quarta-feira, 5 de março de 2014

BDpress 409: A MORTE DE FRANÇOIS CAVANNA


François Cavanna (1923-2014): a França perdeu “um monumento nacional”

Público.pt, 30/01/2014 
Inês Nadais 

O fundador dos históricos Hara-Kiri e Charlie-Hebdo, publicações que descompuseram o até aí muito burgês (e muito “próprio”) humor francês, morreu a poucas semanas de fazer 91 anos.

François Cavanna tinha cada vez mais dificuldades em fazer-se obedecer pela caneta. Resolveu falar disso, da sua inimiga “Miss Parkinson”, em 2010, num livro de 280 páginas, Lune de Miel (Gallimard), que acabaria por ser o seu testamento – “É preciso estar-se sempre ocupado, se não pensa-se muito. Não se pode pensar. Eu mantenho-me ocupado, jurei a mim mesmo que vou voltar a ter uma caligrafia legível (…). Tenho de falar, ou então morro. E a minha palavra é a escrita. À mão. Enquanto puder escrever uma linha, estarei entre os vivos” –, embora tenha acabado por ser derrotado não pela doença de Parkinson mas pelas complicações pulmonares que se seguiram a uma fractura no fémur. Ia fazer 91 anos no dia 22, estava internado no Hospital Henri-Mondor, em Créteil, arredores de Paris, onde, muito boemiamente, só morreu depois de lhe ser concedido um “último desejo”: salsichas e uma cerveja.

Foi proletária a sua última refeição, tal como foi proletária a sua infância em Nogent-sur-Marne (era o filho único de um pedreiro italiano, e de uma dona-de-casa) e como viria a ser proletário o seu humor, que o próprio definiria como “um uppercut” apontado ao nariz empinado do humor bon chic, bon genre da França pré-Maio de 1968.

Mas isso, as aventuras, agora históricas, do Hara-Kiri e do Charlie Hebdo – publicações com as quais fundou, mais do que dois jornais, todo “um género”, como sublinha Delfeil de Ton, seu companheiro de ambas as redacções, na sua crónica semanal do Nouvel Observateur –, foi depois. Antes houve essa infância numa não muito “douce France” que se abespinhava com a forma como os filhos dos imigrantes estavam a mudar a língua para pior, a escola pública onde se apaixonou irremediavelmente pelos livros e, mesmo sendo filho de imigrantes, foi o melhor aluno (“Tive a sorte de ser filho de pobres, punham-nos na escola primária enquanto os pais iam trabalhar. Fui imediatamente arrebatado pela escrita, pela palavra impressa. Tornou-se um vício”, disse à AFP em 2008) e os empregos como funcionário dos correios e como pedreiro.

E também houve, porque entretanto a Europa estava partida ao meio e a França era território ocupado pelos nazis, os dois anos e meio no campo de trabalho de Baumschulenweg, na periferia de Berlim – foi colocado na fábrica de munições Graetz A.G., onde voltou a apaixonar-se, desta vez quase até à morte, por uma ucraniana, Maria Tatartchenko, que perderia de vista no final da Segunda Guerra Mundial. De tudo isso – a infância, a Alemanha, Maria – fez uma trilogia autobiográfica de grande sucesso popular: Les Ritals (1978), Les Russkofs (1979) e Maria (1985), respectivamente. Mas esses são apenas três dos seus livros: ao todo, escreveu quase 60.

É também por causa deles, dos livros onde se revelou uma espécie de Rabelais contemporâneo, que o Nouvel Observateur lhe chamou hoje “monumento nacional”. Mas o grande e verdadeiramente revolucionário contributo de François Cavanna para a cultura francesa foram mesmo as duas revistas que fundou com Georges Bernier, o ex-estucador e ex-paraquedista que conheceu no jornal Zéro e com quem passou seis anos a sonhar fazer um humor “bête et méchant”, um humor finalmente impróprio para os salões da burguesia parisiense, que fosse “uma forma cruel de dizer coisas cruéis sem as embrulhar”. O Hara-Kiri, de que foi um chefe de redacção lendário, saiu pela primeira vez a 9 de Setembro de 1960 e fundou, além de “um género”, uma geração sem precedentes de desenhadores e humoristas de imprensa – “comparável”, escreve o Le Monde, “à que fundou a comédia à italiana”. Entre os muitos que passaram pelo Hara-Kiri, Topor, Gébé, Cabu, Reiser, Wolinski, Delfeil de Ton.

