sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

DOIS IRMÃOS - DE FÁBIO MOON E GABRIEL BÁ – EDIÇÃO G.FLOY

DOIS IRMÃOS
De Fábio Moon e Gabriel Bá
baseado na obra homónima de Milton Hatoum 


Livro com 116 págs. (foi preciso contar as páginas à mão, uma vez que o editor cometeu o disparate de não numerar as páginas deste livro) – Encadernado (capa dura) – 21 x 28 cm.
Edição G.Floy

Vencedor do prémio Eisner para Melhor Adaptação Literária, do Prémio Harvey para Melhor Álbum Estrangeiro e do Troféu HQ Mix para Melhor Adaptação.

DOIS IRMÃOS
Autor do Romance: Milton Hatoum

Milton Assi Hatoum (Manaus, 19 de agosto de 1952) estudou arquitectura e é um escritor, tradutor e professor brasileiro radicado em São Paulo. Estreou-se na ficção com Relato de um Certo Oriente, publicado em 1989 e vencedor do prémio Jabuti para o melhor romance do ano. O seu segundo romance, Dois Irmãos, de 2000, mereceu outro Jabuti e foi taduzido para oito idiomas. Com Cinzas do Norte, de 2005, Hatoum venceu os prémios Jabuti, Bravo!, APCA e Portugal Telecom. Em 2008, publicou a sua primeira novela, Orfãos do Eldorado, em 2009, o livro de contos A Cidade Ilhada e, em 2013, viu as suas crónicas reunidas em Um Solitário à Espreita. Em Portugal, estão editados pela Penguin Random House/Companhia das Letras, os seus romances Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente e A Noite da Espera.
Hatoum é considerado um dos grandes escritores vivos do Brasil.

Milton Hatoum

Este romance, Dois Irmãos, tem vindo a conquistar gerações de leitores no mundo inteiro desde a sua publicação em 2000. E foi com o mesmo entusiasmo desses leitores que os premiados autores de banda desenhada Fábio Moon e Gabriel Bá, também eles dois irmãos (gémeos, já agora), embarcaram na missão de adaptar a obra de Milton Hatoum como romance gráfico. Ao mesmo tempo que preserva a força narrativa de Hatoum, esta adaptação evidencia o talento de Bá e Moon como desenhadores de BD. A partir do seu traço, a vida dos gémeos Yaqub e Omar ganha novos contornos épicos. A Manaus de Bá e Moon, feita de um jogo de luz e sombras, acolhe este drama que cruza gerações e, seja nos grandes planos ou nos mais ínfimos detalhes, instila no enredo original de Hatoum uma energia e vitalidade novas.

O primeiro trabalho notável dos irmãos foi a revista independente no estilo underground chamada 10 pãezinhos, que chegou a 40 números e rendeu muitos elogios aos dois. Já foram publicados 5 livros dos "10 pãezinhos": "O Girassol e a Lua" (2000, Via Lettera), "Meu Coração, Não Sei Por Quê." (2001, Via Lettera), "Crítica" (2004, Devir), "Mesa para Dois" (2006, Devir) e "Fanzine" (2007, Devir).
 
Fábio Moon e Gabriel Bá

Lançaram mais 3 revistas independentes no Brasil: "Rock'N'Roll" (2004), em parceria com Bruno D'Angelo e Kako; "Um Dia, Uma Noite" (2006) e "5" (2007), em conjunto com a americana Becky Cloonan, o grego Vasilis Lolos e o gaúcho Rafael Grampá. Esta última revista ganhou o Eisner Award 2008 de melhor antologia, juntamente com a webcomic "Sugarshock", escrita por Joss Whedon.

Em 2007, lançaram uma adaptação em BD de "O Alienista" de Machado de Assis, premiada com o Prêmio Jabuti de "Melhor livro didático e paradidático de ensino fundamental ou médio".

Pela chancela Vertigo da DC Comics, Moon e Bá lançaram a BD Daytripper, mini série em 10 edições, desenhada e escrita por eles e colorida por Dave Stewart. A obra recebeu dois prémios em 2011.

