sábado, 29 de agosto de 2015

BDpress #465 - JL-Jornal de Letras - ZOMBIE – Argumento e desenho de Marco Mendes

BDpress #465

JL-Jornal de Letras, 5 de Agosto de 2015 – BANDA DESENHADA
João Ramalho Santos


ZOMBIE
Argumento e desenho de Marco Mendes
Ed. Mundo Fantasma, 77 pp. €17,00


Praxes

A BD autobiográfica tem revelado alguns dos melhores autores nacionais, com destaque para o excelente Diário Rasgado, de Marco Mendes (2012). Na verdade o livro é quase um tratado das virtudes e problemas do género, no sentido em que a ocultação ou flccionalização parciais são inevitáveis, nem que seja por as situações retratadas envolverem terceiros. Acabando por introduzir o leitor num jogo permanente de interpretação em tomo do que “falta”, potenciada pela extensão do olhar dada pelo formato oblongo, O trabalho de Marco Mendes (MM) mescla o pessoal e o profissional, o artístico e o político, o contemplativo e o interventivo. E usa um desenho de base realista que depois “dilui”, com traços mas sobretudo sombras, sublinhando na perfeição a incerteza dentro da certeza que uma história baseada em factos reais evoca.

A Diário Rasgado sucedeu - se Anos Dourados (2013), uma recolha de ilustrações realizadas ao longo de vários anos em que a notável base realista do traço de MM é mais visível, e as vistas arquitetónicas lembram mesmo Paul Madonna. Há narratividade em cada desenho, mas a repetição de figuras humanas sen­tadas/dormindo é também evidente, e este livro entende-se melhor como resultado do sucesso do anterior (aconteceu o mesmo com Ricardo Cabral, outro excelente autor), sendo de realçar o interessante texto final de Pedro Moura, que, por algum motivo, o design parece querer assassinar.

Talvez seja pois de encarar o mais recente Zombie (Mundo Fantasma) como o verdadeiro sucessor de Diário Rasgado. Embora esta seja uma narrativa única, e não um conjunto de histórias curtas, o tom é o mesmo, misturando elementos profunda­mente pessoais com, neste caso, ativismo gráfico anti-indiferença que o autor e os seus amigos praticam na noite do Porto. E que, num dos momentos do livro, choca com um dos adormecimentos mais dramáti­cos de todos: a Praxe Académica. Não enquanto conceito de introdução a um novo mundo localizada no tempo (início do ano letivo), mas na sua prática quase permanente, e que im­plica a aceitação acrítica de práticas hierárquicas; o contrário do que se pretende do ponto de vista educativo.

Na verdade o livro é acompanha­do por uma espécie de reportagem ilustrada, em que MM complementa um texto de Samuel Buton. O qual, sem ser particularmente inovador, tem o mérito de contrastar de forma estruturada as duas realidades: submissão ao status quo e rebeldia, vividas por diferentes grupos de pessoas num mesmo espaço-tempo universitário, que permite (estimu­la?) ambas as atitudes. Algo que a BD de MM nunca poderia fazer, porque tem o mérito distinto de contextua- lizar o debate num percurso pessoal. Onde um encontro conflituoso com alunos praxistas é apenas uma cena de um livro rico em eventos com consequências: de doenças na família a hesitações profissionais e de rela­cionamentos, a momentos de humor, amizade, preguiça e hedonismo. Coisas que ficam (muito) bem numa vida, mas não necessariamente num ensaio. Ou seja, aqui o “pessoal” e o “social” intersetam (ou substituem) os mais comuns “local” e global”.

Para além de um desenho que parece sempre hesitar entre revelar e esconder são essas pontes inteligen­tes que Marco Mendes articula entre si e o mundo em Zombie que dão uma qualidade superior ao seu trabalho. Embora por vezes soçobre numa angústia de inutilidade, que parece mesmo questionar se as “regras” da rebeldia serão assim tão diferentes das da praxe. E deixando ao leitor a possibilidade de decidir a quê (ou a quem) o título se refere.

Marco Mendes
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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

NAU NEGRA – THE LAST BLACK SHIP – DE FERNANDO RELVAS




NAU NEGRA – THE LAST BLACK SHIP
DE FERNANDO RELVAS


Nau Negra – The Last Black Ship
Fernando Relvas
Texto em inglês
Edições El Pep, Preço €17,00
El Pep Store & Gallery - Lx Factory
Rua Rodrigues Faria, 103 - Edifício I, Piso 0 - Espaço 0.01D.5
Alcântara
Lisboa 

Foi finalmente lançado, no passado sábado, o novo livro de Fernando Relvas, Nau Negra – The Last Black Ship, na El Pep Store & Gallery - LX Factory. Aqui ficam o texto de apresentação, do próprio Relvas e algumas páginas.