Foram anos felizes, mas também anos difíceis: multas, censuras, interdições (a primeira logo dez meses depois do primeiro número, depois de o jornal mensal ter sido considerado “perigoso para juventude”, a segunda em Julho de 1966). “Hoje o Hara-Kiri é visto e admirado como um sucesso. Mas no período da sua maior difusão era unanimemente odiado pela imprensa e pelos artistas. Reprovavam-nos o nosso mau gosto. Éramos um grupo de bandidos, de marginais, de revoltados”, recordou, em 2010, numa entrevista ao mesmo Le Monde.

Ainda assim, o Hara-Kiri era inquestionavelmente um sucesso – ao ponto de, em Fevereiro de 1969, a direcção decidir lançar uma versão semanal da revista, o Hara-Kiri Hebdo, que em Novembro de 1970 faria com a morte de Charles de Gaulle a sua capa mais memorável (e mais escandalosa): “Bal tragique à Colombey: 1 mort”. Nova interdição, mas a vida continuava, agora sob outro nome igualmente mítico: Charlie Hebdo.

A chegada da esquerda ao poder em França marcou o declínio de ambas as publicações: o Charlie Hebdo desapareceria a 23 de Dezembro de 1981, poucos meses depois da tomada de posse de François Mitterand como Presidente da República, o Hara-Kiri continuaria a sair até Fevereiro de 1986.

À esquerda da esquerda

Entregue aos livros, à família e às suas muitas causas de esquerdista “à esquerda da esquerda”, François Cavanna acabou no entanto por nunca se afastar muito do mundo onde se fez como autor – mantinha, todos estes anos depois, o seu pequeno estúdio num rés-do-chão da Rue des Trois-Portes, no Quartier Latin, um estúdio que era tudo o que sobrou dos 650 metros quadrados onde o Hara-Kiri e o Charlie Hebdo tiveram as suas redacções e que, diz o Libération, “se dissolveram em bolhas de champanhe”.

Continuou a escrever em jornais – via-se, aliás, “a escrever até aos 100 anos” – e dispôs-se até a colaborar com uma crónica semanal quando, em 1992, Philippe Val relançou o Charlie Hebdo, que até hoje chega semanalmente às bancas francesas em versão “mais responsável, mais social-democrata”. Mas já não se revia completamente no humor do jornal que ele próprio fundou: “Nós pertencemos a uma esquerda desabrida, anarquista. Com um humor muito pouco caridoso. Entretanto os tempos tornaram-se cautelosos e a esquerda já não significa nada de muito preciso.” Em parte, o seu actual director deu-lhe razão hoje em declarações à RTL, depois de enfatizar que Cavanna esteve “na origem de uma mini-revolução na imprensa e na maneira de rir”: “Tornou-se adulto demasiado cedo, como contou em vários dos seus livros, e também se revoltou muito cedo contra tudo o que viu. Guardou essa raiva da adolescência até ao fim.”

Já depois da doença de Parkinson, mas ainda antes de morrer, deixou-se filmar por Denis Robert, jornalista do Libération, para o documentário Jusqu’à l’ultime seconde, j’écrirai, que nenhuma das grandes cadeias do audiovisual francês (France 5, ARTE, Canal+) quis coproduzir e acabaria por ser viabilizado em regime de crowdfunding. “Bizarramente, desde esta manhã, as mesmas grandes cadeias de televisão que me recusaram o tema não param de me telefonar”, comentou Robert ao Le Monde. O filme deverá sair em sala ainda este ano e nele, apesar de contracenar com Miss Parkinson, François Cavanna – grande cabeleira branca, “magnífico bigode gaulês” – voltará a ser “o homem bom e inteligente, o filósofo sempre pertinente” que foi, diz quem estava lá e viu, até ao tal último segundo.

Já depois da doença de Parkinson, mas antes de morrer, deixou-se filmar por Denis Robert, jornalista do Libération, para o documentário Jusqu’à l’ultime seconde, j’écrirai; o filme deverá sair em sala ainda este ano

O primeiro número da revista "Charlie Hebdo"


Hara Kiri #1


Cavanna 1975

Cavanna no seu gabinete do "Charlie Hebdo" em Outubro de 1978

Em 1987 in Paris, Francois Cavanna e Georges Bernier, ou "professeur Choron" comemoravam o 300º número da "Hara-Kiri", que eles fundaram

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terça-feira, 4 de março de 2014

BDpress 408: RODRIGO DE MATOS VENCEU O GRANDE PRÉMIO PRESS CARTOON EUROPE

RODRIGO DE MATOS 
VENCEU O GRANDE PRÉMIO 
PRESS CARTOON EUROPE' 2013

Público.pt, 13/02/2014 


Rodrigo Matos, colaborador do Expresso, distinguido com prémio de oito mil euros na Bélgica.

