Mostrar mensagens com a etiqueta FESTIVAIS INTERNACIONAIS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta FESTIVAIS INTERNACIONAIS. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

43º FESTIVAL INTERNACIONAL DE BD DE ANGOULÊME – VENCEDOR DO GRAND PRIX: HERMANN HUPPEN



O cartaz ofical, de Katsuhiro Otomo, vencedor do Grand Prix de 2015

43º FESTIVAL INTERNACIONAL 
DE BD DE ANGOULÊME
28 A 31 DE JANEIRO DE 2016

VENCEDOR DO GRAND PRIX
HERMANN HUPPEN


O Festival de BD de Angoulême deste ano começou na passada quinta-feira e termina no domingo.

No final da votação electrónica, organizada pelo Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, durante este mês de Janeiro, a comunidade de autores profissionais de BD, elegeu pela maioria de votos Hermann Huppen, coroando assim uma das obras mais emblemáticas da banda desenhada franco-belga e o percurso de um autor, dos mais prolíficos da nona arte europeia.

Hermann Huppen (de 77 anos) é assim o vencedor do Grand Prix d’Angoulême de 2015.

Isto apesar de a votação deste ano ter estado envolvida na polémica, relativa à ausência de mulheres na lista inicial de 30 indicados. Hermann inicialmente não queria receber o prémio – assim como outros, no passado, como Alan Moore ou Claire Wendling, que pediu para que não votassem nela –, mas acabou convencido por colegas a aceitar a homenagem.

Hermann Huppen nasceu em 1938, em Bévercé, na Bélgica. A sua carreira iniciou-se na década de 1960, desenhando algumas histórias da série Histoires de l’oncle Paul. Em 1966, passou a ilustrar as histórias de Bernard Prince, escritas por Greg.

O autor realizou Comanche, Jughurta, Jeremiah, em publicação desde 1977, Les Tours de Bois-Maury, que já teve mais de 13 álbuns publicados; Caatinga,The Girl from Ipanema, Afrika, On a tué Wild Bill e Lune de Guerre. Recentemente, Hermann tem ilustrado histórias escritas pelo seu filho, Yves H, como Le Diable des sept mers, Une nuit de pleine Lune e Sans pardon. Em 2010, recuperou Bernard Prince, lançando uma aventura com argumento do seu filho.

Seguindo a tradição do evento, Hermann ilustrará o cartaz e será o presidente do Festival de Angoulême de 2017.

 

Hermann Huppen esteve em Portugal, que me lembre, quatro vezes: no Salão BD da Sobreda em 1994, 1996 e 1999 e no Festival de BD de Beja em 2010. Neste último ficou famosa a sua parceria desenhada com Fabio Civitelli, em que o belga desenhou o seu Red Dust e o italiano, o seu Tex. Deixo aqui a foto, publicada aqui no Kuentro de 14 de Junho de 2010, em que os dois desenhadores ladeiam José Carlos Francisco, que lhes lançara o repto e exibe o resultado.






______________________________________________________________

sábado, 14 de fevereiro de 2015

REPORTAGEM – UM PUNHADO DE IMAGENS DE ANGOULÊME 2015 – JOÃO MIGUEL LAMEIRAS NO BLOGUE “POR UM PUNHADO DE IMAGENS”


REPORTAGEM
UM PUNHADO DE IMAGENS DE ANGOULÊME 2015
JOÃO MIGUEL LAMEIRAS 
NO BLOGUE “POR UM PUNHADO DE IMAGENS” 

Aconselho vivamente (a quem estiver interessado), a ler e ver as fotos da reportagem que João Miguel Lameiras publicou, sobre o Festival de Angoulême deste ano, no seu blogue Por um Punhado de Imagens.

.................................................

Como não podia deixar de ser, o Festival de Angoulême deste ano, ficou marcado pelo massacre do Charlie Hebdo, com cartazes com as capas de números emblemáticos do jornal, espalhadas pelas paredes da cidade e com o Museu de Banda Desenhada a substituir a sua exposição permanente por uma mostra temporária dedicada ao famoso jornal, e às publicações que o antecederam, como a Hara Kiri e o Charlie Mensuel. Naturalmente, as distribuidoras aproveitaram para redistribuir o famoso número pós-massacre, que chegou aos sete milhões de exemplares de tiragem, e esse último número encontrava-se facilmente em qualquer quiosque de Angoulême....



