quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

BDpress #449: PEETERS E SCHUITEN – DEPOIS DO ÁLBUM – EXPOSÇÃO EM PARIS


DO PASSADO, 
O FUTURO CHEGOU A PARIS

Público – Ípsilon, 11/12/2014 

José Marmeleira 

A exposição Revoir Paris parte do livro homónimo de Benoît Peeters e François Schuiten publicado este ano pela Casterman.

Benoît Peeters e François Schuiten continuam a expandir a sua banda desenhada muito para lá do suporte dos livros. Depois de Le Temp des Cités, realizada este ano em Bruxelas, os dois artistas inauguraram Revoir Paris na Cité de l’Architecture & du Patrimoine, em Paris. A nova exposição tem a sua origem no livro homónimo publicado este ano pela Casterman, no qual a dupla imaginou a capital francesa no ano de 2156. E como a imaginaram eles? Hierática e pouco acessível, distópica, envelhecida. É ela o palco das viagens da heroína Kârinh, que, apesar dos obstáculos, não desiste de visitar a cidade dos seus sonhos (a Torre Eiffel ainda resiste).

Revor Paris avança, assim, na direcção a um futuro que é tudo menos risonho (o planeta está a morrer), mas sem deixar de evocar o passado. Por isso, talvez, a exposição não se resume às pranchas originais e aos desenhos preparatórios de Schuiten. Inclui projectos arquitectónicos do século XIX que nunca se concretizaram, como o da muito comentada pirâmide do Louvre, da autoria de Louis Ernest (desaparecida num incêndio em 1871), ou a fonte em forma de elefante de Jean-Antoine Alavoine. E dedica uma secção às utopias de urbanistas e arquitectos, com ilustrações de Albert Robida, estudos de Paul Maymont (para a extensão de Paris) e de Guy Rotier, o guia psico-geográfico de Paris elaborado por Guy Debord, e desenhos do próprio Schuiten para Paris au XXe Siècle, de Júlio Verne. Embora centrada nas ficções da dupla de banda desenhada, Revoir Paris é uma exposição a que arquitectos, sociólogos e urbanistas não quererão faltar. Para verem como era o futuro.

Capa do livro

ALGUMAS IMAGENS:


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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

BOAS FESTAS

BOAS FESTAS
Símbolo romano do Sol Invictus

Na boa e antiquíssima tradição mediterrânica (diria mesmo que europeia), celebro o solstício de inverno, antecedente da celebração do Natal Cristão.

O Dies Natalis Solis Invicti (dia de aniversário do sol invicto – e o dia mais pequeno do ano) ocorre por volta de 21 de Dezembro – o solstício de inverno – a partir do qual os dias recomeçam a ficar maiores.

Daí a tal antiquíssima tradição do "renascimento do Sol", que os cristãos adoptaram como "aniversário do nascimento de Cristo" (Dies Christi Natalis ou Natalis Domini) estabelecendo-o a 25 de Dezembro – para não parecer muito "colado" ao culto do Sol latino-mediterrânico.

Como sou ateu, prefiro celebrar o Sol Invictus – sem margem para dúvidas! E sem "bolas", nem pinheiros, nem presépios, etc...

UM BOM
DIES NATALIS SOLIS INVICTI 
PARA TODOS OS MEUS AMIGOS 
E LEITORES DESTE BLOGUE!!!


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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

GAZETA DA BD (35) NA GAZETA DAS CALDAS – AMANHÃ NO CCC – FILIPE MELO E JUAN CAVIA: Workshop "Como fazer uma Banda Desenhada – da ideia à concretização"

AMANHÃ NO CENTRO CULTURAL E DE CONGRESSOAS DE CALDAS DA RAINHA – COM DOG MENDONÇA E PIZZABOY

FILIPE MELO E JUAN CAVIA

Workshop "Como fazer uma Banda Desenhada 
– da ideia à concretização"

Gazeta da BD (35) na Gazeta das Caldas, 12 de Dezmebor de 2014

J. Machado Dias

Amanhã, dia 13 de Dezembro, teremos no Centro Cultural e de Congressos de Caldas da Rainha, um workshop sobre banda desenhada, com Filipe Melo e Juan Cavia, autores da trilogia As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy. Os três livros desta série, editados pela Tinta da China em Portugal e pela Dark Horse nos Estados Unidos, foram um tremendo sucesso na BD portuguesa, com cerca de 15.000 livros vendidos, entre 2010 e 2013.