Texto de apresentação de Fernando Relvas:

Nau Negra é uma obra de ficção em banda desenhada e não uma tentativa de reconstituição histórica.

É, contudo, sustentada por referências históricas concretas e procura dar uma ideia do ambiente da época, ainda que de modo ligeiro.

Charles Ralph Boxer é, neste campo, a principal fonte de inspiração e, sobretudo, uma ampla fonte de informação.

Os acontecimentos desta história foram tirados da sua obra “O Grande Navio de Amacau”. São eles o destino trágico da nau Madre de Deus capitaneada por André Pessoa e destruída à saída de Nagasaki, depois de três dias de luta em Janeiro de 1610, e as peripécias registadas por Richard Cocks, feitor inglês de Hirado, da nau Nossa Senhora da Vida, capitaneada por Lopo Sarmento de Carvalho, oito anos depois.

Boxer, nas suas obras, dá-nos mais do que uma possível interpretação das informações que colheu.

Para este enredo, criei mais uma. A ideia de um aventureiro japonês surgiu ao deparar com uma fugaz referência à presença de japoneses entre os corsários de Argel, nas primeiras décadas de 1600, escondida numa nota de rodapé em “O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico” de Fernand Braudel.

Não sabia eu, então, que a presença de japoneses nos mares dessa época era muito maior do que uma ideia enraizada, a do Japão-país-fechado, nos faz crer. Porém, a ideia do japonês aventureiro, o barqueiro da história, talvez tivesse sido esquecida ao fim de algum tempo se eu não transportasse comigo, na bagagem, uma antiga publicação sobre os biombos namban do Museu Nacional de Arte Antiga. Foram as imagens dos biombos que me mantiveram agarrado, durante anos, à ideia de fazer esta história.

Os melhores biombos namban do Museu Nacional de Arte Antiga, feitos no Japão no princípio do século XVII e que representam a chegada de navios portugueses, são um trabalho complexo e podem ser incluídos na lista das mais bem conseguidas narrativas gráficas que se conhecem. Não é um trabalho apenas decorativo, como se espera de um biombo, não é simples caricatura para entreter ou exclusivamente um relatório ou reportagem sobre um determinado acontecimento, são sobretudo várias histórias em torno de episódios de um acontecimento. Quando comparados com as detalhadas ilustrações que os artistas japoneses fizeram, uns séculos mais tarde, da chegada dos navios americanos, e que se aproximam muito claramente da informação militar, percebe-se que a intenção é mesmo fazer um filme que torne acessível ao observador japonês não só informação técnica e militar, como também comportamental.

Para quem a saiba ler, cada um daqueles narizes compridos é uma bandeira espetada num pedaço de informação. Cada um conta uma história ligeiramente diferente, mas talvez mais humana e acessível, até caricatural, dentro de um conjunto que, por sua vez, é radicalmente diferente daquele a que é destinada a mensagem, pintado por convenções sociais e enquadramento técnico, por vezes interpretados ao pormenor.

Exceptuando o sermão do frade italiano, tirado de um texto de Frei Tomé de Jesus, de finais do século XVI, não fiz qualquer esforço para preservar o discurso da época, mas deixei bem visíveis as ansiedades de classe dos portugueses, através da manipulação um pouco arbitrária dos pronomes de tratamento.

Convém, ainda, para compreender os europeus da época, lembrar que o banho era francamente impopular, que a crença nas relíquias de santos e mártires era uma febre mórbida e devoradora, que o martírio, por cruel que fosse, era tido em grande glória e mesmo provocado, que a tortura e a execução eram apreciados espectáculos públicos, que as chacinas cometidas nas guerras religiosas da época eram tidas como exemplos a emular, que foram tempos de escravatura desenfreada e brutal, defendida em nome do realismo económico, e que, no Oriente, escravos até os havia nas comitivas de guarda-costas e espadachins dos portugueses abastados.