Desenharam “BPRD: 1947″, escrita por Mike Mignola e Josh Dysart, uma prancha dominical na “Folha de S.Paulo”, chamada “Quase Nada”, e uma página de banda desenhada na revista mensal “Época São Paulo”.

Em 2015, os irmãos lançaram a nova BD, Dois irmãos, baseada na obra homónima de Milton Hatoum, publicada no Brasil pela chancela "Quadrinhos na Cia." da editora Companhia das Letras e nos Estados Unidos pela editora Dark Horse Comics, no ano seguinte, a obra ganhou um Eisner Award na categoria "melhor adaptação de outro meio", o Harvey Award na categoria Melhor Edição dos Estados Unidos de Material Estrangeiro e o Troféu HQ Mix na categoria adaptação para banda desenhada.







PRÉMIOS

2011 – Eisner Awards – Melhor série limitada (Daytripper)
– Harvey Awards – Melhor História em Edição Única (Daytripper)
2008 – Harvey Awards – Melhor nova série (The Umbrella Academy)
Jabuti – Melhor livro didático e paradidático de ensino fundamental ou médio (O Alienista)
Eisner Awards – Melhor Antologia (5) e Melhor Banda Desenhada digital (Sugarshock)
2006 – Prémio Angelo Agostini – Melhor Desenhador/Ilustrador (com Gabriel Bá)
Prémio HQ Mix – Melhor Edição Especial Nacional (10 Pãezinhos: Mesa para dois), Melhor Revista Independente (10 Pãezinhos: Um dia, uma noite), Melhor Blog de Desenhador/Ilustrador (Os Loucos Underground), Melhor Desenhador/Ilustrador Nacional (com Gabriel Bá)
2005 – Prémio Angelo Agostini – Melhor Desenhador/Ilustrador (com Gabriel Bá)
Prémio HQ Mix – Melhor Blog de Desenhador/Ilustrador (Os Loucos Underground)
2004 – Prémio Angelo Agostini – Melhor Argumentista (com Fábio Moon)
Prémio HQ Mix – Melhor Edição Especial Nacional (10 Pãezinhos: Crítica), Melhor Blog de Desenhador/Ilustrador (Os Loucos Underground), Melhor Desenhador/Ilustrador Nacional (com Gabriel Bá)
2003 – Prémio HQ Mix – Melhor Blog de Desenhador/Ilustrador (Os Loucos Underground)
1999 – Xeric Foundation Grant - Roland
Prémio HQ Mix – Desenhador/Ilustrador Revelação (com Gabriel Bá), Melhor Fanzine (10 Pãezinhos)
  




quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O 4º ÁLBUM DA COLECÇÃO BLUEBERRY COM O JORNAL PÚBLICO

CROWE SALVA BLUEBERRY 
E McCLURE 
FAZ A SUA PRIMEIRA APARIÇÃO 

O 4º ÁLBUM DA COLECÇÃO BLUEBERRY 
COM O JORNAL PÚBLICO 


BDpress #522 Recorte do artigo publicado no jornal Público de 14/12/2019 

Texto de Carlos Pessoa 

Blueberry voluntaria-se para se encontrar com o chefe apache Cochise e encetar negociações de paz. Mas tem primeiro de encontrar Crowe. Jim McClure, um batedor que conhece a região melhor do que os próprios índios, aceita servir-lhe de guia até ao acampamento do chefe Charriba. À sua chegada, ambos são tomados por perigosos espiões e capturados. Prestes a serem torturados e executados, são salvos pela chegada de Crowe, que assume a sua defesa junto do chefe. Mais tarde, Crowe informa Blueberry que o chefe Cochise e os seus homens se encontram no México, onde o governador lhes fornece armas e munições para continuarem a guerra ... É este, resumidamente, o tema de O Cavaleiro Perdido (texto de Jean-Michel Charlier e desenho de Jean Giraud), quarto álbum da colecção Blueberry, que será distribuído com o Público amanhã, dia 19/12/2019.

