quarta-feira, 19 de agosto de 2015

NAU NEGRA – THE LAST BLACK SHIP – DE FERNANDO RELVAS




NAU NEGRA – THE LAST BLACK SHIP
DE FERNANDO RELVAS


Nau Negra – The Last Black Ship
Fernando Relvas
Texto em inglês
Edições El Pep, Preço €17,00
El Pep Store & Gallery - Lx Factory
Rua Rodrigues Faria, 103 - Edifício I, Piso 0 - Espaço 0.01D.5
Alcântara
Lisboa 

Foi finalmente lançado, no passado sábado, o novo livro de Fernando Relvas, Nau Negra – The Last Black Ship, na El Pep Store & Gallery - LX Factory. Aqui ficam o texto de apresentação, do próprio Relvas e algumas páginas.

Texto de apresentação de Fernando Relvas:

Nau Negra é uma obra de ficção em banda desenhada e não uma tentativa de reconstituição histórica.

É, contudo, sustentada por referências históricas concretas e procura dar uma ideia do ambiente da época, ainda que de modo ligeiro.

Charles Ralph Boxer é, neste campo, a principal fonte de inspiração e, sobretudo, uma ampla fonte de informação.

Os acontecimentos desta história foram tirados da sua obra “O Grande Navio de Amacau”. São eles o destino trágico da nau Madre de Deus capitaneada por André Pessoa e destruída à saída de Nagasaki, depois de três dias de luta em Janeiro de 1610, e as peripécias registadas por Richard Cocks, feitor inglês de Hirado, da nau Nossa Senhora da Vida, capitaneada por Lopo Sarmento de Carvalho, oito anos depois.

Boxer, nas suas obras, dá-nos mais do que uma possível interpretação das informações que colheu.

Para este enredo, criei mais uma. A ideia de um aventureiro japonês surgiu ao deparar com uma fugaz referência à presença de japoneses entre os corsários de Argel, nas primeiras décadas de 1600, escondida numa nota de rodapé em “O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico” de Fernand Braudel.

Não sabia eu, então, que a presença de japoneses nos mares dessa época era muito maior do que uma ideia enraizada, a do Japão-país-fechado, nos faz crer. Porém, a ideia do japonês aventureiro, o barqueiro da história, talvez tivesse sido esquecida ao fim de algum tempo se eu não transportasse comigo, na bagagem, uma antiga publicação sobre os biombos namban do Museu Nacional de Arte Antiga. Foram as imagens dos biombos que me mantiveram agarrado, durante anos, à ideia de fazer esta história.

Os melhores biombos namban do Museu Nacional de Arte Antiga, feitos no Japão no princípio do século XVII e que representam a chegada de navios portugueses, são um trabalho complexo e podem ser incluídos na lista das mais bem conseguidas narrativas gráficas que se conhecem. Não é um trabalho apenas decorativo, como se espera de um biombo, não é simples caricatura para entreter ou exclusivamente um relatório ou reportagem sobre um determinado acontecimento, são sobretudo várias histórias em torno de episódios de um acontecimento. Quando comparados com as detalhadas ilustrações que os artistas japoneses fizeram, uns séculos mais tarde, da chegada dos navios americanos, e que se aproximam muito claramente da informação militar, percebe-se que a intenção é mesmo fazer um filme que torne acessível ao observador japonês não só informação técnica e militar, como também comportamental.

Para quem a saiba ler, cada um daqueles narizes compridos é uma bandeira espetada num pedaço de informação. Cada um conta uma história ligeiramente diferente, mas talvez mais humana e acessível, até caricatural, dentro de um conjunto que, por sua vez, é radicalmente diferente daquele a que é destinada a mensagem, pintado por convenções sociais e enquadramento técnico, por vezes interpretados ao pormenor.

Exceptuando o sermão do frade italiano, tirado de um texto de Frei Tomé de Jesus, de finais do século XVI, não fiz qualquer esforço para preservar o discurso da época, mas deixei bem visíveis as ansiedades de classe dos portugueses, através da manipulação um pouco arbitrária dos pronomes de tratamento.

