domingo, 24 de março de 2013

COM O "ZÉ DAS PAPAS": O MI-CARÊME - OU O MEIO DA QUARESMA


Crepe


MI-CARÊME 

Gazeta das Caldas, 16 de Março de 2013 

O título desta semana não corresponde a nenhuma vaidade, sequer vontade, mais ou menos serôdia, de demonstrar que o escriba sabe francês, mas, e isso sim, procura revelar uma data cronologicamente relevante e, ainda, actual.

Mi-carême, ou seja, a meio da Quaresma, é, na língua de Camões, um marco civilizacional que se deve à Igreja Católica francesa.

A quaresma, propriamente dita, continua actual para a Igreja portuguesa e, por isso, mereceu da conferência episcopal o estabelecimento, em 1984, de normas para o jejum e a abstinência nas dioceses portuguesas.
E por força delas os cristãos são especialmente convidados à prática da penitência: na Quaresma e em todas as Sextas-feiras do ano.

A abstinência consiste na escolha de uma alimentação simples e pobre. A sua concretização na disciplina tradicional da Igreja era a abstenção de carne e, daí, o conselho de manter esta forma de abstinência, particularmente nas sextas-feiras da Quaresma.

O jejum é a forma de penitência que consiste na privação de alimentos; faz-se, limitando a alimentação diária a uma refeição, embora não se exclua a toma de alimentos ligeiros às horas das outras refeições.
O jejum e a abstinência são obrigatórios em Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa.

Esta realidade levanta, no entanto, questões de dieta alimentar e económicas – diminuem as reservas do organismo e o consumo de certos alimentos.

Por essas razões e pelas sociais de permitir um momento de intervalo, surgiu o mi-carême.
E daí os bailes de mi-carême e, nas “papas”, os crêpes e os beignets, como guloseimas próprias.
Os beignets (chamados de acordo com a região de França, “merveilles”, “tourtisseaux”, “corchevets”, “nouets”, “ganses” ou ainda “bugnes” , “oreillettes” ou “bottereaux”) são preparação tradicional daquela data.

crepe sucrée

beignet

beignet viennois 

E porquê os crepes e os beignets? Porque permitia utilizar ingredientes perecíveis, já que até o consumo de ovos era interdito na Quaresma.

O problema é que os ovos só se conservam uma vintena de dias, ou seja, metade dos quarenta que dura a Quaresma, ou seja, o tempo que separa o Carnaval da Páscoa.

Daí as citadas iguarias, pretexto para o consumo dos ovos…

Sendo que todos sabemos o que são crepes, será que também sabemos o que são os beignets?
A palavra beignet é de origem Celta e significa aumentar.
Em França o beignet está associado definitivamente como a comida do Mardi Gras e do Mi-carême.
Nos Estados Unidos são conhecidos como donuts.

 donuts

 donuts

donut

Na Espanha são os Buñuelos.

buñuelos

buñuelos de viento

Cá no burgo são, por exemplo, os sonhos, ao fim e ao cabo, pastéis que levam sempre farinha e ovos, acompanhados ou não por outros ingredientes, salgados ou doces; a sua variedade vai dos ditos às bolas de berlim, dos cuscurões aos peixinhos da horta! Denominador comum: farinha, ovos e fritura!


cuscurões

bola-de-berlim

Passada a Mi-carême, vinte dias mais tarde é a Páscoa.
E voltam os ovos.
Por tradição, para além das amêndoas (que parecem ovos pequeninos) e dos ovos (símbolo da vida), existe o pão-de-ló e os folares que, especialmente os padrinhos, ofereciam às crianças.
Mas para os folares há que reservar espaço gráfico suficiente. Voltaremos ao assunto, havendo engenho e arte. 

