segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

ANGOLA JANGA de Marcelo D’Salete UMA BANDA DESENHADA COM AS MARCAS DA NOSSA VIOLÊNCIA



ANGOLA JANGA
de Marcelo D’Salete 

UMA BANDA DESENHADA 
COM AS MARCAS DA NOSSA VIOLÊNCIA 

Sobre Angola Janga já foi publicado no Kuentro, em 15 de Julho de 2019, o BDpress #503, com o recorte de um artigo de João Ramalho Santos, publicado no JL 

Livro de banda desenhada, Angola Janga de Marcelo D' Salete resgata a epopeia dos quilombos de Palpares para iluminar o desejo de liberdade de homens e mulheres. Contra aqueles que os escravizaram no Brasil.


BDpress #526 Recorte do artigo publicado no suplemento Ípsilon do jornal Público de 10/01/2020

Texto de José Marmeleira

Há quatro anos, no Ípsilon, escreveu-se que Cumbe de Marcelo D' Salete (São Paulo, 1979), enfrentava, com a ficção, o regime esclavagista do Brasil do século XVII. Em quatro contos de banda desenhada – recordam-se? –, encontrávamos personagens de uma fragilidade digna, acções e acontecimentos sublimados nas elipses, diálogos que, ameaçados pela crueldade e pela morte, se liam à beira do silêncio. Sobre Angola Janga (edições Polvo) seria pertinente dizer algo semelhante. Lançado em Novembro passado, no Festival de Banda Desenhada da Amadora, conta histórias que ficaram por contar do mesmo período histórico. A diferença reside no encontro assumido pelo autor com a História e no fôlego daí exigido.

Mais de 400 páginas que reinterpretam e re-imaginam os factos na formação dos quilombos de Palmares no Nordeste do Brasil, quando os escravos africanos, em busca de um território de liberdade, resistiram às forças portuguesas. Marcelo D'Salete, vencedor em 2018 de um Prémio Eisner, recorda ao Ípsilon o momento em que se confrontou com uma narrativa de traços épicos e trágicos.

"Em 2004, fiz, na cidade de São Paulo, um curso de História do Brasil com o historiador Petrônio Domingues.

Era muito focado na experiência diaspórica negra e um dos capítulos era precisamente sobre Palmares. Encantei-me pela história e comecei a ler tudo o que havia sobre ela, até que, dois anos depois, concluí: é possível fazer um livro de banda desenhada sobre os quilombos".

Conceber um argumento e aprofundar a leitura da historiografia, para lá das fontes mais conhecidas, foram os passos seguintes. "Comecei a perceber o que representou o quilombo no século XVII no Nordeste brasileiro, no contexto colonial, mas também quis conhecer as culturas, as línguas, as crenças religiosas daqueles povos trazidos à força da região de Angola e do Congo para o Brasil. Queria formar um mosaico do que teria sido Palmares".

E o que foi na Palmares? "Uma grande saga na História do Brasil", responde o artista. "Uma auto-organização de grupos negros que tinham sido escravizados e levados para região da capitania de Pernambuco, forçados a trabalhar nos engenhos do açúcar 14 horas por dia, durante seis ou mais dias por semana.

A esperança média de vida da população escravizada era de 19 anos", sublinha. "A colonização com a escravatura sobreviveu a partir de vários elementos, mas um dos principais foi a sua violência".


Uma narrativa colectiva

Esta realidade levou a que muitos africanos resistissem e criassem em zonas de mata cerrada, longe das vilas, comunidade autónoma e auto suficientes: os mocambos ou quilombos.

"Os primeiros registos de fugas são de 1597 e as primeiras investidas dos luso-brasileiros contra os palmaristas acontecem em 1610. Não conseguem destruí-los. E os palmares vão-se multiplicando".

Anos mais tarde, em plena união ibérica, os holandeses invadem várias regiões do Brasil, incluindo Pernambuco e Recife, e "muitos escravos fogem das fazendas em direcção à serra, fazendo com que os quilombos crescessem ainda mais. Quando os holandeses saem do Brasil em 1650-55, a repressão volta a intensificar-se".

Nesse período, o conjunto de quilombos da região era conhecido como Angola Janga (pequena Angola).