Existem várias referências à presteza com que os japoneses lidavam com situações de perigo. Como este excerto duma carta de Diogo do Couto, referindo-se a um episódio em que os portugueses assistiam passivos ao roubo da sua fazenda pelos holandeses, datada de Goa, 23 de Dezembro de 1605:

“(…) e andando os olandezes em terra tomando entrega della, e os nossos Portugueses da náo com maõs amarradas sem fazerem nada, enfundio deos nosso senhor Animo em quinze ou vinte Japõis Christãos, que aly estavao em huma soma, e aleuantando hum cruxifiçio Remeterão com suas catanas aos olandezes e mataraõ a mor parte delles, e daquelle caminho logo se forão embarcar em huma soma e se forão.”

A propósito de cortes de orelhas, antiga punição legal que criou a categoria de “desorelhados”, e com a mesma naturalidade com que fala de degolações e de cabeças empilhadas, narra António de Oliveira Cadornega na “História Geral das Guerras Angolanas”: “(…) dizião os Antigos Conquistadores fora tanta a matança em aquele basto gentio que mandára o nosso Conquistador a Portugal dous Barris de seis Almuzes de narizes e orelhas do gentio que se havia morto naquellas batalhas e recontros (…)”

Por seu lado, conta Frei Paulo da Trindade, na abundante descrição de martírios e milagres que são os três grossos volumes da “Conquista Espiritual do Oriente”, a propósito duma particular relíquia dos mártires do Japão, que podia muito bem ser semelhante à que o frade italiano trouxe discretamente para bordo:

“(…) um italiano chamado João Baptista, colheu em um chapéu muito sangue do Comissário e dos bem-aventurados mártires (…) e depois o lançou em um bule de porcelana e o guardou, e nove meses depois do martírio (…) se quebrou a vasilha onde o sangue estava, o qual foi achado líquido e sem nenhum mau cheiro, como consta do testemunho que disto se tomou.”

Respeitou-se a informação contida nos biombos, em relação às naus. Há três tipos de naus representadas nos principais biombos namban, uma mais antiga, atribuída a Kano Domi, com dois castelos saindo sobre a proa e popa do navio, típico das naus do século anterior, mas que são tão cómicos que é duvidoso que o artista tenha chegado a ver alguma delas, e duas outras atribuídas a Kano Naizen, em que o castelo de proa, mais discreto, já vem na continuação do casco e prolonga-se pelo beque, e em que a superestrutura da popa ou é quadrada ou exibe uma tentativa de modernização, alta e com um final muito estreito.

Escolhi esta para a nau mais recente, em que decorre a história, e aquela para a nau da batalha. Quanto ao perfil das galeotas, parece-me possível que variasse entre as linhas da galé e do pataxo. Escolhi dar à que aparece aqui uma forma de pequeno pataxo, tal como é referido em texto da época. Em qualquer dos casos, não se procurou tratar as embarcações em pormenor, ou com exagerado rigor.

A solução encontrada pelos passageiros da nau para escapar ao navio corsário holandês, ou seja, adiar a viagem por um ano, esperando que ele então já lá não esteja, não é de estranhar, pois era prática corrente não sair enquanto houvesse inimigo na costa. A atitude passiva dos portugueses, já comentada desfavoravelmente na carta de Diogo do Couto, justifica-se em parte pelas conhecidas capacidades náuticas dos navios norte-europeus, ao ponto de André Furtado de Mendonça, Capitão-Mor e Geral do Mar do Sul, em carta de Amboino, de 10 de Maio de 1602, comparar o seu próprio navio a um ponto de aguada em terra:

“(…) e indolhe dando caça hum pedaço (…) e não ter outro velame para meter nas vergas, e as naus ingresas serem tão ligeiras que com o papafigo de proa sem outra nenhuma vella dado, hião desapareçendo de nos, surgi em paragem (…); visto estar desenganado que a mais ligeira nao de minha companhia em comparação da dos Ingreses fica sendo o morro d’Angediva; mas ao que Deus ordena não ha poder fugir (…)”



  



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domingo, 16 de agosto de 2015

GAZETA DA BD #47 NA GAZETA DAS CALDAS – LEITURAS DE BANDA DESENHADA – ALGUNS LIVROS EDITADOS RECENTEMENTE


Gazeta das Caldas, 14 de Agosto de 2015
Jorge Machado-Dias

GAZETA DA BD #47 
NA GAZETA DAS CALDAS
LEITURAS DE BANDA DESENHADA
LANÇAMENTOS RECENTES - 2015

Teaser #1 – Gentleman
André Oliveira (argumento) e Ricardo Reis (desenhos) 
Edição Ave Rara, 2015 

