sábado, 16 de abril de 2011

BDpress #254: VIAGENS AOS QUADRADINHOS (III) E ANÚNCIO DE NOVA COLECÇÃO - JORNAL PÚBLICO, SUPLEMENTO FUGAS, Carlos Pessoa



MAX FRIDMAN ESPIÃO EM TEMPO DE BRASA

A suprema ambição de Max Fridtnan parece ser cuidar das flores no seu jardim suíço, longe da turbulência do mundo. Como essa condição seria a negação absoluta do seu estatuto de herói, e a história acabaria antes mesmo de começar, o protagonista resigna-se a abandonar de vez•em quando o seu pequeno éden para se aventurar nos caminhos perigosos do mundo.

O homem da série criada pelo italiano Vittorio Giardino é um espião. Mas bastará ler algumas pranchas para se perceber que o é mais por obrigação do que por convicção. Para garantir a segurança e o bem-estar da filha cede à chantagem dos serviços secretos franceses e desloca-se em missão a Budapeste.

Depois desta bem-sucedida operação concede a si mesmoumas férias em Istambul, mas os problemas começam logo que desembarca, pois a presença de Fridman não escapa à atenção dos conspiradores e espiões internacionais de todas as nações que se digladiam nesta fronteira da Europa. Mas também é por razões nobres que Max Fridman age ao trocar a segurança da sua casa suíça pelos ventos quentes e abrasadores da Península Ibérica, onde a guerra. civil espanhola atingiu o paroxismo - procura um velho amigo. perdido na voragem que opõe falangistas e republicanos, mas também socialistas, comunistas, trotsquistas e libertários.

Como todos os espiões, Fridman é um herói solitário, ensinado a contar apenas com as suas próprias forças e recursos. Isso tem como consequência travar combates desiguais com forças demasiado poderosas e tentaculares, tentando, apesar de tudo, manter uma razoável capacidade de iniciativa mesmo em contextos desfavoráveis. Sabe que nunca está inteiramente só, pois conta com antigas amizades e cumplicidades, garantindo ainda pontualmente apoios preciosos, entre os quais os de mulheres belas e inteligentes.

Parte significativa da sua energia é gasta a manter um equilfbrio, sempre precário, entre as "razões de Estado" da sua profissão e os ditames do seu particular código de honra, para conseguircumprir integralmente os seus objectivos: cumprir as missões que lhe foram confiadas e continuar vivo. O "realismo" que rege a política internacional condiciona fortemente os resultados do seu trabalho mas, como todo o herói que se preza, consegue levar as missões até ao fim, o que não é de somenos importância no contexto altamente problemático em que se movimenta.

Giardino escolheu o tempo histórico que antecede a Segunda Guerra Mundial para localizar a acção da série e tem aí uma matéria-prima quase inesgotável. "Só situei as minhas narrativas no período antes da guerra para melhor falar do mundo contemporâneo", afirmou o autor em 1986. A agudização dos antagonismos ideológicos e civilizacionais que caracterizavam o estado do planeta à data destas declarações deu lugar a acontecimentos que mudaram o rosto do mundo e das nações nestes últimos 25 anos. No entanto, bem vistas as coisas, pode dizer-se que pouco ou nada mudou no que há de mais essencial na condição humana: é por isso que Max Fridman consagra todas as energias a viver num mundo regido pela violência, e onde a morte, tão temida e exorcizada, continua a ser moeda corrente nas relações entre poderes e interesses quase sempre antagónicos.

O QUE LER

Os cinco álbuns da série estão inéditos em português – o primeiro será editado na coIecção do Público Os Incontornáveis da BD –, mas podem ser lidos numa excelente edição francesa das Éditions Glénat.

1. Rhapsodie Hongroise
2. La Porte d'Orient
3. No Pasarán
4. Rio de Sangre
5. Sin ilusión
________________________________________________________


CUTO – AVENTUREIRO CONTRA O FRANQUISMO

Raramente a vida dos criadores está à altura das aventuras dos seus heróis. Mas há casos em que a realidade ultrapassa de longe a capacidade efabulatória da ficção, desafiando os limites da imaginação. É o que acontece com Jesús Blasco. Nascido em Barcelona no ano de 1919, tinha apenas 16 anos quando ganhou o primeiro prémio de desenho num concurso promovido pela revista Mickey. Começou em 1935 a trabalhar profissionalmente nas principais publicações de "historietas" da época. Entre elas estava Pocholo y Boliche, onde surgiu pela primeira vez Cuto, formando parte dos protagonistas da série Cuto, Gurripato y Camarilla.
O começo da guerra civil espanhola (Julho de 1936) interrompeu abruptamente esta trajectória, pois Jesús Blasco foi chamado às fileiras e integrou a "Quinta dei Biberón", um contingente militar do exercito republicano para adolescentes. No final da guerra, em 1939, foi um dos muitos milhares de republicanos que fugiram para França.

Sobreviveu às duríssimas condições de vida nos campos de refugiados, desenhando para os guardas franceses a troco de comida. Em 1940, o pai conseguiu tirá-lo do campo de refugiados e regressou a Barcelona, onde viveu quase toda a sua vida (morreu em 1995).

Nas terríveis condições do pós guerra civil - Blasco nunca mais o esqueceu e em 1983, numa entrevista que nos deu em Lisboa, falava sombriamente da fome e muita miséria experimentadas pela população – arranjou trabalho como director artístico na Editorial Plaza, realizando também capas para as publicações das editoras Molino e Clíper. A convite de Consuelo Gil, começou a colaborar no semanário Chicos, onde surgiriam as suas criações mais importantes. Foi para essa publicação que recuperou Cuto nos anos 1940, transformando-o num jovem aventureiro, corajoso e generoso, que rapidamente conquistaria um lugar único na história da banda desenhada espanhola.