"Correspondia a uma região grande da serra, cerca de 100 km.
Não era apenas um quilombo, mas mais de 10 articulados entre si. No início muito atomizados, vão ficando cada vez mais interligados. Sobreviveram durante muito tempo num vasto território, num terreno hostil, usando a técnica da guerra do mato.

Conseguiram muitas vitórias, quando eram atacados por grupos de 100, 200 soldados, no máximo de dois em dois anos".

Depois de Cumbe, Marcelo D' Salete (São Paulo, 1979) volta a enfrentar, com a ficção, o regime esclavagista do Brasil do século XVII: Angola Janga.

Em Angola Janga desenrolam-se eventos como poderiam ter acontecido, mas de um ponto de vista que privilegia os vencidos. "Grande parte dos testemunhos históricos sobre Palmares são de soldados portugueses.


Procurei imaginar o que foram os quilombos a partir daqueles que os habitaram, recorrendo a outras fontes e às culturas tradicionais de Angola".

Nesse processo, Marcelo D' Salete deu-se conta da marginalidade da narrativa dentro da História do Brasil: "Era vista como protagonizada por corsários, bandidos, marginais. Quem a vai reabilitar é o meio académico e grupos de escritores e intelectuais negros, imaginando o que era a vida dentro de Palmares. Foi o que também tentei fazer, usando a ficção e a banda desenhada, que é um meio de que gosto muito".

Duas estratégias separam Angola Janga não apenas dos livros históricos, mas também das obras que abundam na literatura e que encontramos no cinema (por exemplo, em Quilombo, de Cacá Diegues, filme de 1984), bem como noutros livros de banda desenhada. "[Em Angola Janga] eliminei um pouco o texto, queria que a leitura fosse mais imersiva, com uma maior dinâmica visual.

A narrativa devia ser construída através da visualidade e da diversidade de personagens de Palmares.
Porque há figuras que não aparecem ou aparecem pouco nos outros trabalhos".

O herói de Angola Janga é Zumbi, figura que geralmente as pessoas evocam quando de se fala dos quilombos do Brasil e um dos últimos líderes de Macaco, a capital de Palmares, mas não é propriamente o protagonista. Por assim dizer, há uma pluralidade de personagens que conduzem o leitor para singularidade de cada drama.

"Tentei desvincular-me da figura de Zumbi, tanto que uma das personagens mais importantes é um dos seus braços direitos, o mulato Antônio Soares. Quis pensar em Palmares como narrativa colectiva. Existem estudos que falam de 10 a 30 mil pessoas a viver na região. Só em Macaco terão vivido seis mil. Recife tinha, na época, à volta de 8 mil. Era quase um outro reino."

O direito às histórias 


Zumbi (baptizado Francisco), Antônio Soares, Ganga Zona, Ganga Zomba, Dara, Andala, as índias Avaré e Karií, os paulistas Domingos Jorge Velho e André Furtado. Vencedores e vencidos, quase todos se cruzam na teia que Marcelo D' Salete compôs, sensível às paixões e circunstâncias que influenciam a conduta de cada um. Joaquim, por exemplo, é um jovem brasileiro que, vendo-se órfão, adere à causa de Palmares enquanto a brutalidade de Domingos Jorge Velho esconde sentimentos humanos que infelizmente não consegue ressuscitar. Embora o leitor identifique os algozes e as vítimas, os primeiros não são demonizados.

"Sim, tentei não fazer isso, mas foi difícil", desabafa Marcelo.

"Domingos Jorge Velho foi um dos principais responsáveis pela destruição do quilombo de Palmares. Uma figura muito ambígua. Nasceu em São Paulo, de onde saiu para destruir, no Nordeste, os palmaristas, e, principalmente, para fazer guerra aos índios, que conhecia bem. Certas fontes sugerem que seria um mestiço, que sabia falar guarani. Integrou os bandeirantes que foram e ainda são muito romanceados. Eram uma verdadeira tropa de choque."

A brutalidade dos soldados e dos bandeirantes e a violência dos combates aparecem em Angola Janga, mas não de modo explícito ou gráfico.

Intuem-se, imaginam-se entre as vinhetas. Mais do que a violência são as vítimas das violências (os mortos, os mutilados) que o artista representa.