______________________________________________________________

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

BDpress #456: ANGOULÊME DÁ O PRÉMIO MÁXIMO DE 2015 A ÁRABE DO FUTURO - Une jeunesse au Moyen-Orient (1978-1984), de Riad Sattouf

ANGOULÊME DÁ O PRÉMIO 
MÁXIMO DE 2015 A 

ÁRABE DO FUTURO 
Une jeunesse au Moyen-Orient (1978-1984)
 de Riad Sattouf 

Público/Cultura, 02/02/2015 

Joana Amaral Cardoso

No ano de Charlie Hebdo, um dos seus colaboradores conta a sua história: pai sírio, mãe francesa, uma infância passada entre Paris, Líbia e Síria. "O mais importante é continuar a fazer livros".

O Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême premiou este domingo o livro do franco-sírio Riad Sattouf L'Arabe du Futur: Une jeunesse au Moyen-Orient (1978-1984), encerrando assim a 42.ª edição do encontro, que ficou marcada pelas homenagens aos desenhadores mortos nos atentados de 7 de Janeiro ao jornal Charlie Hebdo. Riad Sattouf é colaborador do semanário satírico francês e mostrou a sua emoção ao aceitar o galardão. "É um misto de alegria e tristeza", disse, "mas o mais importante é continuar a fazer livros e a desenhá-los".

Os prémios de Angoulême, as “fauves”, foram reveladas na tarde deste domingo na presença da ministra da Cultura francesa, Fleur Pellerin, e distinguiram assim como Melhor Álbum um romance gráfico sobre a infância do seu autor, Riad Sattouf. Entre o humor e a pungência, L'Arabe du Futur (ed. Allary) recorda a origem síria do autor, do lado paterno (a mãe é francesa), e a infância passada entre Paris, a Síria de Assad e a Líbia de Kadhafi.

Riad Sattouf, de 37 anos, é comparado pela agência AFP a Marjane Satrapi (Persépolis) ou Guy Delisle (Pyongyang: A Journey in North Korea) pelo seu traço simples e potência expressiva que o aproxima dos desenhadores de imprensa. A mesma agência assinala que L'Arabe du Futur foi um dos sucessos editoriais do sector em França em 2014, com uma edição de 150 mil exemplares.

O autor, um prolífico trabalhador, é conhecido não só pelo seu filme de 2009, Uns Belos Rapazes (Les Beaux Gosses), vencedor de um César, mas sobretudo pela série que ao longo de dez anos alimentou no Charlie Hebdo, La vie secrète des jeunes, que já foi compilada e editada em livro.

Riad Sattouf é também autor dos álbuns dedicados a Pascal Brutal, uma personagem exacerbadamente masculina e cheia de contradições cujo terceiro tomo lhe deu o Prémio de Melhor Álbum em 2010 também em Angoulême, ou Ma Circoncision (2004). Em 2003, já tinha recebido outro galardão em Angoulême, desta feita com o prémio René Goscinny pelo primeiro volume de Les Pauvres Aventures de Jérémy.

O festival entregou ainda o Prémio do Público a Les Vieux Fourneaux (ed. Dargaud), de Wilfrid Lupano (história) e Michel Audiard (desenho), e o Prémio Especial do Júri a Building Stories (ed. Delcourt), um livro que parece um jogo de tabuleiro composto por uma caixa com 14 livros e diferentes formatos, sem ordem definida, sobre uma florista que procura o amor, do norte-americano Chris Ware. O Prémio de Melhor Série foi para Last Man e o Prémio Revelação para Yékini. O conjunto do palmarés pode ser consultado no site do festival.

O Grande Prémio de Angoulême tinha já sido atribuído na semana passada ao japonês – o primeiro a ser distinguido com a honra máxima de carreira do importante festival europeu – Katsuhiro Otomo, autor da série de culto Akira. E este domingo foi formalizada a entrega do primeiro Prémio Charlie pela Liberdade de Expressão – que será entregue anualmente , aos cinco cartoonistas mortos no ataque jihadista à Redacção do Charlie Hebdo, em Paris: Charb, Tignous, Honoré, Wolinski e Cabu.

