sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

LIVROS RECEBIDOS - COMER-BEBER DE FILIPE MELO E JUAN CAVIA

LIVROS RECEBIDOS

COMER – BEBER
DE FILIPE MELO E JUAN CAVIA

Juan Cavia e Filipe Melo

Na Berlim dos anos 40, em plena Segunda Guerra Mundial, Franz Majowski esconde uma garrafa de champanhe no cofre do seu restaurante. Na década de 80, Lloyd Jenkins percorre o interior da América em busca de uma tarte de maçã. Numa história, há uma tarte de maçã que se revela. Na outra, há uma garrafa de champanhe que se esconde. Um destes relatos é completamente ficcional; o outro é baseado em factos verídicos. De um lado o «comer», do outro lado o «beber».

O LANÇAMENTO SERÁ COMICCON, NO PORTO, AMANHÃ DIA 16 DE DEZEMBRO E EM LISBOA, NA FNAC CHIADO, NO DIA 18 DE DEZEMBRO ÀS 18.30.

Agora num registo completamente diferente... é o que se pode dizer, aí está o novo livro da dupla Filipe Melo e Juan Cavia. Dividida em dois capítulos: Majowsky e Sleepwalle, num livrinho de 13,6 x 19,3 cm, em capa dura e 72 páginas, editado pela Tinta da China.

Trata-se de um relato ficcional e outro real. Dois contos que partiram de um convite do director da revista Granta e que formam agora um livro em dois capítulos que se cruzam na relação - simultaneamente universal e pessoal - entre o paladar e a memória.


Deixo aqui o Prefácio do director da revista Granta, Carlos Vaz Marques
que digitlizei e saquei via OCR (muito trabalhado).


Tenho de começar por uma confissão de cada vez que dou por mim num lugar estranho, sinto-me o espermatozóide negro de Woody Allen. Ou melhor, para desfazer de imediato eventuais mal-entendidos: não me refiro evidentemente a um espermatozóide do próprio realizador, mas ao famoso espermatozóide de um filme dele; aquele, já velhinho, do princípio dos anos 70 do século passado, que em Portugal se chamou O ABC do Amor mas cujo título original é bem mais sugestivo (e quase um trava-línguas): Everything You Always Wanted to Know about Sex• but Were Afraid to Ask.

A cena é conhecida: acompanhamos, no centro de controlo cerebral de um homem prestes a ejacular, os preparativos para o orgasmo. O·comando das operações é de um rigor militar: os espermatozóides alinham-se, como um batalhão de páraquedistas, impecavelmente vestidos de branco, à espera da ordem que há-de lançá-los no desconhecido. É nesse momento, entre a excitação e o receio de que em vez de irem ao encontro de um óvulo venham a ser projectados contra a parede de látex de um preservativo, que surge rodeado de centenas de espermatozóides imaculadamente brancos - o espermatozóide negro, perdido, angustiado, interrogando-se sem que ninguém lhe dê ouvidos: «Mas que faço eu aqui? Que faço eu aqui?»

A analogia seminal descreve o estado de espírito com que me entrego à tarefa de escrever estas linhas. Não esgota, no entanto. À mistura com o facto de me sentir em território comanche, eu, que nunca fui grande leitor de BD, sinto-me simultaneamente entusiasmado por aqui estar e por ficar associado ao nascimento deste livro.

As duas histórias deste álbum nasceram de um convite que fiz ao Filipe Melo, no meu papel de director da revista Granta. Sendo uma revista literária, primordialmente vocacionada para a palavra, há na Granta uma atenção especial à imagem, quer nas ilustrações originais que acompanham os textos, quer no ensaio fotográfico encomendado para cada edição.