O mundo está a ruir à vista de todos e aquilo que perdura é tão bizarro e surreal que faz questionar se pertence à imaginação ou à realidade. Acompanhamos a jornada de mr. Turner, uma misteriosa e sombria personagem que atravessa planícies desérticas ao volante do seu Morgan e na companhia de Barnes, um enorme elefante marinho com uma personalidade forte. Há uma última tarefa a cumprir antes que a Humanidade aceite a sua inevitável extinção, algo que pode não chegar para a salvar mas que fará toda a diferença. É essa a missão de Turner e ele promete cumpri-la da única forma que conhece: “Like a true gentleman”.

Casulo
Curtas de BD de André Oliveira (argumentos)
Edição Kingpin Books, 2015

Colectânea de bandas desenhadas curtas, escritas por André Oliveira e ilustradas por Pedro Brito, Carlos Páscoa, Ricardo Venâncio, Ricardo Cabral, Pedro Cruz, Paula Almeida, Jorge Coelho, Ricardo Reis, Marta Teives, Ricardo Drumond, André Caetano, Susana Carvalhinhos, Inês Galo, Xico Santos, Pepedelrey, Sónia Oliveira, Joana Afonso, Pedro Potier, Sérgio Marques, Osvaldo Medina, António Silva, Ana Oliveira, Pedro Carvalho, Pedro Ribeiro Ferreira, Carla Rodrigues e Nuno Lourenço Rodrigues.

Tungsténio
Marcello Quintanilha
Edição Polvo, 2015

Em Tungsténio, Marcello Quintanilha foca o olhar em São Sal­vador da Baía e conta-nos, em paralelo, os dramas de um sargento reformado do exército, saudoso dos tempos de caserna, os esquemas de um jovem traficante e os momentos difíceis do casamento de um polícia sem escrúpulos e da sua mulher. Como fio condutor da acção temos um crime ambiental nos arredores da cidade, onde se pesca recorrendo a explosivos.

Sem deixar de lado o lirismo, Quintanilha – considerado como o grande cronista da banda desenhada brasileira – investe uma boa dose de suspense e acção neste vibrante e surpreendente trabalho, que foi louvado pela crítica como um dos melhores álbuns editados em 2014 no Brasil.

Tex – Patagónia
Mauro Boselli (argumento) e Pasquale Frisenda (desenhos)
Edição Polvo, 2015

Em Patagónia, o Ranger Tex Willer viaja na companhia do seu filho, Kit, até à Patagónia, na Argentina, a pedido de Ricardo Mendoza, um seu amigo de há muito tempo, para participar numa missão de resgate de prisioneiros. A missão, que cedo assume também um carácter punitivo contra os ataques dos índios selvagens da Patagónia, revelar-se-á perigosa para todos os envolvidos. Patagónia não é apenas mais uma aventura de Tex, é talvez a sua melhor aventura desde há muitos anos. De referir que esta é a primeira edição portuguesa de um livro de Tex Willer.

Finalmente o Verão
Mariko Tamaki (argumento) e Jillian Tamaki (desenhos)
Edição Planeta Tangerina, 2015

Desde pequena, Rose passa o verão em Awago Beach, numa cabana junto ao lago. Nesta espécie de refúgio, Rose encontra sempre Windy, a sua “amiga das férias" e uma espécie de irmã mais nova, que completa a sua família de verão. Windy e Rose são muito próximas, partilham tudo, costumam fazer tudo juntas. Mas este verão será diferente.
Os pais de Rose não param de discutir e, entre idas à praia e passagens pela loja local para comprar gomas e alugar filmes de terror, as duas amigas veem-se envolvidas num drama que pode acabar mal.