OS FAUVES
(COMO SÃO DESIGNADOS OS PRÉMIOS DE ANGOULÊME)
RECOLHA DO KUENTRO:

MELHOR ÁLBUM
L'Arabe du Futur: Une jeunesse au Moyen-Orient (1978-1984), de Riad Sattouf

PRÉMIO DO PÚBLICO
Les Vieux Fourneaux (ed. Dargaud), de Wilfrid Lupano (história) e Michel Audiard (desenho)

PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI
Building Stories (ed. Delcourt), de Chris Ware

MELHOR SÉRIE
Last Man, de Balak, Mickaël Sanlaville, Bastien Vivès

PRÉMIO REVELAÇÃO
Yékini, le Roi des Arènes, de Clément Xavier e Lisa Lugrin

PRÉMIO JUVENTUDE
Les Royaumes du Nord 1, de Stéphane Melchior-Durand & Clément Oubrerie (baseada na obra de Philip Pullman)

PRÉMIO DO PATRIMÓNIO
San Mao, le Petit Vagabond, de Zhang Leping

TROFÉU POLAR CNCF
Petites Coupures à Shioguni, de Florent Chavouet

PRÉMIO DA BD ALTERNATIVA
Derivé Urbaine 6 (Une autre image)

_________________________________________________________________

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Bdpress #455: O CHARLIE JÁ NÃO SERÁ O CHARLIE


O Festival Internacional de BD de Angoulême termina hoje. Já foi escolhido o Grande Prémio do ano: Katsuhiro Otomo e foi atribuído um Grande Prémio Especial à redacção do Charlie Hebdo – assunto que domina o Festival deste ano, como não podia deixar de ser. Falta noticiar quais os livros premiados deste ano, que esperamos publicar amanhã aqui no Kuentro. Hoje deixamo-vos um texto excelente de José Marmeleira publicado no PÚBLICO de quinta-feira, dia 29 – complementado com um curto de Claudia Carvalho – que faz a História do Charlie Hebdo.


O CHARLIE JÁ NÃO SERÁ O CHARLIE

 Publico, 29 JAN 2015

A história do Charlie Hebdo é indissociável da história da banda desenhada francesa. Ouvimos três especialistas para pensar o futuro no dia da abertura do Festival de Angoulême

Cartoon

José Marmeleira

Foi em 1995 que a banda desenhada francesa se viu dividida por uma po­lémica inédita. A entrega do Grande Prémio, em Angoulême, a Philippe Vuillemin provocou a ira de Morris e o incómodo de outros autores. O desenhador de Lucky Luke che­gou mesmo a abandonar o júri do famoso Festival, que regressa hoje [quinta feira, dia 29] sob o signo de Charlie Hebdo, o semanário satírico francês alvo de um atentado em Janeiro que matou doze pessoas.

A que se deveu aquela polémica em An­goulême? Mais do que ao estilo de desenho, ao conteúdo das bandas desenhadas de Vuillemin, em parti­cular Hitler=SS, com textos de Jean-Marie Gourio. A sua publicação em formato de jornal e a exposição em galerias fora proibida em 1989 e os dois autores acabaram condenados, apesar das intervenções do advogado Thierry Levy e do autor Gotlib (am­bos franceses de origem judia). O que continham as páginas de Hitler=SS? Uma sátira brutal ao Holocausto, que representava, com o mesmo escár­nio, vítimas e algozes.

Este intróito é útil para contextua­lizar culturalmente o Charlie Hebdo e pensar a sua eventual singularidade francesa. Vuillemin também dese­nhou na revista satírica que (renas­ceu em 1970 das cinzas da "bete et méchant" Hara-Kiri, proibida pelas autoridades depois de fazer humor com a morte de Charles de Gaulle. Resumindo, o jornal que deve o seu nome a Charlie Brown (sim, é verda­de: foi emprestado pela irmã Charlie Mensuel, uma notável revista de BD) [Nota do Kuentro: na verdade, o nome Charlie não tem nada a ver com os outros Charlie que o autor do texto menciona, mas sim com o petit nom de Charles – Charlie – De Gaulle, por causa do último número do Hara-Kiri, que parodiava a morte do antigo Presidente Francês e ter sido, por isso, proibido pelo então Presidente Pompidou – tratou-se, portanto de uma pequena vingança] inscreve-se na tradição do desenho humorístico e da banda desenhada francesa. "Nasceu do Maio de 68, da laicidade, de uma tradição rabelaisiana", sublinha o historiador e crítico francês Jean-Christophe Boudet, evo­cando François Rabelais (1494-1553), autor de Pantagruel e Gargântua, co­mo um antepassado directo do jor­nal. "Tem antepassados na imprensa satírica francesa, como o Le Charivari [publicação do século XIX]. A sua sátira significa emancipação da censu­ra. Troça de todos os poderes, sejam políticos, religiosos ou económicos. Não tem mestre, nem Deus".

