quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

BDpress #428 (recortes de imprensa sobre BD): O NOVO FILME DE FRANK MILLER E ROBERT RODRIGUEZ SIN CITY – A DAME TO KILL FOR (MULHER FATAL) – ESTREIA AMANHÃ (1)


O NOVO FILME 
DE FRANK MILLER E ROBERT RODRIGUEZ
SIN CITY – A DAME TO KILL FOR
(SIN CITY – MULHER FATAL)
ESTREIA AMANHÃ (1)

ATUAL – Expresso, 23 de agosto de 2014 (1)

APOCALIPSE DO FILME NOIR
Texto: Francisco Ferreira

Após nove anos de espera, Frank Miller e Robert Rodriguez dão seguimento a "Sin City – Cidade do Pecado" e regressam com um segundo tomo em 3D não menos portentoso e vibrante. Chama-se "Sin City – Mulher Fatal”.

Recapitulamos rapidamente a história: há nove anos, Robert Rodriguez desafiou Frank Miller a passar para cinema a BD de sua autoria "Sin City", uma das mais expressivas do final do século XX (foi iniciada em 1991) e alvo de culto imediato no segui­mento da obra máxima do seu autor ("The Dark Knight Returns", de 1986). Em 2005, quando "Sin City: Cidade do Pecado" che­gou às salas, o Expresso recordou a génese e a história dessa BD num artigo de João P. Boléo. No universo degradante, aflitivo e muito negro de "Sin City", profundamente influen­ciado pelo film noir de Hollywood dos anos 40 e 50, nesse calabouço em que a Huma­nidade se perde para lá da ética, da moral e das regras da dramaturgia, as obsessões das personagens de Miller estavam dentro dele. Tinha as pranchas à sua frente, mas não as imaginava em movimento, nem ouvia ainda as suas vozes. Para Miller, o desafio lançado por Rodriguez representou muito mais do que uma mera adaptação para cinema (ao ponto de ter decidido nesse exato instante tornar-se realizador): foi também uma catar­se e, segundo ele, "a materialização de uma explosão, algo que foi expelido com violência de dentro de mim cá para fora através de ou­tro médium".

Nove anos de espera é muito tempo. Há duas semanas, numa breve entrevista tele­fónica entre Lisboa e Los Angeles (dez mi­nutos cronometrados ao segundo) a que ti­vemos direito, perguntámos a Miller porque tardou tanto a aparecer "Sin City: Mulher Fatal". "Nós estávamos prontos a arrancar com o segundo filme logo em 2005, mas queríamos enfrentar um desafio técnico superior.
O Robert já pensara então no 3D, mas estou a falar-lhe de um tempo em que ainda só havia duas salas de projeção em 3D nos EUA. Decidimos esperar. E como isto mudou entretanto... Nos últimos anos, a tec­nologia avançou a um ponto tal, deu um tal passo de gigante, que se aproximou dos nos­sos desejos." Para Miller, aceitar o 3D não foi fácil. Ele cresceu a desenhar, a devorar novelas de Mickey Spillane e de Raymond Chandler e, nos últimos anos, teve más ex­periências com os filmes em 3D que viu (até disse ter saído da sala a meio de "O Cava­leiro das Trevas Renasce", último filme de Christopher Nolan). "É verdade que tive ex­periências péssimas com os filmes em 3D de Hollywood. Acho-os sempre forçados e qua­se todos horrorosos. Parece que são feitos para o 3D em vez de se servirem dele. Para mim, que sou avesso a modas, o 3D signifi­cava ver uma data de coisas a voar, e eu não tenho nada disso nas minhas pranchas. Nem dinossauros, nem aliens. Foi o Robert, uma vez mais, que me levou a aceitar o 3D como um processo artístico.

Convenceu-me que com o 3D nós podíamos realçar alguns as­pectos da história. Por vezes, são só detalhes gráficos que despertam a atenção do espec­tador e que podem fazê-los pensar noutras coisas. E convenceu-me de que podíamos manter um registo sóbrio, sem espalhafato, que se mantivesse fiel ao que desenhei. Mo­destamente, acho que o conseguimos."

