quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

BDPRESS (RECORTES DE IMPRENSA) #112 – Luís Chambel na “Voz de Ermezinde”, sobre Rui Lacas e “Asteroid Fighters”, João Miguel Lameiras no “Diário As Be


A Voz de Ermesinde, 30 de Janeiro de 2010

RUI LACAS: ASTEROID FIGHTERS – SUPER-HERÓIS À PORTUGUESA

Luís Chambel

Publicado pelas edições ASA em 2009, o primeiro tomo de “Asteroid Fighters” revela-nos uma estória que se insere na tradição dos comics de super-heróis norte-americanos.

Mais uma vez a ideia parte de uma situação histórica apocalíptica para o planeta, em que após terríveis cataclismos, se edifica uma nova ordem que beneficia de guardiães dotados de poderes super-especiais.

Uma deriva relativamente ao guião mais comum é que estes poderes super-especiais resultam não tanto de um acidente ou de uma programação externa ou de super-competências derivadas de aptidões particulares, mas do desenvolvimento planeado e continuado a favor de uma elite de super-soldados capazes de proteger o planeta.
É no grafismo, atiramos nós, que se encontrarão os maiores trunfos de “Asteroid Fighters”. Rui Lacas demonstra aqui uma grande capacidade de produzir situações e personagens muito expressivas, mostrando-se completamente à vontade quer nos ambientes de fantasia tecno-futurista, quer nos quotidianos mais aparentados com o “presente” que conhecemos.

“Asteroid Fighters” tem início com o colapsar da civilização terrestre, tal como a conhecemos, e a emergência, em função da necessidade de interajuda, do primeiro governo global, a União Global: «Novas ideias foram debatidas, as dívidas perdoadas e todos eram iguais. O importante já não eram os países, mas sim a Terra, o Ambiente, a ameaça de um novo asteróide».

Mas desta perspectiva igualitária e utópica, Lacas prossegue esboçando a perspectiva anti-utópica que fundamenta e justifica “Asteróide Fighters”, a criação de um monstro de que o autor não parece sentir a enormidade: «A Ciência tinha também um novo propósito: defender a Terra de ameaças exteriores! Rapidamente descobriu um melhor uso para a tecnologia nuclear.../ A vida na Terra já havia sido ameaçada... Não nos podíamos dar ao luxo de ser atingidos outra vez. Muitos se ofereceram como voluntários, e um novo Exército Global foi formado. Os recrutas eram submetidos a treinos extremos... Os limites eram testados... e quebrados! / Foram os primeiros de um novo regimento, onde só os melhores tinham lugar... / foram os primeiros Asteróide Fighters». São pois estes os bons da fita da série agora apresentada por Rui Lacas em “Asteroid Fighters – O Início”.

Se as questões civilizacionais e reflexivas sobre a construção da sociedade comum aqui aparecem mais ou menos esboçadas, o resto do livro é um puro exercício de “combates de boxe”.

Se é evidente que o tom geral de “Asteroid Fighters” obriga a que este não seja levado muito a sério, esboçando-se sempre uma atmosfera complexa entre o delirante, o histriónico e o épico, também não deixa de ser notória, por exemplo, a incipiente proposta de mal apresentada aqui pelos super-vilões.

O plano destes parece ser, pura e simplesmente, a destruição do planeta, usando para tal o disparo de uma série de asteróides artificiais criados por eles. Mas, ao mesmo tempo, presume-se, sucumbindo também aos ataques, como terroristas suicidas sem qualquer objectivo de nova ordem ou de redenção por uma eventual submissão ao divino ou ao que quer que fosse, apenas a destruição pura e simples, um programa que não tem sequer que ver com qualquer perspectiva nihilista.

Apreciado o guião, voltemo-nos então para o grafismo. E aqui já não nos atreveríamos a ser tão críticos, antes pelo contrário.

