quinta-feira, 18 de outubro de 2012

BDpress #375: EMILIO SALGARI PASSA PARA BD POR MÃO PORTUGUESA



EMILIO SALGARI PASSA PARA BD
POR MÃO PORTUGUESA

Diário de Notícias, 24 de Setembro de 2012

Em 'Os Piratas do Deserto', Santos Costa adapta pela primeira vez em banda 
desenhada em Portugal um livro do criador de Sandokan e do Corsário Negro 

Eurico de Barros 

Foi lido e elogiado por Umberto Eco, Borges, Neruda, Fellini ou Garcia Márquez, e 'Che' Guevara levou livros dele para a Síerra Maestra durante à guerrilha em Cuba. No passado dia 21 de agosto, assinalaram-se os 150 anos do nascimento do italiano Emilio Salgari, que empolgou várias gerações de leitores com dezenas e dezenas de livros de aventuras passadas nas paragens mais distantes e exóticas do mundo, e que criou heróis como Sandokan ou o Corsário Negro. A coincidir com a efeméride, acaba de sair Os Piratas do Deserto, de Santos Costa, a primeira adaptação 'para banda desenhada (BD)em Portugal de um romance do prolifero escritor Itália no; feita por um desenhador (também escritor, ilustrador e cartunísta) nos seus tempos livres de funcionário público, agora já reformado.

"Esta aventura foi originalmente publicada no Mundo de Aventuras, em dezembro de 1986, e agora levou uma nova versão, mais ampliada", conta o autor. "Afinal passaram-se 26 anos e tive que adaptar o traço para a obra ser mais homogénea. Eram 32 pranchas que agora foram transformadas em 165. E, graças à editora, Os Piratas do Deserto 'cai' mesmo na comemoração dos 150 anos do nascimento do Emilio Salgari - e no ano passado, passou o centenário da sua morte".

O álbum, onde um aristocrata corso e o seu fiel criado se aventuram no deserto do Sara, em busca de uma expedição desaparecida, adapta dois livros de Salgari, A formosa judia e Os Piratas no Deserto. "Esta obra foi uma das que sofreu uma maior corruptela por parte do editor português do Salgari, a Romano Torres, que fazia edições populares e muito baratas", explica Santos Costa. "Eles condensaram os dois livros num só volume e alguns capítulos foram amputados. Por isso, tive o cuidado de dizer no álbum que é uma adaptação livre da obra de Salgari, e porque também fiz a adaptação de maneira a que alguns episódios que não interessassem muito poderem sair sem deturpar o curso da história" .

O tipo de aventura, o traço do desenhador e o preto e branco dão a Os Piratas do Deserto um sabor nostálgico e tradicional, a contrapelo da maioria da BD de hoje. Uma intenção confirmada pelo autor. "É um álbum a contracorrente, sim. Mas eu, quer na BD, quer no cinema, nem sempre acompanho a maré e o público leitor e cinéfilo pode desejar que haja alguma coisa do passado que ainda seja feita hoje. E esta BD é a preto e branco porque também há ainda hoje alguns filmes que o são. É uma opção estética porque se enquadra na obra original, que é do século XIX, com um assunto do século XIX. Não podia ser de outra maneira, a cores não fica tão bem. E o deserto, a colorido, daria uma cor quase uniforme. O preto e branco fica muito melhor".

Admirador de Hugo Pratt, Santos Costa diz não ter "propriamente um estilo". "O meu desenho é um desenho saído muitas vezes quase espontâneo, intermédio entre a BD franco-belga e alguns autores ingleses". Para ele, "a BD e a escrita são apenas complementos, quase um vício que procurei sempre manter, às vezes com sacrifício meu e da família. Nunca pus a opção de ser um autor de BD a tempo inteiro, nem consegui ser um autor consagrado. E mesmo que conseguisse, não conheço autores portugueses que sobrevivam apenas desta arte. Não se consegue ser um profissional de BD a tempo inteiro. Isto não quer dizer que Portugal não seja um país que não acarinhe os seus autores. Mas é um país que, no âmbito que atingiu a 9.a Arte, é muito limitado".

Santos Costa gostava de desenhar outro livro de Emilio Salgari, A Montanha de Luz; "que foi a primeira
tradução dele editada em Portugal, um ano antes da sua morte, em 1911". "Não estou a planear nada, por causa das condições do nosso mercado, mas gostava que Os Piratas do Deserto não fosse o primeiro e último romance do Salgari a ser adaptado para BD em Portugal", diz.

Os Piratas do Deserto 
Santos Costa 
ASA (176 páginas) 12,50€ 




_____________________________________________________________

 
Locations of visitors to this page