João Reboredo 

pão-de-ló




folar
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Nota do Kuentro: Para além deste post nos ter deixado um bocado enjoados, com tanta doçaria, devemos dizer que no Brasil, o Mi-carême da tradição francesa, foi introduzido na cidade de Feira de Santana, no estado da Bahia e passou a denominar-se Micareta, a partir de 1937 tendo-se tornado num autêntico “carnaval fora de época”. A época pode ser de jejum e penitência, mas para o brasileiro qualquer altura é bom pretexto para dar numa de loucura e “pôr as carnes de fora”, hem? Confira as fotos:

 Festa da Micareta em Minas gerais


Os reis da Micareta da Feira de Santana na Bahia 2011

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sábado, 23 de março de 2013

OS MEUS PROJECTOS ABANDONADOS... (2) - OS MAIAS, DE EÇA DE QUEIROZ



PROJECTOS ABANDONADOS... (2) 

OS MAIAS 
De Eça de Queiroz 

Jorge Machado-Dias - Adaptação e desenhos

Na sequência da Menção Honrosa atribuída a Ilhas do Mar Occeano, no Concurso de Banda Desenhada Navegadores Portugueses do Centro Nacional de Cultura, cujas pranchas existentes publiquei aqui no passado domingo, fui contactado por Francisco Alba Linhares, das Edições Asa. Pensando que ia poder desenvolver Ilhas do Mar Occeano, em trabalho pago, fiquei desalentado e um bocado (muito mesmo) receoso, quando Linhares me disse que a editora já tinha o armazém cheio de BD sobre descobrimentos e por isso, o que me propunha era a adaptação de Os Maias, de Eça de Queiroz. Confesso que fiquei em estado de choque. Tinha lido Os Maias (e toda a obra de Eça), aos 13 ou 14 anos e conhecia bem o livro. Mas aquilo são setecentas e tal páginas...

No entanto eu queria mesmo fazer banda desenhada e... aceitei. Levei talvez um ano a fazer a adaptação - decoupage, planificação, passagem de discursos indirectos a directos, etc, etc... a coisa ia dar umas trezentas e tal pranchas. E comecei a desenhar.

Desenhei Ilhas no Mar Occeano em A2. Eram folhas enormes que não davam jeito nenhum para manobrar no estirador. Então, não mudando de formato, desenhei cada página em duas pranchas A3 ao baixo. A única de que conservei o original foi a prancha 13 (13A e 13B), que podem ver mais abaixo - antes da reprodução da mesma com as cores.

Acabou por ser um trabalho que me deu (estava a dar) imenso gozo - a pesquisa iconográfica da época (não havia internet ainda), armado em ratazana de biblioteca, depois fotografando ruas de Lisboa que não tinham sido muito modificadas, fotografei, por exemplo, o palácio dos marqueses de Fronteira, para servir de modelo à casa de Santa Olávia (1ª prancha) e cheguei mesmo a ir ao São Carlos para fotografar a sala (para a prancha 12), etc... tive uma pequena colecção de miniaturas de caleches, coches-coupé, etc...

Antes de começar a sério, realizei algumas pranchas preparatórias, de que só me resta a que se pode ver abaixo, com uma conversa entre João da Ega e Carlos da Maia.

Depois de enviar treze pranchas - primeiro a preto e depois com as cores - que foram religiosamente pagas, aconteceu uma qualquer hecatombe nas edições Asa, Francisco Linhares desapareceu de cena e recebi uma carta a cancelar o projecto, explicando que a Asa deixaria de publicar banda desenhada.

Depois daquele trabalho todo - em que o desenho não tinha sido ainda nem 10% - e quando os motores já estavam aquecidos... Fiquei de gatas.

Aqui fica o que restou - só tenho cópias das primeiras oito pranchas a preto e as restantes a cores, sendo que a 9 nem sequer tem legendas, nem eu sei onde pára o texto.

Prancha preparatória - conversa entre João da Ega e Afonso da Maia

 
 

Originais da prancha 13


Para conseguirem ler as legendas em condições, cliquem sobre as imagens e, uma vez estar abertas no visualizador do blogue, cliquem de novo sobre eles, com o botão direito do rato e escolhendo "Abrir imagem num novo separador" onde se pode usar a lupa.

