terça-feira, 20 de maio de 2014

JOBAT NO LOULETANO — MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (171-172) — JESUS BLASCO — CUTO — HERÓI DE UMA GERAÇÃO (8 e 9) por Jorge Magalhães



MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(171-172) 

O Louletano, 11 | Maio | 2009


Ao volante de um velho automóvel, Cuto percorre pa­chorrentamente as pradarias desérticas do Oeste americano e encontra, numa volta do caminho, dois peles-vermelhas que parecem tão reais como os do tempo da colonização. Cuto arregala os olhos de espanto: estará a sonhar ou aqueles índios pertencerão a algum circo ambulante?

A partir deste prólogo, Blasco constrói o enredo com mão de mestre, servindo-se de um artifício para fechar o ciclo tem­poral e logicamente. É claro que Cuto nunca viveu aventuras no passado — mesmo quando "desen­terra" ci­vilizações desapa­recidas, como em "O Mundo Perdido" —, mas nin­guém dá por isso antes dele voltar ao deserto e sucum­bir, deli­rando, sob as flechas vingativas de "Falcão Veloz", o novo chefe dos Sioux.

Em seguida, surge uma imagem insólita: o espírito de Cuto (vítima inocente do genocídio cometido contra os índios) subindo para as alturas celestiais, ao encontro do seu velho amigo Slim. Quando ele "ressuscita", ao som da buzina do seu calhambeque, como se ouvisse as próprias trombetas do Juízo Final, o leitor sente-se joguete de uma dupla ilusão. É como se Cuto, vencido pela fatalidade, pelo destino, depois de nos empolgar com a sua coragem e a sua audácia, viesse dizer-nos, numa inesperada reviravolta, que também era fraco, humano, vulnerável, desmistificando-se pela primeira vez a si próprio. O mesmo Cuto que vencera Wa'oka, o feroz e indomável che­fe dos Sioux, e conseguira conquistar a simpatia de rudes pioneiros como Ta'tanka e o velho Slim, ao ponto deste de­clarar que ele era "o diabo em pessoa".

A sequência surrealista da mor­te de Cuto — rasgo figurativo em que alguns querem ver influências de Salvador Dali — é digna de ombrear com as imagens mais oníricas e de sombria beleza que a Banda Desenhada produziu até hoje. Raras vezes um herói foi submetido a tantos "tratos de polé", quer nas mãos dos índios quer nas dos bandidos, acabando mesmo por ser vítima de uma morte cujos aspectos trágicos (incluindo a mutilação ritual, ao perder o seu escalpe) abalaram profundamente os leitores d'O Mosquito, embora tudo não tivesse passado de um sonho, habilmente dissimulado ao longo de quase uma centena de números.

Creio que muitos não se es­queceram desta "partida" de Blasco. E a verdade é que Cuto nunca mais voltou a ser o mesmo. "Nos Domínios dos Sioux" seria a última etapa de um ciclo inspirado e glorioso, em que figuram as suas melhores aventuras.

Regressado à realidade e ao século XX, o nosso herói parte para novas aventuras, prometendo que "da próxima vez não será sonho". Mas esta despedida é como uma piscadela de olho cúmplice. Se o desfecho fosse diferente, a história perderia todo o seu rico conteúdo simbólico. »»


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O Louletano, 8 | Junho | 2009


Aperfeiçoando cada vez mais a sua técnica, Blasco construiu uma narrativa elíptica, com "flash-backs" e acções paralelas, sem descurar o sentido rítmico da montagem, cla­ramente cinematográfica (veja-se, por exemplo, a luta entre Cuto e Urso Vermelho, o filho de Wa'oka, coreografada com grande fluidez de movimentos).

Sob os traços fortes e vigorosos de Jesús Blasco, desfilam também, num fundo panorâmico (pouco usual nas histórias aos quadradinhos da época), as solitárias paisagens do velho Oeste — serenas e majestosas, mesmo quando servem de palco ao desalento de Cuto, profundamente abalado pela morte trágica do velho Slim — e os índios, os búfalos, as diligências, os cavaleiros galopando através da pradaria.

Contada quase em forma de balada, "Nos Domínios dos Sioux" é uma história que associa a aventura ao romantismo, o drama à epopeia. Só muitos anos mais tarde a BD "western" alcançaria, na Europa, um nível estético, lírico e temático análogo a esta memorável criação de Jesús Blasco.

Apesar da enorme popularidade que conquistara entre os leitores d'O Mosquito, Cuto ia seguir novos rumos. Algum tempo depois de terminar "Nos Domínios dos Sioux", deu-se uma repentina cisão entre os dois directores e fundadores da revista, António Cardoso Lopes e Raul Correia. O primeiro perdeu o título, mas ficou com as oficinas da Travessa de S. Pedro, em Lisboa, onde em finais de 1948 começou a imprimir o seu novo sonho: O Gafanhoto.

O n° 10 anunciava com grande destaque o regresso de Cuto... mas um Cuto diferente, que envergava garbo­samente um uniforme de auxiliar do Exército Americano — outra espantosa metamorfose, atendendo à sua idade juvenil. "Cuto em Nápoles" (história já publicada no nosso jornal) era mais uma abordagem de Blasco à 2ª Guerra Mundial, tornando ainda mais concreta a relação de Cuto com a história do seu tempo e com os Aliados, ao serviço dos quais voltaria a aparecer em "Estrela Negra" e "O Junco de Sing".

Cardoso Lopes sabia que Cuto era um excelente trunfo para O Gafanhoto, capaz de fazer concorrência ao próprio Mosquito. As tiragens confirmaram-no quando no n° 21 teve início "O Caso dos Rapazes Desaparecidos", uma aventura de cariz policial em que Cuto regressa às origens, isto é, ao cenário urbano, por excelência, dos filmes de "gangsters": Nova Iorque.

O cinema americano foi, aliás, uma das principais fontes de inspiração de Jesús Blasco, que com este trabalho inicia uma série de aventuras mais actuais de Cuto, fundindo um estilo já totalmente amadurecido com o ambiente dos anos 50 e o realismo puro da acção. »»


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(4 e 5)


(Continua...)

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