O cartoonista português Rodrigo de Matos venceu o Grande Prémio Press Cartoon Europe com um trabalho, publicado no semanário Expresso em Novembro do ano passado, sobre futebol e a crise económica portuguesa.

O Press Cartoon Europe é uma iniciativa do organismo Press Cartoon Belgium, para distinguir os melhores cartoons publicados em jornais, revistas e meios de comunicação na Internet, oriundos da Europa.

Rodrigo Matos conquistou o Grande Prémio, no valor de oito mil euros, com um cartoon que revela um mendigo com uma tigela nas mãos, a ser servido com uma concha onde está colocada uma bola de futebol, fazendo referência à crise económica em Portugal e ao apuramento da selecção portuguesa para o campeonato do mundo, este ano, no Brasil.

O segundo prémio foi atribuído a Tjeerd Royaards e o terceiro a Hajo de Reijger, por cartoons publicados na Holanda.

Rodrigo de Matos, que colabora com o Expresso desde 2006, receberá o prémio no Festival Internacional de Cartoon em Knokke-Heist, na Bélgica.

O cartoonista português nasceu em Angola, em 1975, estudou jornalismo em Coimbra, viveu no Brasil, em Espanha, onde se diplomou em Ilustração Editorial e de Imprensa, e reside actualmente em Macau.

Além de colaborar com o Expresso, Rodrigo de Matos também publica no jornal macaense Ponto Final.

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segunda-feira, 3 de março de 2014

TERTÚLIA BD DE LISBOA – 357º ENCONTRO – ANO XXVIII – ENCONTRO ESPECIAL DE CARNAVAL – NA CASA DO ALENTEJO


TERTÚLIA BD DE LISBOA
357º ENCONTRO – ANO XXVIII 

ENCONTRO ESPECIAL DE CARNAVAL
NA CASA DO ALENTEJO


Encontro especial de Carnaval, a 4 de Março.

A coisa vai funcionar, ou não, assim. Dia 4 de Março é dia de Carnaval e vai daí,
vamos eleger, entre os tertulianos que vierem mascarados, a melhor máscara.

Quem ganhar leva com um prémio!!!

Quem aparecer assim, leva com um prémio, de certeza...


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domingo, 2 de março de 2014

ZÉ DAS PAPAS – NA GAZETA DAS CALDAS (43-44) - O Chefe João Ribeiro + A Arte Xávega

O Zé das Papas, de Rafael Bordallo Pinheiro

ZÉ DAS PAPAS (43-44)
NA GAZETA DAS CALDAS
Por João Reboredo

Gazeta das Caldas, 7 de Fevereiro de 2014

AS MESMAS VIVÊNCIAS

No meu último escrito, em que descrevi a aventura e a lição do Chefe João Ribeiro ao "transformar" bacalhau seco em base de iguaria, omiti, pro­positadamente, o nome do pra­to: o mesmo do Hotel onde era 2º Chefe: Universal. Das várias receitas de bacalhau que confeccionou de forma primorosa uma há que pede explicação prévia, melhor, duas:

Começo por lhes dizer o que é, tecnicamente. É uma brandade. Se consultarmos a "bíblia" da cozinha, ou seja o Larousse Gastronomique, encontramos: puré de bacalhau emulsio­nado em azeite e leite. É uma especialidade do Languedoc e da Provença e tem pequenas diferenças conforme os locais, algumas por causa da adição e sua forma, ou não, de alho. Alguns Chefs incorporaram puré de batata mas isso para os puristas já é blasfémia.

A cozinha portuguesa regis­ta em lugar cimeiro duas brandades: uma, de importa­ção, pois trata-se da receita do bacalhau espiritual, comprada em França pela concessionária da Cozinha Velha, Restaurante à entrada do Palácio de Queluz, a Condessa de Almeida Araújo. E tem pouco a ver com a que nos é frequentemente apresentada em muitos restaurantes! O Virgilio Gomes, gastrónomo de mérito, que secretariou o Conselho Técnico de Gastro­nomia, criado na sequência da deliberação governamental que reconheceu a gastronomia como património cultural, no início dos anos noventa, expli­ca, com a autoridade de quem dirigiu o referido restaurante, a receita verdadeira no seu sitio htpp//:www.virgiliogomes.com/crónicas. Recomendo vivamente a sua consulta fre­quente, aos que se interessam por estas coisas, é claro.