É nas duas narrativas de maior fôlego - Tragédia no Oriente e Cuto no Domínio dos Sioux, ambas a cores, embora tenham sido comummente publicadas a preto e branco - que o talento e virtuosismo de Blasco atingem um ponto culminante. O protagonista é um rapaz que lembra fisicamente o actor americano Mickey Rooney, mas com uma maturidade que desmente o ar juvenil. É menor deidade, mas um ser livre, que tem de aprender a viver num mundo de adultos, passando por aventuras em paragens muito distantes do ambiente claustrofóbico imposto pelo franquismo. Talvez por isso, as histórias de Cuto são acolhidas pelos leitores espanhóis da época com grande entusiasmo.

Há uma evidente inverosimilhança no perfil do herói, que vive situações improváveis e, em muitos casos, impossíveis. É um produto da época, desejosa de evasão, entretenimento, acção e aventura que fizessem esquecer a "ressaca" da guerra civil. Mas há uma profunda maturidade gráfica etemática nas histórias de Cuto. Oremate onírico de Cuto no Domínio dos Sioux - a "inspiração" de Salvador Dali traduz-se em pranchas de uma modernidade que ainda hoje surpreende - faz esquecer o esquematismo maniqueísta na representação dos índios. E a exploração redutora do "perigo amarelo" em Tragédia no Oriente - uma moda dominante na época que viria a ser mais tarde o tema de O Segredo do Espadão, primeira aventura da série belga Blake e Mortimer -, cede o passo à brilhante metáfora sobre a violência e o poder totalitários, ironicamente publicada na Espanha falangista dos anos 40 do século XX.

O QUE LER

As aventuras de Cuto, quase todas publicadas em Portugal nos anos 1970-80, são muito difíceisde encontrar. Estas três são indispenstlveis:

1. Tragédia do Gnente
2. Crime Mundial Inc.
3. Cuto no Dominio dos Sioux
___________________________________________________________________


JONATHAN O FALSO CONTEMPLATIVO

Catorze aventuras e 31 anos separam o momento em que o herói sai do labirinto da sua própria memória resgatada à amnésia no Tibete, em 1977, e a incursão birmanesa de 2008 em defesa dos presos políticos da ditadura militar.

Durante este periodo, jonathan nunca perdeu de vista o objectivo maior da sua existência individual: a viagem aparentemente errante pela geografia do planeta em busca do sentido derradeiro da vida e dos elos significativos que ligam entre si de forma inextricável todas as criaturas. Ou dito de outra forma: as viagens de jonathan tanto se inscrevem nas coordenadas significativas da geografia universal como na procura incessante dos seres humanos livres.

Seja qual for o ângulo pelo qual se vejam as histórias do herói de Cosey, o que parece animar Jonathan é, essencialmente, o prazer da descoberta do que está para além do acidental e do efémero, numa demanda que lhe afina a percepção do que é relevante e, por essa via e nesse momento, o transporta para uma outra dimensão de consciência.

Para uma obra tão singular no, panorama da criação europeia em banda desenhada, Cosey desenvolveu um grafismo único e inconfundivel, quente e afectivo, onde a cor assume uma importância crucial.

No contexto desta série, os Himalaias e a cultura tibetana destacam-se claramente. Cosey evidencia um franco prazer em partiIhar com os leitores atmosferas e ambientes que tanto são dos personagens como dos vastos espaços, entre os quais a imensidão das montanhas mais altas do mundo. Há também, como, é realçado frequentemente, algo.de autobiográfico nesta criação, como se Jonathan fosse uma espécie de "alter-ego" do inquieto artista suíço (identificação que, diga-se de passagem, vai muito para além da mera semelhança fisica entre criador e criatura).

Do interesse do artista pelo Tibete - "talvez em virtude do meu gosto pela montanha", afirmou Cosey uma vez - nasceu em boa parte a ideia de uma personagem que vive as suas aventuras tão longe. A"originalidade" do budismo tibetano (a expressão é do próprio desenhador) e as visíveis influências da exploradora Alexandra David-Neel, da filosofia vedanta, de Jung e Sri Aurobindo fazem o resto, lançando o herói numa saga que está longe de ter atingido o seu fim.

No caminho empreendido, ele vai encontrando os marcos fundamentais (fisicos e humanos) do seu próprio percurso - Drolma, a rebelde criança tibetana, a guerrilheira Shangarila, o oficial britânico reformado Starnford Westmacott, o psiquiatra autodidacta casimir Forel, Neal e o seu amigo invisível Sylvester, a coronel Jung Lan do exército chinês, a resistente birmanesa Sabei.

Depois existe Kate, uma bela jovem americana encontrada em Srinagar e reencontrada mais tarde nos Estados Unidos. "É o meu fantasma sentimental. Um jungiano diria que é a minha 'anima'", refere Cosey com humor. Frágil e doente, a jovem aspira a escapar às limitações da sua própria biologia para se entregar com energia total à busca de uma utopia que, afinal, não está fora mas dentro de cada um de nós. Envolve nessa vertigem Jonathan, que se apaixona por ela, tecendo ambos uma das mais belas histórias de amor que é possível encontrar na banda desenhada.

O QUE LER

Todos as histórias da série. Só as duas últimas foram publicadas em Portugal (colecção "Clássicos da Revista Tintin", edição Público-Asa).

1. Souviens-toi, Jonathan…
2. Et la Montagne Chantera pour toi
1 Pieds Nus sous les Rhododendrons
2. Le Berceau du Bodhisattva
3. L'Espace Bleu entre les Nuages
4. Douniacha, il y a Longtemps
5. Kate
6. Le Privilège du Serpent
7. Neal et Sylvester
8. Oncle Howard est de Retour
9. Greyshore Island
10. Celui que Mène les Fleuves à la Mer
11 La Saveur du Songrong
12. Elle ou Dix Mille Lucioles
_____________________________________________________________

NOVA COLECÇÃO PÚBLICO - ASA

ROTAS E PERCURSOS DA BD, UMA COLECÇÃO PARA DESCOBRIR SETE CIDADES

Conhecer as grandes cidades mundiais na companhia dos seus heróis é o sonho de muitos fãs de banda desenhada. A partir de Junho, esse desejo pode ser concretizado através da colecção Rotas e Percursos da BD, uma iniciativa conjunta do Público e das Edições Asa (na imagem, capa da ediçao original francesa de um dos livros).