O Árabe do Futuro
De Riad Sattouf
Edição Teorema, 2015

Uma novela gráfica de cariz autobiográfico e alcance político em que, com um humor arrasador e uma grande sensibilidade, o autor conta a sua infância e juventude na Líbia do General Kadafi e na Síria de Hafez Al- Assad. A ideia desta obra - confessa o Autor - remonta aos começos da guerra civil na Síria, em março de 2011. A fusão da sua história pessoal com a História real do mundo árabe, ambas contadas através do olhar inocente da criança que ele é na narrativa, dá a este álbum uma importante dimensão sociológica e confirma que a autobiografia é um dos segmentos maiores da BD atual. Primeiro volume de uma anunciada trilogia, este título atingiu já em França o estatuto de bestseller, com mais de 220.000 exemplares vendidos desde o seu lançamento, em maio de 2014. O 2º volume, ansiosamente aguardado pelo público e pela crítica, acaba de ser lançado em França (a 11 de junho) com uma tiragem 130.000 exemplares, um número muito acima do normal para este género literário. Internacionalmente o sucesso desta obra é também assinalável, encontrando-se até ao momento já vendidos os direitos de tradução para 16 línguas, entre as quais o árabe.

 
O Comboio dos Órfãos – Ciclo 1 – Jim e Harvey
Philippe Charlot (argumento), Xavier Fourquemin (desenhos)
Edição Arcádia, 2015

“Na costa leste dos Estados Unidos, a onda de emigração maciça leva ao abandono de muitas crianças vindas da velha Europa. Miseráveis entre os mais miseráveis, as crianças abandonadas e maltratadas sobrevivem à custa de pequenos furtos e mendicidade nas ruas de Nova Iorque. O reverendo Charles Loring Brace foi o primeiro a acreditar que retirando estas crianças do seu ambiente nocivo, poderia transformá-las em cidadãos irrepreensíveis. Nos estados do Middle West, havia falta de mão-de-obra e muitos casais que não conseguiam ter filhos… Pelo que seria possível enviá-las, por comboio, de uma costa à outra dos EUA. As primeiras viagens foram um êxito…”
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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

REPORTAGEM DO 374º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA – 4 DE AGOSTO DE 2015

374º ENCONTRO 
DA TERTÚLIA BD DE LISBOA
ANO XXX
4 de Agosto de 2015

CONVIDADA ESPECIAL – VANESSA RIBEIRO (MITSU)


Mitsu aka Brodare (DA)
Divertida, carismática e sonhadora.
É uma jovem autora que trabalha com processos tradicionais e digitais e também com animação 2D e 3D.
Estagiou na escola de artes e multimédia, L’idem, Perpignan, França.
Faz trabalhos como freelancer no Deviant Art e Tumblr.
Divulga ilustrações e artes plásticas nos eventos de anime, na Fantastic Banca.
Sonha em conseguir publicar o seu manga, “Oshimaro”, entre outros e um artbook :P
Prémios:
Manga PT - Segundo lugar da Mascote Mieko.
Asian Culture Party- Primeiro lugar em animação e Concurso de Manga.
Gurupop 2012- Primeiro lugar em ilustração.
Midori fest 2009- Menção honrosa manga.
Banzai Mulher e o Mundo - Primeiro lugar em Manga.
Midori - Menção Honrosa com o Manga, “Oshimaro”.
Tem como hobby o cosplay, videojogos e ilustrações.
Já tem publicados em seu nome, os mangas, “As 7 Cores de Oníris” em colaboração com Led e “As sementes de Ciordamo”, ambos escritos por Rita Vilela.
Trabalho em sintonia com Led, argumentista e colorista, no manga “Imposição” para o concurso da Banzai.
É uma das colaboradoras da H-Alt, um dos seus álbuns já se encontra online, a “Fantastic Manga”, edição especial:
http://h-alt.weebly.com/aacutelbuns-h-alt.html
Curtas de animação:
Disorder
A Boy Memories
Portfólio:
http://brodare.daportfolio.com/
Links:
https://www.facebook.com/mitsuillustration
https://instagram.com/mitsublinger/
http://mitsukuri.tumblr.com/
http://brodare.deviantart.com/

COMIC JAM


Autores participantes:
1 - Mitsu
2 - Daniela Santos
3 - Joana Varanda
4 - Nelson Mota
5 - Mariana Durana
6 - Sérgio Santos

TERTULIANOS PRESENTES

1- Álvaro
2- Ana Saúde
3- António Isidro
4- Carlos Gonçalves
5- Daniela Santos
6- Filipe Duarte
7 - Geraldes LIno
8 - Helder Jotta
9- Hugo Tiago
10- Inês Ramos
11 - Joana Varanda 
12- João Paulo Sá-Chaves
13- João Vidigal
14- Zé Manel
15- Manuel Valente
16 - Mariana Durana
17 - Milhano
18 - Nelson Mota 
19 - Rui Domingues
20- Sérgio Santos
21 - Simões dos Santos
22 - Vanessa Ribeiro (Mitsu)
23 - Victor Jesus