Há muitas novidades entre um filme e outro, mesmo se "Sin City: Mulher Fatal" recupera grande parte das personagens da obra matriz: o tremendo Marv, que não tem medo de coisa alguma (Mickey Rourke), Gail (Rosario Dawson), também Nancy Callahan (Jessica Alba), a protegida de Marv que ago­ra descobrimos mais angustiada que nunca, a ganhar a vida numa pista de striptease — a história da personagem dela no novo filme foi escrita de raiz sem ter passado pela BD. Outro aspeto de "Sin City: Mulher Fatal" é que é atraído como um íman para a 'má da fita', a mulher fatal do título, um furacão chamado Ava Lord (que recorda, como não?, certos papéis de Ava Gardner), desempenho genial de Eva Green a servir uma persona­gem tão maléfica que quase se pode dizer que ela encarna todos os pecados capitais (e "não há justiça sem pecado", reza o cartaz...).

Também houve perdas, com a morte dos atores Brittany Murphy (que fazia de Shellie) e Michael Clarke Duncan (que fazia de Manute), este último substituído por Dennis Haysbert. Especialista a infligir a dor, Manute é o motorista, guarda-costas e pau para todo a colher de Ava Lord, esperando-o um combate de antologia com Marv. Também houve trocas de atores: a de Clive Owen por Josh Brolin (já que o filme se passa antes da cirurgia plástica da personagem de Dwight McCarthy) e a de Michael Madsen por Jeremy Piven. Outra personagem, Johnny, ori­ginalmente pensada para Johnny Depp (que não pôde aceitar o papel), foi parar a Joseph Gordon-Levitt, e a sua história é de partir o coração, segundo Miller: "Ele é um daque­les tipos que julga que pode enganar toda a gente, basta-lhe atirar uma moeda ao ar. Eu adoro personagens assim. Mas, no fundo, Johnny só pensa nele próprio. Está obcecado com a sua persona. Decide que vai enfrentar Roark e vencer um homem mais poderoso do que ele, mas repete um erro que não se pode repetir: e esta é uma lição para a vida!"

Não vamos continuar a apontar diferen­ças entre o primeiro filme e o segundo, mas há que dizer mais uma coisa: "Sin City: Mulher Fatal" é uma obra bastante mais entro­sada do que a anterior, com duas histórias paralelas que não se dividem na narrativa tal como se dividiam no primeiro filme. Pa­rece-nos que a essência 'thrillesca' ganha bastante com isso. Também perguntámos a Miller como é que o trabalho de realização é dividido no set, e ele respondeu como os ir­mãos Coen: "Não partilhamos, tomamos as decisões juntos. Nem sei como se podia fazer um filme de outra maneira. Chegamos intui­tivamente ao que queremos e separamos o que está a funcionar do que está errado. É claro que eu não percebo grande coisa de 3D, e o Robert neste terreno está como peixe na água. Mas ele está sempre a 'enganar-me'. Nos anos 90, andava o cinema longe da mi­nha cabeça, eu dizia a mim mesmo que, se havia uma BD minha que jamais poderia ser adaptada ao cinema, era 'Sin City'. Mas de­pois apareceu o Robert Rodriguez."

Outro aspeto comum às obras de Miller, e em particular a "Sin City", é uma atração pela violência e pela luxúria — em sintonia com a memória do film noir. Basin City é uma cidade infernal, um poço sem fundo que não procura a verosimilhança com a reali­dade. Perguntámos ao autor porque é que o seu universo criativo tem de ser tão negro, se no seu trabalho também existe espaço para sentimentos mais nobres, como a luta pela dignidade, por exemplo. Miller conclui: '"Sin City' é atravessado por um grande tema: a vingança. Toda a gente se quer vingar de al­guém ou de alguma coisa, exceto Marv, que sofre de súbitos ataques de crise e reage ins­tantaneamente ao que lhe acontece, sem per­der tempo. As minhas personagens existem nesse mundo de violência e luxúria mas não deixam de ser humanas. Aliás, eu acho que o que elas procuram, já desesperadamente, é uma réstia de humanidade. Uma humanida­de presa por um fio mas que ainda sentimos que está lá.

No fundo, elas também choram, também ficam com o coração despedaçado. Muitas vezes, por amor."


O "puritanismo" americano...


