Marriott surgiu no seu formato original, a tira, mas mesmo assim, em tamanho A4. Sempre era melhor do que a solução anterior, mas tinha um senão: os desenhos apareciam em forma­to bem mais reduzido do que os da versão original!

Eis porque não nos restou outra solução que desmontar a tira e publicar os de­senhos num formato maior do que a ver­são do Evening News. Se é certo que se perde o detalhe da técnica narrativa da tira diária (que é diferente da publica­ção em álbum), ganha-se na superior observação que se oferece dos desenhos de Tony Weare. Quem perca um pouco de tempo a observar a maneira como ele resolvia os mais pequenos problemas de realização, vai aperceber-se da extraor­dinária genialidade do seu autor. E ga­ranto-vos que isso será um verdadeiro prazer para quem for um autêntico apre­ciador de BD. Da boa, claro, como é o caso deste western de eleição, para mim o melhor que até hoje se fez no género. Já mostrei numa intervenção anterior que Tony Weare se servia de referências foto­gráficas, inevitavelmente de fotogramas de cinema. É que aqueles enquadramentos, aquele espantoso jogo de sombras, aquelas atmosferas quase hiper-realistas são quase impossíveis de se conceberem de memória E Tony Weare tinha de esgalhar nada menos de três, diariamente, sába­dos e domingos incluí­dos! E durante mais de um quarto de século! Mas para melhor enten­derem aquilo que digo, reparem na vinheta ao lado. Os contornos do ca­valeiro em primeiro plano não existem, sendo a figura recortada pelos segundos planos, aqui, na sua maioria, o próprio céu. O mais espantoso é que, não obstante a atmosfera estar coberta de traços a toda a lar­gura, a imagem surge-nos impregnada de uma luminosidade quase ofuscante! Agora repa­rem bem na figura do cowboy em segundo pla­no: a chapada de luz que lhe bate nas costas é recortada pelas sombras intensas do lado não iluminado. Reparem na cabeça do respectivo cavalo Também ali não há linha de contorno, sendo este fornecido pelo contraste luz/sombra. Ora para obter efeitos como estes, tornava-se necessário um sério estudo prévio do que se pretendia fazer. E fazer isto com a regularidade com que Tony Weare fazia, é uma coisa de estarrecer! Não acham? Observem atenta­mente, então, os desenhos do resto da história.








Não quisemos deixar de publicar aqui o texto de José Pires que apareceu num dos Fandaventuras dedicado a Matt Marriott ainda em formato A4 (A Pista de Chisolm), de Junho de 2008, assim como duas pranchas do mesmo. Todo este material (a transcrição do texto é nossa), assim como o do nº 6 – Série Especial – com o episódio As Culpas dos Pais, de Outubro de 2009, já em formato italiano, foi “pescado” no blogue de Geraldes Lino “Fanzines de Banda Desenhada”.

Original de Tony Weare, da colecção de Domingos Isabelinho, em exposição no VIII Festival Internacional de BD de Beja'2012.

O mesmo desenho no blogue The Crib Sheet, de Domingos Isabelinho


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BIOGRAFIA DE TONY WEARE

Tony Weare (1912 - 1994)

David Ashford Tony Weare nasceu em Wincanton, Somerset, em 1 de Janeiro de 1912. Weare recordou mais tarde, que esteve sempre “entre o desejo de uma vida de acção e a cedência à sua dedicação artística”.

Fez um curso de Arte durante três anos e trabalhou, de seguida, na indústria do tabaco. Antes da guerra, publicou trabalhos nos magazines Britania, John Bull, Nash's, Pearson's, Strand and Windsor. Durante a II Grande Guerra serviu no exército como operador comunicações e depois de ter sido desmobilizado, Waere focou-se na criação de comics vomeçando a trabalhar para a Mickey Mouse Weekly, em séries como Pride of the Circus, Savage Splendour, Robin Alone e, a notável Billy Brave. Ao mesmo tempo aparece nas publicações Comet, Cow Boy Comics, The Daily Mirror e no Daily Express.

Em meados da década de 1950 foi contactado pela Agência Associated Newspaper, para iniciar uma série de western, com o argumentista Jim Edgar. O resultado foi a série Matt Marriott, publicada em tiras diárias no jornal London Evening News e que terminaria em 1977 quando Tony Weare teve de ser hospitalizado.

Tony Weare criou também comics com as biografias de Billy The Kid, Jesse James e Jack The Ripper para a Tornado, assim como realizou a adaptação de um conto de Rockwood para a Look & Learn, chegando a desenhar algumas sequências para V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd, convidado por este último, por ser um grande admirador do seu trabalho.

Weare retirou-se nos anos 1980 e dedicou-se à pintura, mas incapaz de enfrentar a imobilidade crescente, suicidou-se, saltando de um cais em Porthleven, Cornwall, em 2 de Dezembro de 1994, um mês antes de completar 83 anos. Deixou um cartoon de despedida, mostrando os seus pès a aparecerem fora da água...




Originais de Tony Weare

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