O aspecto mais interessante de um "trabalho como o que faço na Granta é o de poder provocar gente talentosa, tentando proporcionar-lhe aquela pequena dose extra de entusiasmo de que,todo o criador necessita para fazer obra. Com o Filipe Melo, que não necessitaria do meu entusiasmo para nada, uma vez que o tem para dar e vender, a coisa aconteceu assim: Na altura da preparação do número 9 da Granta, dedicado ao tema Comer e Beber, li a novela gráfica Os Vampiros, ainda a cheirar a tinta fresca , acabada de chegar da gráfica. Impressionado pelo fôlego narrativo de Filipe Melo e Juan Cavia, ocorreu -me de repente que queria ter uma coisa assim na Granta. Até os nossos actos mais generosos nascem, por vezes, do mais puro egoísmo. O Filipe disse-me imediatamente que sim, falou com o Juan, que também aceitou a ideia, e fiquei à espera.

No episódio seguinte depois de dez partidas de xadrez online vencidas consecutivamente por ele: sem apelo nem agravo ou qualquer consideração pelo seu futuro editor – comunicou-me que não teria apenas uma, mas duas histórias para a Granta.

Resisti um pouco à ideia, não só para poder usar as minhas prerrogativas de director mas porque me apercebi, de repente. De que as dimensões da colaboração da dupla Melo/Cavia, em páginas a cores, fariam disparar os custos de produção da revista.

A persistência do Filipe Melo viria, no entànto, a levar a melhor. Não foi preciso muito, aliás. Bastou-lhe mandar-me os guiões e os primeiros esboços de Cavia. Ficou definido que a colaboração de ambos na Granta dedicada aos temas Comer e Beber apareceria em dois andamentos: no primeiro, a imaginação cinéfila de Filipe Melo transporta-nos para um cenário de filme americano de série B; no segundo, recuamos ao período negro da Segunda Guerra Mundial.

Pela primeira vez, Filipe Melo e Juan Cavia pegaram num caso real para o transformar num comovente conto visual. A história do bisavô de Nádia Schilling, uma grande amiga de Filipe, narradas pela sua mãe num diário pessoal. «A minha avó contara-me que, no dia em que a Alemanha ocupou a Polónia, o avô foi buscar a melhor garrafa de champanhe que tinha no seu restaurante e correu a escondê-la, num recanto que só ele sabia. Ninguém era capaz de imaginar, nessa altura, que algo pudesse correr mal. · ..

Tudo correu mal, como sabemos. Mas como já nos foi contado das mais diversas formas, mesmo a mais trágica situação pode esconder episódios redentores. É para isso, não só mas também para isso, que servem as histórias, venham elas na forma de romances ou filmes, de peças de teatro ou pranchas de banda desenhada, para nos permitirem partilhar a réstia de humanidade soterrada mesmo nos cenários mais desesperados.

Infelizmente/Felizmente (riscar o que não interessa). Juan Cavia e Filipe Melo não puderam completar as duas histórias a tempo de serem publicadas na Granta. O artesanato minucioso de cada desenho é incompatível com a pressa de um editor obrigado a cumprir os prazos da gráfica, os prazos de distribuição e os prazos do respeito pelos assinantes da revista.

Infelizmente, na Granta 9 só pudemos publicar a história de Comer. Felizmente, ficou inédita a história de Beber. Este livro chega-nos agora com a refeição completa, servida por dois cozinheiros exímios na arte de alimentarem a nossa fome de histórias.


 O exemplar que recebi pareceu-me ter as cores sem grande contraste, pelo que tive que as trabalhar, como podem ver-se a seguir:



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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

III CALDAS STREET FOOD FESTIVAL - A REPORTAGEM


III CALDAS STREET FOOD FESTIVAL
A REPORTAGEM

A terceira edição do Caldas Street Food Festival decorreu no passado fim-de-semana, dias 8, 9 e 10, tendo terminado meio abruptamente ao anoitecer de domingo, devido à aproximação da “Aninhas”, ou seja a “Tempestade Ana”, que, segundo verifiquei durante a noite, em que a coisa atingiu um pico já esmorecido aqui em Caldas, desde o início da sua rota a partir do sul da Irlanda, não me pareceu nada assustadora. Também, passei por alguns ciclones em Lourenço Marques quando era chavaleco e qualquer coisa abaixo do ciclone, não me comove.