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terça-feira, 26 de Agosto de 2014

FOI INAUGURADA NO DIA 22 DE AGOSTO A XI EDIÇÃO DO FESTIVAL INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA – “LUANDA CARTOON” – COM A PRESENÇA DE NUNO SARAIVA


XI EDIÇÃO DO FESTIVAL INTERNACIO​NAL 
DE BANDA DESENHADA
“LUANDA CARTOON”

COM A PRESENÇA DE NUNO SARAIVA 

Foi inaugurado no Instituto Camões de Luanda, na passada sexta-feira, dia 22 de Agosto, o XI Luanda Cartoon – Festival Internacional de Banda Desenhada. A inauguração contou com a presença de diversos autores-ilustradores que mostraram o seu trabalho a todos os presentes interessados. Segundo uma nota enviada à imprensa, ao todo participarão 24 autores-ilustradores, entre os quais nove estrangeiros.

O ilustrador e autor de banda desenhada português Nuno Saraiva, esteve presente no primeiro fim-de-semana desta edição do Luanda Cartoon, que terminará a 22 de Setembro. Em Luanda, Nuno Saraiva expõe cerca de 20 trabalhos, nomeadamente a BD No Céu como na Terra, publicada semanalmente no semanário Sol, e ilustrações de O Soldado Milhões, da editora Pato Lógico. Realizou ainda duas oficinas de trabalho e participou em debates e conferências diárias, onde apresentou o seu trabalho e falando sobre o actual universo da banda desenhada e ilustração portuguesa.

Nuno Saraiva, tendo à sua esquerda os irmãos Olimpio e Lindomar de Sousa, no dia da inauguração

Lindomar de Sousa durante a inauguração, no Instituto Camões

O Festival de Luanda tem vindo a consolidar uma parceria entre Angola e Portugal, com a presença regular de autores angolanos no Festival Amadora Cartoon e de autores portugueses no Festival Luanda Cartoon.

A presente edição tem como tema Kianda [deusa das águas da mitologia angolana] e incluiu exposições de caricatura e banda desenhada, exibições de cinema de animação em 2D e 3D, realização de workshops dirigidos a profissionais e amadores e o lançamento da IV edição do fanzine BDLP (Banda Desenhada em Língua Portuguesa) da responsabilidade do Estúdio Olindomar em Angola e do Grupo Extractus em Portugal.

Kianda - visão moderna da deusa das águas, ilustração para o cartaz deste ano do Luanda Cartoon



Os três números do fanzine CPLP - capas completas

OLIMPIO DE SOUSA: "A BANDA DESENHADA É FONTE PRIMORDIAL DA EDUCAÇÃO DAS CRIANÇAS"

Olímpio de Sousa, um dos mentores do Festival, falou para diversos meios de comunicação social sobre a situação actual da banda desenhada em Angola:
"O público aumentou, a cada ano melhorámos o trabalho, mas não esperávamos a quantidade de pessoas que vieram ao festival".

A ideia do Festival surgiu com os irmãos Olímpio e Lindomar de Sousa, tendo em vista a promoção de exposições de BD e cartoon em Luanda. No início o festival não era internacional, mas à medida que se foi tornando conhecido – até no estrangeiro – os organizadores optaram por internacionalizar o evento, recorrendo a convites de autores-ilustradores estrangeiros.

Foram convidados já alguns autores de renome mundial como os irmãos Fábio Moon e Gabriel Ba, Ali Sassaroli, João Mascarenhas, entre outros. Como já se sabe, este ano o grupo convidou o autor e ilustrador português Nuno Saraiva.

Sendo a banda desenhada um meio de comunicação de massas, depende da publicação dos trabalhos. "Infelizmente ainda existe em Angola o problema das gráficas, a praticarem preços muito altos, dificultando a divulgação de trabalhos de diversos autores, explica Olímpio: "O momento é bom porque estamos a crescer, cada dia que passa surgem novos autores, existe a escola de banda desenhada onde é o nosso maior ponto de formação, e que tem contribuído para o desenvolvimento da BD em Angola.

"Hoje existem outras plataformas como a internet, os jornais, etc, mas a publicação de determinadas obras por meio das editoras ainda não é uma realidade. Nós temos apenas o estúdio Lindomar que actualmente publica obras da maior parte dos autores angolanos mas o ideal seria termos mais editoras a publicar", diz o ilustrador.