São sete guias de itinerários urbanos cuja caracteristica principal é serem ilustradas por autores de BD de renome mundial. Desenhos originais, planos das cidades vistos à lupa informação sobre os bairros históricos, dicas sobre lugares pouco conhecidos, curiosidades e histórias da cidade são alguns dos conteúdos destes livros onde as fotografias foram integralmente substituídas por ilustraões e imagens de banda desenhada.

O primeiro é dedicado a Veneza e tem a assinatura de Hugo Pratt (criador de Corto Maltese), Guido Fuga e Lele Vianello. O segundo, com sugestões de percursos em Roma. tem como autores Jacques Martin (autor de Alix), Thérese de Chérisey, Gilles Chaillet e Enrico Sallustio.

Os itinerários propostos seguem de perto as deambulações e aventuras dos dois heróis da BD nas cidades a que têm os seus nomes associados.

Os titulos seguintes já não contam com esta "boleia", mas propõem uma abordagem nova e diferente dos habituais "clichés" turisticos das cidades de Nova Iorque (Miles Hyman e Vincent Real, Florença (Nicolas de Crécy e Élodie Lepage), Marraquexe (Jacques Ferrandez e Olivier Cirendini) e Praga (Guillaume Sorel). O último titulo, da responsabilidade de François Schuiten e Chrístine Coste, é consagrado a Bruxelas a quem o primeiro dedicou uma história de BD no âmbito do ciclo Cidades Obscuras, desenvolvido com Benoit Peeters.

Carlos Pessoa
________________________________________________________




________________________________________________________

Imagens da responsabilidade do Kuentro
________________________________________________________


sexta-feira, 15 de abril de 2011

INAUGUROU ONTEM O XXIX FICOMIC - OU SALÓ DEL COMIC DE BARCELONA'2011

Como não podia deixar de ser, aqui fazemos referência ao maior Festival (aliás Salão) de BD da Ibéria, o Saló del Cómic de Barcelona que, por estratégias comerciais castelhanizou o nome e passou a chamar-se Salón!!!

Tendo como estrela TARZAN e como convidados especiais o argumentista Brian Azzarello e o desenhador Glenn Fabry.

Heus aquí el text en castellà, òbviament, seria més complicat en català. Ou seja: aqui fica o texto, em castelhano, pois claro - em catalão era mais complicado. 



TARZÁN REINA TAMBIÉN EN EL SALÓN DEL CÓMIC

El 29 Salón del Cómic de Barcelona que se inaugura este jueves 14 de abril tendrá a Tarzán como una de sus estrellas. La exposición hace un recorrido por las adaptaciones al cómic del popular personaje creado por Edgard Rice Burroughs, que tiene en los trabajos de Harold Foster y Burne Hogarth sus versiones más brillantes. Vicent Sanchis, comisario de la muestra, ha explicado que “la exposición también es una reflexión sobre la importancia que tiene el conservar en buen estado materiales como estos. Por este motivo es tan necesario un museo del cómic”.

Os Tarzans de Hal Foster (anos 1920) e de Burne Hogarth (anos 1940) e, em baixo pranchas dos dois desenhadores.


En la rueda de prensa realizada hoy, Xavier Mallafré, presidente del Gremi d’Editors de Catalunya y de FICOMIC, ha señalado que el Salón ha consolidado la cifra récord de expositores de la pasada edición, además de contar con una variada y rica oferta cultural y de actividades, así como la presencia de destacados autores. Ha recordado que este año el Salón marca el inicio de las actividades para celebrar el Día del Libro.

Josep Vives, responsable del Servicio de Biblioteca Públicas de la Generalitat de Catalunya, ha presentado el convenio que permitirá a todos los usuarios que tengan un carnet de cualquier biblioteca pública catalana disfrutar de una entrada del Salón al precio de 4 euros. El convenio incluye otras iniciativas para conseguir que el cómic gane espacio en las bibliotecas en el futuro.

Por otro lado, Santamaria ha explicado algunos de los atractivos de esta cita, que incluye una excepcional lista de autores invitados, tanto nacionales, como internacionales. Así, el director del certamen ha subrayado que el mundo del cómic tiene cada vez más relación con los videojuegos y otros productos audiovisuales. Además ha dicho que la programación de exposiciones es extraordinaria como la muestra dedicada a los zombis, como el cómic ha reflejado el 23-F o como los gatos son retratados en las viñetas. Además, Santamaria ha recordado que el Salón ha organizado un espacio solidario con Japón que mostrará una exposición de dibujos que subastan en internet para donar la recaudación a organizaciones humanitarias japonesas.

Las áreas de juegos de estrategia, el espacio de videojuegos de Xbox 360 y Nintendo 3DS, los talleres, las actuaciones musicales al escenario o las presentaciones de novedades y conferencias completan el programa. El director ha destacado las actividades paralelas que tendrán lugar al largo de la semana comenzando este miércoles con el preestreno en el Megacine del Magic Badalona de La Caperucita Roja. El jueves se celebrará en este mismo cine una videoconferencia con Robert Kirkman y una maratón con su serie Los Muertos Vivientes. Y viernes maratón de películas de zombis al cine Urgell dentro del Phenomena.

Al ser preguntado sobre cuál es el estado del Centre d’Arts del Còmic i la Il•lustració (CACI), ha comentado que “el proyecto progresa adecuadamente con la perspectiva de poder inaugurarlo en el 2014”. Ha señalado que el plan director establece los objetivos fundamentales como recuperar y catalogar un gran patrimonio cultural y artístico disperso y en peligro de extinción. Además de difundir el cómic y la ilustración entre el gran público con actividades interesantes y convertirse en un punto de encuentro de los profesionales y de los estudiosos del cómic.