Este ano houve menos roulotes-tascas do que no ano passado e eu e a Clara fomos ao repasto, no almoço e jantar de sábado, repetindo no almoço de domingo. Comecei por uma “tasca” portuguesa com plumas de porco preto, infelizmente em pão se supermercado, diga-se. O melhor foi mesmo a ementa Húngara (da Transylvania, com pão oco cozido (ou assado?) na altura, com recheios diversos, típicos da região. No almoço de domingo fui para as salsichas alemãs, com pão cozido no local, também uma maravilha.

Aqui ficam as fotos:

 
À direita, a pipa-bar, que se pode ver abaixo em pormenor...

 
A Baden-Baden, onde comi a salsicha alemã no almoço de domingo... 

 
 
 
A Clara foi brincar no autocarro-cenário...

 
 
Cá está a roulote Húngara, com o pão a cozer nos "espetos, em primeiro plano...

 
 A ementa húngara que jantei no sábado...

E a salsicha alemã, com umas batatas fritas que vou ter que imitar um dia destes - uma maravilha...

O prenúncio de fim-de-festa no domingo à tarde, com a "Anecas" a espreitar!!!

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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Ainda sobre Relvas: A resposta de Viriato Teles à Nota de Pesar do Ministro da Cultura sobre a morte do autor

AINDA SOBRE FERNANDO RELVAS 


A RESPOSTA DE VIRIATO TELES 
À NOTA DE PESAR 
DO MINISTRO DA CULTURA 
SOBRE A MORTE DO AUTOR 


Para ler a nota, basta clicar em cima da imagem.

O Pesar do Ministro e a morte do artista
Publicado em 05.Dez.2017

Exmo. Senhor Ministro da Cultura
Dr. Luís Filipe de Castro Mendes

Tomei conhecimento do voto de pesar emitido por V.Exa. e difundido pelo seu gabinete a propósito do falecimento do artista Fernando Relvas, meu Amigo de quase 40 anos, razão pela qual me sinto obrigado a dirigir-lhe algumas palavras.

É com muita satisfação que constato que V.Exa. reconhece Relvas como «um dos mais criativos autores contemporâneos de banda desenhada» e «uma referência enquanto artista visual». Apraz-me verificar que V.Exa se deu conta de que o trabalho de Relvas se destacou «pela inquietude e pela originalidade ao longo de mais de quatro décadas de percurso artístico». Gosto de saber que V.Exa tem a noção de que «Fernando Relvas encontrou uma expressividade única e, simultaneamente, experimental em todas as suas obras e acções». Que «na criação ou na circulação, explorava novas técnicas e suportes, arriscava temas e géneros menos convencionais e procurava sempre novas formas de produção». Que «esse percurso original que o caracterizava fazia-se destacar a cada projeto e em cada traço, com a certeza de que o processo criativo era em si mesmo uma inesgotável fonte de inspiração.»

Fernando Relvas foi, efectivamente, tudo aquilo que V.Exa. afirma, e mais ainda: foi, como atestam numerosos especialistas do género, um talento superior da bd portuguesa, dono de um estilo inovador e inconfundível, que influenciou directa e decisivamente todos – mas mesmo todos – os autores de banda desenhada actualmente no activo. Criou uma linguagem única e elevou a bd portuguesa a uma nova dimensão. Tudo isto são factos, comprováveis, não meras opiniões.

Acontece que, por circunstâncias diversas (que seria fastidioso e inútil descrever, mas que, como V.Exa decerto saberá – ainda que não por experiência própria – se verificam com alguma frequência na história da Arte) Relvas entrou na fase final da vida mais pobre do que sempre viveu, numa situação de extrema carência económica agravada pela doença de Parkinson que entretanto lhe foi diagnosticada.

Acontece também que, em 2015, nos tempos finais do governo PPD/CDS de má lembrança, Fernando Relvas, no limiar do desespero económico, venceu o seu natural orgulho de artista e homem livre e candidatou-se ao subsídio de mérito atribuído pelo Fundo de Fomento Cultural. Logo a seguir o governo mudou, a Cultura voltou a ser ministério, o novo ministro não aqueceu o lugar, chegou V.Exa. O processo do Relvas (com a referência 2.4.4. - 2912/15), esse, continuou parado.

