terça-feira, 3 de março de 2015

BDpress #461: "CHARLIE HEBDO" REGRESSOU ÀS BANCAS FEITO CACHORRO A FUGIR DE MATILHA RAIVOSA


"CHARLIE HEBDO" 
REGRESSOU ÀS BANCAS 
FEITO CACHORRO A FUGIR 
DE MATILHA RAIVOSA

in Expresso Diário, 24 Fevereiro 2015

"O sentido deste número é dizer que 'a vida continua'", explica o cartonista Riss, do jornal satírico francês, que retoma esta quarta-feira as suas edições semanais. Na nova edição do "Charlie Hebdo" há cartoons sobre os atentados de Copenhaga e sobre o julgamento de Strauss-Kahn, a par de uma entrevista ao novo ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis.

"Nova partida" é a legenda do cartoon de capa da nova edição do jornal satírico francês, que sai para as bancas esta quarta-feira, com "Charlie Hebdo" a surgir como um cachorro a fugir de uma matilha raivosa, cuja linha da frente integra o antigo Presidente francês Nicolas Sarkozy e a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, logo seguidos pelo Papa Francisco e por um jiadista com uma Kalashnikov na boca.

"O sentido deste número é dizer que 'a vida continua'", explica o cartoonista Riss em declarações ao jornal "Libération", nas instalações do qual a equipa editorial do "Charlie Hebdo" está provisoriamente a funcionar, em sequência dos atentados dos dois irmãos radicais islâmicos que a 7 de janeiro mataram 12 elementos da equipa em Paris.

A edição número 1179 do jornal, que sai esta quarta-feira para as bancas com uma tiragem de 2,5 milhões de exemplares, assinala o regresso da publicação à sua periodicidade semanal.

"Nós precisávamos de uma pausa, de um descanso... Havia aqueles que precisavam de voltar logo a trabalhar, como eu, e aqueles que queriam ter mais tempo (...). De modo que chegámos a um compromisso e concordámos na data de 25 de fevereiro para recomeçar numa base semanal", afirma o novo diretor da publicação satírica Gérard Biard, em declarações à televisão France 24. O anterior diretor, Charb, foi uma das vítimas do aataque terrorista.

Após os atentados, o jornal lançou apenas uma edição, que ficou conhecida como "o número dos sobreviventes", apresentando na capa um cartoon de Maomé a segurar um cartaz a dizer "Eu Sou Charlie", a frase que foi usada em manifestações em diversos pontos do mundo, em memória das vítimas dos atentados e em defesa da liberdade de imprensa.

Esse número especial contou com uma tiragem total de oito milhões de cópias (a tiragem anterior era de apenas 60 mil), criando novas tensões e ameaças vindas de grupos de radicais islâmicos.

O incontornável extremismo 

O extremismo volta a estar em destaque neste novo número, que inclui cartoons sobre os recentes atentados de Copenhaga, conforme frisara Biard.

"Depois de Copenhaga, nós seremos forçados a voltar a falar nisso (...). É tão relevante como antes. Eu sei que alguns dirão que nós estamos obcecados, mas não somos nós que estamos obcecados (...). São aqueles que criam as notícias que são os obcecados. E esses que as criam são terroristas", afirmou.

"Mas há também Dominique Strauss-Kahn, nós temos sorte em tê-lo", acrescentou o diretor do "Charlie Hebdo", em referência ao ex-diretor do FMI, cujo corrente julgamento por proxenetismo está também em foco nesta edição, que conta ainda com uma entrevista ao novo ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis.

"Neste número, nós estamos a recomeçar. Os funerais tiveram lugar, nós temos de o fazer com a falta dos outros, e isso é o que é difícil", disse por seu turno o colunista Patrick Pelloux, numa entrevista televisiva.

Com a redação reduzida, o jornal recorreu à ajuda de outros desenhadores, entre os quais Pétillon, do semanário satírico "Canard Enchaîné".