AZZARELLO, FABRY Y JOHNSON ACUDEN COMO INVITADOS AL SALÓN DEL CÓMIC

Vertigo, el sello de DC dirigido a lectores adultos, ha publicado algunas de las mejores series de los últimos tiempos. Uno de sus grandes éxitos, tanto a nivel creativo como de público, es sin duda 100 Balas, una apasionante entrega de género negro y conspirativo.

Su guionista, Brian Azzarello, es uno de los invitados-estrella del Salón del Cómic, cita en la que presentará la espectacular edición integral de la serie editada por Planeta DeAgostini. Azzarello, uno de los guionistas más valorados del momento, ha realizado numerosos trabajos en el género de los superhéroes. Así, en el Salón también presentará su versión de uno de los grandes villanos de los tebeos, Luthor, el rival de Superman, con lapices de Lee Bermejo.

Los seguidores de 100 Balas están de suerte porque al Salón tabién acudirá el autor de las magníficas portadas de la serie, Dave Johnson. Este artista es conocido sobre todo por eso, por sus portadas para distintas obras, un trabajo que le valió en 2002 el premio Eisner al mejor portadista por sus ilustraciones para cabeceras como Detective Comics. No obstante, también colaborado como dibujante en títulos de gran éxito como Superman: Red Son (DC) y sus portadas también se han visto en comcs de Marvel como Deadpool.

Otro artista destacado de la lista de invitados del Salón es Glenn Fabry, un dibujante de estilo impactante que ha trabajado para distintas editoriales. Entre sus obras figuran entregas como The Authority: Kev (Wildstorm), Thor: Vikingos (Marvel) y una historia para el Sandman de Neil Gaiman. Asismismo es el autor de las memorables portadas de otra aclamada serie de Vertigo, Predicador, del guionista Garth Ennis, también presente en el Salón, y del dibujante Steve Dillon.

En definitiva, una oportunidad única para disfrutar en el Salón de estos tres grandes creadores del noveno arte.


Brian Azzarello, Glen Fabry e Dave Johnson.

Em baixo, trabalhos de Fabry:
 


E de Dave Johnson:



 Fotos do FICOMIC de 2010 (até parece o FIBDA, não é?):




_________________________________________________________

Imagens da responsabilidade do Kuentro
_________________________________________________________

quarta-feira, 13 de abril de 2011

BDpress #253: VIAGENS AOS QUADRADINHOS (II) - JORNAL PÚBLICO, SUPLEMENTO FUGAS, Carlos Pessoa

VIAGENS - DE CORTO A JONATHAN

BANDA DESENHADA - VOLTA AO MUNDO COM SETE GRANDES VIAJANTES

Carlos Pessoa

(2ª parte)


BLAKE E MORTIMER - UMA DUPLA CONTRA OLRIK

Os mais britânicos heróis da banda desenhada europeia foram criados por um belga. Chamam-se Francis Blake e Philip Mortimer, respectivamente oficial dos serviços secretos e cientista. São velhos e incondicionais amigos, criados em 1946 por Edgar Pierre Jacobs, um criador solitário que fez teatro e foi cantor lírico (barítono) até ao início da ocupação da Bélgica pelos alemães no início da Segunda Guerra Mundial.

Os tempos, difíceis como o são sempre em período de guerra, não eram muito favoráveis à expressão artística e Jacobs viu-se forçado a ganhar a vida de outro modo.

Começou a colaborar, em 1940, na revista Bravo, onde continuou uma versão europeia das aventuras de Flash Gordon, do americano Alex Raymond, que deixaram de chegar à Europa por força do conflito. A experiência foi curta, porque os alemães proibiram a série logo a seguir. O passo seguinte foi a história de fi cção científica O Raio U, onde se vislumbra o espírito daquele clássico norte-americano.

Por esta altura, Jacobs conhece Hergé e passa a apoiá-lo na produção e na cor das aventuras de Tintin.

A queda do nazismo e a libertação soltam todas as energias aprisionadas na Europa ocidental. A banda desenhada comunga desse espírito, contribuindo com o projecto da revista Tintin (edição belga). Jacobs está entre o núcleo fundador, assinando o argumento e o desenho da série Blake e Mortimer. O primeiro episódio, O Segredo do Espadão (1946), leva os heróis até ao Médio Oriente e ao Tibete, lutando contra a nova ameaça totalitária que sopra de leste – o então mítico e temido “perigo amarelo”. Como banda desenhada típica de acção e aventura, os dois amigos não tardam a focalizar-se naquele que será o combate central da série – a oposição total ao inteligente e pérfi do coronel Olrik, um mercenário-cavalheiro que vende os seus talentos a quem mais pagar por eles. Todos os episódios seguintes se organizarão em torno deste antagonismo, sempre repetido e nunca defi nitivamente ganho. A aventura estará onde estão os heróis – o Egipto ou o Japão, o Tibete ou o Médio Oriente, os Açores, Paris ou Londres –, num périplo que os continuadores da série, após a morte de Jacobs, levam a muitas outras paragens, de África à Antárctida, passando por Bruxelas.

A invenção de Blake e Mortimer é um pouco determinada pelas circunstâncias. Até aí, o artista ganhara alguma experiência em registos históricos, mas como apenas uma das aventuras previstas no arranque da revista Tintin se situava na actualidade (O Templo do Sol, de Hergé), e as restantes remetiam para “o histórico e o feérico”, foi “amavelmente instado a criar uma história contemporânea”. Jacobs escolheu “a ficção científi ca como mal menor”.

Durante um ano ainda continua a assistir Hergé enquanto desenvolve a sua obra própria, mas em 31 de Janeiro de 1947 cessa oficialmente a colaboração com o criador de Tintin. As quatro décadas seguintes caracterizam-se por um aturado (mas não muito produtivo) trabalho criativo, pois Jacobs é um perfeccionista que insistirá em trabalhar sempre sozinho até à sua morte, em Fevereiro de 1987.