É provável que V.Exa. não tenha de memória aquilo em que consiste o referido «subsídio de mérito cultural». Permito-me assim recordar-lhe que se trata de uma medida legal recorrente do decreto-lei 415/82 de 7 de Outubro, quando era primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, António Ramalho Eanes presidia a República, e Francisco Lucas Pires ocupava a cadeira onde V.Exa. actualmente se senta.

O decreto, redigido aliás com invulgar clareza para um texto legal, é inequívoco quanto às intenções do legislador, expressas logo no primeiro parágrafo: «Pretende-se com este diploma possibilitar a atribuição a alguns artistas e autores de reconhecido mérito cultural de subsídios que os ajudem a ultrapassar situações de, por vezes, pungente carência económica.» Uma prática que, até então, lê-se mais adiante, acontecia apenas «em casos pontuais», pelo que a lei vinha «definir o regime jurídico relativo à concessão de subsídios a artistas e a autores carecidos economicamente e que pela sua obra revelem mérito cultural».

Da aplicação da lei ficou incumbido o ministro da Cultura a quem, através do Fundo de Fomento Cultural, competiria analisar e decidir sobre os subsídios a atribuir.

Em circunstâncias normais, a atribuição desse subsídio a Fernando Relvas não deveria levantar dúvidas - e com certeza não levantou, como parecem demonstrar as amáveis palavras inscritas no voto de pesar da autoria de V.Exa. De facto, se «um dos mais criativos autores contemporâneos de banda desenhada» que é também «uma referência enquanto artista visual» que se destaca «pela inquietude e pela originalidade ao longo de mais de quatro décadas de percurso artístico», se um artista digno desta apreciação não tem mérito cultural, não sei quem o terá.

Mas acontece também que essa candidatura ficou perdida nas gavetas, submetida com certeza aos trâmites sempre insondáveis da burocracia. De um certo ponto de vista, até se entende: os funcionários de V.Exa – e mesmo V.Exa – terão lido muitos livros e visitado muitos museus e panteões, conhecerão todos os festivais literários d’aquém e d’além-mar, mas não sabem ao certo o significado da expressão «carência económica». É natural, pois não é fácil definir uma coisa que de todo se desconhece.

E assim o tempo foi passando, sem que nunca o Relvas tenha tido, sequer, uma resposta do FFC. De uma das últimas vezes que falámos, o Relvas, com o sentido de humor ácido que nunca perdeu, dizia-me: «Devem estar à espera que eu morra.» Tinha razão.

Ora o subsídio em causa, sendo destinado a situações excepcionais, não é uma prebenda nem um favor do Estado, mas sim um direito dos cidadãos que reúnam as condições previstas na lei que o consubstancia: a «comprovada situação de carência económica» e o «reconhecido mérito cultural» do artista ou autor. Um direito do Estado Democrático, pois, e que eu, como cidadão e contribuinte, tenho a obrigação de exigir que seja respeitado, o que não aconteceu. Pelo menos neste caso, que não é com certeza o único.

Há mais de um ano, em Outubro de 2016, perante o agravamento da situação (física e económica) do Relvas, e alertado para a candidatura ao subsídio que, mais de um ano depois, continuava sem resposta, alguns amigos que também eram, simultaneamente, do círculo de conhecimentos de V.Exa e do Fernando Relvas, tentaram sensibilizar V.Exa. e os serviços de V.Exa. para a urgência da situação. Não se tratava de contornar a lei por via de qualquer tráfico de influências – que comprovadamente não tenho. Pelo contrário: tratava-se apenas de tentar fazer com que a lei fosse cumprida, na letra e no espírito.

Esses contactos foram feitos, em várias ocasiões, mas o certo é que entretanto outro ano se passou, e nada aconteceu. Nos últimos meses, a situação física do Relvas piorou. Não tendo ele nenhum canal directo de comunicação com V.Exa, foram os mesmos amigos que procuraram uma vez mais sensibilizar os serviços do ministério de V.Exa – mas, mais uma vez, nada aconteceu. (Ressalve-se aqui que, num país normal, nada disto seria necessário: o caso seria tratado com a urgência que, por definição, é essencial para resolver as situações de carência económica, e Relvas receberia a prestação a que tinha direito sem mais delongas. Mas isso é nos países normais, e o Relvas teve a má sorte de nascer português.)