A brandade portuguesa é criação do Chefe João Ribeiro e tem uma história bem curiosa. Um dos clientes assíduos do Chefe era o Conde da Guarda, parece que ao tempo grande importador de bacalhau, que adorava. Acontece que o senhor a certa altura tinha dificuldades em mastigar ou ficom sem dentes... e o Chefe criou, em sua honra, a "papinha" que fi­cou conhecida com bacalhau à Conde da Guarda, e ainda hoje constitui um dos pratos emblemáticos do actual Hotel Aviz.

Outras receitas há, da autoria ou confecção do Chefe João Ri­beiro, a merecer nota excelente, nomeadamente a Lagosta à "Fra-Diavolo" e o Jambón Braisé Giroffle.

Pois este nosso Chefe ga­nhou dois grandes prémios, na Normandia, em França, no con­curso internacional "la Tripiére d'Or" em 1959 e 1960, com a sua versão, de "tripas à moda de Caen"!

Este homem, que cozinhou para Reis, Chefes de Estado, de Governo e outros altos dignata­rios mundiais, quando na entre­vista, já citada, à Banquete lhe foi perguntado se havia algum prato da cozinha portuguesa da sua preferência, respondeu: "na cozinha portuguesa uns bons bifes no tacho são uma maravilha"!

Nunca publicou nenhum livro de receitas. Os seus aponta­mentos, dizem ter sido des­truídos peia viúva, se calhar com "ciúmes" do tempo que o marido dedicava à cozinha.

Das publicações que ainda assim registam as mais conhe­cidas são O Livro de Mestre JOÃO RIBEIRO de José Labare­das, José Quitério e Receitas com história : os segredos do Aviz Hotel de Berenice Rugeroni Pessanha Cisneiros, com coordenação de Ana Gonçalves Lopes.

João Reboredo

 Brandade de morue

Bacalhau à Conde da Guarda

Bacalhau Espiritual

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Gazeta das Caldas, 21 de Fevereiro de 2014

ARTE XÁVEGA

Isto da gastronomia patrimó­nio cultural constitui um mundo! Um dia destes dei por mim a pensar que iria escrever sobre o associativismo gastronómico, referindo as confrarias e uma realidade singular, que são as so­ciedades gastronómicas bascas.

Mas como fui confrontado, hoje, com a notícia triste da mor­te de um arrais de arte xávega na minha terra de adopção, vou referir-me a esse tipo de pesca. Penso já ter escrito, neste espaço, que sou "Caparicano". Ao longo dos anos assisti a muitos lances, puxei redes (antes do aparecimento dos tractores com aladores), vi, vezes sem conta, o Quim Cavalinha comandar os trabalhos. Foi esse mestre, com quem convivi, que parte aos noventa e tal anos e que me traz ao tema.

A palavra xávega provém do árabe xábaka e, segundo o dicionário Huaiss de Lingua Por­tuguesa, significava barco para pesca com rede. A denominação xávega era usada pelos pescado­res do sul de Portugal. No litoral centro e norte praticava-se um tipo de pesca idêntico mas com diferenças: os barcos, com outra forma (crescente de lua) e tamanho, também de fundo chato e com as suas proas bas­tante mais elevadas para melhor suportarem a força das ondas, com capacidade de carga bem maior do que os barcos do sul.