Rui Lacas desenvolve aqui um estilo de narração muito expressivo, animado e eficaz.
Isso começa logo a notar-se pelo trabalho de organização das pranchas, que é muito inventivo e funcional, no sentido em que serve às mil maravilhas o enredo que pretende ilustrar.

A criação de tipos humanos é feliz, as paisagens e arquitecturas surgem com bastante força e efeito de verosimilhança, os pormenores de natureza cinética estão muito bem expressos e equilibrados, nada a apontar também no capítulo da coloração, que é perfeita para o fim que se tem em vista.

Enfim, para dizer a verdade, ficámos com a ideia de que Rui Lacas dispersa erradamente o seu talento, dispersando-se por áreas em que revela fragilidades várias, em vez de se concentrar naquilo que demonstra aqui inequivocamente, sabe fazer muito bem: a arte gráfica, área em que aqui sim, demonstra toda a sua competência criativa e narrativa, muito engenho e segurança.

Também é provável que ao propor uma história um pouco ao sabor da mainstream dos comics de grande consumo, o autor visasse fazer-se notar em busca de uma possibilidade de carreira. Mas se o conseguir, tal só ficará a dever-se mesmo aos seus dotes enquanto muito bom desenhador.

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Diários As Beiras, 30 de Janeiro de 2010

Jodorowsky explora o filão do Incal - Parte I

João Miguel Lameiras

Depois de “Castaka” e a “Casta dos Metabarões”, a Vitamina BD acaba de editar mais dois álbuns que exploram o universo criado por Moebius e Jodorowsky na série “O Incal”, verdadeiro mito fundador do Universo em BD de Jodorowsky, que o argumentista chileno tem explorado das mais diversas formas, com diferentes desenhadores. Esses álbuns são “Os Quatro John Difool”, primeiro volume da série “Incal Final”, com desenhos do mexicano José Ladronn e “As Armas do Metabarão”, um álbum isolado ambientado no universo da série “A Casta dos Metabarões”, com desenhos de Travis Charest e Zoran Janjetov, de que falarei na próxima semana.

Conhecido em Portugal essencialmente pelo seu trabalho como argumentista de Banda Desenhada, Alejandro Jodorowsky é muito mais do que isso. Verdadeiro homem do Renascimento, este filho de judeus emigrantes russos, nascido no Chile em 1929, foi actor, mimo (discípulo de Marcel Marceau), tarólogo de renome, responsável com Philipe Camoin pela restauração do Tarot de Marselha, criador de uma nova técnica terapêutica chamada psicomagia, poeta, escritor, dramaturgo, encenador, fundador do grupo surrealista Panique (com Fernando Arrabal e Roland Topor) e realizador de cinema, que encontrou na BD a forma ideal de fazer chegar ao grande público as histórias que quer contar e que não conseguiu meios para o fazer no cinema.
Foi precisamente o falhanço da adaptação ao cinema do romance “Dune”, de Frank Herbert, que em 1975 lhe permitiu iniciar uma colaboração com a Moebius, na série O Incal. Obra que, conforme o próprio Jodorowsky refere: “representa tudo o que eu não consegui fazer em Dune. Há bocados inteiros do filme que foram inventados por mim. Eles estão todos no Incal.”

Depois dos 6 álbuns da série principal, desenhada por Moebius, a exploração do Universo do Incal continuou em várias direcções, com a prequela “Avant L’Incal” (Antes do Incal), desenhada por Zoran Janjetov, num estilo bastante colado ao de Moebius e com as séries paralelas “Les Technopéres” e “A Casta dos Metabarões”, que por sua vez deu origem à prequela “Castaka”, desenhada por Das Pastoras e a “As Armas do Metabarão”.