Assim foi, até que o Relvas morreu. E esta foi a única altura em que os serviços que V.Exa superiormente dirige funcionaram com celeridade, na modalidade do supra-citado voto de pesar. É bonito, as palavras são simpáticas, mas chega tarde e não serve para nada.

Deste modo, na qualidade de Amigo que fui, que sou, do Fernando Relvas, agradeço, por boa educação, mas declino, por indignação, o voto de pesar expresso por V.Exa. Do ministro da Cultura de Portugal, exige-se que esteja atento em tempo útil aos artistas e autores do seu país. Palavras amáveis quando morrem de pouco servem, se quem as profere deles não fez caso enquanto vivos.

Por delicadeza e decoro, escuso-me a reproduzir aqui o que, estou certo, o Fernando Relvas diria, se pudesse, ao receber os pêsames e o profundo lamento de V.Exa. Mas V.Exa., vate medalhado, não terá dificuldade em chegar lá, mesmo tratando-se de vocábulos que não fazem parte do léxico culto de V.Exa.

Queira pois V.Exa meter o voto de pesar onde melhor lhe aprouver.
Ao Relvas não serve nem para papel de rascunho.

Com os melhores cumprimentos,

Viriato Teles
Cidadão nacional nº 5962413

(Carta enviada ao ministro da Cultura em 29 de Novembro p.p.)

Nota do Kuentro: Viriato Teles (Ílhavo, 27 de Março de 1958) é um jornalista e escritor português. Trabalhou nas redacções de diversos jornais e revistas e participou como autor, repórter e editor em diversos programas de rádio e televisão. É autor de vários livros de poesia e reportagem. Integra, desde 2006, o Gabinete dos Provedores da Rádio e Televisão de Portugal.


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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Gazeta da BD #86 na Gazeta das Caldas (em 1Dez.2017) SOBRE RELVAS

Gazeta da BD #86 na Gazeta das Caldas (em 1Dez.2017)

MORREU FERNANDO RELVAS 
(1954-2017)
Um dos criadores mais importantes e inovadores 
da BD portuguesa

Foto realizada por mim no Amadora BD 2010

O autor da BD portuguesa Fernando Relvas, morreu no passado dia 21, já sofria de Parkinson e foi vítimado por uma infecção. Foi considerado como um dos mais talentosos e personalizados autores portugueses de banda desenhada das últimas décadas. Era também considerado como o eterno boémio da BD portuguesa.

As suas primeiras bandas desenhadas conhecidas surgiram em 1974, começando depois a publicar no jornal/fanzine O Estripador em Janeiro de 1975 e em Novembro desse ano fundou um fanzine, O Gorgulho. Em Abril de 1976 publicou a história O Chico, no jornal Gazeta da Semana. Em 1977, na revista Fungagá da Bicharada, de Júlio Isidro, publicou Uki, o Pequeno Esquimó, Espaço 99 1/2, Chin Lung e O Justiceiro do Rio Amarelo. Em 1978 estreou-se na revista Tintin, com O Espião Acácio, cuja publicação terminou em Março de 1980 e sobre o qual escrevemos aqui, na Gazeta da BD #71, em Março passado. Foi o grande “salto” na sua carreira, continuando a publicar nesta revista até 1982, onde publicou também Rosa Delta Sem Saída, Cevadilha Speed e L123 em registos muito diferentes de Acácio.

Outra "grande aventura" na vasta produção de Relvas, foi a publicação de histórias em continuação no Se7e, o célebre semanário de espectáculos, onde foram publicadas Concerto para Oito Infantes e um Bastardo, Niuiork, Sabina, Herbie de Best, O Diabo à Beira da Piscina, Nunca Beijes a Sombra do Teu Destino e Karlos Starkiller, entre 1982 e 1988. Inicialmente as histórias do Se7e surgiram a preto e branco, mas depois também a cores.

