domingo, 21 de outubro de 2012

DISTRIBUIÇÃO, O ETERNO PROBLEMA DO MERCADO EDITORIAL PORTUGUÊS (recorte de imprensa – Público 31, 08, 2012)




DISTRIBUIÇÃO, O ETERNO PROBLEMA
DO MERCADO EDITORIAL PORTUGUÊS

 (recorte de imprensa – Público 31, 08, 2012) 

Por Isabel Coutinho 

Há uma década faliu a DigLivro, que era na época a maior distribuidora portuguesa. Este ano, a CESodilivros foi declarada insolvente. Os editores voltam a tentar encontrar soluções. Umas estão a correr melhor do que outras.

A história repete-se. Com a insolvência da distribuidora CESodilivros, uma associação entre a Coimbra editora e a Sodilivros, várias dezenas de editoras portuguesas ficaram com dívidas e viram os seus livros desaparecer das livrarias e hipermercados durante meses. Umas optaram pela distribuição própria e outras tiveram de encontrar alternativas. Há uma década, o mercado livreiro português passou por uma situação parecida. Em 2001 faliu aquela que era considerada na época a maior distribuidora portuguesa, a DigLivro, e logo no ano seguinte fechou a Audil.

"Falência de distribuidoras leva editoras à distribuição própria", era o título de um artigo que saiu no PÚBLICO em 2002, onde se dava conta da situação difícil que então atravessavam a Relógio D"Água e a Assírio & Alvim. Se numa década a edição mudou muito em Portugal, com a criação dos grandes grupos, parece que a distribuição está a passar pelas mesmas dificuldades. E as soluções parecem ser as mesmas.

Há uma década os livros da Antígona eram distribuídos pela DigLivro. Quando esta foi à falência, o editor Luís Oliveira perdeu dinheiro. "Fiquei lá com 100 mil euros", lamenta. Agora a história repetiu-se. Tanto a Antígona como a Orfeu Negro estavam a ser distribuídas pela CESodilivros. "Ficaram a dever-nos muito dinheiro e não nos entregaram os livros", explica. "Estamos a tratar disso com os advogados, mas entretanto fizemos uma distribuidora. Segundo Luís Oliveira, a sua editora ficou a haver da falida CESodilivros 40 mil euros e 15 mil livros. O gestor de falência já lhe terá garantido que a Antígona reaverá os cerca de 4500 livros entregues à consignação, mas a devolução dos restantes irá ainda ser negociada. "Como comecei a distribuir os meus livros, equilibrei a vida e não tenho pensado muito nisso", diz o editor. "Estou concentrado na edição".

Tanto a Antígona como a Orfeu Negro - que é agora uma empresa independente da Antígona - contrataram um comercial e um "empregado para o armazém para fazer entregas e embrulhos" e fizeram novos contratos com as cadeias de livrarias. "Até aqui está a funcionar bem", conclui Luís de Oliveira.

Tanto o grupo Leya, como a Babel, a Porto Editora e a Editorial Presença têm distribuição própria. A Distribuidora de Livros Bertrand, que faz parte do Grupo Bertrand/Círculo, cujos activos pertencem ao Grupo Porto Editora, distribui, além dos livros das editoras do seu grupo, as edições da Alêtheia, da Tinta-da-China, da Saída de Emergência e da Esfera dos Livros (que para lá se mudou depois da falência da CESodilivros), entre outros. Com a falência da CESodilivros, a Planeta passou a ser distribuída pela Lojista. A Guerra & Paz, as edições Nelson de Matos e ainda a Objectiva e Alfaguara, ambas do Grupo Santillana, passaram a ser distribuídas pela VASP, considerada a maior distribuidora de publicações a operar no mercado português.

A insatisfação do escritor

Há semanas, o escritor Valter Hugo Mãe desabafou na sua página oficial no Facebook a insatisfação que sente pela forma como o grupo Santillana, que lhe edita os livros em Portugal, resolveu o problema da falência da distribuidora CESodilivros, optando por ser distribuída pela VASP. Contactado pelo PÚBLICO, o escritor explicou o seu descontentamento com a situação. O Filho de Mil Homens, o seu último romance, foi publicado no final de Setembro. Até Dezembro foram feitas 5 edições. "A partir de Fevereiro e até Julho deixou de existir, e a minha expectativa era que continuasse no mercado", diz. "Vivo dos direitos de autor, e se não tenho livros à venda, não recebo salário", explica. "Os meus últimos livros a serem colocados no mercado tê-lo-ão sido em Janeiro; a partir de Fevereiro, os livros voltaram a desaparecer e só apareceram no mercado outra vez no fim de Julho". Mas, acrescenta, "em Agosto, em alguns sítios, ainda não apareceram: uns existem, outros não existem". O escritor diz que, ao longo do tempo, foi fazendo perguntas e que as respostas que foi tendo" foram nenhumas, se não várias promessas de datas de colocação que não se cumpriam". Alexandre Vasconcelos e Sá, director da Santillana em Portugal, confirma que tiveram "o azar" de a distribuidora que utilizavam ter ido à falência e de isso só lhes ter sido comunicado no início do ano. "É verdade que, por acharmos que isso podia acontecer, o nosso mês de Dezembro se calhar não foi tão forte como poderia ter sido", reconhece. "Tivemos alguma cautela reduzindo o programa editorial e ficamos com uma dívida; não só nós, mas outras editoras que eram distribuídas pela CESodilivros", explica.