Mais de 10 mil polícias e militares franceses continuam a assegurar as medidas especiais de segurança em locais que são considerados potenciais alvos, como escolas judaicas, locais turísticos e órgãos de comunicação social, "Charlie Hebdo" incluído, obviamente, cujos colaboradores se encontram sob medidas de proteção especiais.

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/charlie-hedbo-regressa-as-bancas-feito-cachorro-a-fugir-de-matilha-raivosa=f912138#ixzz3SfARwm5B


______________________________________________________

segunda-feira, 2 de março de 2015

AMANHÃ – 369º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA – HOMENAGEADO O JORNALISTA CARLOS PESSOA

AMANHÃ
369º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA
HOMENAGEADO 
O JORNALISTA CARLOS PESSOA

Carlos Pessoa (n. 1952, Viseu), jornalista profissional desde 1978.



Integrou a equipa fundadora do jornal Público, onde trabalhou entre 1990 e 2013 (redacção de Lisboa), especializado em temas de cultura – com destaque para a banda desenhada – e sociedade (nomeadamente defesa do consumidor e ambiente).

Fez parte da redacção ou colaborou em diversos media, entre os quais Extra, Agência France Presse, Diário de Lisboa, Jornal de Educação, O Jornal, Expresso, O Semanário e Diário de Notícias.

À laia de apresentação – BD, o meu “abre-te Sésamo” para o jornalismo

Nos anos 70 e 80 do século passado, a banda desenhada – na altura era mais comum a expressão histórias aos quadradinhos – estava muito longe de ser uma forma de expressão artística com o prestígio e reconhecimento que tem hoje.

Não havia muita “elevação” em gostar de ler quadradinhos, e ainda menos em querer escrever sobre eles. Mas a banda desenhada foi mesmo o meu “abre-te Sésamo” do jornalismo.

Embora não tenha sido a minha única e exclusiva área de trabalho como jornalista profissional, ela constituiu uma espécie de “passaporte” para começar a colaborar e/ou integrar a redacção das sucessivas publicações por onde passei.

Foi assim no semanário “Extra” em 1977-78 (onde iniciei a minha actividade profissional como jornalista), no “Diário de Lisboa” (primeiro como colaborador e depois como redactor, no período de 1979-1985), e como colaborador no “Jornal de Educação”, “Diário de Notícias”, “Expresso” e, finalmente, “Público”.

Foi sob a égide desses heróis de papel que decorreram etapas fundamentais da minha vida profissional – do Diário de Lisboa ao Expresso, Diário de Notícias ou Jornal de Educação, para concluir no Público.

É claro que a banda desenhada nunca deixou de ser, apenas, um dos centros de interesse pessoais e profissionais. Mas também é verdade que esteve sempre presente ao longo dos anos e das décadas, tornando possível a manutenção, nos média em que trabalhei ou colaborei, de espaços regulares de informação sobre banda desenhada.

O apogeu desse processo foram os anos 1990, durante os quais a banda desenhada conheceu em Portugal uma fase de considerável expansão, em boa medida induzida pela existência de fluxos regulares de informação, análise e crítica na imprensa portuguesa nacional ou regional. No meu caso particular, o suplemento de livros do Público (e quando este acabou, no Ypsilon, já de forma mais pontual) abrigou durante vários anos uma secção semanal dedicada à divulgação da banda desenhada.

A produção de colecções de banda desenhada distribuídas com o jornal Público marcou a primeira década deste século. Durante esse período, a partir de 2001 e até à minha saída do jornal, estive envolvido nos projectos comerciais de venda de banda desenhada com o jornal, traduzido no lançamento sucessivo de colecções de grandes nomes da banda desenhada franco-belga (Tintin, Corto Maltese, Lucky Luke, Spirou, Alix, Gaston Lagaffe, Blake e Mortimer, Blueberry, etc.) e norte-americana (super-heróis Marvel e DC Comics), levadas até um público mais alargado através da distribuição em quiosques e outros pontos de venda de jornais.

Além de participar na definição e selecção das colecções, tive a responsabilidade directa na divulgação e informação aos leitores sobre os conteúdos das obras e autores.