Participou ainda nas revistas de BD Mundo de Aventuras (V serie), O Mosquito (V série), LX Comics e no jornal humorístico O Fiel Inimigo. Colaborou também em outros periódicos como Notícias da Amadora, Pão Com Manteiga, TV Mais (com caricaturas), Sábado (I série, onde se publicou de modo incompleto a história O Rei dos Búzios, em 1989) e Quadrado. O Rei dos Búzios acabou por surgir na íntegra num CD-ROM que acompanhou a revista Biblioteca de setembro de 1999, publicada pela Câmara Municipal de Lisboa. Este CD-ROM inclui uma entrevista ao autor, antigos trabalhos e textos de alguns especialistas, comemorando desta forma 25 anos de carreira de Fernando Relvas. Dizem alguns críticos que, por ironia do destino, nunca chegando a ser publicada em álbum, foi considerada a melhor história produzida por Relvas.

Em 1993 foi publicado o álbum Em Desgraça, pela ASA, história que tinha sido distinguida em 1990 com o Prémio do Concurso "Navegadores Portugueses". Outros álbuns do autor editados nos anos 90 foram As Aventuras do Pirilau - O Nosso Primo em Bruxelas, pela Livros Horizonte, em 1995, Çufo, pelo Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, em 1995, Karlos Starkiller, que foi o título inaugural da colecção "Bedeteca", em 1997, e L123 (seguido de Cevadilha Speed), pela Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, em 1998. Neste ano foi um dos autores portugueses presentes no 25.º Festival Internacional de BD de Angoulême (França), no ano em que Portugal foi o país convidado no maior Festival europeu de BD, com a exposição Perdidos no Oceano.

Foi em 1995 que conheci Relvas, no VI Festival de BD da Amadora, na saudosa Fábrica da Cultura, quando estávamos a montar as respectivas exposições com as quais iriamos participar no Festival, estava ele a preparar a exposição de Çufo e algumas pranchas e esboços de A Rainha Ginga, história que nunca seria publicada. A partir daí mantivemos contactos frequentes até à última vez em que nos encontrámos, em abril de 2017, durante a exposição que lhe foi dedicada, na Bedeteca da Amadora, onde já o encontrei num estado físico muito degradado, devido à doença de Parkinson.

Mas em 2002, Relvas casou-se com a artista plástica Nina Govedarica e, quando o encontrei por puro acaso à saída dos Cacilheiros no Cais do Sodré, ele disse-me “Eh pá, tou farto deste país, vou para Espanha com a Nina e logo se vê!” Em Espanha escreveu a sua única novela literária O Urso Vai a Espanha – com esta obra inicia o uso do auto-epíteto “o urso”, que define a sua desilusão com o mercado editorial português de BD. Na Croácia inaugurou vários blogues onde publicou inúmeras histórias inéditas, que foi produzindo. Regressou a Portugal em 2010, onde já lhe notei os inícios da Parkinson. Publicou ainda Li Moonface (pela Peranocharco), Sangue Violeta e outros contos e Nau Negra (pela ElPep).

Mas como escreveu o crítico Pedro Moura, a obra de Relvas “foi um percurso nervoso por entre géneros e humores, métodos e técnicas, veículos de publicação e modos de produção e circulação, que servirá de retrato a uma incessante e intranquila busca pela expressividade própria da banda desenhada, e outros territórios contíguos, mas cuja leitura e apreciação atenta desvenda um autor que é um verdadeiro sismógrafo da sociedade portuguesa das últimas décadas. A sua imensa galeria de personagens, nenhuma das quais assumiria o papel de “herói clássico”, é igualmente um espelho das gentes comuns que se tentam eclipsar às imposições dessa mesma sociedade.

Tumultuosa, variegada, por vezes virulenta e quase sempre sarcástica, a lavra de Relvas é uma obra-maior no panorama nacional, ainda que sob muitos aspetos fragmentária. O que não deixa de contribuir para um horizonte coeso, vincado, pessoalíssimo, onde repousará a tranquilidade do leitor.”

O seu corpo esteve em Câmara Ardente na Câmara Municipal da Amadora, numa iniciativa que me parece inédita nos Municípios Portugueses e que é de louvar.