"Quis explorar a violência pela ausência, pela ideia de elipse. É uma história de guerra, sabemos que está ali, mas não é mostrada em detalhes, visualmente. Faz parte do contexto e isso, às vezes, também, é muito violento. Sugerir pode ser tão terrível quanto mostrar".

Falou-se de fontes históricas. E a BD? Miguelanxo Prado, Peter Kuper, Katsuhiro Otomo, Frank Miller e Hugo Pratt foram referências. Encontramo-los no uso do preto e branco, na multiplicidade de perspectivas, na dinâmica visual das cenas de acção, na exploração poética de símbolos e marcas, como os que nos corpos assinalam sentidos opostos.

"É curioso que refira isso, porque há dois tipos de marcas. Aquelas que identificam um grupo ou uma cultura, com os seus rituais, como as de Isoenga ou de Zumbi, e as que identificam o escravizado e a violência que lhe foi infligida". Umas não se confundem com outras, mas persistem no Brasil contemporâneo.

"Ainda hoje, certos sectores continuam a tentar destruir a história de Palmares. Dizem que foi um refúgio de bandidos. Há algo de novo nisso?

Não, na verdade esse é o discurso colonial do século XIX que reafirma a colonização brasileira como mais tranquila que as outras, quando na verdade não foi. Foi violenta e houve grupos que se opuserem a ela. E persiste até hoje. É directa, conduzida pelo Estado, sobre os corpos negros e índios, e simbólica, pois não dá o direito a esses grupos de terem uma história, para além da oficial e colonial.

Nega-lhes as suas narrativas. E dessa perspectiva, que foi a do Ocidente, os grupos que não tem uma história e uma cultura podem ser violentados, dominados".


Angola Janga, com as suas personagens e enredos, rejeita essa ausência, trazendo para a BD que o foi tomado obscuro. Com um fim que é uma continuação, aberta pela ficção, para o futuro. Afinal, a luta de Angola Janga talvez não tenha ainda terminado.

"A colonização brasileira persiste até hoje. E directa, conduzida pelo Estado, sobre os corpos negros e índios, e simbólica, pois não dá o direito a esses grupos deterem uma história. para além da oficial e colonial".

Miguelanxo Prado, Peter Kuper, Katsuhiro Otomo, Frank Miller e Hugo Pratt foram referências. Encontramo-los no uso do preto e branco, na multiplicidade de perspectivas, na dinâmica visual das cenas de acção, na exploração poética de símbolos e marcas, como aqueles que nos corpos assinalam sentidos opostos.




sábado, 11 de janeiro de 2020

BDTECA – MOSTRA DE BANDA DESENHADA DE ODEMIRA – CONCURSO NACIONAL DE BANDA DESENHADA – 6 DE JANEIRO A 14 DE FEVEREIRO


BDTECA

MOSTRA DE BANDA DESENHADA DE ODEMIRA
CONCURSO NACIONAL 
DE BANDA DESENHADA

6 DE JANEIRO A 14 DE FEVEREIRO 

O Kuentro irá acompanhar a realização da BDTECA – Mostra de BD de Odemira, começando por apresentar as Normas para o Concurso Nacional de Banda Desenhada, promovida pela organização. Em próxima edição do Kuentro, será apresentado o Programa da Mostra de BD.

O evento inicia-se com este Concurso, que já se encontra a decorrer e cujos trabalhos deverão ser entregues até ao dia 14 de Fevereiro.

O Município de Odemira, através da Biblioteca Municipal José Saramago, promove entre Janeiro e Março de 2020, em parceria com a Sopa dos Artistas - Associação Local de Artistas Plásticos, a 14ª edição da BDTECA – Mostra de Banda Desenhada de Odemira.

Este projeto, iniciado em 2006, pretende a promoção deste género literário através da divulgação de autores e da dinamização de atividades junto do público escolar e em geral, contribuindo assim para a promoção do nosso concelho.

Integrado na programação da 14.ª BDTECA, é lançado o 14º Concurso Nacional de Banda Desenhada de Odemira, o qual tem vindo a afirmar-se no nosso país como um dos eventos de grande sucesso neste género literário.


Art.º 1º
OBJETIVOS
Os objetivos deste concurso são a promoção da Banda Desenhada junto da população juvenil e adulta, assim como a promoção da criatividade e da imaginação dos concorrentes.