Atrás de todo aquele trabalho veio a oportunidade de escrever alguns guias de leitura (Tintin, Corto Maltese e Lucky Luke, também distribuídos com o Público) e, noutro plano, a publicação de monografias sobre autores (José Carlos Fernandes, Cosey e Jovens Autores portugueses, edição do Centro Nacional de BD e Imagem, na Amadora) ou o Roteiro Breve da Banda Desenhada em Portugal (edição dos CTT).

Carlos Pessoa
Fevereiro 2015

_______________________________________________________


sábado, 28 de fevereiro de 2015

BDpress #460: MORREU SPOCK – A VIDA LONGA E PRÓSPERA DE MR. LEONARD NIMOY

Leonard "Spock" Nimoy (26 de Março de 1931- 27 de Fevereiro de 2015)

MORREU SPOCK
A VIDA LONGA E PRÓSPERA DE MR. LEONARD NIMOY
Por Marco Vaza e Joana Amaral Cardoso 
No Público Online, 27/02/2015

Aos 83 anos, desaparece um dos rostos mais conhecidos do sci-fi, quase indissociável de Spock e das sua orelhas de vulcano na saga Star Trek.

Leonard Nimoy escreveu duas autobiografias com 20 anos de intervalo, I Am not Spock (1975) e I Am Spock (1995).

Como tantos actores, Nimoy fez uma primeira tentativa de não ser confundido com a personagem que lhe deu fama, mas acabou por se render à evidência: Nimoy era e sempre foi Spock, desde o primeiro momento em que apareceu na televisão com as orelhas pontiagudas e a franja minuciosamente aparada. Morreu na sexta-feira aos 83 anos, vítima de doença pulmonar, o actor que encarnou a personagem mais emblemática de Star Trek, a série de ficção científica que começou por ser um fracasso, mas catalisadora de um culto que a transformou num fenómeno com vida longa e próspera.

Nimoy sofria de doença pulmonar obstrutiva crónica, diagnóstico que revelou publicamente em 2014, e foi a doença que causou a sua morte, como confirmou ao New York Times a sua mulher, Susan Bay Nimoy. No início desta semana, o actor tinha já sido hospitalizado na sequência de um agravamento da doença. Foi nesse dia que escreveu o que seria o seu último tweet: “Uma vida é como um jardim. Os momentos perfeitos podem ser vividos, mas não preservados, excepto na memória. LLAP”, escreveu, com a derradeira sigla para Live Long and Prosper - a frase-chave da sua personagem. Era assim que terminava cada uma das suas mensagens em 140 caracteres ou menos para o seu milhão e meio de seguidores.

Nimoy foi muitas coisas, mas ser Spock foi um emprego para toda a vida, desde a primeira aparição no episódio piloto de Star Trek, “The Cage”, em 1965, até aos dois filmes de J.J. Abrams (2009 e 2013). Spock era um ser meio vulcano, meio humano, membro da tripulação da USS Entreprise, a nave espacial que tinha por missão explorar novos mundos por mandato da Federação dos Planetas. Era o cientista racional para fazer contra ponto ao aventureiro capitão James T. Kirk (William Shatner).

Nascido em Boston a 26 de Março de 1931, filho de imigrantes ucranianos, Leonard Simon Nimoy mudou-se para Hollywood aos 17 anos, esteve na tropa, conduziu táxis, entregou jornais e andava perdido pela televisão, teatro e por produções cinematográficas de baixo orçamento. Mas foi ganhando reputação como actor e chegou a Star Trek por escolha própria, não como último recurso – podia escolhido ser um leading man numa telenovela, mas preferiu arriscar numa série de ficção científica sem garantia que desse alguma coisa.

O piloto original de Star Trek era muito diferente do que aquilo que acabaria por ser e, dessa primeira experiência, apenas o Spock de Nimoy sobreviveu, muito por insistência de Gene Rodenberry, o criador da série, e contra a vontade da NBC, que queria livrar-se do “tipo das orelhas”. A série ganhou novas personagens e novo elenco, mas não seria um sucesso imediato. Foi cancelada ao fim de três temporadas (80 episódios), mas ganhou nova vida nas reposições. Mais do que Kirk, Scotty, Sulu, Uhura, Chekov ou McCoy, o Spock de Nimoy foi a figura central do culto inicial à volta de Star Trek e a presença mais reconhecida do fenómeno trekkie – os fãs preferem trekker.