Um dos objectivos do grupo é levar o festival para outras províncias [angolanas]. O festival já passou pela província do Lubango, aquando do Lubango Cartoon 2013 e tendo em conta a aderência igual ou superior à da capital, sentindo-se a necessidade repetir o feito: "deixar o festival apenas em Luanda é não termos a oportunidade de conquistar um outro público".

Projectos futuros

Em Dezembro o grupo vai lançar um livro intitulado "Os três amigos", que marca o vigésimo aniversário da amizade de três ilustradores e autores que fundaram o festival, Olímpio de Sousa, Lindomar de Sousa e Tiago Gourgel. Haverá também uma festa da banda desenhada angolana em Portugal no mês de Outubro, onde o evento contará com a presença de sete artistas angolanos a convite da Câmara Municipal de Amadora.

Maiores inspirações

As estórias em quadrinhos, da infância dos autores, passaram pela famosa "Turma da Mónica", o produto lusófono muito consumido em Angola, influenciando várias gerações, e Olimpio não ficou imune a essa experiência: o maior trabalho do grupo, a banda desenhada "Cabetula", segue o formato da Turma da Mónica no ponto de vista de edição.

Da banda desenhada para Animação 2D e 3D

"Existem grandes animadores 2D e 3D em Angola, infelizmente ainda não existe um formato de divulgação na televisão ou no cinema, explica o autor". Trabalho que envolve uma equipa grande e que requer também um financiamento à medida. "Continua-se a importar desenhos animados do estrangeiro, financiando projectos que não são nossos. Se as nossas empresas financiarem estúdios locais, será uma mais valia, pois os trabalhos nacionais possuem um carácter sócio-cultural forte e intrínseco à realidade angolana.

Influência infantil

Segundo Olímpio, as crianças acabam por ser influenciadas por outras culturas, o que não é mau se a influência for algo positivo. "Não podemos certificar se aquilo que a criança consome em termos de animação, é uma influência boa, as crianças acabam por ter um jeito de falar que não é o nosso, acabam por ter comportamentos que não são nossos, e por assistir a horas e horas de produtos de outras culturas.

Inverter essa situação está nas mãos dos nossos apoios financeiros e institucionais tendo em conta que a banda desenhada e a animação são fontes primordiais da educação das crianças.


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segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

BDpress #427: A REVISTA ‘MUNDO DE AVENTURAS’ – CORREIO DA MANHÃ/DOMINGO


A REVISTA ‘MUNDO DE AVENTURAS’ 

  
Revista DOMINGO, do Correio da Manhã, 24/08/2014
Texto: Leonardo Ralha

QUANDO OS HERÓIS CHEGAVAM À QUINTA-FEIRA
PUBLICADA AO LONGO DE QUATRO DÉCADAS, 'MUNDO DE AVENTURAS' FOI A REVISTA QUE MAIS MARCOU A BANDA DESENHADA EM PORTUGAL

Ainda hoje, Carlos Alberto Santos não sabe como fi­cou ligado à história de Mundo de Aventuras, a revista de banda desenhada que marcou gera­ções de portugueses, pois foi publicada todas as semanas, entre 18 de agosto de 1949 e 15 de janeiro de 1987, com 1.841 edições cheias de heróis quase sempre importados dos EUA. Não foi o caso de A História Maravilhosa de João dos Mares, com textos de Augusto Barbosa, que o então adolescente de 16 anos ilustrou para o primeiro número, publicado há 65 anos, quando trabalhava para um estúdio gráfico e de publicidade.

Não foi a única colaboração do artista [plástico], autor dos famosos cro­mos da História de Portugal, com a duradoura publicação da Agência Portuguesa de Revis­tas, que começou por chamar-se O Mundo de Aventuras, mas logo perdeu o artigo inicial, mantendo a quinta-feira como o dia mais aguardado pelos jo­vens.

"Aquela que me deu mais satisfação, até porque o último trabalho será sempre o melhor, foi Camões, sua Vida Aventu­rosa, disse Carlos Alberto San­tos à Domingo referindo-se à história, publicada nos anos 70, sobre o autor de Os Lusíadas.