Art.º 2º
DESTINATÁRIOS
Podem candidatar-se todas as pessoas com idade igual ou superior a 16 anos.

Art.º3º
DURAÇÃO
A edição deste concurso desenvolver-se-á entre 6 de Janeiro e 14 de Fevereiro de 2020.

Art.º4º
TRABALHOS A CONCURSO
Os concorrentes deverão apresentar um trabalho com o máximo de 4 pranchas originais inéditas e em língua portuguesa.
Os trabalhos deverão ser obrigatoriamente apresentados em formato A3.
Cada concorrente poderá concorrer com mais do que um trabalho, desde que os envie separadamente e com pseudónimos diferentes.
Nas folhas dos trabalhos não pode constar qualquer indicação sobre o concorrente, sob pena de ser excluído.
Juntamente com os trabalhos deverá vir um envelope que deverá conter, no exterior, o pseudónimo e, no interior, de forma bem clara e legível, os seguintes elementos identificativos do autor: nome, morada, nº de telefone e endereço electrónico.

As folhas devem ser numeradas e assinadas com o pseudónimo no canto inferior direito.
Deverão ser entregues os trabalhos originais, assim como uma cópia em formato A3.

Art.º 5º
PRAZO E MODOS DE ENTREGA DOS TRABALHOS
Os trabalhos deverão ser entregues directamente no Balcão Único (BU) ou por correio até ao dia 14 de Fevereiro de 2020 em carta fechada e para a seguinte morada:

Municipio de Odemira
Praça da República
7630 - 139 Odemira

A entrega por correio deverá ser feita através de registo com aviso de recepção.

A entrega em mão poderá fazer-se durante o horário de funcionamento do Balcão Único (BU) de 2ª a 6ª feira, das 9h às 16h.
O envelope deverá ser entregue fechado e com a indicação, no exterior, da designação do concurso e do pseudónimo.
Não serão aceites trabalhos cuja data, dos correios, seja posterior à data limite.

Artº 6º
JÚRI
Os trabalhos presentes a concurso serão analisados por um Júri constituído pelo Vereador do Pelouro da Cultura do Município de Odemira ou alguém por ele designado, por um membro da Associação Sopa dos Artistas e por um elemento convidado pelo Município.

O júri fará uma pré-selecção dos trabalhos os quais serão imediatamente excluídos caso não cumpram os requisitos definidos nos artigos 4º e 5º.

O júri terá como critério de apreciação a criatividade, a originalidade e a qualidade gráfica dos trabalhos.

Art.º 7º
PRÉMIOS
O concurso de Banda Desenhada concederá os seguintes prémios:

1º Prémio: 500 €
2º Prémio: 250 €
3º Prémio: 125 €


Os trabalhos poderão eventualmente vir a ser publicados, dependendo da qualidade dos mesmos e das possibilidades da autarquia.

Todos os participantes receberão um diploma de participação.

Art.º 8º
DIREITOS DE AUTOR / DIREITOS DE UTILIZAÇÃO
Os autores premiados incluindo as Menções Honrosas, prescindem dos direitos de autor relativos à publicação das Bandas Desenhadas a favor do Município de Odemira.
Todos os trabalhos a concurso ficarão em poder da Biblioteca Municipal, reservando esta para si o direito de reprodução e difusão das obras sem a autorização expressa do autor.

Art.º 9º
CASOS OMISSOS
Todas as situações que não estão previstas nestas normas serão resolvidas pelo Júri.
A participação neste concurso implica a plena aceitação de todos os artigos das presentes normas.







quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

COLECÇÃO BLUEBERRY Nº 7 SOMBRAS SOBRE TOMBSTONE HOJE COM O PÚBLICO


COLECÇÃO BLUEBERRY Nº 7
SOMBRAS SOBRE TOMBSTONE 
HOJE COM O PÚBLICO 

Album 7 
Colecção Blueberry 
Quinta-feira, 9 de Janeiro 
Por+7,90€ 

BLUEBERRY REVÊ O PASSADO ENQUANTO RECUPERA DOS GRAVES FERIMENTOS SOFRIDOS 

Texto de Carlos Pessoa


BDpress #525 Recorte do artigo publicado no jornal Público de 04/01/2020 

"Jogador profissional abatido pelas costas", anuncia a edição especial do Tombstone Epitaph. Nada de extraordinário, não fosse o jogador chamar-se Blueberry, uma verdadeira celebridade, segundo Campbell, jornalista em Boston. Toda a gente pensa que o jogador está morto, mas, mesmo com três balas no corpo, o herói não morre. Mal abre um olho, Campbell precipita-se para a sua cabeceira, a fim de registar as memórias do herói. Entretanto, Strawfield celebra com grande aparato a partida para Tucson do seu carregamento de prata, que os Clanton planeiam atacar, disfarçados de apaches.