O sucesso ao retardador de Star Trek gerou uma série de filmes que começou em 1979. Nimoy entrou nos seis primeiros, realizou dois deles –Star Trek III: The Search for Spock e Star Trek IV: The Voyage Home e foi também argumentista de dois capítulos – e foi o único do elenco original a regressar no reboot de J.J. Abrams, como um Spock original que se cruza com um jovem Spock de uma realidade alternativa interpretado por Zachary Quinto, escolhido para o papel pelas parecenças físicas com Nimoy. Nimoy seria ainda Spock num episódio de Star Trek: The Next Generation, numa série de desenhos animados e muitas das suas aparições recentes, como como na série humorística A Teoria do Big Bang (The Big Bang Theory), também recuperam a icónica personagem.

A sua carreira não se fez apenas de viagens por galáxias distantes a bordo da USS Enterprise. Dramaturgo (a sua peça Vincent esteve no Teatro Villaret em 2006, por exemplo), realizador, poeta, fotógrafo, músico - Leonard Nimoy, uma figura acarinhada no meio cinematográfico, foi ainda mais isto. Foi agente secreto na série Missão Impossível, esteve ao lado de Donald Sutherland em A Invasão dos Violadores e fez uma última incursão na ficção científica televisiva em Fringe. Para além dos dois capítulos de Star Trek, Nimoy realizou mais quatro filmes, entre eles a comédia de enorme sucesso Três Homens e um Bebé, um remake do francês Três Homens e um Berço.

“Amava-o como a um irmão. Vamos todos sentir falta do seu talento, do seu humor e da sua capacidade para amar”, escreveu no Twitter William Shatner, aquele que mais vezes esteve em cena com Nimoy. Foi a dinâmica entre o seu Kirk e o Spock de Nimoy que deu origem a tudo, embora Shatner nem sempre tenha lidado bem com o talento multifacetado de Nimoy – Shatner exigiu, por exemplo, que lhe dessem a realização de Star Trek V depois do sucesso dos dois anteriores capítulos realizados pelo seu colega de elenco.

Nimoy abraçou até ao fim a personagem com a qual não queria ser confundido mas que tornou num ícone com a sua voz serena e o seu olhar impassível, mas sempre a projectar emoções numa personagem que se pedia fria. “Por alguma razão”, disse ao Los Angeles Times numa entrevista em 1999, “projectei algum tipo de qualidade que fazia as pessoas dizer ‘OK, ele é um bom extra-terrestre’”.

William Shatner e Leonard Nimoy em 1966

William Shatner e Leonard Nimoy, 45 anos depois…


Kunal Nayyar (o "Raj Koothrappali" de The Big Bang Theory) e Jim Parsons, o "Sheldon Cooper" da mesma série.


Jim Parsons, o "Sheldon Cooper" de The Big Bang Theory (A Teoria do Big Bang), com “Spock” Leonard Nimoy – o ídolo da personagem "Sheldon" na série.


SPOCK NOS COMICS



________________________________________________________________

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

BDpress #459: AMANHÃ: LANÇAMENTO DE NOVA COLECÇÃO COM O PÚBLICO: NOVELAS GRÁFICAS


WILL EISNER ABRE NOVA COLECÇÃO DEDICADA À NOVELA GRÁFICA
COM O JORNAL PÚBLICO

Publico, 20 e 21 Fev 2015

João Miguel Lameiras


Novela Gráfica, Vol. 1
Um Contrato com Deus 
Argumento e desenhos – Will Eisner
Quinta, 26 de Fevereiro Por + 9,90 €

