sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

BANDA DESENHADA – CÓDIGOS – POR JOÃO RAMALHO SANTOS

BANDA DESENHADA
CÓDIGOS
POR JOÃO RAMALHO SANTOS


BDpress #529 Recorte do artigo publicado no JL – Jornal de Letras de 15/1/2020 

CÓDIGOS

O mercado nacional de banda desenhada tem estado tão ativo, e o espaço disponível para falar dele é tão diminuto, que é sempre ingrato fazer escolhas. Por isso, escolhe-se aquilo que talvez menos gente fale.

Como o notável trabalho gráfico de Diniz Conefrey na sua mais recente coletânea de narrativas curtas "Floema dorsal" (Quarto de Jade). "Floema" é o tecido vascular das plantas no qual circula matéria orgânica produzida a partir da fotossíntese, a chamada "seiva elaborada"; por oposição, no "xilema" circulam água e sais minerais ("seiva bruta"). Já "dorsal" implica as costas, onde, nos vertebrados, se desenvolve o sistema nervoso. No trabalho sempre onirico e aqui maioritariamente a preto e branco de Conefrey há essa articulação comunicante entre formas abstratas que evoluem e se interpenetram de forma quase orgânica ("Nas rajadas de um sonho"), ou desequilibram a noção que o leitor tem de abstrato-real ("Impermanência", "Onde estão as borboletas").

Texto e cor são aqui elementos raros, o primeiro por vezes estranha-se na sua poética (como no visualmente deslumbrante "Cigarra"), ou surge enquanto contraponto absoluto essencial ("O lugar sem espera", talvez a melhor sequência, enquanto BD). Já o uso de cor enquanto elemento gráfico é sempre superlativo ("Impermanência", "Cigarra"), e, apesar da mestria do preto e branco, sentimos muitas vezes a sua falta. Seja como for, o trabalho de Diniz Conefrey transporta sempre para onde nunca sabíamos poder ir. 





Tal como o de Filipe Abranches, que retorna à banda desenhada com uma surpreendente "Selva!!!" (desta vez com a Umbra, uma editora própria). Um retorno fulgurante que se saúda, e que só é pena revelar o "truque" narrativo logo de inicio, embora talvez não fizesse grande diferença. Num contexto de operações militares (vagamente a Segunda Guerra Mundial no Pacífico) os pobres soldados surgem aqui instrumentalizados, não só pelas suas caraterísticas intrínsecas, hierarquias e instruções e missões que não entendem, mas por deuses "ex-machina" que com eles brincam, libertando-os de prisões de plástico, ao mesmo tempo que os sujeitam às mais variadas tropelias, inspiradas noutras histórias e BDs.




No fundo, e este é o ponto de partida de Abranches, nessas brincadeiras, muitas vezes nada racionais, o que pensariam os soldados, marinheiros e aviadores? Uma narrativa surreal sobre quem manipula e quem é manipulado, que o desenho "realista" torna ainda mais atraente.

Sim, talvez seja só para leitores que compartilhem memórias de brincadeiras similares: os meus eram Airfix e Matchbox, escala 1:72. Jogos talvez demasiado bélicos para um presente mais assético, que glosa a violência com outra matrizes. Mas não é assim para toda a Arte?

Com a mesma chancela foi também lançada a revista "Umbra", que pode ser um veículo interessante para histórias curtas, à semelhança de outras coletâneas com coordenadas distintas ("Apocryphus"; projetos do Lisbon Studio ou da Mmmnnnrrrg/Chili com Carne, como o muito interessante "Nódoa Negra") . No entanto este número inaugural, e de forma algo surpreendente dados os nomes envolvidos, promete mais do que o que entrega. Mas promete, uma constante no atual panorama da BD nacional. Que conta com mais duas obras de referência.

João Ramalho Santos

SELVA!!!
Argumento e desenhos de Filipe Abranches
Umbra. 64 pp., 10 Euros

FLOEMA DORSAL
Desenhos e palavras de Diniz Conefrey (com Maria João Worm)
Quarto de Jade. 236 pp., 22 Euros


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