Convém, ainda, para compreender os europeus da época, lembrar que o banho era francamente impopular, que a crença nas relíquias de santos e mártires era uma febre mórbida e devoradora, que o martírio, por cruel que fosse, era tido em grande glória e mesmo provocado, que a tortura e a execução eram apreciados espectáculos públicos, que as chacinas cometidas nas guerras religiosas da época eram tidas como exemplos a emular, que foram tempos de escravatura desenfreada e brutal, defendida em nome do realismo económico, e que, no Oriente, escravos até os havia nas comitivas de guarda-costas e espadachins dos portugueses abastados.

Existem várias referências à presteza com que os japoneses lidavam com situações de perigo. Como este excerto duma carta de Diogo do Couto, referindo-se a um episódio em que os portugueses assistiam passivos ao roubo da sua fazenda pelos holandeses, datada de Goa, 23 de Dezembro de 1605:

“(…) e andando os olandezes em terra tomando entrega della, e os nossos Portugueses da náo com maõs amarradas sem fazerem nada, enfundio deos nosso senhor Animo em quinze ou vinte Japõis Christãos, que aly estavao em huma soma, e aleuantando hum cruxifiçio Remeterão com suas catanas aos olandezes e mataraõ a mor parte delles, e daquelle caminho logo se forão embarcar em huma soma e se forão.”

A propósito de cortes de orelhas, antiga punição legal que criou a categoria de “desorelhados”, e com a mesma naturalidade com que fala de degolações e de cabeças empilhadas, narra António de Oliveira Cadornega na “História Geral das Guerras Angolanas”: “(…) dizião os Antigos Conquistadores fora tanta a matança em aquele basto gentio que mandára o nosso Conquistador a Portugal dous Barris de seis Almuzes de narizes e orelhas do gentio que se havia morto naquellas batalhas e recontros (…)”

Por seu lado, conta Frei Paulo da Trindade, na abundante descrição de martírios e milagres que são os três grossos volumes da “Conquista Espiritual do Oriente”, a propósito duma particular relíquia dos mártires do Japão, que podia muito bem ser semelhante à que o frade italiano trouxe discretamente para bordo:

“(…) um italiano chamado João Baptista, colheu em um chapéu muito sangue do Comissário e dos bem-aventurados mártires (…) e depois o lançou em um bule de porcelana e o guardou, e nove meses depois do martírio (…) se quebrou a vasilha onde o sangue estava, o qual foi achado líquido e sem nenhum mau cheiro, como consta do testemunho que disto se tomou.”

Respeitou-se a informação contida nos biombos, em relação às naus. Há três tipos de naus representadas nos principais biombos namban, uma mais antiga, atribuída a Kano Domi, com dois castelos saindo sobre a proa e popa do navio, típico das naus do século anterior, mas que são tão cómicos que é duvidoso que o artista tenha chegado a ver alguma delas, e duas outras atribuídas a Kano Naizen, em que o castelo de proa, mais discreto, já vem na continuação do casco e prolonga-se pelo beque, e em que a superestrutura da popa ou é quadrada ou exibe uma tentativa de modernização, alta e com um final muito estreito.

Escolhi esta para a nau mais recente, em que decorre a história, e aquela para a nau da batalha. Quanto ao perfil das galeotas, parece-me possível que variasse entre as linhas da galé e do pataxo. Escolhi dar à que aparece aqui uma forma de pequeno pataxo, tal como é referido em texto da época. Em qualquer dos casos, não se procurou tratar as embarcações em pormenor, ou com exagerado rigor.

A solução encontrada pelos passageiros da nau para escapar ao navio corsário holandês, ou seja, adiar a viagem por um ano, esperando que ele então já lá não esteja, não é de estranhar, pois era prática corrente não sair enquanto houvesse inimigo na costa. A atitude passiva dos portugueses, já comentada desfavoravelmente na carta de Diogo do Couto, justifica-se em parte pelas conhecidas capacidades náuticas dos navios norte-europeus, ao ponto de André Furtado de Mendonça, Capitão-Mor e Geral do Mar do Sul, em carta de Amboino, de 10 de Maio de 1602, comparar o seu próprio navio a um ponto de aguada em terra:

“(…) e indolhe dando caça hum pedaço (…) e não ter outro velame para meter nas vergas, e as naus ingresas serem tão ligeiras que com o papafigo de proa sem outra nenhuma vella dado, hião desapareçendo de nos, surgi em paragem (…); visto estar desenganado que a mais ligeira nao de minha companhia em comparação da dos Ingreses fica sendo o morro d’Angediva; mas ao que Deus ordena não ha poder fugir (…)”



  



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