É já na próxima quinta-feira [amanhã] que a BD regressa ao PÚBLICO numa ino­vadora colecção dedicada aos maio­res nomes da novela gráfica, que se prolongará pelas próximas onze semanas. Uma colecção marcada pela qualidade e pela diversidade. Diversidade de autores, de estilos, de nacionalidades, de formatos, mas que tem como elemento unifi­cador a vontade de contar histórias de grande fôlego, difíceis de conter nos formatos mais tradicionais das 48 páginas dos álbuns franco-belgas e ainda menos nas 22 páginas dos comics americanos. A acompanhar-nos nesta emocionante viagem pe­lo universo da novela gráfica, temos uma verdadeira selecção mundial dos maiores nomes da banda dese­nhada, tal a importância dos auto­res presentes – de Eisner a Moebius, passando por Toppi e Breccia, para citar apenas os que já nos deixaram – e a indiscutível qualidade dos seus trabalhos, muitos deles amplamente premiados.

É precisamente o caso de Um Con­trato com Deus, o livro que abre esta colecção, considerado por muitos como título iniciador do género novela gráfica - conta a lenda que, quando Eisner apresentou os origi­nais de Um Contrato com Deus ao edi­tor e ele lhe perguntou o que é que aquilo era, Eisner respondeu: "Ifs a graphic novel" - e o mais marcante trabalho do seu criador, Will Eisner, falecido em 2005.

Nascido em 1917, Eisner estreou-se na BD em 1936, como desenhador, argumentista e responsável (com Jerry Eiger) por um estúdio encar­regado da criação de uma série de heróis para os suplementos domini­cais dos jornais, por onde passaram alguns autores que também ficaram na história, como Jack Kirby (cria­dor, com Stan Lee, da maioria dos super heróis da Marvel), Lou Fine e Bob Kane, o criador de Batman. Apesar de desenhar dezenas de sé­ries diferentes (a mais célebre foi a história de piratas Hawks of the Sea) sob outros tantos pseudónimos, Will Eisner soube manter um elevado pa­drão de qualidade, o que lhe valeu ser contratado em 1939 pela Quality Comics Group para assegurar as 16 páginas de um suplemento domini­cal encomendado pelo Des Moines Register - TribuneSyndicate. É aí que vai nascer a sua maior criação, o Spirit, um detective mascarado que o vai acompanhar durante 12 anos e mais de 700 histórias, das quais bem mais de uma centena são clássicos incontornáveis e intemporais.

Apesar de, durante mais de 25 anos, ter trocado as suas criações pe­la BD comercial e didáctica (durante duas décadas, ilustrou manuais para o exército americano) e pelo ensino (foi durante muitos anos professor na School Of Visual Arts, de Nova Iorque, e autor de Comics and Sequen­cial Art, um livro incontornável sobre a técnica e linguagem da BD), Eisner regressou em grande força em 1978. Um regresso que se deu com este Um Contrato com Deus, livro que recolhe quatro histórias que se desenrolam num mesmo prédio de apartamentos dos anos 1930, no Bronx, traçando uma imagem sentida das frustrações, alegrias, desilusões e violência da vi­da das classes mais pobres da Grande Depressão na América.

Verdadeiro romance em banda desenhada, inspirado nas memó­rias da infância do autor, passada no Bronx, em que acontecimentos autobiográficos surgem ligeiramente ficcionados, Um Contrato com Deus mostra também uma forma diferente de Eisner tratar a página de BD, ab­dicando muitas vezes da tradicional divisão em tiras e quadrados, fazen­do as personagens evoluir suspensas ao longo da página, ao mesmo tempo que o texto e os balões se fundem com a arte. Também o uso das som­bras, as perspectivas dramáticas e o expressivo tratamento das atitudes e expressões das muitas personagens que povoam este grande romance vi­sual, revelam um autor maduro, mas suficientemente irrequieto para ino­var os códigos da linguagem da BD, ou arte sequencial, como lhe preferia chamar, que ajudou a criar.