A consequência é uma mão-cheia de aventuras sólidas, envolventes e com enredo emocionante. A série Blake e Mortimer é, definitivamente, um grande clássico da banda desenhada europeia.

O QUE LER

Todas as aventuras da série, com destaque para as oito primeiras realizadas pelo seu criador, Edgar Pierre Jacobs. Não está disponível nenhuma edição completa em língua portuguesa.

1. O Segredo do Espadão
2. O Mistério da Grande Pirâmide
3. A Marca Amarela
4. O Enigma da Atlântida
5. S.O.S. Meteoros
6. A Armadilha Diabólica
7. O Caso do Colar
8. As 3 Fórmulas do Professor Sato
9. O Caso Francis Blake
10. A Conspiração Voronov
11. O Estranho Encontro
12. Os Sarcófagos do 6º Continente
13. O Santuário de Gondwana
14. A Maldição dos Trinta Denários
_________________________________________________________


JOHNNY HAZARD AGENTE DA GUERRA FRIA

Carlos Pessoa

Os heróis não morrem mas podem ser mortos. É o que acontece a Johnny Hazard, criado em 1944 e extinto em 1977 pelo seu criador, o americano Frank Robbins. Piloto aviador de profissão, é mais uma das muitas personagens de comics que decidem "cooperar" no esforço de guerra norte-americano, decretando uma luta sem quartel a todos os inimigos, quer eles sejam nazis alemães ou japoneses. As suas aventuras começam nas tiras diárias dos jornais americanos a 5 de junho de 1944, um dia antes de começar a invasão da Normandia pelas tropas aliadas. Os leitores ficam a saber que nesse dia o herói, prisioneiro de guerra dos nazis, prepara-se para fugir de uma base aérea inimiga.

As pranchas dominicais, com um enredo independente, têm início a 2 de julho do mesmo ano.

O fim da Segunda Guerra Mundial surge pouco depois e, com ele, vem a inevitável reconversão da série. Johnny Hazard volta à vida civil e regressa ao seu país. Agora, são outros os caminhos da aventura, longe dos palcos de combate; a série é preenchida com aventuras agitadas e emocionantes, por vezes pouco crediveis, nas quais participam personagens muito bem caracterizadas.

Invariavelmente, o herói de Frank Robbins vai estar envolvido ou apoia incondicionalmente todas as operações pró-ocidentais da "guerra fria", onde quer que a sua ajuda seja útil ou necessária.

Apesar da influência gráfica do desenhador Milton Caniff, o universo criado por Robbins possui
um dinamismo próprio, para o qual contribuem tanto o uso enérgico do pincel , como o recurso a uma cuidadosa planificação e montagem de franca inspiração cinematográfica.

A série conta com uma importante galeria de figuras femininas. O destaque vai para Brandy, a estrela da primeira fase da série, que aparece em Itália como repórter fotográfica de guerra, durante um bombardeamento – a situação é uma excelente metáfora para sublinhar o temperamento "vulcânico" da personagem. Está ao lado de Johnny Hazard em inúmeras peripécias, desaparece em 1948 e regressa três anos mais tarde. Mas não está sozinha, pois conta com duas adversárias de peso: Liz Maruúng, directora de uma companhia aérea, e a baronesa Flame, com quem o herói inicia um amplo ciclo de aventuras exóticas pelo Extremo Oriente.

A agudização da guerra fria entre os blocos capitalista e comunista nos anos 1950 encontra eco claro na série, tanto nas tiras diárias como nas pranchas dominicais, traduzindo-se em situações alusivas ao combate surdo entre o Ocidente e os países de orientação ideológica marxista.

Na segunda metade da mesma década, Hazard começa a trabalhar directamente com o Departamento de Estado, institucionalizando-se como "herói de Estado". Passa a ser um agente americano directamente empenhado na luta anticomunista, integrando a partir de 1966 uma organização supranacional de contornos pouco definidos, a "World lntelligence Network Guardian", no âmbito da qual realiza espinhosas missões de espionagem. Os últimos anos de existência da série são pouco interessantes, com Johnny Hazard a acompanhar uma clara decadência dos géneros narrativos clássicos da banda desenhada americana.

Na última tira, o herói encontra-se com Flame: "Imagine que chegou o dia em que o homem másculo acaba!". E Robbins faz o seu herói acrescentar: "Assim passa uma era..."

O QUE LER

A obra de Frank Robbins, abundantemente publicada em Portugal no século XX, é muito difícil de encontrar. Algumas histórias publicadas pela Editorial Futura. Mundo de Aventuras e Jornal do Curo:

1. Johnny Hazard
2. O Canto da Sereia
3. Socorros Contestados e Mal Recebidos
4. Aventura nos Balcãs
5. Luta no Espaço
6. O Campeão de Macau
________________________________________________________


terça-feira, 12 de abril de 2011

BDpress #253: 2 HISTÓRIAS DE “MURENA” - AMANHÃ NO 7º ÁLBUM DA COLECÇÃO “OS INCONTORNÁVEIS DA BD” COM O JORNAL PÚBLICO

Duas aventuras inéditas da série Murena no sétimo álbum da colecção Os Incontornáveis da BD

ERA UMA VEZ A HISTÓRIA EM ROMA


MURENA
Álbum 7
A Melhor das Mães
Os que vão Morrer...
Quarta-feira, 13 de Abril
Por + € 7,40

Carlos Pessoa

A assinatura do argumentista Jean Dufaux garante, à partida, um crédito de confiança a esta série pelo seu vasto currículo, onde não faltam sequer incursões por diferentes épocas históricas. O desenho de Delaby, um dos mais talentosos criadores da sua geração, faz o resto: Murena é uma série de grande fôlego e um fresco admirável sobre um período crucial do Império Romano.