Qual foi então o motivo que levou ao êxito de vendas destes livros? Digamos que existiram precedentes, com uma reanimação do mercado português de BD, pelo menos desde 2008, com um tipo de histórias diferentes do que se tinha publicado até aí, desde logo com obras de “puro entretenimento”, que já havia começado com BRK, de Filipe Pina (argumento) e Filipe Andrade (desenhos) – história parcialmente pré-publicada no BDjornal – e Asteroïd Fighters, de Rui Lacas (arg. e des.), ambas editadas pela Asa em 2009, mas sem as incisivas e divertidas campanhas de divulgação que os autores de Dog Mendonça e Pizzaboy protagonizaram.

Os três livros, As (Incríveis, Extraordinárias, Fantásticas “Requiem”) Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, a que se deve juntar o pequeno volume The Untold Tales of Dog Mendonça and Pizzaboy, da Dark Horse Comics, nascem da fervilhante imaginação de Filipe Melo, que em boa hora se associou ao ilustrador argentino Juan Cavia (mas também ao colorista, igualmente argentino, Santiago Villa) para produzir histórias rocambolescas, em que vampiros, lobisomens, gárgulas, fantasmas e outros monstros, são os maus da fita e em que um jovem distribuidor de pizzas (depois operador de call-center), um ex-lobisomem de meia-idade, que passou a ganhar a vida como “detective do oculto”, mais um demónio de seis mil anos – que vive no corpo de uma menina pré-adolescente (e fuma que nem uma chaminé) – e uma cabeça de gárgula com um estranho sentido de humor, serão os únicos capazes de fazer frente às forças do mal que ameaçam a Humanidade. Estas histórias formam, porassim dizer, um “arco completo”, uma vez que no último livro ”Requiem”, se assiste à morte de João Vicente “Dog” Mendonça, depois da explosão do edifício do Parlamento português...

“Não há dinheiro que pague a persistência de Filipe Melo”, escreve Ana Markl no Making Of de As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy. Mas acrescentaríamos que também ninguém consegue ficar indiferente à sua energia electrizante, que contagia até o público, como já vimos em sessões de apresentação ou de autógrafos dos livros de Dog Mendonça e Pizzaboy.

Nascido em Lisboa, Filipe Melo foi detido pela polícia e interrogado, aos 15 anos, por pirataria informática. Optou então por se dedicar ao piano, ficando desde cedo interessado no jazz e na improvisação. Desde então, a sua vida centra-se na música, no cinema e na BD. Estudou no Hotclube de Portugal e no Berklee College of Music, em Boston.

É também professor e arranjador, tendo trabalhado ou tocado com músicos e grupos como Peter Bernstein, Camané, Carlos do Carmo, Donald Harrisonjr., Jessé Davis, Sheila Jordan, Paulinho Braga, Swingle Singers, Martin Taylor, Perico Sambeat, Herb Geller, Orquestra de Jazz do Hotclube, Orquestra Metropolitana, entre muitos outros. Conta com mais de 15 discos gravados, entre trabalhos como líder e colaborações.

O seu hobby e a sua maior paixão é o cinema: em 2003, fundou “O Pato Profissional", uma produtora dedicada ao género fantástico. Escreveu, produziu e realizou vários projectos de culto: I’ll See You in My Dreams, curta metragem vista por 250 mil pessoas e vencedora do Fantasporto 2004 e de 12 prémios internacionais, e Um Mundo Catita, uma série de televisão exibida na RTP. Realizou ainda videoclips, documentários e publicidades. Em 2011, foi convidado pela editora Dark Horse Comics para escrever quatro histórias curtas de Dog Mendonça e Pizzaboy, para a colectânea Dark Horse Presents, ao lado de nomes como Frank Miller, Dave Gibbons e Mike Mignola.

Quanto a Juan Cavia, nasceu com um talento inato para o desenho. Em pequeno passava horas a copiar os seus livros de banda desenhada preferidos, sem no entanto chegar a bons resultados. Aos 10 anos de idade e depois de muitas tentativas falhadas de fazer as suas próprias histórias, começou a ter aulas com o professor Carlos Pedrazzini, que durante mais de um ano fez incidir os seus estudos sobre a anatomia humana, perspectiva e síntese, para depois se concentrar mais profundamente sobre a narrativa.