AS FOTOS
(de Álvaro)




















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terça-feira, 4 de agosto de 2015

BDpress #464 – O ÀRABE DO FUTURO – DE RIAD SATTOUF

BDpress #464
O ÀRABE DO FUTURO
DE RIAD SATTOUF

Expresso – Revista E, 1 de Agosto de 2015

Entre ouro e lama
Premiada no Festival de Angoulême, esta novela gráfica mostra a infância do autor na Líbia e na Síria, 
sob o signo de um humor cru

Texto de José Mário Silva


O ÁRABE DO FUTURO
De Riad Sattouf
Edição Teorema, 2015, tradução de Helena Guimarães, 158 págs. €19,90

Filho de um sírio e de uma francesa, Riad Sattouf (n. 1978) era, aos 2 anos de idade, um bebé lindíssimo, com cabelos encaracolados e muito loiros. Essa criança adorada por toda a gente, espécie de anjinho mestiço, é o protagonista de “O Árabe do Futuro”, tuna novela gráfica em que o autor faz da sua infância a matéria-prima narrativa, transportando-nos à Líbia e à Síria dos anos 80, lideradas respetivamente por Muamar Khadafi e Hafez Al-Assad, um pouco à semelhança do que Marjane Satrapi fez com o Irão da mesma época, sob o regime islâmico do ayatollah Khomeini, em “Persépolis”.

A diferença principal entre as duas obras está no ponto de vista, no lugar a partir do qual se olha. Enquanto Satrapi faz da vida em Teerão e da herança persa um pano de fundo para o processo de metamorfose de uma rapariga à procura do espaço próprio que lhe permita respirar numa sociedade claustrofóbica, Sattouf assume a perspetiva de uma criança que ainda não sabe muito bem qual é o seu lugar no mundo. A verdadeira personagem central, mais do que Riad, é o seu pai, Abdel-Razak, um professor de História adepto do pan-arabismo e da necessidade de os árabes apostarem na educação, “para sair do obscurantismo religioso”, mas também admirador de líderes fortes e “visionários”, como Saddam Hussein.

É atrás das quimeras de Razak que a família segue: primeiro para Tripoli; depois para a aldeia natal, a poucos quilómetros de Homs. Em pequeno, quando guardava cabras com um primo, dormindo sob as estrelas, Razak acordou com sede e descobriu uma nascente de água que brilhava. “Mergulhei as mãos e a água vinha cheia de ouro! ” Mas quando chegaram a casa, eufóricos, “o ouro tinha-se transformado em lama”. É sempre entre o “ouro” das grandes expectativas ou ilusões políticas e a “lama” da realidade de um quotidiano sórdido que este livro circula. O seu principal mérito está na forma como reproduz a franqueza cândida da memória infantil, caótica e não filtrada, capaz de saltar de- um episódio cómico (a censura que pinta, a marcador negro, o corpo exposto de Brigitte Bardot na “Paris Match”) para outro de inaudita brutalidade (os pés dos enforcados em plena rua, escorrendo água durante uma bátega), quase sem transição. Os cheiros, os hábitos, as tensões familiares, a natureza agreste dos lugares, a violência omnipresente (miúdos que se agridem e insultam, atiram pedras a burros, espetam uma forquilha num cão), tudo é mostrado com uma secura que torna a matéria dos dias ostensivamente dura, na sua crueza, mas também risível — embora o riso seja sempre áspero, desconfortável, incómodo.

Publicado originalmente em maio de 2014, este primeiro volume da trilogia “Ser Jovem no Médio Oriente” cobre o início da vida do autor (1978-1984) e teve, em França, um sucesso tão inesperado quanto merecido. Além do Fauve d’Or para “Melhor Álbum do Ano” no Festival de BD de Angoulême 2015, entre outros prémios, vendeu mais de 220 mil exemplares. O segundo volume, sobre os anos 1984-1985, foi lançado no início de junho. Trata do regresso à Síria da família Satouff, para que o pequeno Riad ingresse na escola pública e se torne “o árabe do futuro”, nas palavras esperançosas do pai. Se mantiver a qualidade gráfica (linha clara, pranchas densas), a escrita precisa e o humor cáustico, merecerá sem dúvida a atenção de um círculo de leitores mais vasto do que o habitual público consumidor de banda desenhada.


Riad Sattouf

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