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quarta-feira, 20 de março de 2013

AMANHÃ NO CNBDI - ÀS QUINTAS FALAMOS DE BD - FAZER CIÊNCIA COM AS FERRAMENTAS DA BD




AMANHÃ NO CNBDI
ÀS QUINTAS FALAMOS DE BD

FAZER CIÊNCIA COM AS FERRAMENTAS DA BD


Amanhã, dia 21 de Março, pelas 21 horas, há mais um encontro no CNBDI.

Desta vez convidamos João Mascarenhas e Rui Pimentel para nos falarem da importância da banda desenhada no desenvolvimento da sua atividade profissional, o primeiro enquanto engenheiro mecânico e o segundo como arquiteto.

Nesta Quinta feira convidamo-lo a tomar café connosco.

 Rui Pimentel e João Mascarenhas

Apareça, contamos consigo. 

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terça-feira, 19 de março de 2013

BDpress #356: BUILDING STORIES, DE CHRIS WARE - ESTE LIVRO NÃO TEM UM MAPA?



BUILDING STORIES

CHRIS WARE


Um livro que não é um livro mas uma caixa gigante com histórias espalhadas por 14 suportes diferentes: Building Stories, de Chris Ware, põe em causa todas as regras da narrativa e devolve-nos ao maravilhamento das primeiras leituras. A propósito, fomos folheá-lo num colégio.

"Isto não tem um mapa?

Público, suplemento Ípsilon, 15 Março, 2013 

António Rodrigues

"Nunca gostei do formato tradicional dos livros de comics e desde muito cedo tentei fazer alguma coisa que fosse diferente (...), como Art Spiegelman e a revista RAW, de Françoise Mouly, [que] alargaram as possibilidades [da BD no passado]" Chris Ware 

Building Stories 
O último livro de Chris Ware foi editado em Outubro do ano passado — pela Pantheon, nos Estados Unidos, e pela Random House, no Reino Unido. Tendo em conta o diminuto mercado português e os altos custos de produção desta caixa-livro, é improvável que venha a conhecer edição portuguesa.

Informação do Kuentro: à venda na www.amazon.co.uk, por 19,20 Libras (cerca de € 22,50)



Quando se entra na vida de alguém não se começa por saber cronologicamente toda a sua existência. Vai-se sabendo aos poucos, des­cobrindo aqui e ali, juntan­do peças de um puzzle, alumiando esta e aquela sombra. Com Building Stories passa-se a mesma coisa. So­mos atraídos para dentro da caixa-livro, para dentro desse prédio em Chicago. Atarantados, sem conhecer ninguém, sem entender nada. E, depois, devagarinho, lá vamos per­cebendo, atando pontas, montando o Lego. Como dizia uma das alunas do St. Julian's, o colégio em Carca­velos onde fomos abrir a pesada caixa de Chris Ware: "Engraçado, é tudo a mesma história, tudo se in­terliga. É um pouco como a nossa vida."

Building Stories é desconcertante. Questiona a ideia do livro como o conhecemos. Sabota a relação habi­tual com o leitor. Deixa de ser ape­nas uma entrega de letras pretas sobre papel branco ou, neste caso, de ilustrações coloridas sobre folhas de boa gramagem destinadas à frui­ção individual de quem lê, para pu­lar a cerca e activamente questionar a relação, as expectativas, as regras habituais da narrativa.


"É um jogo mais do que um livro", afirma uma das professoras. "Não se pode ler no comboio, não se po­de ler no café, não se pode ler na sala, com o cão e os filhos", acres­centa outra. E têm toda a razão. Os 14 distintos livros, panfletos, jornais, revistas e a caixa que os guarda não só formam um conjunto pesado co­mo exigem ser libertados e espalha­dos. Na caixa há sugestões para "co­locar, esquecer ou perder comple­tamente algum do seu conteúdo entre as quatro paredes de uma ca­sa normal bem situada".

Em entrevista à revista New Sta­tesman, o autor confessa o seu gosto pelas experiências: "Nunca gostei do formato tradicional dos livros de comics e desde muito cedo tentei fazer alguma coisa que fosse dife­rente e mais adequada ao material que apresento", abrindo novos ca­minhos para a banda desenhada e as novelas gráficas do futuro "como Art Spiegelman e a revista RAW, de Françoise Mouly, alargaram as pos­sibilidades" no passado.