Caricatura da autoria de Vasco Gargalo, realizada após a morte de Relvas.

Conheci de perto o humor - por vezes negro - de Fernando Relvas, penso que ele próprio poderia ter dito esta frase, com que finaliza o Espião Acácio...

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domingo, 3 de dezembro de 2017

402º ENCONTRO DA TERTÚLIA BD DE LISBOA 5 de Dezembro 2017

402º ENCONTRO 

DA TERTÚLIA BD DE LISBOA 
5 de Dezembro 2017


BD BORDALO
HISTÓRIAS DOS PARTICIPANTES 
NO 1ª CURSO DE BANDA DESENHADA
 NO MUSEU BORDALO PINHEIRO

O Curso de Banda Desenhada decorreu entre Fevereiro de 2015 a Fevereiro de 2016 no Museu Bordalo Pinheiro. Vários artistas ilustradores e argumentistas foram convidados a participarem na formação, tais como João Mascarenhas, André Oliveira, Daniel Maia, Susana Resende, Rosário Félix, Carlos Silva ou Álvaro. Os formandos eram todos aqueles que queriam conhecer um pouco mais acerca do universo da Banda Desenhada. Pretendiam fugir da trivialidade e das histórias estereotipadas. Muitos nunca tinham tentado a narrativa gráfica mas gostavam de experimentar, alguns já se tinham iniciado nesta área, porém perderam o ânimo e gostariam de o recuperar. As aulas dirigiram-
-se em especial, para os que gostariam de explorar o seu estilo pessoal, de desenvolver um projeto de narrativa gráfica e, acima de tudo, de fazê-lo num ambiente de partilha de ideias e técnicas em convívio com mais autores. Das várias tardes de sábado que passei como docente, no curso de BD ficaram gratas recordações pela cooperação na procura de novas formas de libertar a criatividade e no testar dos limites artísticos. A exploração de áreas de interesse individual, partindo de um projeto de BD trazido pelo aluno, materializou-se no conjunto de histórias que se reúnem nesta publicação.

Penim Loureiro


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NUNO SARAIVA

Como Ilustrador Editorial, é colaborador em praticamente toda a imprensa escrita portuguesa, com destaque para os semanários O Independente, Expresso, Sol, Público e TimeOut Lisboa. Com Júlio Pinto criou a série em banda desenhada “Filosofia de Ponta”, “Arnaldo o Pós Cataléptico” e “A Guarda Abília”. Autor de “Zé Inocêncio, as Aventuras Extra Ordinárias de Um Falo Barato”. Nos últimos anos publicou com João Miguel Tavares “A Crise Explicada às Crianças” com recente versão Grega na Patakis Publications; ilustrou o livro “Caríssimas 40 canções - Sérgio Godinho e as canções dos outros” na Abysmo; “Isto é um Assalto” com Francisco Louçã e Mariana Mortágua e “Aníbal Milhais - o soldado Milhões”, texto de José Jorge Letria. É Jurado dos Programas de Apoio ao Cinema, na Subprograma de Apoio à Produção, na modalidade de Apoio à Produção de Obras Cinematográficas – Categoria de Curtas-Metragens de Animação, Subprograma de Apoio à Escrita e ao Desenvolvimento de Obras Cinematográficas e Subprograma de Apoio à coprodução com países de língua portuguesa. Autor das imagens para as FESTAS DE LISBOA’15,’16 e ’17. Tem pintado vários murais em Alfama e Mouraria. Participa na colecção “Sardinha by Bordallo” com a sua Sardinha do Golaço, comemorativa do feito campeão da nossa selecção no Euro 2016. O seu livro “Tudo isto é Fado!”, uma co-produção Sol, CML/EGEAC e o Museu do Fado, foi galardoado com o prémio “Melhor livro de BD 2016” atribuido pelo Festival internacional de BD Amadora. “Fado de Malhoa, o pintor fino da Mouraria”, uma ediçãoo EGEAC e o Museu do Fado é o seu mais recente livro.
Foi um dos vencedores do Programa de atribuição de Bolsas de Criação Literária 2017!


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