A luta pelo poder em Roma é o motor da acção e o estímulo indispensável que anima as vidas dos protagonistas. O cruzamento das distintas trajectórias decorre num ambiente e sob uma atmosfera construidos com mestria por Dufaux e ilustrados com sensibilidade por Delaby.

Tendo como fundo os factos historicamente estabelecidos, os autores constroem uma excelente galeria de personagens, onde sobressaem Agripina (astuta, possessiva e ambiciosa), o seu filho Nero (que tem tanto de inteligente como de vulnerável à manipulação) e Britannicus, o fraco e ingénuo filho do imperador Cláudio eliminado pela madrasta.

Mas seria erróneo pensar que toda a intriga se resume a um movimento panorâmico no interior dos centros de decisão. A Roma de Delaby-Dufaux não é apenas a do luxo e da vertigem das histórias de vida das farnílias patrícias. É também o lugar onde a plebe se debate com os seus gostos, interesses e aspirações - bem traduzidos pelo frenesim das corridas ou dos combates de gladiadores no circo -, mas desempenhando pontualmente papéis bem mais relevantes do que o de mero peão no espectáculo da história das sociedades e civilizações.

Há quem procure em Murena as ressonâncias do cinema clássico americano, de Ben Hur a Spartacus e Quo Vadis? Delaby confessou ter-se inspirado em "personalidades cinematográficas" e Dufaux disse que pretendeu contar "uma história fictícia numa história real". Conseguiram ambos uma obra que retoma a melhor e mais nobre tradição da banda desenhada histórica.

Páginas de "A Púrpura e o Ouro" e "A Areia e o Sangue" editados pelas edições Asa.



____________________________________________________________

As imagens são da responsabilidade do Kuentro

____________________________________________________________


segunda-feira, 11 de abril de 2011

BDpress #252: VIAGENS AOS QUADRADINHOS (I) - JORNAL PÚBLICO, SUPLEMENTO FUGAS, Sandra Silva Costa e Carlos Pessoa

O Público, no seu suplemento dos sábados, o Fugas, publicou no dia 19, oito páginas, com uma espécie de editorial de Sandra Silva Costa, sobre os grandes viajantes da banda desenhada. De Corto Maltese a Jonathan, passando por Tintin, Blake e Mortimer, etc... tivemos uma visão suigeneris sobre as viagens na BD e ainda o anúncio de uma nova colecção a públicar com o jornal: Rotas e Percursos da BD, a partir de Junho. Dada a extensão do material recortado, será aqui republicado em três partes, para quem não leu...


FASCÍCULOS

Sandra Silva Costa

O Tintin, claro: era jovem, tinha um cabelo engraçado e uma profissão que me parecia espectacular. Corria mundo — o que era ainda mais espectacular — e vivia as mais espectaculares aventuras, incluindo ir à lua. Acompanhei algumas destas façanhas através de álbuns que não eram meus, mas lembro-me muito bem do Tintin em versão cinco minutos que dava na RTP depois do Telejornal. Ouvíamos o sinal sonoro — “Les aventures de Tintin, d’après Hergé” — e morríamos para o mundo durante aqueles minutos, que nos pareciam sempre tãaaaaaaaao curtos.

Algures nos anos 90, O Independente fez uma daquelas colecções em fascículos com algumas aventuras do Tintin. Às vezes eu perdia O Independente, por isto ou por aquilo, mas quando começaram a sair os fascículos não perdi um único. (Chamem-me antiquada, jurássica ou coisas parecidas, mas confesso que já tenho saudades de uma bela colecção por fascículos — é mais ou menos a mesma coisa que estar à espera dos episódios semanais da Anatomia de Grey, que é um prazer que eu não dispenso).

Bom, os fascículos do Tintin: fui dar com eles no escritório lá de casa, já meio amarelecidos, ordenados cronologicamente dentro da capa dura, mas à solta. Pois: eu adorava as colecções de fascículos, mas muito raramente as mandava encadernar.

Já perceberam, portanto, que, não sendo eu uma fanática da BD, tenho um herói preferido. Claro que o Corto Maltese tem muito charme — e não dispensei a Fábula de Veneza numa recente incursão à cidade italiana — mas o Tintin há-de ser sempre o Tintin: foi ele que me levou ao país dos sovietes, ao Tibete, a Sidney e ao Templo do Sol. Tintin e Corto Maltese serão os heróis que mais dizem ao grande público. Mas Carlos Pessoa — ele sim, um aficionado e entendido em BD — andou a vasculhar os seus álbuns e apresenta-nos na edição de hoje sete grandes viajantes dos quadradinhos. São eles Blake e Mortimer, Johnny Hazard, Max Fridman, Cuto, Jonathan, Tintin e Corto Maltese. “A maior parte dos heróis dos quadradinhos são incansáveis caminhantes que atravessam os continentes enfrentando inimigos, desafi os e provações”, escreve Carlos Pessoa.

Esta semana, portanto, viajamos aos quadradinhos. E a partir de Junho, cortesia do PÚBLICO, isto é para levar à letra: a colecção Rotas e Percursos da BD vai-nos deixar descobrir as grandes cidades mundiais na companhia dos heróis das pranchas.

Não pode ser em fascículos? Não?

Pois...
__________________________________________________________


VIAGENS - DE CORTO A JONATHAN

BANDA DESENHADA - VOLTA AO MUNDO COM SETE GRANDES VIAJANTES

Os heróis da banda desenhada estão entre os grandes viajantes do nosso tempo. Encontram-se em toda a parte, enfrentando desafi os e derrotando inimigos. Alguns, mais contemplativos, mostram que a aventura é uma experiência subjectiva que remete o leitor para o território do sonho ou da magia.

Siga Carlos Pessoa nesta longa viagem com sete heróis da BD

A viagem é o húmus da aventura e a banda desenhada é uma boa ilustração disso. A maior parte dos heróis dos quadradinhos são incansáveis caminhantes que atravessam os continentes enfrentando inimigos, desafios e provações. Outros revelam-nos que a aventura também pode ser uma experiência subjectiva, remetendo o leitor para os territórios aparentemente mais difusos do sonho, da magia ou da utopia.