Já no mundo anglófono a realida­de é distinta, e por várias razões. "O espírito do Maio 68 extinguiu-se rapi­damente nos Estados Unidos e na In­glaterra", lembra Jeet Heer, jornalista e crítico canadiano. "E as publicações dependem mais da publicidade do que as francesas, os anunciantes não gostam de imagens controversas. No mundo anglófono, os editores são muito sensíveis a esse tipo de humor, pois as minorias estão mais atentas e mais bem organizadas politicamente. E os seus protestos são eficazes."

Curiosamente, a Hara-Kiri e o Charlie Hebdo, nas suas diferentes encarnações, foram bastante perme­áveis à influência da banda desenha­da americana. A Mad, revista humo­rística fundada por Harvey Kurtzman em 1952, e na qual colaboraram Will Eisner, Tom Wolfe ou Jules Feiffer, "teve um impacto libertador nos au­tores franceses, como teve o Robert Crumb", polémico e premiado autor americano de BD, recorda o crítico canadiano. "A tradição do underground americano revelar-se-ia mais profunda em França que nos EUA, in­clusive na composição das páginas".

O QUE MUDOU

O historiador Jean-Christophe Bou­det concorda e acrescenta o nome do Saul Steinberg, ilustrador e cartoonista, que figurou em 1947 ao lado de Arshille Gorky e Robert Motherwell na exposição Fourteen Americans. "No entanto", assevera, "a partir dos anos 70, a mais importante in­fluência surgiu da primeira geração de autores franceses da Hara-Kiri". Charb, o director do Charlie Hebdo que morreu no atentado, e Riss, que estava na redacção na altura do ata­que, continua Boudet, "encontraram as suas referências em Cabu [também vítima do atentado] e Jean-Marc Reiser", que publicou em várias revistas de BD e cujo humor cru e minima­lista não poupava as classes popu­lares. "Em contrapartida, o Charlie não teve qualquer impacto na banda desenhada anglófona”.

A história do Charlie Hebdo é indis­sociável das mutações que a banda desenhada e a sociedade francesa co­nheceram desde os anos 70. Apagado o nome Hara-Kiri, a Charlie Hebdo so­breviveria até 1981: a descida do nú­mero de assinaturas e das vendas nas bancas assinalava o progressivo de­clínio das revistas periódicas de ban­da desenhada, que atingirá a Charlie Mensuel. Regressará em 1992, com os autores da primeira geração, mas a outra sociedade. "Sim, é verdade, vão encontrar uma sociedade mais conservadora, de que o regresso das religiões me parece um sintoma, e um contexto económico mais difícil. O politicamente correcto e o merca­do transformaram-se em ideologias. Eles tiveram a oportunidade, no en­tanto, de 'capitalizar' a sua gloriosa luta contra a censura, o que lhes permitiu manter a independência".

O arqueólogo português Cláu­dio Torres, especialista em cultura islâmica, também acompanhou a evolução do jornal. "Um autor co­mo o Wolinski”, outra das vítimas, "foi muito importante para a minha geração, pelo modo como cultivou, no seu desenho atávico, o protesto e o humor. Simbolizou, mais do que a França, a Paris do Maio do 68, da contestação". Mas os tempos foram mudando. "Era uma publicação de esquerda, anticlerical, que troçava dos poderosos, e começou a troçar dos mais fracos, dos pobres, dos que estão em baixo. A sua sátira deixou de ter a mesma imaginação e subti­leza", lamenta. Entretanto, o jornal terá esquecido que também Paris mudara e que, sobretudo, reflectia uma realidade mais complexa. "Esse espírito herdado dos anos 60 e 70 confronta-se ainda hoje com uma for­te comunidade magrebina que fugiu da guerra e da pobreza dos seus paí­ses e à qual só resta a religião. É com o Islão que tem forjado a sua identi­dade, no seguimento da colonização e do terrível conflito que foi a Guerra da Argélia".