Uma das alunas do St. Julian's quase cita Chris Ware sem saber: "Isto não deve ser para ler tudo de seguida, deve ser para perder um pouco pela casa." Ao que outra diz "é para espalhar numa mesa", acrescentando a primeira: "ou na casa de banho". E quando se apres­ta para explicar melhor a professo­ra interrompe-a: "Demasiada infor­mação!"




Imaginar o real

Building Stories dá asas à imagina­ção. Faz tudo para justificar a cita­ção de Pablo Picasso usada como epígrafe: "Tudo o que podemos ima­ginar é real." Tem histórias dentro: a da jovem sem uma perna que mo­ra no terceiro andar (é a partir do ponto de vista dela que tudo se conta), a de um casal trintão com peso a mais e amor a menos, a da idosa senhoria solitária e a do pequeno prédio de apartamentos onde todos vivem, edifício que Ware chega a antropomorfizar ao enchê-lo de pensamentos sobre moradores ac­tuais e passados.

Mas se dá asas à imaginação, é parco quanto a indicações de leitu­ra. O autor deixa ao leitor a constru­ção da narrativa com os meios à sua disposição. Embora a tendência se­ja a de partir dos suportes mais pe­quenos para os maiores - é difícil libertar o nosso cérebro de amarras apriorísticas -, não há uma escolha certa: todos os caminhos levam à Roma de Building Stories e nenhum pode ser descrito como a distância mais pequena entre dois pontos.

Daí que "isto tem um mapa?" seja a primeira pergunta de uma outra aluna assim que a caixa se abre à volta de uma mesa da biblioteca do St. Julian's, onde sentados ou em pé os alunos vão distribuindo entre si os diferentes artigos da caixa-livro. "O que eu não percebo é a ordem, não percebo nada disto. Isto é mui­to estranho", confessa um deles, manifestamente desorientado.

Duas das professoras presentes queimam pontes com o estranho objecto antes mesmo de qualquer construção. O livro não as seduz, são leitoras de livros-livros e não nasce­ram com a era digital. "Isto é como o cubo de Rubik, é preciso juntar as cores. Mas dá muito trabalho e não vejo que compense assim tanto", justifica-se uma delas.

Há alunos que fazem o mesmo, embora experimentem primeiro. Torcem o nariz à confusão, à exigên­cia, vão conversando baixinho. Ou­tros dedicam-se a lançar piadas - nem seria uma turma de adolescen­tes sem alguém a tentar introduzir o humor na experiência em grupo. É esse que afirma: "Vou comprar só para poder discutir isto com a minha mãe”, sem disfarçar a ironia de quem nunca sequer ponderou concretizar a declaração.

"Não creio que tenhamos na nos­sa cabeça um 'livro da vida' que fo­lheemos para encontrar os capítulos e as passagens; a nossa memória é mais como uma gema ou como uma flor ou como algo tridimensional que podemos mudar, virar do aves­so, entrar ou sair", explica Ware em declarações ao The Comics Journal.


Atrás dos cortinados

Building Stories não se limita a ex­perimentar no formato, também é dado a experiências no desenho. A narrativa tende a ir para lá da habi­tual esquerda-direita das tiras a que a BD nos habituou: sobe e desce es­cadas, joga com as janelas do pré­dio, vagueia com pensamentos, par­te do centro para a periferia ou vice-versa, transforma-se em letras desenhadas. Os balões de diálogo são substituídos por balões de figu­ras azuladas, os desenhos diminuem de tamanho até fazer doer a vista. Aliás, se há nele uma lógica é a da arquitectura, imposta por esse pré­dio do final do século XIX, princípio do século XX, que é o centro do mun­do deste livro.