Durante 11 anos, sem interrupções, Juan Cavia desenvolve os seus conhecimentos em pintura, desenho, composição, dinâmica e diversas técnicas de representação. Depois do ensino secundário, começa a estudar cinema, enquanto trabalha paralelamente como storyboarder e concept designer para algumas produtoras de publicidade.

Um ano mais tarde começa a trabalhar com Marcelo Pont (designer de produção e desenhador de BD), com quem trabalha como assistente durante dois anos em diversos campos do audiovisual.

Aos 21 anos teve o seu primeiro trabalho profissional como director de arte e desde aí até hoje, realizou mais de cento e cinquenta comerciais, tanto para o mercado argentino, como internacional; mais de sessenta videoclips; várias cenografias (Teatro del Pueblo, Centro Cultural Cooperación, Teatro Argentino de la Plata, entre outros), campanhas gráficas e integrou as equipas de uma série de longas metragens: como Assistente de Direcção em Buscame (2005) e Retorno (2005); Director de Fotografia em El sueño de Harvey (2007); Director de Arte em Mi primera boda (2011), La ronda (2008) e Interrumpimos nuestro programa... (2004); como Actor em Chico conoce chica, se enamoran, etc... (2010); Set Designer em El secreto de sus ojos (2009) – Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro em 2010.

Em 2009 viu finalmente concretizar-se o sonho de trabalhar em banda desenhada nos livros As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy I, II e III, editados pela Tinta da China entre 2010 e 2013. Mais a história curta publicada na Dark Horse Presents #4 a #7 (Setembro a Dezembro de 2011), reunida no livro The Untold Tales of Dog Mendonça and Pizzaboy.


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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

BDpress #448: SAGA – VOL. 1 – A FANTASIA CONTRA A VIOLÊNCIA DO MUNDO – PÚBLICO/ ÍPSILON


SAGA – A FANTASIA CONTRA A VIOLÊNCIA DO MUNDO

PÚBLICO – Ípsilon, 05/12/2014 
José Marmeleira 

O primeiro volume da série de BD Saga já tem edição portuguesa. E é uma leitura recomendável

Como escrever hoje sobre uma space-opera em banda desenhada? Ou sobre um livro de ficção científica (e sublinhe-se o substantivo) com clichés e citações previsíveis? Estas perguntas são tanto mais pertinentes quando o cinema de género vai definhando (com pouquíssimas e modestas excepções) e, na banda desenhada, as aventuras já não são o que eram. É neste contexto que chega ao mercado nacional, reunindo num volume os fascículos da primeira série, a aclamada e premiada Saga, de Brian K. Vaughan (texto) e Fiona Staples (desenhos). O título é irónico e eloquente. A acção desta banda desenhada passa-se noutra galáxia, onde abundam naves, caçadores de prémios, soldados com asas e robôs, mas os feitos heróicos não descrevem, propriamente, uma luta do Bem contra o Mal. A saga é mais complexa e prosaica: a de um casal na protecção da filha recém-nascida. É aliás com o nascimento de Hazel que este volume começa.


Saga: Volume Um
Brian K. Vaughan e Fiona Staples
G. Floy Studio

Nas páginas seguintes, contam-se as peripécias dos pais, Alana e Marko que, originários de planetas inimigos, estão em fuga: a sua união é considerada uma ameaça pelas autoridades de Terravista e de Coroa, são traidores, devem ser eliminados. Parece a sinopse de um filme banal de acção ou aventuras, mas as cenas de violência não castigam o leitor; pelo contrário, elipses agilizam a narrativa e os enredos menores que a compõem, oferecendo à leitura um ritmo que só as cores, os fundos e o desenho de Staples se permitem interromper. Os diálogos, pontuados por apontamentos humorísticos, não insultam a inteligência e. apesar das referências à Guerra das Estrelas e a Flash Gordon, não se pode falar de pastiche ou de paródia.