Prossegue em bom ritmo a história desenvolvida nos álbuns anteriores da colecção, cujo desenlace parece não ter fim à vista, mas que nem por isso se apresenta menos envolvente. Tudo isso, graças ao talento de Charlier, que injecta na narrativa um ritmo intenso, recheado de peripécias e volte-faces inesperados. 


É neste álbum que Jim McClure faz a sua primeira aparição, tornando-se em seguida uma das figuras mais emblemáticas deste western. Funcionando como uma espécie de alter ego de Blueberry, o velho alcoólico é uma daquelas personagens solares e positivas, com todas as qualidades e defeitos susceptíveis de o fazer cair nas boas graças dos leitores. Não por acaso, Giraud aplicou-se sobremaneira na expressão gráfica de McClure, cuja caracterização visual, poderosa, é difícil de esquecer. A isto há que acrescentar os diálogos vigorosos e inteligentes entre os dois amigos e companheiros de aventuras, do melhor que a banda desenhada franco-belga deu ao mundo.

Outras personagens complexas são de destacar na trama da série. Quanah, o guerreiro índio animado por um ódio profundo aos brancos, e Crowe, o oficial mestiço do Exército americano, estão entre elas. Enquanto o primeiro é incansável no desígnio de destruir à herói, o segundo ganha a simpatia dos leitores ao salvar a vida a Blueberry em mais do que uma ocasião. A quadrilha de rebeldes sulistas, que se recusam a aceitar o resultado da guerra civil, é outra personagem (colectiva, no caso) com peso na história, e da qual voltaremos ater notícias numa fase mais adiantada da série.

Do ponto de vista gráfico, é visível o aprofundamento do estilo de Giraud, cada vez mais apostado na afirmação de uma veia pessoal inteiramente original, com o traço a ganhar elegância e leveza a cada novo álbum. Embora Jijé ainda colabore nesta história com a realização de algumas pranchas, a verdade é que os dois grafismos estão de tal modo sintonizados que é praticamente impossível identificar os respectivos autores. Quando chegamos ao fim deste álbum (tudo em aberto e desenlace final adiado para o quinto álbum), é inquestionável que o leitor está perante um exemplo da grande aventura, do suspense, das sequências narrativas memoráveis e dos acontecimentos apaixonantes. Não é ainda a perfeição, mas já não está muito longe dela.

Carlos Pessoa


Álbum 4
O Cavaleiro Perdido
Colecção Blueberry
Quinta-feira, 19 de Dezembro
Por+7,90€

domingo, 15 de dezembro de 2019

428º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD de LISBOA ESPECIAL DE NATAL - 17 de Dezembro 2019




428º ENCONTRO 
DA TERTÚLIA BD de LISBOA

ESPECIAL DE NATAL
17 de Dezembro 2019

NO RESTAURANTE “CINDERELA” 


No dia 17 de Dezembro, no restaurante Cinderela, em Entrecampos, terá lugar a Tertúlia BD de Natal.
Os requisitos são os habituais.
Levem uma prenda para a troca e precisamos de confirmação de presença.
É sistema buffet (o mesmo do ano passado. Ninguém se queixou, pelo contrário) e o preço por pessoa é 15 euros.


Da reportagem do Encontro de Natal de 2018

AS FOTOS
De Álvaro








quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

STAN LEE O HOMEM QUE TINHA O PODER DE APARECER EM TODO O LADO


STAN LEE 
O HOMEM QUE TINHA O PODER 
DE APARECER EM TODO O LADO 

  
 BDpress #521 Recorte do artigo publicado no jornal Público de 07/12/2019


Stan Lee, argumentista, editor e, mais tarde, presidente da Marvel, fez de uma pequena editora um portento na indústria do entretenimento. Com muito talento, seu e dos que o rodeavam, mas também com doses avantajadas de excentricidade e extroversão, que o elevaram ao estatuto de figura pop. A sua história é contada no livro The Stan Lee Story, lançado na altura da sua morte, há um ano, e reeditado em 2019.