O xerife Wyatt Earp desconfia de algumas coisas e, apesar de não o levarem muito a sério, prepara-se para todas as eventualidades. E é com a sombra de Gerónimo a pairar sobre as colinas que o ataque se consuma... Este é o ponto de partida de Sombras sobre Tombstone (texto e desenho de Jean Giraud), sétimo álbum da colecção Blueberry, que será distribuído com o Público na próxima semana.

É quase por milagre que Blueberry sobrevive, mas durante o enredo passa todo o tempo na cama, em convalescença.

Ou seja, a aventura desenrola-se sem a sua presença e apenas graças a uma dinâmica de flashback o leitor pode voltar a ver o protagonista em acção. Este episódio só saiu três anos depois do capítulo precedente e – ironia das ironias – os admiradores de Blueberry deparam-se com um argumento que praticamente não faz avançar a acção um centímetro...

Mas, entretanto, começa uma história dentro da história, e a pergunta que está na cabeça de muitos leitores é se Giraud está a preparar-se para sacrificar o seu herói e pôr fim à série... A resposta, todos o sabem, é negativa. Ao contrário, o desenho está mais requintado do que nunca, a planificação é soberba, há olhares cúmplices ao grafismo da série Incal (desenvolvida por Moebius, a outra face criativa de Giraud), inesquecíveis grandes-planos sobre as personagens, belas histórias de amor... Pode mesmo desejar-se mais?

Há algo de paradoxal neste álbum: à densidade das personagens corresponde uma fraca progressão do eixo central da narrativa e isto, por si só, diz muito acerca do talento do argumentista e desenhador. O texto de Giraud é mais descontraído e calmo do que era o de Charlier, muito mais focado sobre as personagens e menos sobre a acção, no sentido clássico do termo. Por isso, não é difícil de acreditar que, à data da aparição do episódio, os leitores impacientes tenham ficado, muito provavelmente, à beira de um ataque de nervos, pois só a perspectiva de aguardar tanto tempo para saber o que iria suceder a Blueberry era desanimadora.

O herói está, nesta altura, muito longe da personagem solar dos primeiros tempos - encharcado em álcool, sujo e a tresandar, tentando agredir Geronimo. Muito para além da "provocação" aos incondicionais da série, o que Giraud se propõe é reescrever o mito que ele próprio criou; sob este prisma, é possível ver que a passividade de Blueberry aponta para uma reavaliação introspectiva das aventuras anteriores sem a menor complacência.

O grafismo de Giraud, já ficou dito, é magnífico. Num certo sentido, há como que uma permuta do desenho de Giraud e Moebius, com a série Blueberry a exibir agora muito da precisão do estilo Moebius dos anos 70-80, enquanto as histórias do Incal contemporâneas deste álbum apresentavam um desenho mais rápido e descontraído. A consequência desse processo é, obviamente, benéfica para a série western, a viver uma segunda vida que a toma definitivamente incontornável.

Carlos Pessoa


 
  
 

domingo, 5 de janeiro de 2020

429º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA – RESTAURANTE “CINDERELA” – 7 JANEIRO 2020


429º ENCONTRO 
DA TERTÚLIA BD DE LISBOA
RESTAURANTE “CINDERELA”
7 JANEIRO 2020 

Por motivos de obras na cozinha da Casa do Alentejo a Tertúlia BD de 7 de Janeiro ocorrerá no restaurante A Cinderela.
Av. das Forças Armadas 22, 1600-082 Lisboa (em frente da entrada da antiga Feira Popular).
O jantar será buffet (é bom e recomenda-se) e o valor por pessoa 15.50 euros.