Quem diz heróis, diz os seus criadores. O italiano Hugo Pratt passou a vida a correr mundo e viveu longos anos na Argentina antes de se fixar na Suíça, passando diversos períodos em Paris mas sem nunca se esquecer da “sua” Veneza adorada. É, por isso, difícil estabelecer onde acabam as deambulações do artista e começam as do seu herói, Corto Maltese, que esteve fisicamente em todos os locais sensíveis do mundo do seu tempo. Todavia, Pratt só nos últimos anos de vida se atreveu a dizer, deixando perplexos muitos dos seus inúmeros admiradores, que a aventura é, antes de mais, uma experiência individual que remete o leitor para domínios pouco ou mesmo nada mapeados (caso de As Helvéticas e Mü).

Já a demanda do suíço Cosey (nome artístico de Bernard Cosandey) parece trilhar caminhos mais “fiáveis” ou, em todo o caso, reconhecíveis. O seu “alter-ego” Jonathan é um falso contemplativo que encontrou nos píncaros dos Himalaias – mas também, ocasionalmente, na Birmânia, Nepal, Índia ou Estados Unidos – um espaço próprio de existência individual, a que não são alheios os desafios políticos e ideológicos do seu tempo. O mesmo poderia dizer-se de Max Fridman, o espião francês criado pelo italiano Vittorio Giardino, que troca regularmente o conforto burguês da sua residência suíça pelos perigosos jogos da conspiração política internacional, seja em Budapeste, Istambul ou na sangrenta guerra civil espanhola.

Não consta que Edgar Pierre Jacobs ou Hergé, os dois famosos autores da banda desenhada franco-belga, tenham sido grandes viajantes. Em contrapartida, é lendária a sua obsessiva preocupação documental – porventura mais constante e consistente ao longo de todas as aventuras de Blake e Mortimer do que nas de Tintin. O resultado, a todos os títulos brilhante, é o que se reconhece nas bandas desenhadas que têm preenchido o imaginário de gerações sucessivas de leitores.

Os dois últimos heróis, cada um à sua maneira representativos de uma cultura de viagem e aventura, são sobretudo homens de acção, entendida esta como motor de uma narrativa concebida para fruição de leitores de todas as idades.
Cuto surge e cresce nos anos 1930 num país, Espanha, arrasado por uma guerra civil, onde o acesso à informação e ao conhecimento era muito difícil. Não surpreende, por isso, que seja mais difusa a caracterização e identificação dos espaços físicos da narração, que cedem o passo ao livre desenvolvimento do enredo, não raras vezes pouco convincente ou até inverosímil.

Johnny Hazard é o herói típico americano, instrumento activo da política externa do seu país num contexto de guerra fria – está onde o “comunismo internacional” deve ser combatido e é este o guião escrupulosamente seguido. Encontramo-lo em todo o lado, mas o que nos é dado a ver dos locais de acção raramente escapa ao estereótipo ou à caricatura. No quadro da BD clássica norteamericana, isso não parecia ser importante; além disso, o ritmo de trabalho imposto aos artistas deixava pouco espaço para preocupações documentais consistentes. Neste caso, as histórias ressentem-se disso, mas sem perder o fulgor presente no impulso criador inicial.


CORTO MALTESE GLOBE TROTTER DO SÉCULO XX

Não se sabe ao certo onde morreu Corto Maltese e em que circunstâncias. O seu criador partiu em 1995 sem desvendar esse mistério e, por isso, tudo o que possa ser dito são especulações a partir de informações escassas que já não podem ser confi rmadas. A única certeza é a presença do marinheiro numa das ilhas das Caraíbas em 1925, naquela que foi a sua última aventura realizada por Hugo Pratt. Michel Pierre, estudioso da obra do italiano, diz que, depois disso, o herói esteve ligado, em 1928, ao contrabando de álcool nos Estados Unidos, mas há também quem afi rme tê-lo visto em Hong-Kong. Está provado o seu apoio activo ao lado republicano na guerra civil espanhola, chegando ao país na Primavera de 1937 para lutar nas Brigadas Internacionais. A partir daqui só existem informações fragmentárias que o dão, durante a Segunda Guerra Mundial, sucessivamente em Istambul (1941), no Cairo e no Pacífico (1942). Em 1955 parte de Boston no navio Vanité Dorée II numa expedição para encontrar os restos da fragata inglesa Essex e o fabuloso tesouro que transportava à data do naufrágio. Há um derradeiro registo da sua passagem pela ilha do Príncipe Eduardo, mas nunca mais voltou a atracar em nenhum porto.

Apesar destas lacunas e dúvidas, Corto Maltese é uma das mais consistentes criações de banda desenhada. Herói mediterrânico, com um incrível sentido de humor e fleumático quanto baste, é acima de tudo um observador profundamente apaixonado pela condição humana em tudo o que ela tem de belo e também de horrível.

Falar de Corto é falar de Pratt, sendo difícil dizer onde acaba a história de um e começa a do outro. A quem lhe perguntou se o herói era ele próprio, Pratt limitou-se a responder que têm em comum o gosto pela aventura – “como Ulisses, é um marinheiro que vai de aventura em aventura” – e que “a sua criação foi uma intuição”. Neste sentido, a biografia de Corto Maltese cruza-se com a do seu criador e, por vezes, ambas quase se confundem, num exercício responsável pela marca imorredoura que a série deixou na banda desenhada mundial.

Corto, o marinheiro nascido em Malta em 10 de Julho de 1887, de mãe cigana de Sevilha e pai marinheiro oriundo da Cornualha, imprime a sua discreta mas inconfundível assinatura em todas as geografias conhecidas do planeta.