Por João Mestre

A figura jovial, confiante, apresenta-se de pose heróica, peito estendido, perante dois professores que lamentam a falta de interesse dos alunos. "Sou eu, o Stan Lee da Marvel Comics, mais conhecido como Speaker Man!" Vinheta seguinte, a promessa: "Sozinho consigo derrotar a ameaça de letargia e tédio." O cartaz, desenhado em tiras de BD, anunciava, algures no início dos anos 1970, a vinda do argumentista, editor e presidente da casa dos super-heróis à Marshall University, na Virgínia Ocidental, na qualidade de orador.

As palestras em universidades, a par das entrevistas, tinham-se tomado um veículo recorrente de angariação de público, numa altura em que a venda de comics estagnara e já não havia muito por onde crescer dentro do formato tradicional de negócio. A ideia partiu do homem que nunca torcia o nariz ao palco. Fosse diante de audiências de universitários, dos microfones da imprensa ou das câmaras de televisão, Stan Lee nunca se mostrou tímido ou reservado. Era o exacto oposto, na verdade: efusivo, carismático, dono de uma personalidade contagiante e de um aguçado espírito de sobrevivência, o tipo de pessoa a quem os americanos chamam "hustler''. Um fura-vidas. Daí a tomar-se uma figura pop, reconhecido tanto por fãs de banda desenhada como pelos leigos na matéria, foi apenas uma questão de tempo.


O estatuto de figura popular que Stan Lee adquiriu ao longo da vida - uma curva sempre ascendente até ao fim dos seus dias, impulsionada pelas repetidas aparições em filmes e programas televisivos - é um dos motores da história que o seu colega e sucessor Roy Thomas conta em The Stan Lee Story. Um volumoso volume de 624 páginas que a Taschen publicou em série limitada, pouco antes da morte do "Senhor Marvel", a 12 de Novembro de 2018 – e que, apesar do preço alto de 1250 euros, rapidamente esgotou. Entretanto, o livro foi relançado a uma fracção desse valor (150 euros), em Abril deste ano. Coincidência ou não, nesse mesmo mês chegava às salas de cinema o filme Vingadores: Endgame – e o derradeiro cameo de Lee, este em versão digitalmente rejuvenescida, gritando "Make Love, not war, man!" da janela do seu carro, ao passar diante de uma base militar.

Sobre o seu estilo despachado e expansivo, Roy Thomas comentou, numa entrevista recente ao New York Post, que era "cinquenta por cento invenção". Nem tudo seria fingido, nem tudo seria totalmente natural: "Ele queria projectar uma imagem, tinha queda natural para isso e foi trabalhando nesse sentido."

Palavras de alguém que trabalhou lado a lado com Lee por longos anos - e que voltou a tê-lo a espreitar por cima do ombro em The Stan Lee Story, escrito sob supervisão do biografado, ainda que, sublinha Thomas no epílogo, este pedisse apenas uma correcção após a leitura do manuscrito: "Ele queria que comic book [revista de banda desenhada] fosse escrito como uma palavra apenas, e não duas."

O autor assentiu.

Revistazecas de banda desenhada

Stanley Lieber nasceu em 1922, filho de emigrantes judeus da Roménia, na cidade que era a porta do sonho americano para quem fugia da Europa: Nova Iorque. A mesma cidade que, anos mais tarde, viria a ser também casa de super-heróis. A vida não era fácil para a família Lieber, e ainda mais complicada ficou na ressaca do crash bolsista de 1929. Tiveram de se mudar das imediações do Central Park para um apartamento mais pequeno, em Washington Heights, do qual, "ao olhar pela janela, só se via a parede de tijolo do prédio em frente".


Stanley sonhava, segundo escreveu a dada altura, "ser um dia suficientemente rico para ter um apartamento com vista para a rua". São vários os retratos de um jovem Stanley que ilustram as páginas referentes à sua infância.

A família podia não ter posses para comprar uma câmara, mas a mãe lá arranjava maneira de pedir aos fotógrafos do bairro que lhe fotografassem o garoto. "Acho que ela queria que eu fosse actor", lê-se numa das legendas.

A verdade é que também ele quis ser actor.