O Convidado Especial este mês é o Juan dos Burgos e o doutor Pedro Mota vai apresentar "Os Desanimados" o seu livro de BD mais recente.

Juan dos Burgos

Tive meus primeiros contactos com o universo das BDs com os “Gibis” do Maurício de Sousa e Disney, quando de férias passava semanas a visitar tios e avós; um excelente passatempo para uma época sem internet, videojogos e poucas opções de canais televisivos à disposição. Já à essa época lia as escondidas as edições de Conan, o bárbaro da colecção de meu tio, onde fiquei fascinado pela temática e desenhos a preto e branco.

Apenas por volta dos 15 anos, quando tomei conhecimento da existência dos mutantes X-Men e Tartarugas Ninjas, tornei-me um leitor aficionado e comecei a sonhar em tornar aquela fantasia um ofício. Não escapei do período praxe de copiar a arte dos painéis que mais agradavam e por sequência arriscar minhas próprias composições e meus próprios personagens.

Escolhi obviamente ingressar em um curso ligado ao desenho e criatividade, o que levou-me também a ter contacto com o universo dos fanzines, autores independentes e festivais; onde foi possível por fim realizar o sonho de ver meus desenhos publicados. Assim, a conjugação do universo académico e dos fanzines foram fundamentais para meu desenvolvimento profissional e pessoal.

Esta foi a bagagem que levei para o Festival de Amadora de 2016, onde tive o prazer de conhecer meu atual editor Bruno Caetano e sua chancela Comic Heart onde publiquei “Tequila Shots”, meu primeiro livro em Portugal. 


MOTA

Nasceu em Lisboa, em 1969. Assina Pedro Mota quando escreve e Mota quando desenha.

No jornal regional Notícias da Amadora, publicou, entre 2 de fevereiro de 1995 e abril de 2000, a BD “A Ave Rara”, de que foi o criador (2 meias-pranchas por número). Em 1997, recebeu o 2º prémio do concurso de banda desenhada promovido pelo Festival Internacional de BD da Amadora.

Publicou BD em diversas revistas e fanzines, a solo ou em colaboração com Pedro Potier, Miguel Imbiriba Jr. ou Álvaro. Em 2015, pelas edições Insónia, publicou o mini-álbum “Ave Rara”, que recolhe algumas das histórias originalmente publicadas no jornal Notícias da Amadora. Integrou exposições coletivas na Amadora e em Beja.

Como especialista, participou em diversas iniciativas, na área da banda desenhada, do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA / Amadora BD), Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, BD Fórum, Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, Encontros de BD de Santo Tirso e Bedeteca da Amadora, com destaque para a apresentação de (e entrevistas públicas a) autores de BD, a elaboração de textos e o comissariado de exposições. Em co-autoria com Maria Teresa Guilherme Santos, publicou o livro “A Linguagem da BD” (edição da CMA/CNBDI). Publicou textos sobre BD em diversos catálogos, em sítios na Internet, em jornais e revistas, e nos livros “Alan Moore – Portrait of an Extraordinary Gentleman” (com André Carrilho, também com edição italiana e espanhola), “Movimento Perpétuo – BD para Carlos Paredes”, “Palavras para Quê? 2” e “A Cidade dos Espelhos”. Em 1999, fundou a APARTE – Academia Portuguesa de Arte Sequencial, associação de facto de autores de BD. Entre 2004 e 2005, coordenou uma equipa de trabalho que avaliou a possibilidade de criação de uma associação de autores de BD, cartoon, caricatura e cinema de animação. Entre 2015 e 2019, foi presidente da direção do Clube Português de Banda Desenhada.

Em 2016, um jogo uniu o mundo real ao mundo virtual. Foi o início do fim de todas as fronteiras entre diferentes dimensões.
Num primeiro momento, as criaturas imaginárias tornaram-se virtuais.
Pouco tempo depois, começaram a invadir o nosso mundo.
Numa primeira vaga, vieram as personagens mais secundárias e esquecidas, à procura de encontrar melhores condições na vida real.
Chamaram-lhes
OS DESANIMADOS

Os Desanimados é um álbum de BD, da autoria de Mota. Auto-edição, indisponível no mercado comercial, apareceu em dezembro de 2019, para assinalar os 50 anos do autor.





quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

COLECÇÃO BLUEBERRY – Vol. 6 – MISTER BLUEBERRY por CARLOS PESSOA


COLECÇÃO BLUEBERRY - Vol. 6 
MISTER BLUEBERRY 
SAIU HOJE - 2 de Janeiro de 2020 - com o jornal PÚBLICO 


BDpress #524 Recorte do artigo publicado no jornal Público de 28/12/2019 

BLUEBERRY ENVELHECEU E PASSA O TEMPO A JOGAR PÓQUER 

Por Carlos Pessoa 

Julho de 1881, cidade de Tombstone.

