COLECÇÃO BLUEBERRY - Vol. 6
MISTER BLUEBERRY
SAIU HOJE - 2 de Janeiro de 2020 - com o jornal PÚBLICO
BDpress #524 Recorte do artigo publicado no jornal Público de 28/12/2019
BLUEBERRY ENVELHECEU E PASSA O TEMPO A JOGAR PÓQUER
Por Carlos Pessoa
Julho de 1881, cidade de Tombstone.
Dois jornalistas e escritores viajam expressamente para esta cidade, onde esperam encontrar Blueberry e convencê-lo a fazer a sua biografia.
Chegado há uma semana a esta mesma cidade mítica habitada por figuras lendárias como os irmãos Earp, Doe Holliday e a temível família Clanton, um misterioso jogador incendeia as mesas de póquer e todos os homens abastados da região se acotovelam para o defrontar. Essa figura enigmática acaba por suscitar o interesse de muitas outras pessoas, por razões que vão muito para além do mero póquer.
Blueberry - é ele a intrigante personagem - ganhou alguns cabelos brancos e a sua vida resume-se agora a estas partidas de cartas, que se sucedem umas atrás das outras. Acaba por se ver colocado no centro das atenções, com a sua mesa a transformar-se no epicentro de um furacão que pode acabar por o engolir ... De forma necessariamente sintética, é este o tema de Mister Blueberry (texto e desenho de Jean Giraud), sexto álbum da colecção Blueberry, que será distribuído com o Público na próxima semana.
O herói apresenta-se irreconhecível: a personagem heróica, corajosa e de recursos praticamente ilimitados cedeu o lugar ao jogador cínico, que evita envolver-se nas confusões que o rodeiam. Determina-se por puro calculismo egoísta e só o jogo lhe interessa abertamente, pelo que o leitor tem toda a legitimidade para considerar que Blueberry já nem sequer é, em rigor, o herói desta aventura.
Paradoxalmente (ou talvez não ... ), quase todo o enredo gira em torno de si, que consegue a proeza de permanecer imóvel, sentado numa cadeira de saloon, escrutinando o comportamento e as estratégias dos seus companheiros de mesa.
Sob a caneta de Giraud, o argumento revela-se menos épico e mais "macio", sem que isso signifique menor grandeza para as personagens da história. Em rigor, o novo curso da série, iniciado com este episódio, caracteriza-se por um ângulo de abordagem inteiramente "descentrado" comparativamente à matriz estabelecida por Charlier. À nova visão do herói, menos activo e biologicamente envelhecido, junta-se uma reflexão em câmara lenta sobre o estatuto do herói e o sentido do seu percurso aventureiro passado.
O desenho de Giraud é outra agradável surpresa. Tudo neste episódio exala o prazer do desenhador na concretização gráfica da história, sem nunca dar azo a que o leitor se canse: a planificação das pranchas e vinhetas, o habitual cuidado com os pormenores, a alternância das cores imposta pela técnica narrativa adoptada (com a articulação de histórias dentro da história propriamente dita), o jogo de planos e contraplanos ...
Embora continue a ser de recorte clássico, o desenho de Giraud vertido em cada prancha desta história ilustra o fabuloso talento deste criador ímpar. É um desenho capaz de criar atmosferas urbanas impressionantes e um ambiente western de fino recorte, que voltaremos a encontrar no álbum seguinte, segunda parte deste excelente ciclo.
Album 6
Mister Blueberry
Colecção Blueberry
Quinta-feira, 2 de Janeiro
Por+7,90€
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