Será tudo isto o suficiente para fazer de Saga um livro mais do que recomendável? Não, o que torna a sua leitura interessante é a guerra a deixar de ser pano de fundo, para se transformar em personagem, acossando o casal, com o poder de os transformar, como aos seus perseguidores, em monstros. Não é difícil supor a influência da actualidade sobre o texto de Brian K. Vaughan. Habitantes do planeta Fenda, os temidos “horrores” são, afinal, fantasmas de crianças que atormentam, com alucinações, o exército invasor. Pisaram minas ou sofreram ferimentos mortais de estilhaços, e vagueiam pelas florestas, iluminados por halos vermelhos. Não se salvaram, como não se salvará a menina refugiada que faz o que os homens quiserem. Sendo um livro assumidamente escapista, Saga, e este volume em particular, reenvia o leitor para o real. E, nesse movimento, desvela a dialéctica que o sustenta: entre a fantasia da ficção e a violência do mundo. É verdade que de forma ligeira, recorrendo a estereótipos, mas com afecto pelas personagens e frases como a que Makro profere antes de destruir a espada que pertencia à sua família: “Quando um homem tem um instrumento de violência com ele, arranja sempre justificações para o usar.”




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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

BDpress #447: REPORTAGEM SOBRE A COMIC CON PORTUGAL – no PÚBLICO

UM PARQUE DE DIVERSÕES 
CHAMADO COMIC CON PORTUGAL

Tal como sempre me quis parecer que ia ser, a Comic Con Portugal teve, ao que parece, 30 mil visitantes (sem escolas, eh, eh...), mas... será que a vertente bedéfila teve a primazia, ou foram o cosplay e os actores cinéfilos os preferenciais alvos do público? Ao que parece, os stands de livreiros e editores de BD venderam bem, portanto... Mas não se pode ainda fazer uma ideia precisa do que aquilo foi. Ficam aqui, para já, os textos publicados no jornal Público sobre o evento e, mais tarde, talvez possamos ter algum feedback de editores/livreiros de BD que lá estiveram.

 PÚBLICO, 07/12/2014 

Por Mariana Duarte 

A curiosidade e a presença de actores internacionais foram os principais factores de sucesso da primeira edição do evento de cultura pop, que, este fim-de-semana, fez deslocar mais de 30 mil pessoas à Exponor, em Matosinhos.


Filas quilométricas e muita ansiedade para ver Natalie Dormer, fazer-lhe uma pergunta, pedir-lhe um autógrafo e uma selfie pronta-a-usar no Facebook. A actriz de Game of Thrones e The Hunger Games foi o centro das atenções do segundo dia (sábado) do Comic Con Portugal, que fez deslocar mais de 30 mil pessoas à Exponor, em Matosinhos, entre sexta-feira e domingo, ultrapassando as melhores previsões da organização.

“Ter conseguido chegar a estes números vai permitir que nos próximos anos [o evento está garantido pelo menos até 2018] possamos ter impacto internacional e trazer mais convidados e vedetas lá de fora”, disse ao PÚBLICO Paulo Rocha Cardoso, director do Comic Con Portugal.

Na sexta-feira, com o evento ainda a meio-gás, já dava para perceber que eram muitos os adolescentes (e alguns adultos) que estavam na expectativa da chegada de Natalie Dormer no dia seguinte. E assim foi: a actriz britânica lotou o Auditório A da Exponor, onde respondeu a perguntas dos fãs. O mesmo aconteceu, mas em menores dimensões, com outras celebridades, como Morena Baccarin (nova contratação de Gotham), ainda na sexta; Seth Gilliam (The Walking Dead), no sábado; Paul Blackthorne (Arrow) e o elenco principal da série Da Vinci’s Demons, no domingo.

Os actores internacionais foram a principal atracção do primeiro Comic Con Portugal, evento arquitectado à imagem das grandes convenções de cultura pop dos EUA que reúnem televisão, cinema, banda desenhada, videojogos e cosplay. Não se trata, portanto, de uma versão do Comic Con de San Diego (o mais mediático do género), como muita gente pensou, mas de uma adaptação do conceito para o mercado português.


Paulo Rocha Cardoso admitiu que a maior fatia do orçamento foi aplicado no sector da televisão e do cinema, num trabalho em parceria com os canais FOX, Syfy (com a antestreia mundial da série The Librarians), MOV, AXN, RTP e Disney Channel. A primeira investiu “um valor bastante representativo” no evento, disse ao PÚBLICO Assunção Loureiro, vice-presidente de Branding & Portfolio Management da FOX.

