quinta-feira, 16 de junho de 2011

A “MISSÃO” DE TINTA NOS NERVOS, SEGUNDO JOÃO RAMALHO SANTOS NO JL - PARTE 2


Este post é uma ligação a 
Bongop, o autor-editor do blogue Leituras de BD, que muito estimo, colocou aqui no Kuentro um comentário ao texto de João Ramalho Santos sobre a exposição Tinta nos Nervos, publicado originalmente no JL e no seu blogue “As Sequências Rebeldes” e que republiquei aqui no passado dia 7 de Junho, comentário esse que foi respondido de imediato por um insulto anónimo, sem qualquer sentido. O que levou o autor a retirar o dito comentário. Daí que se tenha reinstaurado o controlo de comentários no Kuentro e pedido a Bongop que republicasse o seu comentário.

Ele assim o fez. No entanto, como esse post já vai longe e atendendo à importância do assunto (não tão importante, claro, como a crise económico-financeira, a novela do novo governo, ou a eleição de um oportunista privado para a presidência da Assembleia da República...) resolvi chamar à primeira página esse comentário e... comentá-lo eu próprio, logo de seguida, esperando que alguma discussão se acenda por estas bandas.

Eis o Comentário de Bongop:

Eu tenho a minha opinião sobre o assunto e sobre a exposição, que vai exactamente contra a filosofia que presidiu a esta exposição. Gosto do Pedro Moura enquanto pessoa e como amante de BD, embora os gostos dele não sejam de maneira nenhuma os meus. Mas acho que quando se organiza uma exposição de BD se deve ter em conta os gostos de toda a gente, e o "comercial" deve estar bem representado, pois é esta parte que puxa mais gente para a BD, e não o género dito ou chamado "alternativo". Acho que há lugar para tudo, mas quando uma exposição tem apenas autores históricos da nossa BD (que eu aprecio) e o restante é tudo praticamente alternativo, a exposição passa a ser apenas para um círculo restrito de pessoas que gostam do género... quando falei em "orgia alternativa" não foi com intenção de ofender nem autores, nem o Pedro Moura! Pretendia apenas com essa expressão dizer que quase tudo eram autores desse segmento da BD, o que é curto e não representativo da nossa BD. Onde estão os autores emergentes, e que chatice... comerciais, se é que se pode dividir as coisas assim?

Um colega meu comprou há pouco tempo um livro de BD com um CD, e veio-me perguntar se em Portugal as pessoas não sabiam desenhar!

O que se passa é isto!

Se querem ter uma BD saudável em português têm de atrair o público geral, e não vale a pena chamar a "essa gente" de ignorantes! É essa gente que tem o poder de pôr a BD portuguesa em pé, e "essa gente" gosta de "desenhos bonitos", gosta de ver representado um cão como ele é e não a "alma" desse cão, que não tem nada a ver com a representação dele física! Porque para haver BD alternativa forte e de qualidade a vertente comercial tem de estar saudável. E garantidamente esta exposição não serviu para chamar e fazer gostar o grande público (que anda completamente alheado da BD) da nossa BD.

Podem-me dizer que teve milhares de visitantes, não sei, nem sequer acho isso importante neste momento, porque há muita gente que só vai a este tipo eventos "para parecer bem", e que se calhar não tem um único livro de BD em casa, e nem sequer está a pensar em comprar algum. É como o Amadora BD dizer que tem não sei quantos milhares de visitantes, mas a maior parte são crianças da escola em passeio, com o professor a puxá-los com força porque se quer despachar e está a apanhar uma grande seca.

É claro que posso estar completamente enganado e esta exposição tivesse como objectivo um público mais restrito e sabedor do assunto.

Mas mesmo que esse fosse o propósito, acho que estas oportunidades raras devem ser aproveitadas para propagandear a BD junto das massas e não afastá-las, com o estigma do "é só para intelectuais".

Não pretendo ofender ninguém! Estavam lá autores muito bons representados, apenas expressei a minha opinião, se eu tivesse os conhecimentos e as ligações certas (e dinheiro quanto baste) faria uma exposição de maneira completamente diferente.

Querem um exemplo muito bom de casamento entre a vertente alternativa e comercial?

Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja!

Neste festival há lugar para tudo! Por isso eu acho, neste momento, que é o melhor festival português de BD!

Quem tem o poder e a oportunidade que chame o "povo" para a BD.

Eu não tenho. Apenas escrevo, ou tento escrever, num blog tentando divulgar o mais possível a BD que por aí se faz. Não consigo fazer mais que isso.
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A opinião do editor do Kuentro:

Apesar de ter dito pessoalmente, que concordo com algumas das coisas que o Bongop diz neste texto, não quero dizer que concordo com o texto como opinião sobre a exposição Tinta nos Nervos – o que é substancialmente diferente.

Para começar, o Bongop diz que a sua opinião “vai exactamente contra a filosofia que presidiu a esta exposição” e não me parece, pelo que diz a seguir, que se tenha preocupado em ler o que fosse sobre essa filosofia. E ela está explícita nos textos de Pedro Moura, no Catálogo, no Programa desdobrável distribuido na exposição e até no seu blogue LerBD.