O historiador português não pre­tende explicar o massacre de 7 de Ja­neiro, mas enfatizar, cautelosamente, a complexidade das circunstâncias que são também políticas e globais. "Não podemos desligar o massacre terrível da reacção dos EUA ao 11 de Setembro e à criação de Israel numa zona que foi sempre um ponto de encontro entre civilizações. Foram acções estúpidas e retrógradas que arrastaram as pessoas para um am­biente de violência e guerra".

Nesta encruzilhada terrível e ex­plosiva, faça-se a pergunta: é possível encontrar representações de Mao­mé no mundo muçulmano? "Sempre existiram, sobretudo no mundo de expressão xiita, influenciada pela cul­tura persa. Mas nunca se represen­tou a grande divindade. O deus-pai nunca foi representado em nenhuma religião. As representações dentro da iconografia religiosa são muito recentes. É uma figura tão forte que não é representável." Esta iconofobia religiosa não é um atributo apenas do Islão. Marcou a história do Judaísmo e do Cristianismo. "De uma forma geral, nas religiões monoteístas, há uma tendência para a abstracção, sobretudo quando a dominante civili­zacional é o grande comércio. Nas zo­nas rurais, no mundo dos mosteiros, no continente europeu, sobreviveu uma representação figurativa muito forte. Foi dominante no catolicismo bizantino e romano, enquanto no Mediterrâneo sobreviveu uma re­presentação abstractizante".

IR MAIS LONGE

Regresse-se, entretanto, ao Charlie Hebdo. Ouviram-se críticas ao modo como o jornal representava as mi­norias, ultrapassando, várias vezes, a fronteira da sátira racista, com as suas óbvias distorções. Nada de no­vo. Apesar de importantes excepções (Farid Boudjella, Baru, Yvan Alagbé, entre outros), a história da BD franco-belga está cheia de estereótipos, de imagens que reduzem o outro asiáti­co, africano, árabe a uma caricatura (quem se recorda de Iznogoud, de Goscinny e Tabary?).

No universo dos comics e das no­velas gráficas americanas, embora com os seus casos – destaque-se o debate provocado por Habibi, de Craig Thompson –, o cenário alte­ra-se, pois os críticos e os jornalistas são velozes a identificar os exageros e os "desvios" dos autores. Robert Crumb que o diga: depois de várias controvérsias em torno da sua re­presentação de homens e mulheres afro-americanos, abandonou o pa­ís natal e estabeleceu-se numa vila francesa.

Fale-se então de sátira racista que, como toda a sátira racista, se abate, nos países ocidentais, sobre as minorias. "Sim é verdade, ela existe [no Charlie Hebdo]. Mas a melhor resposta a esse tipo de sátira só po­de ser uma: a da crítica, nunca a da violência", diz Jeet Heer.

Jean-Christophe Boudet tem reser­vas quanto ao uso da palavra "racis­ta". "Os desenhos humorísticos do Charlie Hebdo troçam de todas os sistemas e estruturas. São imagens de imagens e, por isso, incompre­ensíveis para quem olha para uma imagem apenas como uma represen­tação. A capa do 'Charlie dos sobre­viventes' é nesse aspecto exemplar. Não é o profeta que é caricaturado, mas as imagens que algumas pessoas têm do profeta, por razões que nem sempre têm a ver com a religião".

Para o historiador, o que está em causa é um "analfabetismo" de imagens que ainda grassa na so­ciedade, por isso "gostava de ver o mundo muçulmano a debater ou a clarificar a sua posição em relação às imagens". Mas não terão ido os caricaturistas longe de mais na sua sátira? "Não, pelo contrário. Os seus trabalhos denunciavam, pelo riso, tudo o que era norma ou que se es­tava a tornar norma, como o racis­mo. É importante também salientar que, no Charlie, todo o insulto que prometia a morte e o sofrimento era visto como um encorajamento para ir mais longe. O radicalismo das edi­ções mais recentes, antes do ataque, foi proporcional ao aumento cres­cente das ameaças".