Durante o fim-de-semana não faltaram curiosos na Exponor (portugueses, mas também espanhóis, franceses e ingleses), como se de um enorme parque de diversões geek se tratasse. Uns eram caricaturados por artistas, cantavam karaoke, caçavam autógrafos, jogavam videojogos ou viam as peças originais de filmes de cinema fantástico, como as lâminas de Freddy Krueger de Pesadelo em Elm Street, na ExpoSyfy; enquanto outros arrastavam zombies por uma corda, imitando a personagem Michonne deThe Walking Dead. O cosplay e os cosplayers (pessoas que se mascaram de personagens de séries, filmes, BD, videojogos e anime) são uma parte importante destes eventos – que o diga Raul Baptista, que fez a sua própria armadura de Iron Man em casa, durante sete meses.


Feminismo e BD

A forte presença de mulheres no Comic Con prova que a cultura geek está cada vez menos falocêntrica. O feminismo foi, inclusive, abordado por várias visitantes e artistas durante o evento. Natalie Dormer referiu (entre as chalaças machistas e evitáveis do moderador, o humorista Luís Filipe Borges) que os argumentistas, ao criarem certo tipo de personagens femininas, não percebem que estão a contribuir para a fetichização da mulher.

Morena Baccarin, numa entrevista-relâmpago ao PÚBLICO, confessou que apesar de já ter participado em séries muito diferentes entre si (como Homeland e The Mentalist), regressa sempre à ficção-científica, porque é onde encontra "papéis femininos fortes” (referia-se, sobretudo, à sua presença em Firefly, Stargate SG-1 e V). E a canadiana Pia Guerra, desenhista [ilustradora] da premiada série da Vertigo Y: The Last Man, disse no primeiro painel de banda desenhada internacional, na sexta, que a indústria de BD está cada vez mais aberta a mulheres artistas [ilustradoras]. “No início da minha carreira diziam-me que eu não desenhava como uma rapariga, mas agora já não ouço esse tipo de comentários.”

Apesar de não terem tido uma adesão memorável, os painéis sobre BD foram dos momentos mais interessantes do Comic Con. Passaram por lá convidados internacionais como o relevante escritor americano Brian K. Vaughan ou os desenhistas espanhóis Marcos Martín, Carlos Pacheco e Javier Rodriguez, ligados a grandes editoras dos EUA como a Marvel. E artistas [ilustradores] portugueses que fazem trabalhos para o mercado americano de BD, como André Araújo, Daniel Henriques e Jorge Coelho. Este último elogia a “aposta nos artistas nacionais” do Comic Con Portugal, incluindo o Artist’s Alley, espaço onde os autores podiam expor e vender os seus trabalhos.

Jorge Coelho crê que o evento “tem tudo para crescer e para virem nomes internacionais da BD cada vez mais fortes”. Já há, pelo menos, a bênção do mestre Brian K. Vaughan. “Para uma primeira Con, numa cidade como o Porto, isto está a ser um sucesso. Já estive no Comic Con de San Diego e no de Nova Iorque, e aqui tive uma das maiores filas de sempre para dar autógrafos.”

CAPITÃO FALCÃO DEVE ESTREAR 
NO 25 DE ABRIL DE 2015

A equipa de Capitão Falcão também marcou presença no Comic Con Portugal. O realizador João Leitão disse ao PÚBLICO que “estão a fazer os possíveis” para que o filme estreie no dia 25 de Abril do próximo ano, com distribuição em todo o país assegurada pela NOS. Data curiosa, já que o personagem principal é um super-herói fascista (interpretado por Gonçalo Waddington). Para terminar o filme só falta gravar a música original com a premiada Orquestra Sinfónica de Praga, que já trabalhou com realizadores como Pedro Almodóvar. João Leitão revelou ainda que recebeu convites de produtores de países como a Alemanha e Espanha para fazer uma versão do Capitão Falcão com os ditadores locais (Hitler e Franco, respectivamente). O realizador simpatiza com a ideia: “Era engraçado que isto se tornasse numa espécie de franchising de comédia ditatorial.”