De início, por causa de uma rapariga, mas acabou por se interessar pelo assunto. No entanto, não dava para ganhar a vida e ele precisava de fazer dinheiro, como explica no livro: "Não devia ter desistido, porque aquilo era fantástico, mas eu estava demasiado nas lonas." Uma amostra em ponto pequeno do que aí vinha: showmanship e pragmatismo.

A tal equação de 50/50 de Roy Thomas, uma vez mais. "Além disso", remata, "já não andava com a tal moça".

Também quis ser escritor. De literatura, não de banda desenhada. Daí nasceu a necessidade do pseudónimo Stan Lee, que viria a tornar-se o seu nome legal. "Eu sentia que um dia iria escrever o grande romance americano e não queria usar o meu nome real nestas revistazecas de banda desenhada", confessou a Thomas.

Mas Stan era ainda Stanley quando o futuro se começou a moldar na sua cabeça. Estudava no liceu De Witt Clinton, no Bronx, e calhou passar pelas aulas de Leon Ginsberg, o professor com quem descobriu o humor como forma de cativar uma audiência. Marcou-o também, pela eloquência, um estudante mais velho que vendia assinaturas do New York Times e fez uma apresentação para a sua turma. O paleio era o seu elemento. Se houvesse realmente uma BD do Speakerman, esta seria a génese do herói.

Falhas, traumas e dilemas

No De Witt Clinton – curiosamente, o mesmo liceu que frequentaram Bob Kane e Will Eisner, dois outros nomes gigantes da nona arte –, Stanley pertenceu a todos os clubes que havia: xadrez, direito, francês e, como não podia deixar de ser, o de debate. Fez também parte do jornal da escola, onde deixou a sua marca: no tecto da sala da redacção, escreveu em tinta vermelha "Stanley Lieber isgod". A timidez nunca fez o seu estilo.

Foi num destes textos que introduziu aquilo que viria a ser um dos traços distintivos do seu trabalho na Marvel. No número 7 da revista do Capitão América, o protagonista "fala" sobre os seus colegas Father Time, Hurricane e Headline Hunter. É o inicio da criação de um universo ficcional interligado, onde toda a gente se cruza e se conhece, e no qual Lee e os restantes criadores são como testemunhas das histórias que relatam.

Stanley tinha 17 anos quando aterrou na Marvel, então chamada Timely Comics, em 1940.

Antes escrevera obituários numa agência noticiosa, foi mandarete numa fábrica e estafeta numa loja de sanduíches. Na Timely, começou como assistente do editor Joe Simon, responsável por ir buscar almoços para a equipa, atestar os frascos de tinta dos desenhadores ou apagar os traços de lápis depois de as pranchas terem sido coloridas. Ao cabo de urna semana, pediu para ser promovido. Não teve sucesso, mas a sorte sorriu-lhe um par de anos mais tarde, quando Simon se vai embora e Stan, aos 19, se vê no posto de editor.

De volta a 1940, e mesmo sem a promoção imediata, não havia de tardar o seu primeiro trabalho de escrita – e o momento de sentir a necessidade de um pseudónimo. Foi na edição de Maio de 1941 de Captain America Comics que Stan se estreou, com uma história batida a duas páginas de texto corrido, uma formalidade exigida pelos correios norte americanos para a expedição postal de revistas. E para a qual os argumentistas seniores se estavam a borrifar. Stan agarrou a oportunidade com unhas e dentes.


Foi num destes textos que introduziu aquilo que viria a ser um dos traços distintivos do seu trabalho na Marvel. No número 7 da revista do Capitão América, o protagonista "fala" sobre os seus colegas Father Time, Hurricane e Headline Hunter. É o inicio da criação de um universo ficcional interligado, onde toda a gente se cruza e se conhece, e no qual Lee e os restantes criadores são como testemunhas das histórias que relatam.

Por um lado, abre-se o caminho para a exploração das vidas pessoais das personagens.