Todavia, no ano passado, o Islão e a comunidade muçulmana não cons­tituíram os alvos preferidos do jornal. O "pódio" foi ocupado pela família Le Pen, o Presidente François Hollande e o primeiro-ministro Manuel Valls. A acusação de islamofobia soará, portanto, injusta. Mais adequada é a conclusão de que o mundo em que morreu e ressuscitou o Charlie He­bdo – aquele em que cresceram os irmãos Kouachi e em que os EUA são aliados assumidos da Arábia Saudita – não é o mesmo que o viu nascer. Que futuro o aguarda? "Não há uma resposta, apenas perguntas", sugere Jean-Christophe Boudet. "Passará a deter um poder editorial inédito? Correrá o risco de se transformar numa instituição? Ver-se-á obrigado a reinventar-se na Internet? Tornar-se-á numa revista mensal, reservando as polémicas para as redes sociais, para os blogues? Não sei."

Se nos devemos congratular com o poder que o papel e a caneta ainda conservam, também devemos acei­tar que a memória do Charlie (Bro­wn) está cada vez mais distante.



ANGOULÊME ENTRE RISOS E LÁGRIMAS

Cláudia Carvalho

É considerado um dos mais impor­tantes festivais de banda desenhada e arranca hoje, ainda na sombra do ataque de Janeiro ao Charlie Hebdo. Na 42.a edição do Festival Interna­cional de Banda Desenhada de An­goulême, a liberdade de expressão vai ser celebrada, mas as medidas de segurança foram reforçadas.

É às doze vítimas do atentado, entre as quais cinco importantes desenhadores de imprensa, que Angoulême dedica esta edição, des­de logo com a entrega do primeiro Prémio Charlie da Liberdade de Expressão e com a atribuição sim­bólica do Grande Prémio Especial à redacção do jornal (paralelamente à entrega do Grande Prémio, como dita a tradição, a um autor de BD). Há ainda uma exposição consagrada ao Charlie Hebdo, onde se poderão ver alguns dos mais controversos cartoons.

Sob o lema Aproximemo-nos do de­senho porque o desenho aproxima-nos, mais do que lembrar a tragé­dia, o Festival quer celebrar o espí­rito Charlie. Não pode ser esquecido que Angoulême é a festa da banda desenhada e não faltarão persona­gens conhecidas como Mafalda ou Astérix.

"O Festival vai ser para lembrar mas também para demonstrar que a vida continua", disse na apresenta­ção aos jornalistas Franck Bondoux, um dos organizadores de Angoulê­me, revelando que a organização do evento espera bater o recorde do ano passado, em que passaram pelo Festival 200 mil pessoas.

O Festival, que este ano tem como presidente Bill Waterson, que mante­rá a sua postura discreta e não estará no Festival, prolonga-se até domingo, dia 1, e contará com a visita, entre outras, do japonês Katsuhiro Otomo (criador de Akira) e do argumentista britânico Alan Moore (Watchmen, V de Vingança). Destaque ainda para a primeira grande retrospectiva na Europa do japonês Jirô Taniguchi. A programação completa pode ser consultada no site do Festival.


______________________________________________________________

sábado, 31 de janeiro de 2015

BDpress #454: GRANDE PRÉMIO DE ANGOULÊME PARA KATSUHIRO "AKIRA" OTOMO



GRANDE PRÉMIO DE ANGOULÊME 
PARA KATSUHIRO "AKIRA" OTOMO


Público online, 30/01/2015 
Joana Amaral Cardoso 

O CRIADOR DA INFLUENTE MANGÁ É O PRIMEIRO JAPONÊS A RECEBER O MAIS IMPORTANTE PRÉMIO DO FESTIVAL QUE ESTE ANO TEM A SUA “EDIÇÃO CHARLIE HEBDO”.

Katsuhiro Otomo e o primeiro número de Akira em 2014, quando foi agraciado pelo governo francês 

Na “edição Charlie Hebdo” do Festival de Angoulême, o importante encontro de BD deu pela primeira vez o seu Grande Prémio a um autor de mangá: o japonês Katsuhiro Otomo, autor da série de culto Akira.


A 42.ª edição Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, que arrancou quinta-feira, está já marcada pela criação de um Prémio Charlie da Liberdade de Expressão e pela já anunciada atribuição do Grande Prémio Especial à redacção do jornal atacado no dia 7. E quinta-feira assim foi: prémio para os sobreviventes do atentado que vitimou 12 pessoas, entre os quais os desenhadores Cabu, Wolinski, Charb, Honoré e Tignous, e seguido da estreia da mangá no principal galardão de Angoulême para Katsuhiro Otomo.