Quando nasceu, com 12 pági­nas por um escudo e meio, O Mundo de Aventuras concorria com O Mosquito e O Diabrete, mas foi uma 'pedrada no char­co' a marcar a diferença. "Na­quela altura, as revistas portu­guesas estavam muito antiqua­das" refere o arquitecto e espe­cialista em banda desenhada Leonardo De Sá, apontando inovações: "As histórias ameri­canas de aventuras agarravam a juventude, até porque tinham a dinâmica dos balões de diálo­gos, em vez do texto a aparecer abaixo das vinhetas."

Apesar de o conteúdo ser quase todo criado do outro lado do Atlântico, sucederam-se ‘apor­tuguesamentos’ alguns decor­rentes de chegarem aos escritórios de Lisboa os materiais que a King Features Syndic.ite tam­bém destinava a Espanha e à América Latina. Steve Canyon deu por si a chamar-se Luís Ciclón, passando de seguida a Luís Ciclone. Ainda mais es­tranho para quem encontre as edições dos primeiros anos nos alfarrabistas é ver Flash Gor­don a responder por Roldan, o Temerário e Johnny Hazard transformado em João Tem­pestade. "Havia algumas pressões da censura para que os nomes não fossem estrangeiros" diz Leonardo De Sá à Domingo. Daí resultaram "nomes que agora parecem caricatos" como o D. Enigma atribuído ao má­gico e hipnotizador Mandrake.

PARA MAIORES DE 17

Durante muito tempo, as histó­rias eram de continuação, pelo que em cada revista havia 10 a 20 aventuras de heróis diferentes, que prosseguiam na semana seguinte. De igual forma, nos números iniciais não havia uma capa propriamente dita, e as ti­ras corriam logo desde a primeira página.

"Havia algumas pressões da censura para que os nomes não fossem estrangeiros"
"As histórias agarravam a juventude, até porque tinham a dinâmica dos balões"
Leonardo De Sá
especialista em BD


A revista começou por ser dirigida por Mário de Aguiar – sócio de António Dias na Aguiar & Dias, mais tarde Agência Por­tuguesa de Revistas –, mas essa missão foi entregue a José de Oliveira Cosme a partir do nú­mero 20. O autor de As Lições do Tonecas rodeou-se de ta­lentos, como Roussado Pinto e o desenhador Vítor Péon, cuja saída, em meados dos anos 50, abriu caminho a Carlos Alberto Santos, encarregue de criar ca­pas apelativas, com o herói destacado nessa edição.

Embora a Comissão da Cen­sura para a Literatura Infantil te­nha feito aparecer na capa, em 1950, a menção "semanário ju­venil para maiores de 17 anos" os leitores do Mundo de Aventuras tendiam a ser mais novos.

No Portugal do Estado Novo, as histórias de ficção científica, ou passadas em ambientes exóti­cos, eram a escapatória perfeita. "Comprava-se por alguns tos­tões e ficava-se com a revista, enquanto num filme ou no tea­tro as entradas eram mais caras',' diz Leonardo De Sá.

SÉRIES E FORMATOS

Quem tenha colecionado desde o início apercebeu-se de mu­danças, incluindo o facto de as aventuras de heróis mais populares passarem a ter princípio, meio e fim. Também não pode­rá ter deixado de notar que o formato tabloide original, pouco manuseável, foi reduzido naquilo a que os editores convencionaram chamar segunda sé­rie. Mais duas séries existiriam, sem que a numeração fosse alterada, até que depois do número 1.252, que animou a quinta-feira de 20 de setembro de 1973 a rapazes que tinham no hori­zonte a Guerra do Ultramar, teve início aquilo a que a Agência Portuguesa de Revistas chamou quinta série. E dessa vez, a 4 de outubro de 1973, regressou-se mesmo ao número um.

Aos últimos anos do Mundo de Aventuras ficou umbilical­mente ligado Jorge Magalhães, cujo entusiasmo pela banda desenhada o levara a assinar a revista em Porto Aboím, onde trabalhava no Instituto do Café, que fora transferido para Angola por decretodo ex-ministro do Ultramar Adriano Morei­ra. Era a forma de a conseguir ler sem os seis meses de atraso ha­bituais que as sobras de cada número demoravam a chegar à então província ultramarina.