A aparição primordial tem algo de simultaneamente profético e redentor, pois surge atado de pés e mãos, numa representação crucifi cada, algures na imensidão do Pacífico – talvez porque nasceu como um mero personagem secundário numa história inteiramente centrada na figura da bela Pandora...

Esteve no conflito russo-nipónico nos primeiros anos do século XX, trilhou a floresta amazónica e foi visto na costa ocidental da América do Sul. Durante a Primeira Guerra Mundial passou pela Europa e pela África Oriental, enfrentou os rigores da Sibéria e procurou os tesouros de Samarcanda. Atravessa meio mundo para procurar velhos amigos na Argentina depois de uma nova incursão pela Veneza dos seus sonhos e mitos e antes de mergulhar, na Suíça, nos mistérios alquímicos. Termina a sua saga conhecida nas Caraíbas em demanda do mítico continente perdido de Mü. Graças a este percurso grandioso, o herói viria a impor-se ao reconhecimento do mundo, tornando-se numa das mais importantes criações da banda desenhada do século XX.

O QUE LER

Toda a obra da série. Infelizmente, não está disponível nenhuma edição completa em língua portuguesa.

1. A Juventude de Corto Maltese
2. A Balada do Mar Salgado
3. Sob o Signo do Capricórnio
4. Corto Maltese na Amazónia
5. As Célticas
6. As Etiópicas
7. Corto Maltese na Sibéria
8. Fábula de Veneza
9. A Casa Dourada de Samarcanda
10. Tango
11. As Helvéticas
12. Mü
__________________________________________________________


TINTIN - HERÓI NA TERRA E NA LUA

As aventuras de Tintin começam num dia de Janeiro de 1929, quando apanha em Bruxelas o comboio para Moscovo. É, na altura, um jovem e desconhecido repórter ao serviço de um jornal católico belga. A viagem ao País dos Sovietes é uma frontal denúncia da “Rússia soviética” que termina com uma recepção apoteótica no regresso à Bélgica. Assim começava a carreira exemplar do herói fundador da moderna banda desenhada europeia.

Tintin é um jornalista que quase nunca é visto a escrever qualquer notícia ou artigo. De facto, ele nasceu para correr mundo e viver as aventuras às quais deve, passados mais de 80 anos, a sua própria imortalidade. Desde o primeiro instante está a seu lado Milu, um cão inteligente com qualidades que estão muito para além da sua mera condição animal – realista, corajoso e preocupado com o seu conforto, mas também combativo e bastante guloso. E encontra-se rodeado ao longo das aventuras por uma vastíssima lista de personagens, de onde se destaca o truculento Haddock, o distraído Tournesol, a inefável Castafiore e os indescritíveis Dupond e Dupont, entre tantos outros.
Depois de viajar para a União Soviética, o herói de Hergé deslocase ao Congo, à época uma colónia belga, e depois à América. E nunca mais pára ao longo de outras duas dezenas de aventuras através do Médio e Extremo Oriente, Balcãs, América do Sul, Ásia e mesmo... a Lua.

Sabemos, pelas palavras de Hergé a um admirador, como surgiu Tintin: “A ‘ideia’ da personagem e do tipo de aventuras que ele ia viver ocorreu-me, creio, em cinco minutos, no momento de esboçar pela primeira vez a silhueta desse herói: isso quer dizer que ele não tinha habitado os meus verdes anos, nem mesmo em sonhos.” A seguir vem a interpretação pessoal do acto criador: “É possível que eu me tenha imaginado, em criança, na pele de uma espécie de Tintin: nisso, mas apenas nisso, haveria uma cristalização de um sonho, sonho que é um pouco o de todas as crianças e não pertença em exclusivo do futuro Hergé.”

O contexto sócio-histórico em que nasce Tintin é mais fácil de enunciar. O padre Norbert Wallez, director do jornal belga Le Vingtième Siècle, encomenda ao seu jovem colaborador – Hergé tem então 22 anos e manifesta uma admiração pelo eclesiástico que se manteria pela vida fora – uma história que tivesse um adolescente e um cão. A ideia era transmitir valores católicos aos leitores, que se pretendiam educar no culto da virtude e do espírito missionário. O envio do jovem repórter à Rússia soviética, um reino “demoníaco” onde imperava a pobreza, a fome, o terror e a repressão, era uma solução que se adequava às mil maravilhas ao desejo do director padre.

Tintin revela-se inicialmente uma criatura dura, mesmo cruel e implacável. Mas com o passar dos anos e das histórias, conhece uma subtil metamorfose, dando lugar a um herói mais generoso e compassivo, disponível para defender os fracos e oprimidos.

Antes de Tintin, Hergé dera vida às aventuras de Totor, um escuteiro chefe de patrulha de quem o jovem repórter foi imaginado como um “irmão” mais pequeno. O autor veste-o com um fato de golfe apenas porque era uma indumentária que ele próprio gostava de utilizar com frequência. O resto é a expressão natural de um desejo de diferenciação das demais personagens conhecidas. Assim surge o topete, que se tornou numa imagem de marca do herói para sempre.

O QUE LER

A totalidade da obra:
1. Tintin no País dos Sovietes
2. Tintin no Congo
3. Tintin na América
4. Os Charutos do Faraó
5. O Lótus Azul
6. A Orelha Quebrada
7. A Ilha Negra
8. O Ceptro de Ottokar
9. O Caranguejo das Tenazes de Ouro
10. A Estrela Misteriosa
11. O Segredo do Licorne
12. O Tesouro de Rackham o Terrível
13. As 7 Bolas de Cristal
14. O Templo do Sol
15. Tintin no País do Ouro Negro
16. Rumo à Lua
17. Explorando a Lua
18. O Caso Tournesol
19. Carvão no Porão
20. Tintin no Tibete
21. As Jóias da Castafiore
22. Voo 714 para Sydney
23. Tintin e os Pícaros
24. Tintin e o Alph-Art
____________________________________________________________

 
Locations of visitors to this page