segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

BDPRESS #467 – TALCO DE VIDRO DE MARCELLO QUINTANILHA – EDIÇÕES POLVO – NO EXPRESSO

BDpress #467

No EXPRESSO
31de Dezembro de 2015
Texto de José Mário Silva

TALCO DE VIDRO
Marcello Quintanilha
Polvo, 2015, 160 págs, €14,90


Há uns meses, a Polvo deu-nos a conhecer, na sua excelente coleção de "romance gráfico brasileiro", o penúltimo trabalho de Marcello Quintanilha: "Tungsténio". Nesse livro, que tem Salvador da Bahia como cenário, acompanhamos histórias cruzadas de traficantes de droga e polícias, choques sociais e dilemas psicológicos, num fluxo de acontecimentos muitíssimo bem trabalhado, linear na sua estrutura mas com uma série de rasgos visuais que lhe conferem uma certa sofisticação narrativa. Na verdade, faltava a "Tungsténio" apenas um final a mais forte, capaz de fazer jus à espantosa energia que atravessa todo o álbum. Com "Talco de Vidro", a sua mais recente novela gráfica (publicada no Brasil já em 2015), Quintanilha. supera-se e oferece-nos uma obra que não se parece com nenhuma outra. Se um dos aspetos mais interessantes do livro anterior era o modo como o autor explorava a interioridade das personagens, os seus pensamentos e pulsões (sobretudo no caso de Keira, figura da amante que se questiona, à beira da rutura sentimental), esse mergulho na psique é levado agora muito mais longe - na verdade, é levado até às últimas consequências. No centro de "Talco de Vidro" está Rosângela, uma mulher de classe média-alta, com uma vida aparentemente perfeita: marido atencioso, filhos adoráveis, uma profissão (é dentista, com consultório próprio), casa no melhor bairro de Niterói, um bom carro. Esta harmonia é desfeita quando o sorriso radioso da prima pobre e de vida desgraçada, com quem sempre manteve uma distância feita de preconceito social (e respetiva ilusão de superioridade), lhe instiga a sensação de que Daniele, afinal, tem algo que lhe escapa, um qualquer inapreensível e inacessível talento para ser feliz. A inveja pura e dura lança-a num turbilhão autodestrutivo, em que a sua personalidade, de tanto querer eliminar fantasmas e inseguranças, acaba por se desagregar e cair a pique num caos existencial. O esquivo narrador de Quintanilha, ele próprio cheio de dúvidas e hesitações no modo como nos conta o que se passa na cabeça de Rosângela (um território de "sensações", mais do que de pensamentos), consegue o prodígio de nos fazer sentir, na sua crueza extrema, as oscilações e abismos de um estado mental. O triunfo maior do livro, porém, está no modo como um texto tão fugidio, por vezes quase rarefeito, se articula exemplarmente com as imagens - ora realistas ora abstratas; umas vezes captando pormenores em zoom, outras inserindo ecos e memórias, ou materializando estados de alucinação, indícios de loucura.


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