Aproveitando uma licença graciosa de seis meses, que os funcionários públicos no Ultramar podiam gozar de quatro em quatro anos, entrou nos escri­tórios da Agência Portuguesa de Revistas no verão de 1973, recomendado por Vasco Granja, então diretor da revista Tintim Não era a primeira vez que o fazia. "Em 1959, ainda era menino e moço, mas já gostava de escrever, fui à redação do Mundo de Aventuras, em Campo de Ouri­que, e mostrei alguns dos meus contos de aventuras a José de Oliveira Cosme" recorda à Do­mingo o homem de 76 anos que foi o responsável pela revista até ao fim, quando ainda tinha uma tiragem de dez mil exemplares.

HERÓIS E POLICIÁRIO

Mário de Aguiar tinha desfeito a sociedade, deixando a Agência Portuguesa de Revistas - com dezenas de publicações, que iam da Crónica Feminina à ci­néfila Plateia - nas mãos de António Dias e António Verde (pai de Rui Verde, futuro vice-reitor da Universidade Inde­pendente), sendo este último o director 'formal' do Mundo de Aventuras.

Estando Jorge Magalhães sem nada para fazer, começou a relizar traduções. "Eram pagas por ba­lão, à terça-feira, e não era mau" recorda. Chegou a ter passagem para Angola, onde deixara "a livralhada encaixotada", pois ti­nha em vista a transferência para o Lobito. Deu-se o 25 de Abril e ficou com um lugar de revisor, que depressa acumulou com o de coordenador editorial do Mundo de Aventuras.

"Pedi logo o mapa de vendas, para ver quais eram os heróis que vendiam mais", recorda. Não teve surpresas: Mandrake, O Fantasma, Flash Gordon e Rip Kirby eram garantia de es­coamento da tiragem, então nos 25 mil exemplares. Nos tempos do PREC escapou às pressões, mesmo ouvindo protestos con­tra o "colonialismo" de Tarzan ou o "imperialismo" de Johnny Hazard. "Os heróis mais con­testados foram deixados à sombra dos outros" comenta.

Revitalizar a revista envolveu introduzir novos heróis, recu­perar talentos (incluindo José Baptista e Augusto Trigo), e en­contrar colaboradores, como Artur Varatojo e o Sete de Espa­das, grande dinamizador da secção Policiário cujos encontros juntavam centenas de lei­tores em várias partes do País.

O declínio começou nos anos 80, por "má gestão empresa­rial" após a morte prematura de António Dias, em 1976. Pouco antes, convencera-o a aprovar um número especial de Natal, "pois tinha um trunfo na man­ga" que era a predileção do ad­ministrador pelas histórias do Príncipe Valente.

"No final era desolador ver aquela casa a afundar-se" la­menta Jorge Magalhães, que só saiu quando a Agência Portu­guesa de Revistas fechou por­tas. Uma nova administração ainda a tentou recuperar, mas o Mundo de Aventuras e outras publicações, já só vivem nas memórias de quem os leu. 

 




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domingo, 24 de Agosto de 2014

GAZETA DA BD #30 – NA GAZETA DAS CALDAS – TEX WILLER – O RANGER DO TEXAS – O “western” mais antigo em publicação

Gazeta da BD #30, na Gazeta das Caldas, 22 de Agosto de 2014

TEX WILLER – O RANGER DO TEXAS
O “western” mais antigo em publicação
Jorge Machado-Dias

Tem estado à venda em Portugal desde o início do ano passado, o “Tex Gigante” (ou “Texone”, como lhe chamam em Itália) #27 – A Cavalgada do Morto, escrita por Mauro Boselli e desenhada por Fabio Civitelli. A distribuição das revistas de Tex por cá, e como os fãs bem sabem, é feita pela brasileira Mythos Editora. Acontece que as aventuras de Tex Willer – o cowboy que é um Ranger do Texas –, além de ser um dos westerns mais lidos em diversos países, é a série de aventuras deste género mais antiga em todo o mundo ainda em publicação, precisamente há 66 anos. Daí o interesse em contarmos aqui, em traços gerais, a história desta personagem da BD italiana (ou “fumetti”, no plural – “fumetto”, no singular, como em Itália se designa a BD) cuja primeira história foi publicada em 30 de Setembro de 1948, com texto de Giovanni (Gian) Luigi Bonelli e desenhos de Aurelio Galleppini.

