domingo, 12 de julho de 2015

GAZETA DA BD #45 NA GAZETA DAS CALDAS - VINTE ANOS DEPOIS DA MORTE DE HUGO PRATT CORTO MALTESE REGRESSA COM NOVOS AUTORES


Gazeta da BD #45
10 de Julho de 2015

Jorge Machado-Dias

VINTE ANOS DEPOIS DA MORTE DE HUGO PRATT
CORTO MALTESE REGRESSA 
COM NOVOS AUTORES


Há quem diga que, sobre Hugo Pratt, já tudo foi dito e escrito. Que nada mais haverá a acrescentar! No entanto a nostalgia leva-nos sempre a relê-lo e, quer queiramos, quer não, a escrever de novo sobre a sua obra e a sua vida. E o que nos encanta sobretudo, é descobrir, a cada abordagem, que a sua vida é ainda mais empolgante que a sua obra, por muito grandiosa que consideremos esta. Chegamos sempre à conclusão que Corto Maltese é um pálido retrato de Hugo Pratt. Mesmo que na altura, como escreveu Umberto Eco, no jornal l’Espresso de 4 de Setembro de 1995, nos tivéssemos que conformar porque, se Hugo Pratt desaparecera, restava-nos ainda Corto.

E passaram já quase vinte anos desde que, em 20 de Agosto de 1995, Pratt morreu de cancro num hospital de Pully, perto de Lausana, aos 68 anos. Mas nestes vinte anos, nem Corto nos fez esquecer o seu criador.

Lembro-me que foi um choque quando li, a 21 ou 22 de Agosto de 1995, no jornal Público, que Pratt havia morrido. Primeiro porque estava a aproveitar as férias para ler De l’autre côté de Corto, um livro com as entrevistas que Dominique Petitfaux foi fazendo a Pratt durante quatro anos, entrelaçando a obra na vida do autor, num testemunho impressionante, ainda para mais, acompanhado de dezenas de fotografias e desenhos inéditos. E nesse livro, onde Hugo Pratt me soava com uma voz límpida, fluente e um discurso desassombrado, passando em revista a sua vida, de repente (quando consegui retomar a leitura, passadas semanas) assumiu a perspectiva de uma voz lúgubre, de além túmulo, de alguém que, penitentemente e a muito custo se confessa.

Desde a descoberta de Corto Maltese na revista Tintim portuguesa, que acompanhei muito esporadicamente e, para ser sincero, sem muito interesse, durante sete ou oito anos da década de setenta (se não estou em erro, a revista Tintim começou a publicar O Segredo de Tristan Bantam no Verão quente de 1975, quando me encontrava na tropa e a situação política do país não era a ideal para ler banda desenhada), depois passando pela revista (A Suivre), e de seguida com os álbuns das Edições 70, onde li então na íntegra os episódios anteriormente publicados na Tintim e aos quais não tinha prestado grande atenção. Diga-se que não prestara grande atenção nem, sinceramente, me agradara muito o traço. Mas, do traço de Hugo Pratt, pode dizer-se o mesmo que um conhecido anúncio dizia da cerveja Sagres: primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Mais tarde (1986/87), como desenhador gráfico das Edições 70, teria o prazer de legendar A Casa Dourada de Samarcanda, Tango Argentino (sempre me opus a este Argentino ridículo no título, mas não era eu que mandava) e A Juventude de Corto Maltese, para além de alguns álbuns da série Escorpiões do Deserto.

Desde então coleccionei tudo o que era publicado de e sobre Pratt e, verdade seja dita, acabei por perder quase tudo. Curiosamente o único livro que me restou (se calhar por causa do seu estado lastimável), foi um exemplar da primeira edição portuguesa de A Balada do Mar Salgado, de 1982, edição Bertrand. Esse exemplar servira como prova, para emendas ao texto, com vista a uma 2ª edição que nunca veio a ser feita pela Bertrand e encontra-se literalmente coberto de apontamentos a lápis, pelo revisor.

Hugo Eugenio Pratt nasceu em 15 de Junho de 1927, perto da praia do Lido de Ravenna perto de Rimini, onde os seus pais costumavam passar o Verão. Era filho de Rolando Pratt um francês de origem inglesa e da italiana Eveline Genero, de Veneza. Hugo contou que durante a infância em Veneza, com quatro ou cinco anos, costumava acompanhar a avó de visita a uma amiga, Bora Lévy, que habitava uma muito antiga casa no Velho Ghetto de Veneza. É das recordações desta vivência e dos posteriores conhecimentos que Pratt adquire, que será construído o lado esotérico de Corto Maltese, os seus conhecimentos da Cabala, da Gnose, os nomes terríveis das sete portas... É da janela da cozinha da senhora Bora Lévy, que o jovem Hugo vê o velho pátio coberto de ervas e de musgos, chamado o Pátio Secreto, dito do Arcano e que aparecerá, muitos anos mais tarde, em Fábul
a de Veneza.

Respondendo a uma pergunta de Dominique Petitfaux no livro atrás citado, a resposta de Pratt foi clara: “Não me choca nada que um dia, alguém possa voltar a desenhar Corto Maltese” – disse certa vez Hugo Pratt.

E assim, exactamente vinte anos depois da morte de Hugo Pratt, o marinheiro solitário retorna agora ao serviço. Por ironia do destino, são dois ibéricos os escolhidos para ressuscitar o herói do mestre italiano: o castelhano Juan Díaz Canales (nascido em Madrid, 1972), argumentista de Blacksad e o desenhador catalão Ruben Pellejero (Badalona, Barcelona, 1952), ilustrador de Dieter Lumpen, que não nos parece sair-se nada mal no confronto com o estilo característico de Hugo Pratt.

O novo álbum Corto Maltese, Sous le soleil de minuit, deverá estar à venda em França a 30 de Setembro de 2015.

A primeira prancha de Corto Maltese, Sous le soleil de minuit


Juan Diaz Canales e Ruben Pellejero, Barcelona, Janeiro 2014

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