Pode assumir duas modali­dades: de arrastar para terra ou de arrastar para bordo. Na primeira, o barco que transporta a rede sai de um local específico na praia, onde fica fixo um dos cabos da rede e, em movimento circular, deixa-a ao largo, tra­zendo então para terra o outro cabo. De outro modo, as redes são aladas para dentro dos barcos que as levam ao mar. O sistema de pesca é simples. A Xávega possui um saco de rede, cuja boca se prolonga para um e outro lado, ao longo de extensas mangas ou ala­res de rede, diminuindo a sua altura para as extremidades Os cabos de alagem são amar­rados no extremo destas man­gas. Uma vez largada, a rede assenta no fundo, mantendo-se vertical mediante bóias e pesos de chumbo, conservando-se a boca do saco aberta. Atente-se a versão de Raul Brandão, no seu "Pescadores", que, em Janeiro de 1923, escrevia sobre a Costa da Caparica e cito: "Quando há muito peixe fa­zem-se três lanços cada dia, e trabalha-se todo o ano se o mar deixa. A rede éade arrasto para a terra. O barco sai ao mar deixando um cabo nas mãos dos dez homens que ficam no areal, e vai-o largando pouco e pouco – cinquenta e tantas cordas de dezoito braças cada uma. Quando o arrais acha que se deve largar a rede, diz: – Em nome da Senhora da Conceição, rede ao mar! – E larga-se o calão, em seguida o alar, depois o saco e por fim o outro alar e o calão, trazendo-se a corda para a terra. Abica, salta a tripulação e com os homens de terra arrastam a rede. Apanha-se sardinha, carapau, e às vezes, em lanços de sorte, e quando menos se espera, a corvina, alguma raia, pargo e linguado."

Além da Caparica há outros locais onde ainda se pratica este tipo de pesca, nomeadamente na praia de Vieira de Leiria e de Mira, de onde são originários os antepassados do "meia-lua" caparicano.

João Reboredo

 Aguarela de Roque Gameiro






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sábado, 1 de março de 2014

BDpress 407: BILL WATERSON REGRESSA AO DESENHO



Bill Watterson regressa ao desenho 
com cartaz para o filme Stripped

Público online, 28/02/2014 

Autor de Calvin e Hobbes retirou-se em 1995, mas interrompeu agora o seu silêncio criativo para desenhar o cartaz de um documentário sobre o ameaçado futuro das tiras cómicas.

Depois de quase 20 anos sem apresentar publicamente um novo trabalho – excepção feita a uma pintura a óleo enviada em 2011 para um leilão destinado a angariar fundos para a investigação da doença de Parkinson –, Bill Watterson, o criador das tiras cómicas de Calvin e Hobbes, acaba de divulgar um novo desenho, destinado a servir de cartaz ao filme Stripped, co-realizado pelo cineasta Frederic Schroeder e pelo cartoonista Dave Kellett.

Com entrevistas inéditas a largas dezenas de cartoonistas de várias gerações, Stripped, um documentário de 85 minutos, pergunta para onde irão as tiras de banda desenhada (comic strips) quando os jornais desaparecerem, e se esta arte que cresceu com a imprensa irá conseguir sobreviver no mundo digital.

O cartaz de Watterson mostra um desenhador a saltar para fora da sua roupa com o susto quando lê um jornal cuja manchete é “Bye-bye, newspapers!” [Adeus, jornais!]. No canto vê-se o seu cão, que manuseia umtablet, a olhar para trás, a ver o que se passa com o dono, cuja fisionomia não é contraditória com a que se poderia esperar de um Calvin envelhecido.

“Tendo em conta o título do filme [um dos sentidos de stripped é “despido”] e o facto de haver poucas coisas tão divertidas como a nudez humana, a ideia surgiu-me na cabeça já bastante completa”, explicou Watterson. Descrevendo o documentário, que será lançado em DVD no dia 2 Abril, como uma “grande carta de amor à banda desenhada”, diz que tentou “fazer uma coisa muita cartoonística”.

Watterson deixou de desenhar as tiras do precoce Calvin e do seu sardónico tigre Hobbes em 1995 e recusou-se sempre a permitir que as suas personagens fossem reproduzidas em quaisquer produtos de merchandising. Divulgadas em Portugal nas páginas do PÚBLICO, que as publicou desde o primeiro número do jornal, em Março de 1990, as aventuras de Calvin e Hobbes tornaram-se uma tira cómica de culto, talvez só comparável aos Peanuts de Charles M. Schulz.

Watterson também diz algumas frases no documentário, mas a sua colaboração mais surpreendente é mesmo o cartaz, que resultou de um desafio de Dave Kellett, autor das tiras protagonizadas por Sheldon, um bilionário de 10 anos que detém uma empresa de software.

“O convite do Dave surgiu do nada”, disse Watterson ao jornal Washington Post, “e pareceu-me que seria uma coisa divertida e de que as pessoas talvez não estivessem à espera”. De modo que resolveu fazer uma tentativa: “O Dave mandou-me uma versão do filme e eu limpei o pó e as teias de aranha ao meu tinteiro”.


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