Vejamos então um pouco da vida de Bonelli e como começou Tex: Com o fim do Estado Fascista e da II Grande Guerra Mundial em 1945, assistiu-se a uma frenética actividade nas editoras italianas de BD: um grupo de pequenas casas editoras, de características e estrutura artesanal, deu vida a uma grande produção de bandas desenhadas originais italianas, tornando quase irrelevante a importação dos comics americanos, que foi regra durante a guerra. A grande mudança dá-se com a adopção de um espírito filo-americano – em voga em Itália depois da libertação – pelos velhos heróis “italocentricos”. Em 1946 Bonelli, baseado no êxito de Mandrake, cria Ipnos e pouco depois, com a Serie d’oro Audace (1948), começa a sua colaboração com Aurelio Galleppini, produzindo Occio Cupo, um “fumetto” inspirado nos romances de Dumas, que não teve grande sucesso dada a fraca aceitação dos temas de capa e espada.

Mas o ano de 1948 marcaria para sempre a vida de Gian Luigi Bonelli. Por ser um grande admirador das histórias do velho oeste americano, Bonelli cria, em parceria com o desenhador Aurelio Gallepini, a personagem Tex Willer – inicialmente Tex Killer. As histórias desta personagem eram editadas numa revistinha semanal de formato peculiar, designado por striscia – tira em italiano – com 17 x 8 cm (parecendo uma caderneta de cheques) fino e pequeno, com apenas 32 páginas e uma tira por página, que despertou um grande interesse dos leitores italianos, projectando G. L. Bonelli nacional e internacionalmente. A primeira história de Tex intitulava-se Il Totem Misterioso.

Quando Tea Bonelli, a mulher de Gian Luigi, tomou em mãos a direcção e administração da casa editorial (que mudaria de nome várias vezes) começaram a ser tentados outros formatos, agrupando as histórias publicadas em tiras, que foram sendo reeditadas, num formato mais parecido com o que são hoje as revistas mensais de Tex, com 13,5 x 17,5 cm (mais pequeno que um A5) e três tiras por página.

Mais tarde, quando o filho de Gian Luigi e Tea, Sergio, passou a dirigir a editora, dando-lhe mesmo seu nome actual (Sergio Bonelli Editore), os formatos foram sendo mantidos, embora novas revistas se tenham iniciado, como o Texone – ou Tex Gigante, que referimos no início, com um formato 18,5 x 27,5 cm (próximo do A4) e cerca de 242 páginas. Esta série tem a particularidade de ser anual e ter como convidados para o desenho das histórias, grandes nomes da banda desenhada mundial, como Guido Buzzelli, Victor De La Fuente, José Ortiz, Joe Kubert, Manfred Sommer, etc...

Voltando ao início deste texto – falemos um pouco de A Cavalgada do Morto, publicado em Itália em Junho de 2012, pela Sergio Bonelli Editore, no Brasil, em Outubro de 2012, pela Mythos Editora e distribuído em Portugal (obviamente a edição brasileira) em Janeiro de 2013. A revista tem 242 páginas, sendo que as primeiras 18 são preenchidas por textos de Graziano Frediani (O Pincel Fez Clic!) – sobre Fabio Civitelli –, outro de Gianmaria Contro (Fabio Civitelli: Um Fotógrafo no Oeste) – uma entrevista com o desenhador –, finalizando esta introdução um texto de Graziano Frediani (A Terra dos Pesadelos Adormecidos) – sobre a lenda que deu origem a esta história - e ainda as biografias condensadas de Giovanni Luigi Bonelli, Aurelio Gallepinni, Mauro Boseli (o argumentista de A Cavalgada do Morto) e de Fabio Civitelli.

A tradução de todos os textos para a edição brasileira (incluindo o da história) são de Júlio Schneider, adaptados por Dorival Vitor Lopes e a letragem esteve a cargo de Marcos Valério.