Nas mãos de Stan Lee e do naipe de artistas em seu redor (nomeadamente, os ilustradores Jack Kirby e Steve Ditko), adquirem uma tridimensionalidade que faltava nos heróis de outras editoras: apesar dos superpoderes, eles não deixam de ser pessoas com falhas, traumas e dilemas. Por outro lado, abre-se urna porta para a interacção e a cumplicidade com o público - que mais tarde vem a resultar numa secção fixa com cartas de fãs, historietas para dar a conhecer a equipa, notícias do meio e mexericos. Tudo escrito com o espírito hiperbólico e espirituoso de Stan Lee, que lhe acrescentou ainda urna coluna de opinião onde, entre a dissecação das histórias publicadas ou a introdução de novas personagens, abordava temas quentes como racismo, xenofobia, machismo ou tolerância religiosa.

"Uma história sem mensagem, por subliminar que seja, é como um homem sem alma", escreveu numa dessas crónicas.

Ouro e prata

Deste modo se foram escavando dois dos alicerces mais sólidos do sucesso que a editora viria a atingir nas três décadas seguintes, naquelas que ficaram conhecidas como a era de ouro (1938-1956) e a era de prata (1956-1970) da BD americana: a complexidade humana das personagens e o espírito de comunidade com os leitores. Seria essa combinação, misturada com o empreendedorismo de Stan Lee, que viria a destacar a Marvel da concorrência e a alimentar a sua meteórica ascensão, de criadora de urna forma de arte relativamente marginal a portento da indústria do entretenimento, hoje detentora de um volume de facturação invejável até para os parâmetros de Hollywood: só em receitas de bilheteira, os 22 filmes que compõem a série Marvel Cinematic Universe (iniciada em 2008) totalizam mais de 20 mil milhões de dólares. Isto sem contabilizar os dez filmes que vieram antes, as séries de Netflix ou os filmes de animação. Tudo junto, perto de 60 títulos e, em todos eles, uma cara de Stan Lee a espreitar algures ao fundo: estreou-se como membro do júri no telefilme O Julgamento do Incrível Hulk (1989) e depois disso foi vendedor de cachorros quentes (em X-Men, 2000), carteiro (Quarteto Fantástico, 2005), mestre-de-cerimónias de um clube de strip (Deadpool, 2016). Em Big Hera 6 (2014) é o misterioso pai de urna das personagens, em No Universo Aranha (2018) tem uma loja de fatos de Carnaval (e diz-se amigo do Homem-Aranha) e até em Teen Titans (2018), um filme da concorrente DC, ele faz o que pode para aparecer diante da câmara. Fez ainda biscates em séries como Big Bang Theory, Heroes, Os Marretinhas e foi reincidente em Os Simpsons. E apresentou pelo menos dois programas televisivos: um concurso de super-heróis em formato reality show (Who Want to Be a Superhero?) e a série documental Os Super-Humanos de Stan Lee, sobre pessoas reais com capacidades extraordinárias.

O seu perfil no site IMDB é longo e fastidioso de reproduzir até à exaustão.

Os cameos, contudo, não começaram no ecrã. Bem antes disso, já na era de prata da BD, Lee e a sua pandilha se inseriam ocasionalmente nas histórias. Em 1969, apresenta-se como Srnilin' Stan, ao fazer a introdução de uma história da revista Chamber of Darkness. No número 79 de Daredevil, surge metido na sua vida, na companhia de Joan Lee, sua mulher, quando se cruza com o "homem sem medo". E em 1965, numa história especial do Quarteto Fantástico, ele e Jack Kirby tentam furar o casamento de Mr. Fantastic e Invisible Girl (uma vez mais, pessoas com superpoderes e vidas normais), acabando expulsos. Quadradinho a quadradinho, Stan Lee tornava-se uma companhia habitual, um amigalhaço com quem os fãs sentiam uma relação de diálogo.

Stanley Lieber pode não ter chegado a escrever o "grande romance americano". Mas, na sua longa carreira ao serviço da banda desenhada, criou, co-criou e ajudou a trazer à ribalta dezenas de personagens que marcaram e continuam a marcar a cultura popular. Entre elas, Stan Lee, o homem que tinha o poder de aparecer em todo o lado.



sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

OS ESCORPIÕES DO DESERTO DE HUGO PRATT - VOLUME 1 - Edição Ala dos Livros


OS ESCORPIÕES DO DESERTO 
DE HUGO PRATT
VOLUME 1
Edição Ala dos Livros 


O PAÍS DA GUERRA
A Introdução de Michel Pierre

Um vasto espaço que se estende entre a Península Arábica e o Magrebe, e do mar Vermelho ao Cáucaso.

