sábado, 21 de outubro de 2017

BDpress #482 - NO PÚBLICO, 19 Outubro 2017-10-20
A CORRIDA MAIS LOUCA DE ASTÉRIX


NO PÚBLICO, 19 Outubro 2017-10-20
Nos 40 anos depois da morte de René Goscinny (5 de Novembro de 1977)

A CORRIDA MAIS LOUCA DE ASTÉRIX
ASTÉRIX E A TRANSITÁLICA 
de JEAN-YVES FERRI e DIDIER CONRAD 

É o 37º volume das aventuras de Astérix, Obélix e os restantes gauleses. Falámos com o argumentista e o desenhador que tomam conta da saga desde 2013

Entrevista - Rodrigo Nogueira

Depois de Astérix entre os Pictos, de 2013, e O Papiro de César, saído dois anos depois, o argumentista Jean-Yves Ferri e o desenhador Didier Conrad voltam à carga com uma aventura de Astérix, o gaulês, criado por René Goscinny e Albert Uderzo em 1959. Desta feita, em Astérix e a Transitálica, que sai hoje em Portugal editado pela Asa/LeYa ao mesmo tempo que no resto do mundo, Astérix, Obélix e Ideiafix embarcam numa corrida que atravessa Itália (de onde a família de Uderzo era originária), num plano aprovado por César para atestar a superioridade das vias romanas. É, dizem os próprios autores, um regresso paródico ao ambiente de filmes dos anos 1970 e 1980 como A Corrida Mais Louca do Mundo e Mad Max. Ferri e Conrad estiveram em Lisboa na segunda-feira para promover o lançamento do álbum.

Ambos começaram a trabalhar em livros originais, agora continuam o trabalho de outras pessoas. Como é que isso funciona?

Jean-Yves Ferri – Bem, é preciso dizer que lemos o Astérix em jovens e portanto esse estilo não nos era desconhecido. E passou um bocado para os nossos genes.

Mas como é a adaptação de um modo para o outro?

Didier Conrad – Nós os dois não temos a mesma experiência.

O Didier já tinha feito o Lucky Luke antes do Astérix, o JeanYves não tinha trabalhado neste registo antes de 2013 ...

D.C. – Sim, o Lucky Luke, o Marsupilami ... e, por prazer, fiz uma série de álbuns num estilo muito hergéniano. Mudei de estilo como quem muda de língua, pode-se exprimir coisas diferentes. E o estilo do Uderzo permite muito o que é emocional, que envolve acção, de uma maneira particular. E põe alguém a pensar de uma forma diferente.

Jean-Yves Ferri (sentado) e Didier Conrad (em pé) na livraria Buchholz em Lisboa

J.-Y.R. – Isto acaba por ser um exercício criativo. Se julgamos estar a fazer algo menos criativo do que nos nossos próprios livros? Não, porque é preciso reinventar, não é copiar. É recriar uma história que seja realmente nova a partir de material antigo. É um trabalho de criação que tem constrangimentos, mas é criativo por si só.

D.C. – E os constrangimentos, sobretudo, envolvem ser-se avaliado por toda a gente em comparação com o original. Se tu fazes algo com o teu estilo pessoal, podes acabar e dizer que está bem como está - porque foste tu quem criou, quem delimitou, quem sabe o que se podia fazer de melhor. A zona de conforto não é a mesma.

Sempre houve, e continua a haver, referências actuais nas histórias. Como é que se actualiza, enquanto se continua, um estilo com quase 60 anos?
J.-Y.R. – O que Goscinny criou foi uma aldeia gaulesa, intemporal, que pode servir de suporte a temas bastante modernos. Não está datada no tempo. É possível falar do espírito do tempo, da época de hoje, servindo-nos destas pequenas personagens, todas tipos bem definidos, o chefe, o músico que canta, o religioso.

D.C. – É um estilo de banda desenhada em que todas as formas são feitas pelo criador, não pelas pessoas que a praticam. É feita para ser acessível a qualquer leitor.

Qual é o limite?

J.-Y.R. – O limite é não falar da actualidade ainda quente. No terrorismo, por exemplo; se um dia quisermos abordar esse tema no Astérix, será através de piratas, por exemplo, mas de uma maneira que não se possa ligar a um facto específico, porque é preciso ter em atenção que isso torna-se antiquado bastante rapidamente. É preciso que seja engraçado de ler, mesmo que não se percebam as referências.

Albert Uderzo aprova o que vocês fazem?

J.-Y.R. – Ele encoraja-nos e não intervém nos álbuns. Só fez um comentário, que foi pôr um ponto num i. E achámos que ele exagerou. É a ditadura. (risos)

Há elementos nos livros originais que não seriam tão bem recebidos hoje – por exemplo, as personagens de origem africana, que continuam a existir, são estereótipos que o mundo não reconhece da maneira que o fazia há 60 anos.

D.C. –
No desenho não podemos mudar - por exemplo, não podemos pôr o Astérix com lábios grandes. As ideias é que as podemos apresentar de uma maneira diferente. Se virmos como é que as mulheres são tratadas nos livros originais, têm uma imagem próxima das donas de casa dos anos 1960. Não as podemos tratar da mesma maneira, seria bizarro.

J.-Y.R. – O olhar sobre a diferença mudou. É verdade que na época do Goscinny se usavam os lábios grossos e não havia problemas. Hoje, vive-se uma época em que há uma crítica que provavelmente não conhece os livros e aproveita a ocasião para apontar e dizer: "Ah, a imagem dos negros!" É rebuscado, porque o Astérix é muito conhecido, é um símbolo e estão a tentar aproveitar-se disso.

D.C. – [Em O Papiro de César] As pessoas tiveram um problema com o Babá [vigia dos piratas], que não sabe ler e dizem que é um estereótipo dos negros que não sabem ler. E, de facto, há escritores- fantasma negros no livro. O leitor que fez essa reflexão não leu, viu um detalhe e apontou. São estereótipos. E é o estilo da série. Se um certo estereótipo fosse usado e outro não, seria um pouco bizarro.

J.-Y.R. – Goscinny ria-se sobretudo dos gauleses. São os primeiros a serem caricaturados.

Goscinny era alguém com um enorme amor pelo cinema, que era uma influência grande na obra dele, e depois uma arte que ele perseguiu. Que influências de filmes tiveram para fazer este livro?
J.-Y.R. – Pensei nos filmes dos anos 1970 e 1980, de ralis e rotas, um tipo de cinema como a A Corrida Mais Louca do Mundo ou Mad Max. Este livro é um bocado uma caricatura disso.

D.C. – A mim o cinema não me influencia particularmente, o máximo foi o Ben-Hur, por causa dos carros.


 
Desenhos preparatórios e prancha publicados por Pedro Cleto no seu blogue http://asleiturasdopedro.blogspot.pt/2017/10/leitura-nova-asterix-e-transitalica_14.html


 
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