Escreve Ware: "Quem nunca ten­tou, ao passar à noite por um prédio ou por uma moradia, espreitar pelos cortinados ou persianas meio-fechados, à espera de apanhar um fogacho da vida privada dos seus moradores. Qualquer coisa... o mais breve vis­lumbre de movimento... talvez uma cabeça assomando-se... um pouco de cabelo... uma sombra misteriosa... o lampejo de um corpo... de qual­quer forma parece mais revelador do que um cumprimento generoso ou uma cordialidade calculada... Mesmo o mexer ténue de um simples cortinado pode sugerir o mais colo­rido bouquet de segredos."

Duplo maravilhamento, o da cai­xa que se abre frente aos nossos olhos para nos mostrar o bouquet de segredos, como quem espreita para lá desse cortinado e observa a vida que se desenrola para lá da sua experiência; e o do livro que nos devolve, mercê da surpresa e do jogo, às primeiras leituras de infância, ao momento em que descobrimos que juntando as letras em carreiras de palavras podíamos viajar inter­minavelmente.

E no St. Julian's, depois das muitas perguntas soltas de quem ainda vai pelos livros de mão dada - e quando o instinto de perguntar primeiro se acalmou para dar lugar à descober­ta -, houve rostos de genuíno enle­vo, mostrando o puro prazer da leitura, chegando ao ponto de se citar Hitchcock: "Parece que são histórias verdadeiras, é como esprei­tar pela janela do vizinho. Eu gosto de ver as pessoas desde a minha ca­sa, como no filme do Hitchcock, o Janela Indiscreta."

Serão estas histórias verdadeiras? Serão estas pessoas verdadeiras? Será este edifício verdadeiro? Viveu o autor neste edifício? Foram as mais incessantes perguntas que ou­vimos. Sinal de um tempo em que o rótulo do "verdadeiro" parece em­prestar a qualquer narrativa um cunho mais autêntico, tão longe da referida citação de Picasso que se lê na caixa.

Todavia, a bem da informação, vale a pena responder que o próprio Ware, na referida entrevista à New Statesman, confessa: "A personagem principal é parecida com a minha mulher e é verdade que temos uma filha". Acrescenta ainda sobre o pré­dio que é uma mistura de dois edi­fícios distintos onde viveu em Chi­cago antes de se mudar para Oak Park, o subúrbio da principal cidade do estado do Illinois (e terceira mais populosa dos Estados Unidos) para onde a sua protagonista igualmente se muda.

As personagens são, no entanto, fictícias, embora os seus traços pos­sam encontrar-se em cada canto das grandes metrópoles, onde a solidão se agudiza com a presença de tanta gente e a tendência para a depressão é maior e mais táctil, e de onde a felicidade parece ter-se ausentado para parte incerta, escondendo-se no sótão das memórias ou vaguean­do inalcançável à mercê de um qual­quer acaso cósmico fora de contro­lo e da serenidade, como na co­média romântica com John Cusack e Kate Beckinsale (Serendipity).

"Sempre que conhecemos alguém ou sabemos alguma coisa sobre al­guém, estamos a criar ficção. Escre­vemos ficção sobre pessoas que co­nhecemos, que pensamos conhecer bem, porque criamos histórias so­bre elas na nossa cabeça e, qualquer que seja a história, o mais provável é que não seja verdade", refere o autor em entrevista à Publishers Weekly. "Não estou a tentar dizer que tudo o que ouvimos é imaginário, mas estou a tentar apreender um sentido dessa verdade e um sentido desse mecanismo" de contar histó­rias, continua.

Ware garante que, acima de tudo, pretende que o leitor "se divirta" com Building Stories. No entanto, a estranha forma que adoptou para o seu livro é, a julgar pela pequena amostra do St. Julian's, um pau de dois bicos: aquilo que atrai uns é o mesmo que afasta outros. Mas, co­mo diz uma das alunas, numa asso­ciação nitidamente sofisticada para uma adolescente de 15/16 anos, o livro "faz sentido, tipo Clarice Lispector". E, como dizia a escritora brasileira, "escrever é procurar en­tender, é procurar reproduzir o irreproduzível", seja em palavras ne­gras sobre papel branco, seja em 14 fragmentos ilustrados da mesma história.




Chris Ware

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