_______________________________________________________________

domingo, 22 de fevereiro de 2015

GAZETA DA BD #39 – NA GAZETA DAS CALDAS: PRÉMIO NACIONAL DE BD – 2014 – MELHOR ALBUM PORTUGUÊS DO ANO – ZONA DE DESCONFORTO

GAZETA DA BD #39 – NA GAZETA DAS CALDAS
PRÉMIO NACIONAL DE BD – 2014 
MELHOR ÁLBUM PORTUGUÊS DO ANO
ZONA DE DESCONFORTO

Gazeta das Caldas, 20 Fevereiro 2015

Jorge Machado-Dias

Texto integral que não foi possível publicar completo na Gazeta das Caldas por falta de espaço


ZONA DE DESCONFORTO
Por Christina Casnellie (Holanda 2006), Ondina Pires (Londres 2008-10), Daniel Lopes (Brasil 2013), Tiago Baptista (Berlim 2013), José Smith Vargas (Holanda 2007), Amanda Baeza (Bilbao 2010), Francisco Sousa Lobo (Londres 2010-13), André Coelho (Barcelona 2006), David Campos (Cap Skirring 2007) e Júlia Tovar (Buenos Aires 2013).
144 págs.
Associação Chili com Carne, 2014 (http://www.chilicomcarne.com/)
Edição de Marcos Farrajota
Design de Joana Pires

Como aqui escrevemos, na edição de 2 de Janeiro passado, o Prémio Nacional de BD – Melhor Álbum Português do ano 2014 foi atribuído a Zona de Desconforto, editado pela Associação Chili com Carne, na sua colecção “Lou Cost” (que inclui Boring Europa e Kassumai e tem já programado novo livro: Convento da Cartuxa, de Francisco Sousa Lobo). Dissemos nessa altura que era um facto completamente inédito nas edições anteriores destes Prémios, uma vez que nunca um editor underground o tinha ganho.

Comecemos pelo princípio: a Associação Chili com Carne foi fundada em 1995 por Marcos Farrajota, depois de, em 1992 ter criado com Pedro Brito o fanzine “Mesinha de Cabeceira”, que ainda se edita. Depois criou a editora MMMNNNRRRG – “para gente bruta”, já com uma boa série de livros editados. Farrajota também é autor de BD e tem feito capas, cartazes e BD's para bandas punks e afins, sendo também o único funcionário daquilo que resta da antiga Bedeteca de Lisboa, agora integrada na Biblioteca dos Olivais. Criou e escreveu a série "Loverboy", em parceria com João Fazenda na ilustração. Tem vários artigos sobre BD, fanzines e música espalhados em várias publicações.

Como autor, Farrajota, para além de ter realizado e publicado alguns fanzines com apoio da Associação Chili com Carne estreou-se na colecção Lx Comics (da Bedeteca de Lisboa), cujos primeiros volumes foram publicados a pretexto da exposição "Pranchas necessariamente incolores". Com Pedro Moura desenhou a bd "História de Deus" nos três números da revista CriCa. Participou na antologia Crack On. Compilou todas as suas bd's autobiográficas em dois livros, Noitadas, Deprês e Bubas (2008) e Talento Local (2010) e fez o livro do DVD do 15º Steel Warriors Rebellion Metalfest.

Assim, as edições da Chili com Carne (e também as da MMMNNNRRRG) reflectem – pensamos nós – as convicções anarquistas, contestatárias, do seu editor, que escreve na introdução a Zona de Desconforto:

“(...) Muitos portugueses têm ido estudar para o estrangeiro graças a programas universitários ou outras bolsas institucionais. Outros têm ido para fora trabalhar, ou porque não encontram estímulos para a sua criatividade num país pe­riférico e atrasado como o nosso, ou porque tiveram mesmo de procurar emprego para sobreviver dando razão a um político filho-da-puta que afirmou nos media que "o melhor que os jovens portugueses tinham a fazer era emigrar". O que poderia ser uma abstracção ou uma demagogia bizarra tornou-se rea­lidade. Muitos de todos nós, já o sentimos, muitos dos nossos amigos e conhecidos "desapareceram" e sabemos que nem todos voltarão a este canto europeu.