NA ÚLTIMA DÉCADA O MUNDO DOS COMICS TORNOU-SE MAIS FEMINISTA

Mariana Duarte 

ENTREVISTA COM O AUTOR DE BD AMERICANO 
BRIAN K. VAUGHAN.

O primeiro Comic Con Portugal recebeu Brian K. Vaughan, uma das mais importantes vozes da banda desenhada americana, distinguido com vários prémios Eisner pelo seu trabalho em Y: The Last Man e Saga [recém-editado em português]. Trabalhou também em televisão, nas séries Lost e Under The Dome.


Tirou um curso de cinema, mas foi parar à banda desenhada. Como é que se deu essa transição?

Os filmes que fazia enquanto estudante nunca correspondiam completamente ao que eu queria, e eram muito caros. E poder pôr no papel tudo o que imaginava – aliás, ter os meus desenhistas a pôr no papel tudo o que eu imaginava – fazia-me feliz. Decidi, então, deixar o cinema e a televisão e ser um escritor de banda desenhada.

Mas passados uns anos estava a escrever episódios da série Lost...

Fui convidado por Damon Lindelof e Carlton Cuse, dois dos produtores executivos e fãs do meu trabalho, em especial do Y: The Last Man. Era daquelas coisas que não podia recusar. Estamos, afinal, a falar de uma das melhores séries de sempre.

Y: The Last Man está para ser adaptado para cinema há mais de dez anos. Há novidades?

Acho que a hipótese do filme está morta. Poderá ser transformada em série, mas tenho receio de dar certezas porque estou a tentar responder a essa pergunta há uns doze anos.

Em Y: The Last Man retrata uma sociedade dominada por mulheres (apenas um homem e o seu macaco sobrevivem). É um tema clássico da literatura especulativa feminista. O que o levou a tratá-lo?

Tinha acabado de ser deixado por uma namorada, depois de uma relação longa e conflituosa. Estava confuso e atormentado por causa do sexo feminino e queria tentar compreendê-lo melhor. Decidi, então, pegar numa espécie de fantasia clássica masculina e mostrar o pesadelo que isso iria ser. Adoro falar sobre questões de género e parece que na BD esse diálogo recai só sobre as mamas da Catwoman... Tentei elevar a discussão.

Acha que o meio da BD americana tem mudado nesse sentido?

Tem melhorado bastante. Quando comecei a escrever Y: The Last Man e a ir a convenções deste género, eram sempre homens a vir ter comigo. Agora, em Saga [recém-editado em português – ver amanhã aqui no Kuentro], diria que 60% dos leitores são mulheres. Na última década, o mundo dos comics tornou-se num meio igualitário e mais feminista. Bem mais do que o cinema e a televisão.

Criou uma editora online com o Marcos Martín [desenhista que também esteve presente no Comic Con Portugal], a Panel Syndicate, onde usam um modelo pay what you want. Quando lançaram a primeira edição de The Private Eye fizeram bastante dinheiro. Continua a correr bem?

Continua, contra todas as minhas previsões. A BD tornou-se num hobbie extremamente caro e isto foi uma maneira de tentarmos mudar as regras do jogo. A edição nº. 9 saiu esta semana e as pessoas continuam a pagar, apesar de não ser preciso. O mérito é todo do Marcos, por se ter lembrado de criar esta espécie de fantasia socialista (risos). Acho que pode ser um bom modelo para o futuro, mesmo para os autores que não estejam estabelecidos no meio, porque se os leitores gostarem vão comprar. Não acreditava nisso, mas é verdade.

The Private Eye fala de uma sociedade pós-internet, que passou a valorizar a privacidade depois de toda a informação guardada online ter vindo a público. Considera que algo como #Thefappening [roubo de fotografias de celebridades guardadas no iCloud] é uma primeira demonstração de que isso pode realmente acontecer?

Este comic foi concebido antes das notícias sobre o Edward Snowden e do #Thefappening. Começámos a tratar este tema como uma fábula de uma sociedade no futuro, mas afinal é algo que já está a acontecer. O #Thefappening é a ponta de um iceberg que vai explodir, não nos próximos anos, mas nos próximos meses. Acredito que a próxima geração, a dos meus filhos, vai rebelar-se contra o domínio das redes sociais e vai passar a valorizar muito mais a privacidade.

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