segunda-feira, 18 de setembro de 2017

BDpress #481 – CAMINHAR – João Ramalho Santos – no JL Jornal de Letras, Artes e Ideias

BDpress #481

CAMINHAR

João Ramalho Santos

 JL Jornal de Letras, Artes e Ideias, 13 Setembro 2017

O interesse mais generalizado pela banda desenhada japonesa ("mangá") no ocidente relacionou-se, numa primeira instância, com material que servia de base a desenhos animados. De tal modo que muitos olhavam inicialmente para o "mangá" (com as suas particularidades narrativas e gráficas, ritmos alucinantes e desenho esquemático tipificado, sobretudo nas figuras humanas) como algo menor. Porque não há nada mais atreito a estigmatizar do que estigmatizados. Não foi só um autor a mudar essa percepção, mas não há dúvida que a carreira de Jiro Taniguchi (1947-2017), talvez o mais "ocidental" dos "mangaka", contribuiu para isso, como atenta, entre muitos outros reconhecimentos, ter sido nomeado Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras em França em 2011.

Em Portugal, e para além de outros livros, basta sinalizar que o recente lançamento de O homem que passeia pela Devir é já a segunda versão desta obra, desta feita editada no sentido de leitura original (do "fim" para o "princípio" do livro, e da direita para a esquerda na página), embora a diferença a esse nível seja mínima; se é que existe, a não ser que se leia em japonês (por algum motivo se fala em "tradução"). Seja como for, esta é uma obra importante que quem não conhece deve conhecer, e os "poemas gráficos" de Taniguchi são mesmo muito recomendáveis para leitores atentos que dizem não.gostar de BD.

Em O homem que passeia há dois tipos de relatos curtos (nunca são bem "histórias"), a maioria poder-se-ia designar como "domésticos", os últimos três centrados em mulheres (agora) ausentes. Em qualquer caso com um protagonista anónimo que (re)descobre recantos familiares ou subúrbios desconhecidos caminhando, encontrando paisagens, locais e gente anónima, fazendo recados concretos, ou vagueando ao acaso. Nestas histórias contemplativas de espírito quase "zen" onde se parece passar muito pouco (e com muito poucas palavras) há dois elementos que chamam a atenção.

Primeiro, o detalhe no desenho primoroso a preto e branco (na antítese dos clichés sobre "mangá"), criando um universo que o argumento, a uma primeira vista, não parece pedir, mas que por isso mesmo se torna tão vivo e profundo.

Segundo, o facto de um leitor não conseguir deixar de projetar naqueles momentos algo de si mesmo, quanto mais não seja para preencher a história: do protagonista que caminha; tentar entender (ou inventar) o que, literal e figurativamente, o move. Se há momentos em que há vontade de entrar sem hesitações no universo, e nos rendermos à serenidade meditativa que emana das páginas, outras há em que a vontade é ficar de fora, imaginar os segredos ou frustrações que o protagonista também deve carregar consigo, e que sublinha caminhando.

Esta última leitura surge mais nas últimas histórias, porquanto mais concretas ao nível de um argumento convencional. Se bem que só a última, o. relato do sabor a perda que ficou de uma relação adúltera, entretanto terminada, se aproxima de uma forma mais convencional; contando também com um desenho mais contrastante e menos detalhado, de certo modo a vincar a diferença também do ponto de vista gráfico. Nas restantes voltamos a passear por quotidianos presentes ou perdidos, reais ou (ligeiramente) imaginados, tendo como ponto comum uma presença feminina que serve como pretexto para divagações mentais e temáticas, como um espelho dos percursos aleatórios de protagonistas que parecem buscar experiências novas ou memórias adulteradas, perdidas há muito tempo atrás.

As historias de Jiro Taniguchi não são propriamente "simples". Quer dizer, são se o leitor assim quiser, e dependendo do que nelas quiser projetar. Sobretudo, convidam a andar, relembram que o caminho pode ser bastante mais interessante que o destino.

Espera-se que este caminho editorial da Devir, a prometer novas obras de referência em termos de BD japonesa, seja igualmente bem-sucedido. JL

O Homem que Passeia, inaugura a Tsuru, nova colecção da Devir


Jiro Taniguchi (1947-2017)

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