Nesta antologia, os nossos autores de BD re­latam as suas experiências enquanto estudan­tes ou trabalhadores no estrangeiro, expondo os seus extremos, da leve piada do choque cultural às reflexões profundas e intimistas. Se os obrigamos a trabalhar nas questões da autobiografia, garantimos no entanto, que o estilo pessoal de cada autor em nada foi pre­judicado (...)”

Zona de Desconforto é pois uma recolha de relatos de autores de Banda Desenhada que foram estudar ou trabalhar para fora de Portugal. Escreve o editor, na apresentação do livro na página do Facebook da Chili com Carne (https://www.facebook.com/chilicomcarne/posts/674136689309644):

“(...) Os autores apesar de terem sido “obrigados” a trabalharem em registo autobiográfico para relatarem as suas experiências, que vão da leve piada do choque cultural às reflexões profundas e intimistas, ainda assim o estilo pessoal de cada autor não foi prejudicado. Organizado por ordem cronológica, o livro começa com André Coelho, que estudou em Barcelona, em 2006, e expõe as questões nacionalistas catalãs, mas a experiência similar de Amanda Baeza no País Basco (estudou em Bilbao, em 2010) é mostrada de uma forma oposta e “leftfield”. Holanda vai ser uma coincidência de país para a “globe trotter” Christina Casnellie (em 2006) e um ano mais tarde, José Smith Vargas, maior é a coincidência é que ambos desmontam a sociedade holandesa e a “pan-ibérica”. Londres também é uma “coincidência” para encontramos Ondina Pires (ex-Pop Dell’Arte, ex-The Great Lesbian Show) entre 2008 e 2010, e Francisco Sousa Lobo (vencedor do concurso “500 paus”) entre 2010 e 2013, que usam “comic relief” q.b. para contar a depressão que se sente na capital inglesa, e no caso de Lobo esta sua BD é uma “companion” para o badalado romance gráfico O Desenhador Defunto. Mas antes, David Campos complementando a sua experiência da Guiné-Bissau (relatada no Kassumai) visita o resort de Cap Skirring (Senegal) em 2007 para alertar-nos da exploração não só de recursos económicos mas também sexuais de África. Em 2013 ainda temos as instrospecções políticas de Tiago Baptista em Berlim, durante uma residência artística; e mais extremas as deslocações sul-americanas de Júlia Tovar para Buenos Aires, decidida a criar a sua família, e com alguma ponta de ironia Daniel Lopes mostra o Brasil como o “futuro”, na sua recente visita profissional, como académico. Esta edição foi coordenada por Marcos Farrajota, frustrado e impotente em testemunhar a emigração, em alguns casos forçada, dos seus amigos e conhecidos à procura de melhores condições de vida. O livro não tem uma “agenda política” porque deixa que o relato de cada autor siga o seu rumo, com saldo positivo ou negativo, deixando ao leitor a interpretação que desejar. Longe de nós impormos seja o que for (...)”

Quanto a mim, o único “desconforto” que me provocou a leitura de Zona de Desconforto, foi a cor vermelha em que foi impresso – tive que suspender várias vezes a leitura porque todo aquele vermelho “ofende” (cansa) um bocado os olhos – embora pense que a cor utilizada terá eventualmente um significado ideológico. Mas é, apesar desse pequeno “desconforto”, um excelente livro!

Os interessados podem ler a crítica de Pedro Moura a este livro em http://lerbd.blogspot.pt/2014/06/zona-de-desconforto-aavv-chili-com-carne.html

Pranchas de Christina Casnellie e Francisco Sousa Lobo

Nota técnica: a cor destas duas pranchas foi trabalhada para que pudessem ser reproduzidas "no vermelho vivo" directo (a partir de um Pantone, por exemplo, ou a duas cores: 100% Amarelo + 100% Magenta) na impressão a quatro cores (CMYK) da Gazeta - o que é muito difícil de conseguir: o resultado não foi famoso e é o que se vê aqui, muito diferente das pranchas reproduzidas abaixo, que se assemelham mais ou menos com os originais impressos no livro. 
Apesar de tudo a capa do livro não saiu mal...

Pranchas de Amanda Baeza e Daniel Lopes

__________________________________________________________
  
 
Locations of visitors to this page