Embora tudo isto tenha causado "um rombo gigante na editora", Alexandre Vasconcelos e Sá diz que, em contacto com os autores, foram sempre tentando "ver a situação da melhor maneira possível". Tinham, "felizmente", alguns livros distribuídos: "os autores principais não ficaram sem livros no mercado, mas como os livros se vendiam bastante bem, houve uma altura em que foram rareando e mudamos de distribuidora". A escolha que fizeram, na direcção da Santillana e da Objectiva em Portugal, juntamente com a Santillana em Espanha, foi pela VASP, uma distribuidora especializada em livros e revistas.

Valter Hugo Mãe realça que não está em conflito com a direcção editorial, com quem tem uma relação de amizade sincera e com quem tem vontade de continuar a trabalhar, mas considera que "a editora, ao nível das cúpulas da administração, tomou decisões relacionadas com a distribuição que são um tiro no pé". Os contratos que o escritor tem para os diversos livros acabariam daqui a mais um tempo, mas está "com intenção de os rescindir por incumprimento por parte da editora". No entanto, diz ao PÚBLICO: "Enquanto não deixar as coisas esclarecidas com a Objectiva, não vou fazer nada, mas o meu descontentamento é suficientemente grande para eu sair da editora". E acrescenta: "Gostava que a administração pudesse recuar em muitas decisões".

Alexandre Vasconcelos e Sá assume que nem tudo correu bem neste processo. "É verdade que não começámos a cem por cento em todo o lado, porque era uma área nova para a VASP, mas estamos a tentar a toda a hora que seja o mais eficiente e o melhor possível", diz.

Ao longo dos anos tem crescido no mercado editorial em Portugal o poder negocial do retalho (dos pontos de vendas em geral, das cadeias de livrarias e das grandes superfícies) e tem aumentado a distribuição directa feita pelos editores. "E isto tem tido consequências", diz Miguel Freitas da Costa, secretário-geral da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL). Houve uma diminuição na clientela dos distribuidores e uma quebra nas suas receitas. "Por um lado passou a haver muitas editoras a fazer a sua própria distribuição e, por outro, ao aumentar o poder negocial do retalho, as margens das distribuidoras foram-se estreitando", explica. É um círculo vicioso: "quando as livrarias começam a pedir descontos maiores, e a ter capacidade para exigir esse desconto, obrigam os distribuidores a subir os preços para os editores. À medida que esses preços sobem, também se torna cada vez mais importante para os editores fazerem a sua própria distribuição. "Os distribuidores têm limites para o que podem subir nos preços. "Ficaram apertados entre os editores e o retalho, com cada vez mais poder de negociação", acrescenta. Zita Seabra, directora editorial da Alêtheia Editores, explica o processo. Actualmente, em Portugal, os livros são vendidos a firme com direito de devolução. Por exemplo, um editor faz três mil exemplares de um livro, coloca no mercado 2800 e, passado meio ano, pode ter de regresso à editora 2700 exemplares: ou seja, vendeu 100. "O distribuidor recebeu do livreiro aquele valor, pagou ao editor esse valor e depois vai acertar as contas com os livros seguintes; e teve ainda despesas de transporte e de logística que são muito caras". O normal no mercado mundial é a parte logística ser comum aos editores e até ser comum a outras entidades que não têm nada a ver com livros. A editora lembra o caso de França, em que os editores se associaram à distribuição de águas engarrafadas, e em outros sítios houve associações com a distribuição de tabaco ou de cerveja.

"Em Portugal há pouca tradição de associação em logística: há muito a mentalidade de que o segredo ainda é a alma do negócio, quando a associação e a partilha de custos é que são a alma dos negócios no tempo actual", diz Zita Seabra.

A negociação tem de ser sempre individual, um contrato entre determinado editor e o mercado; agora onde se armazenam os livros - que é o que leva à falência os distribuidores - e quem vai buscar os livros, e quem os entrega em cada livraria ou hipermercado, essa deve ser uma logística que deve ser comum, defende a editora. "O que faz correr este risco às distribuidoras é precisamente os livros irem e voltarem, e o custo que isso tem", diz. "Às vezes ainda voltam para a Feira do Livro e depois para saldos". Para "lançar mais confusão neste debate sobre a distribuição, também é preciso lembrar que estamos já a falar um bocado do passado, porque o caminho neste momento é para o livro digital", adverte Zita Seabra. "Vai acontecer aquilo que aconteceu com os discos: a certa altura, a distribuição já é tão complicada, que tudo fica mais fácil tendo uma rede de distribuição via Internet", conclui a editora, que já tem ebooks à venda na Amazon.com, na iBooks da Apple e no próprio site da editora Alêtheia.


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