A atribuição deste prémio representa o reconhecimento não só da carreira prolífica de Katsuhiro Otomo, já condecorado pelo governo francês em 2005, mas também da BD de origem japonesa, que representa um quarto das vendas de BD em França. Em 2013, o belga Willem recebeu o Grande Prémio, mas o Prémio Especial no 40.º aniversário do mais importante evento de BD da Europa foi para o pai de Dragon Ball, o japonês Akira Toriyama. As decisões foram polémicas (uma votação expressiva no japonês, dos desenhadores acreditados no festival e uma decisão superior do júri pelo nome que mais (re)conhecia) e agora, dois anos depois, Angoulême faz um statement: abre o topo do seu palmarés à importante escola de BD japonesa.

"Tudo está perdoado", escreve o diário francês Libération, numa referência à capa do Charlie Hebdo dos sobreviventes no pós-atentado, e o Festival olha para lá do Ocidente e reconhece a mangá. O prémio para Otomo, que também estava na lista a votação para o Grande Prémio em 2013, é o quinto não-europeu em 42 anos de Festival.

O criador de Akira, bem como da sua adaptação ao cinema (1988), venceu então o Grande Prémio do Festival de BD de Angoulême depois de ter sido considerado favorito em 2014 – ano em que foi batido por Bill Waterson, o criador de Calvin e Hobbes que este ano, como é tradição, preside ao evento e em que, como é habitual no criador norte-americano, se mantém ausente e à distância dos media. Um mangáka – a expressão japonesa que descreve o autor de cartoon e que fora do Japão é usada para identificar os autores de mangá – que publicou o seu primeiro trabalho em 1973 e que continua a trabalhar, tendo anunciado em 2012 que está a começar uma nova série de mangá, a primeira de longa duração desde Akira.

Um prémio carreira aos 60 anos para o criador de quase 20 mangá que trabalha também como realizador de cinema de animação e de acção real, além de ser também argumentista, e que criou uma Tóquio (Neo-Tóquio) pós-apocalíptica centrada na figura dos jovens Tetsuo e Kaneda e do mítico e misterioso Akira que se tornou numa das séries de BD mais admiradas em todo o mundo. "Em termos de desenho, é intocável", descreveu numa entrevista o japonês Masashi Kishimoto, autor do popular Naruto. "Otomo desenha com uma máquina fotográfica na cabeça."

Akira ganhou cinco vezes o Prémio Harvey, votado por desenhadores de todo o mundo. E este Grande Prémio de Angoulême é para a carreira de Katsuhiro Otomo, mas é para Akira. “A fresca desmesura de Akira fascina não só pelo seu tema, pelas suas personagens, ambientes e gosto omnipresente pelo desenho, mas também pela sua excepcional exigência estética, que a converteu quase instantaneamente, desde a sua publicação, numa obra de culto”, diz a organização do festival, que confirma a “influência considerável em todo o mundo” das mais de duas mil páginas de desenho surpreendente.

Tudo começa em 1982, com uma explosão que destrói Tóquio e que parece começar a III Guerra Mundial. Em 2019, a cidade reergue-se numa ilha artificial. E de repente estamos em 2030 e na esteira da guerra. Gangues de adolescentes, rebeldes e militares, além de grandes questões sociais, políticas e psicológicas subjacentes, medem forças numa cidade high-tech em cinzas. A obra cyberpunk escrita e desenhada pelo mestre japonês que se estreou em 1982 e foi publicada até 1989/90 em seis grandes volumes. A preto e branco e lida no sentido oposto ao ocidental. Akira seria depois colorizado (versão americana) e tornar-se-ia depois anime, uma adaptação ao cinema de animação celebrada não só pela sua qualidade mas pelo papel que desempenhou na divulgação destas artes visuais japonesas no Ocidente. E também marcou uma viragem no trabalho do seu autor, que passou a dedicar-se mais ao anime. Akira chegaria aos EUA no ano da estreia do filme, em 1988, editada pela Epic Comics, uma chancela da Marvel, e depois pela Dark Horse; em Portugal foi editado pela Meriberica Liber em 1998.

ALGUMAS FOTOS DO 42º ANGOULÊME:


___________________________________________________________

 
Locations of visitors to this page