Dois jornalistas e escritores viajam expressamente para esta cidade, onde esperam encontrar Blueberry e convencê-lo a fazer a sua biografia.

Chegado há uma semana a esta mesma cidade mítica habitada por figuras lendárias como os irmãos Earp, Doe Holliday e a temível família Clanton, um misterioso jogador incendeia as mesas de póquer e todos os homens abastados da região se acotovelam para o defrontar. Essa figura enigmática acaba por suscitar o interesse de muitas outras pessoas, por razões que vão muito para além do mero póquer.

Blueberry - é ele a intrigante personagem - ganhou alguns cabelos brancos e a sua vida resume-se agora a estas partidas de cartas, que se sucedem umas atrás das outras. Acaba por se ver colocado no centro das atenções, com a sua mesa a transformar-se no epicentro de um furacão que pode acabar por o engolir ... De forma necessariamente sintética, é este o tema de Mister Blueberry (texto e desenho de Jean Giraud), sexto álbum da colecção Blueberry, que será distribuído com o Público na próxima semana. 


Depois de anos de obrigações militares, Blueberry veste a pele de um respeitável cidadão, permanentemente sentado a um mesa de jogo de póquer. À primeira vista, pode parecer que esta "profissão" é menos arriscada, mas a verdade é que um jogador profissional corre sérios riscos, como o herói desta série descobrirá rapidamente. Passaram-se nove anos desde o anterior episódio da série criada pela dupla Charlier-Giraud, e nesse período muita coisa mudou, a começar pelo facto de, agora, o desenhador ser o único responsável pelo desenvolvimento das histórias.

O herói apresenta-se irreconhecível: a personagem heróica, corajosa e de recursos praticamente ilimitados cedeu o lugar ao jogador cínico, que evita envolver-se nas confusões que o rodeiam. Determina-se por puro calculismo egoísta e só o jogo lhe interessa abertamente, pelo que o leitor tem toda a legitimidade para considerar que Blueberry já nem sequer é, em rigor, o herói desta aventura.

Paradoxalmente (ou talvez não ... ), quase todo o enredo gira em torno de si, que consegue a proeza de permanecer imóvel, sentado numa cadeira de saloon, escrutinando o comportamento e as estratégias dos seus companheiros de mesa.

Sob a caneta de Giraud, o argumento revela-se menos épico e mais "macio", sem que isso signifique menor grandeza para as personagens da história. Em rigor, o novo curso da série, iniciado com este episódio, caracteriza-se por um ângulo de abordagem inteiramente "descentrado" comparativamente à matriz estabelecida por Charlier. À nova visão do herói, menos activo e biologicamente envelhecido, junta-se uma reflexão em câmara lenta sobre o estatuto do herói e o sentido do seu percurso aventureiro passado.

O desenho de Giraud é outra agradável surpresa. Tudo neste episódio exala o prazer do desenhador na concretização gráfica da história, sem nunca dar azo a que o leitor se canse: a planificação das pranchas e vinhetas, o habitual cuidado com os pormenores, a alternância das cores imposta pela técnica narrativa adoptada (com a articulação de histórias dentro da história propriamente dita), o jogo de planos e contraplanos ...

Embora continue a ser de recorte clássico, o desenho de Giraud vertido em cada prancha desta história ilustra o fabuloso talento deste criador ímpar. É um desenho capaz de criar atmosferas urbanas impressionantes e um ambiente western de fino recorte, que voltaremos a encontrar no álbum seguinte, segunda parte deste excelente ciclo.


Album 6 

Mister Blueberry

Colecção Blueberry
Quinta-feira, 2 de Janeiro 
Por+7,90€










 
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