E o que diz Moura? No programa define logo ao que vem: “Apesar da sua historia e diversidade, a sua legitimação cultural não tem conhecido a mesma fortuna que áreas como as da fotografia ou do cinema, dado que a percepção social sobre ela lhe lança um denominador comum básico, assimilando-a à literatura de massas, ao entretenimento infanto-juvenil, ao escapismo, etc..” e depois, “Tinta nos Nervos é uma mostra de 41 artistas portugueses, na sua larga maioria ainda hoje activos, que exploram esta arte de um modo particularmente pessoal, expressivo e atento a questões estéticas contemporâneas. Em consonância com um número substancial de artistas internacionais, estes são alguns dos nomes na cena nacional que contribuem para uma contínua expansão e diferenciação enriquecedora das potencialidades artísticas do campo da banda desenhada. Mais ou menos afastados de um certo consenso da banda desenhada comercial: "de entretenimento", etc.. estas são obras que poderemos considerar como "bandas desenhadas de autor". A leitura poderá não ser completa, mas o acesso à arte original será uma forma de dar a conhecer um panorama alargado e diversificado, e estimular os visitantes a procurar as suas bandas desenhadas.” E isto resume, de maneira clara, o texto mais alargado, um pouco maçudo e mais académico, do Catálogo. Ou seja resume as intenções do organizador da exposição, sobre o que quis mostrar.

Já li num qualquer comentário crítico, que Tinta nos Nervos poderá ser até considerada “complementar” das que foram organizadas na Fundação Gulbenkian em 1997 e 2000 por João Paiva Boléo e Bandeiras Pinheiro, mas do que discordo em absoluto, uma vez que essas foram exposições “do Percurso Histórico” da BD portuguesa. Pedro Moura quis fazer-nos olhar para outra coisa: a “banda desenhada de autor”, que é feita, logo à partida, sem grandes intuitos comerciais. Aquilo a que poderemos chamar a banda desenhada adulta (não confundir com “para adultos”). E Moura foi buscar dois autores já falecidos (Bordallo Pinheiro e Carlos Botelho), exactamente porque “procuraram elevar a banda desenhada a uma linguagem adulta e inovadora artisticamente”.

Também não gosto de alguns dos autores escolhidos, mas posso perfeitamente discutir isso, porque os gostos também se discutem, ao contrário da falácia corrente, que serve apenas para encobrir certos tipos de ignorância geral – assim como existe a “cultura geral”, também existe a “incultura geral” e esta é muito mais generalizada que a primeira –, uma vez que os gostos se educam, podendo ser, aqueles que se adquirem sem qualquer suporte formativo (ou informativo), perfeitamente educados. E aí discordo do Bongop, porque não será nunca "o público em geral" - “essa gente a pôr a BD portuguesa de pé”, como ele diz. Isto com todo o respeito que me merecem os seres humanos em geral, mesmo aqueles que compram toneladas de revistas sobre tricas sociais, literatura de meia-tigela do tipo Margaridas Rebelo Pinto, Paulos Coelho e outros do género, que compram jornais desportivos em vez dos de informação geral, que passam fins-de-semana inteiros no Shopping e que levam os filhos a passear ao domingo aos Festivais de BD (a ver “bonecada para crianças e adolescentes”), quando não têm mais nada à mão e já estão um bocado cansados dos passeios no Shopping, e até dizem “ai que giro”, mas que depois passam pelas bancas de livros com ar de enfado, ou mesmo aqueles que compram banda desenhada com "desenhos bonitos", mas que seriam completamente incapazes de comprar American Splendor, Footnotes in Gaza, Persepolis ou Blankets (se tudo isto existisse em português, obviamente), por exemplo. E porquê?

Eu advogo que, para trazer o público português para a banda desenhada, é preciso mostrar TODA a banda desenhada que se produz neste país – mostrar que se produz também banda desenhada adulta e não apenas “bonecada para crianças, adolescentes e passadistas nostálgicos agarrados, agora como sempre, aos bonecos da adolescência”.

Claro que não quero colocar a tónica das escolhas de Pedro Moura num hipotético academismo, erro em que se cai, sabendo-se que ele é lincenciado em Estudos Portugueses, Mestre em Filosofia Estética (com a tese “Memória e Banda Desenhada Francófona Contemporânea”), porque isso seria limitar o campo de percepção e ignorar as ilações a que se pode chegar quando se analisa a banda desenhada portuguesa no seu todo. E esse todo passa obviamente pelo mercado. Contudo, não é pelas afirmações de Bongop que passa a solução do problema do mercado.

E sobre esta questão do mercado, leiam o texto de Sara Figueiredo Costa no Catálogo de Tinta nos Nervos, e até o meu humilde texto sobre Tinta nos Nervos, no BDjornal #27.

Como suporte, ou mesmo complemento ao texto de Pedro Moura no referido Catálogo, também aconselho a leitura do que lá escreveu Domingos Isabelinho. E talvez, lendo todos estes textos, se fique a perceber alguma coisa do que quis dizer acima.

Claro que sobre o Festival de Beja, especialmente sobre o deste ano, que considero um semi-fracasso, terei também alguma coisa a dizer. Mas isso será no BDjornal #28 e depois de falar, como sempre, com Paulo Monteiro.

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