Tendo como principal fonte de inspiração a lenda de “El Hombre Muerto”, em que o fantasma de um vaqueiro mexicano assassinado e decapitado, cavalgava de noite nas terras entre o sul do Texas e o norte do México, transportando a sua própria cabeça presa à sela do cavalo e aterrorizando quem se aventurava por aquelas paragens. Alguns pormenores desta história de Tex Willer, levam-nos a pensar que haja também alguma influência, no texto de Boselli, do conto clássico de Washington Irving, publicado em Portugal com o título A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, embora a base seja, seguramente, a lenda mexicano-texana.

Nesta edição #27 do Tex Gigante, destacamos a excelência do desenho de Fabio Civitelli que, apesar do clacissismo do traço – especialmente nas figuras de Tex (que tem que ser sempre parecido com o protótipo desenhado inicialmente por Aurelio Gallepini em 1948) e dos seus parceiros – desenvolveu uma moderna versão do clássico “pontilhismo” da BD italiana, combinado com o “claro-escuro”, que dão a esta história um ambiente quase surreal. De referir que Civitelli já esteve por quatro vezes em Portugal, como convidado, nos Festivais de Beja e da Amadora e nos Salões de Moura e de Viseu.

O Tex #1 – tipo “caderneta de cheques”, publicado em 30 de Setembro de 1948

Nota do Kuentro: o texto publicado na Gazeta das Caldas teve de ser ligeiramente cortado devido ao condicionalismo do espaço disponível.

SEQUÊNCIA DE QUATRO PRANCHAS DE
A CAVALGADA DO MORTO

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A revista TEX MENSAL de Agosto 2014


DADOS ACTUAIS NO SITE DA SERGIO BONELLI EDITORE

TEX nº 646 
Periodicità: Mensile (Periodicidade: Mensal) 

IL GUERRIERO IMMORTALE (O Guerreiro Imortal

Uscita (saída): 07/08/2014 
Sceneggiatura (Argumento): Pasquale Ruju 
Disegni (Desenho): Ernesto Garcìa Seijas 
Copertina (Capa): Claudio Villa

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sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

A REVISTA BRASILEIRA CAFÉ ESPACIAL COM AUTORES PORTUGUESES

A REVISTA BRASILEIRA 
CAFÉ ESPACIAL 

Café Espacial é uma revista de banda desenhada brasileira, editada por Sergio Chaves (na Cidade de Marília – Estado de São Paulo), que também conta com publicação de contos, entrevistas e artigos sobre cinema e fotografia. A sua primeira edição foi lançada em Outubro de 2007.

A revista foi indicada duas vezes para prémios no Festival de Angoulême e já ganhou diversos prémios brasileiros, como o Troféu HQ Mix de melhor publicação independente de grupo (quatro vezes, entre 2009 e 2012) e o Troféu Bigorna de 2008 como melhor fanzine/revista independente.

Em 2012, a 11ª edição da revista foi viabilizada através da plataforma de financiamento colectivo Catarse. Foi alcançado o valor de R$ 5.621,00 = € 1.800,00 (do pedido original de R$ 5.000,00), utilizados para custos de impressão e transporte de gráfica. Os colaboradores ganharam edições da revista, adesivos, posteres e outros brindes.

A revista Café Espacial também já promoveu eventos culturais, como Cafeína Pura (evento de música realizado na cidade de Marília) e Prove Um Gole (exposição internacional de quadrinhos em homenagem aos cinco anos da revista, realizado em Marília, Beja e Buenos Aires).

No início deste ano recebemos três números da Café Especial, enviados por Sergio Chaves, ao qual agradecemos. São eles o #10 (Out/Dez, 2011), #11 (Outubro de 2012) e #12 (Primavera de 2013) – sendo que os dois primeiros contam também com a participação de Susa Monteiro (#10 com A Cidade dos Outros) – e de Paulo Monteiro (com Para Lá dos Montes e Mortos não Dançam) – sendo a capa de Susa Monteiro e o terceiro com a participação de André Oliveira e André Caetano (com Milagreiro).

Um dos autores brasileiros que participa em todos estes números é Laudo Ferreira Jr., que esteve no Festival de Beja deste ano.

Capa com desenho de Susa Monteiro



Susa Monteiro 
(A Cidade dos Outros - sob um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen):


Paulo Monteiro:


Paulo Monteiro (Para Lá dos Montes):


André Oliveira (arg.) e André Caetano (des.):


Laudo Ferreira Jr.:


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