Em 2000, Jodorowsky lançou com Moebius a série “Aprés do Incal”, (prevista para 6 volumes, tal como os ciclos de “Incal” e “Antes do Incal”) que fecharia a trilogia dedicada ao Incal, mas que não passou do 1º volume, face à desistência de Moebius, o que levou Jodorowsky a repensar o projecto e a encontrar um desenhador que estivesse a altura de substituir Moebius. O artista que reuniu o consenso dos dois criadores foi o mexicano José Ladronn, que os leitores portugueses já conhecem da mini-série dos Inumanos publicada pela Devir em 2005 e que, para além de ter colaborado com Jodorowsky numa história curta publicada na última série da revista “Metal Hurlant”, já tinha desenhado as personagens da série “O Incal” nas capas que fez para a edição americana de “Avant L’Incal”.

E não há grandes dúvidas que a escolha não podia ser mais acertada. Basta reparar no pormenor que Ladronn põe em cada desenho e no seu excelente trabalho de cor, felizmente longe do colorido metálico usado na nova coloração do “Incal” e no “Depois do Incal”, desenhado por um Moebius pouco motivado e claramente em “piloto automático”.

Em termos de história ainda é cedo para saber o que nos vai trazer este “Incal Final”, que pouca coisa aproveita do argumento do descartado “Depois do Incal”, até porque Jodorowsky já declarou, numa entrevista à revista “Casemate, que o ciclo do “Incal Final” será composto por 6 álbuns, tal como os ciclos anteriores, ao contrário dos 2 volumes anunciados pela editora… Já quanto ao desenho, este novo ciclo está uns bons furos acima de “Avant L’Incal”, graças ao excelente trabalho de Ladronn, artista talentoso que faz uma interessante síntese entre os estilo mais “linha clara” usado por Moebius no “Incal” e o traço barroco de Juan Giménez, conseguindo criar algo novo e personalizado.

“Incal Final 1: Os Quatro John Difool”, de Jodorowsky e Ladronn, Vitamina BD, 64 pags, 14,50 €

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Jornal de Notícias, 2 Fevereiro 2010

JORGE COELHO, MAIS UM PORTUGUÊS A DESENHAR COMICS

F. Cleto e Pina

Chega esta semana ao mercado norte-americano e às lojas especializadas nacionais o segundo tomo de “Forgetless”, uma mini-série em 5 números editada pela Image, que conta entre os seus desenhadores o português Jorge Coelho.

"Forgetless é o nome de um clube nocturno exclusivo, que irá encerrar com uma última festa”, explicou o desenhador ao Jornal de Notícias, e “toda a trama gira em torno dos acontecimentos dessa noite, contada por um rol de personagens adolescentes, parte de uma bizarra fauna urbana”. E sublinha o cariz actual da história “que utiliza adereços contemporâneos como vídeos do YouTube, Tweets e SMS, via iPhone, para veicular a narrativa”.

Como ela “é contada por flashbacks, saltando entre o presente e o passado, o argumentista, Nick Spencer experimentou artistas diferentes para os diferentes ambientes e histórias dentro da trama geral”. Por isso, Jorge Coelho desenhou 16 pranchas para o segundo número agora disponível, outras tantas para o #4 e mais 8 para o volume final. Como usufruiu “de liberdade criativa, a nível visual”, trabalhou com uma “técnica particular” que tem vindo a usar: “desenho a lápis, arte-final tradicional, digitalização e modelação de luz/sombras por computador”, aplicando depois Eric Skillman as cores.

Entretanto, também esta semana fica disponível “Marvel Fairy Tales, que compila as revistas “Avengers Fairy Tales” #1-4, “Spider-Man Fairy Tales” #1 e “X-Men Fairy Tales” #2, algumas das quais desenhadas pelos portugueses Ricardo Tércio, João Lemos e Nuno Plati Alves. Nelas, o argumentista C. B. Cebulski revisitou contos tradicionais infantis como “O Capuchinho Vermelho”, “Pinóquio” ou “Peter Pan”, substituindo os protagonistas pelo Homem-Aranha, Capitão América, Thor ou Iron-Man.



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