Um território marcado pelas religiões do Livro cujos fiéis não param de se confrontar, há milénios, em nome de Deus e dos textos sagrados repletos de massacres e pilhagens, vinganças e chacinas. O Antigo Testamento especifica assim que, após a tomada de Jericó: «Tudo quanto havia na cidade destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento.» (Josué 6/ 21).

E o Corão exige combater «pela causa de Deus» (Surata 11/ 244), o que não deixa de ser algo excessivo; bem como contra os maldosos de Medina, hostis ao Profeta, que aconselha os seus fiéis a exterminá-los: «Serão malditos! Onde quer que se encontrem, deverão ser aprisionados e cruelmente mortos.» (Surata 33/ 61).

Nas origens da sua expansão, o Islão resumiu bem a lógica do ímpeto guerreiro de religiões jovens, designando o mundo dos não-crentes por Dar al-Harb, «O país da guerra», por oposição ao Dar al-Islam. Para estes primeiros fiéis, era grande a hostilidade dos infiéis e era necessário defenderem-se, pois «a quem vos agredir, rechaçai-o, da mesma forma» (Surata 2/ 194). E como a melhor defesa é o ataque, compreende-se melhor a fulgurante epopeia guerreira do Islão nos séculos VII e VIII.


Com estas disposições e ao sabor das conquistas de uns, das cruzadas de outros e das lutas tradicionais entre clãs e tribos, estes territórios foram propícios ao fragor das armas.

As conquistas coloniais do final do século XX, a Primeira Guerra Mundial envolvendo a Turquia otomana e, mais tarde, a Segunda, que tornou a Líbia num palco estratégico importante, não ficaram atrás. É a época dos Escorpiões do Deserto que proporcionam uma espécie de representação barroca dos múltiplos confrontos, das coligações variáveis e do futuro carregado de muitos perigos.

As fronteiras do novo atlas, que estes combatentes ao serviço do Império Britânico ajudam a desenhar, desencadeiam, a partir de 1945, conflitos inexpiáveis.

A necessidade vital para o Ocidente de controlar as fabulosas riquezas em hidrocarbonetos existentes nesta parte do mundo, o nascimento do Estado de Israel que se impôs pela força das armas, a emergência de líderes nacionalistas e carismáticos no cenário da Guerra Fria tornam-se factores e actores de novos confrontos sangrentos.


Alimentado por ódios antigos e rancores tribais, étnicos, religiosos e sociais que apimentam a situação, estimulado pela criação de armas novas, enriquecido com novas tácticas de guerrilha, o caos instala-se. Um caos simultaneamente incontrolável e manipulável. Guerras israelo-árabes, ou opondo o Irão ao Iraque, confrontos entre as duas grandes correntes do Islão – sunita e xiita – golpes de Estado, revoltas populares, confrontos civis, golpes militares, populações bombardeadas, assassínios dirigidos a alvos específicos, fundamentalistas de todas as crenças religiosas, Gaza como uma gigantesca prisão a céu aberto, fronteiras minadas, massacres de geometria variável... Um universo esquizofrénico e paranóico, que reserva ainda reviravoltas sangrentas.

Ao criar Os Escorpiões do Deserto em 1969 e ao prosseguir as suas aventuras em 1973 no contexto da Segunda Guerra Mundial, Hugo Pratt esboça, na realidade, uma visão metafórica do grande Médio Oriente, levando à partilha da opinião do tenente Kord: «Já chega de trapalhada.»

Michel Pierre
Historiador, autor de várias pesquisas sobre a História colonial e de obras em colaboração com Hugo Pratt.







Legendei pelo menos dois dos álbuns editados pelas Edições 70, talvez em 1986/7 



 
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