domingo, 6 de dezembro de 2015

BDPRESS #466 - A AGÊNCIA DE VIAGENS LEMMING DE JOSÉ CARLOS FERNANDES – NA REVISTA “E” DO EXPRESSO

BDpress #466
A AGÊNCIA DE VIAGENS LEMMING
JOSÉ CARLOS FERNANDES


REVISTA “E” DO EXPRESSO
28 de Novembro de 2015

A AGÊNCIA DE VIAGENS LEMMING
José Carlos Fernandes
Biblioteca de Alice, 141 págs., € 22,00
Banda desenhada

Texto de José Mário Silva

José Carlos Fernandes é um desenhador mediano que aproveita as limitações do seu universo visual para dirigir a atenção do leitor para a prodigiosa criatividade dos textos. "A Agência de Viagens Lemming" continua a explorar um registo – metade sofisticação irónica, metade erudição subtil – que JCF foi burilando ao longo da série "A Pior Banda do Mundo" (seis volumes. 2002-2007).

Em tons de sépia, acompanhamos os diálogos entre o melancólico sr. Zoloft, indeciso sobre a escolha de um destino para as férias e o dono de uma peculiar agência que propõe os mais inusitados pacotes de viagem.

Na primeira parte do livro, cujas pranchas foram publicadas no "Diário de Notícias" durante o verão de 2005, ficamos a conhecer lugares que ltalo Calvino acolheria de bom grado no seu catálogo de "Cidades Invisíveis": a plana Bezanio, onde toda a gente sofre de vertigens; Pesto, onde se falsifica a História para fins turísticos; Manzil, um hino à entropia; ou Prodromos, onde o acaso se transforma em destino. A articulação entre os sucessivos vislumbres de uma geografia fantástica (revelada com absoluta economia de meios narrativos) faz- se de forma fluida e sem atritos porque JCF, mestre do mot juste, volta a exibir a sua extraordinária proficiência verbal.

Este talento, ou dom, é ainda mais notório na segunda parte do livro, em que o apuro da linguagem atinge o zénite (leia-se, por exemplo, a cadência poética da longa enumeração dos vários tipos de papel que soterram a cidade de Hrabal; ou o tom bíblico das magníficas páginas finais). Dizer que estamos diante do melhor autor de BD português é ao mesmo tempo justo e injusto, porque JCF transcende as fronteiras dos géneros. Digamos antes que está, sem favor, entre os melhores escritores portugueses da actualidade.


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