segunda-feira, 25 de agosto de 2014

BDpress #427: A REVISTA ‘MUNDO DE AVENTURAS’ – CORREIO DA MANHÃ/DOMINGO


A REVISTA ‘MUNDO DE AVENTURAS’ 

  
Revista DOMINGO, do Correio da Manhã, 24/08/2014
Texto: Leonardo Ralha

QUANDO OS HERÓIS CHEGAVAM À QUINTA-FEIRA
PUBLICADA AO LONGO DE QUATRO DÉCADAS, 'MUNDO DE AVENTURAS' FOI A REVISTA QUE MAIS MARCOU A BANDA DESENHADA EM PORTUGAL

Ainda hoje, Carlos Alberto Santos não sabe como fi­cou ligado à história de Mundo de Aventuras, a revista de banda desenhada que marcou gera­ções de portugueses, pois foi publicada todas as semanas, entre 18 de agosto de 1949 e 15 de janeiro de 1987, com 1.841 edições cheias de heróis quase sempre importados dos EUA. Não foi o caso de A História Maravilhosa de João dos Mares, com textos de Augusto Barbosa, que o então adolescente de 16 anos ilustrou para o primeiro número, publicado há 65 anos, quando trabalhava para um estúdio gráfico e de publicidade.

Não foi a única colaboração do artista [plástico], autor dos famosos cro­mos da História de Portugal, com a duradoura publicação da Agência Portuguesa de Revis­tas, que começou por chamar-se O Mundo de Aventuras, mas logo perdeu o artigo inicial, mantendo a quinta-feira como o dia mais aguardado pelos jo­vens.

"Aquela que me deu mais satisfação, até porque o último trabalho será sempre o melhor, foi Camões, sua Vida Aventu­rosa, disse Carlos Alberto San­tos à Domingo referindo-se à história, publicada nos anos 70, sobre o autor de Os Lusíadas.

Quando nasceu, com 12 pági­nas por um escudo e meio, O Mundo de Aventuras concorria com O Mosquito e O Diabrete, mas foi uma 'pedrada no char­co' a marcar a diferença. "Na­quela altura, as revistas portu­guesas estavam muito antiqua­das" refere o arquitecto e espe­cialista em banda desenhada Leonardo De Sá, apontando inovações: "As histórias ameri­canas de aventuras agarravam a juventude, até porque tinham a dinâmica dos balões de diálo­gos, em vez do texto a aparecer abaixo das vinhetas."

Apesar de o conteúdo ser quase todo criado do outro lado do Atlântico, sucederam-se ‘apor­tuguesamentos’ alguns decor­rentes de chegarem aos escritórios de Lisboa os materiais que a King Features Syndic.ite tam­bém destinava a Espanha e à América Latina. Steve Canyon deu por si a chamar-se Luís Ciclón, passando de seguida a Luís Ciclone. Ainda mais es­tranho para quem encontre as edições dos primeiros anos nos alfarrabistas é ver Flash Gor­don a responder por Roldan, o Temerário e Johnny Hazard transformado em João Tem­pestade. "Havia algumas pressões da censura para que os nomes não fossem estrangeiros" diz Leonardo De Sá à Domingo. Daí resultaram "nomes que agora parecem caricatos" como o D. Enigma atribuído ao má­gico e hipnotizador Mandrake.

PARA MAIORES DE 17

Durante muito tempo, as histó­rias eram de continuação, pelo que em cada revista havia 10 a 20 aventuras de heróis diferentes, que prosseguiam na semana seguinte. De igual forma, nos números iniciais não havia uma capa propriamente dita, e as ti­ras corriam logo desde a primeira página.

"Havia algumas pressões da censura para que os nomes não fossem estrangeiros"
"As histórias agarravam a juventude, até porque tinham a dinâmica dos balões"
Leonardo De Sá
especialista em BD


A revista começou por ser dirigida por Mário de Aguiar – sócio de António Dias na Aguiar & Dias, mais tarde Agência Por­tuguesa de Revistas –, mas essa missão foi entregue a José de Oliveira Cosme a partir do nú­mero 20. O autor de As Lições do Tonecas rodeou-se de ta­lentos, como Roussado Pinto e o desenhador Vítor Péon, cuja saída, em meados dos anos 50, abriu caminho a Carlos Alberto Santos, encarregue de criar ca­pas apelativas, com o herói destacado nessa edição.

Embora a Comissão da Cen­sura para a Literatura Infantil te­nha feito aparecer na capa, em 1950, a menção "semanário ju­venil para maiores de 17 anos" os leitores do Mundo de Aventuras tendiam a ser mais novos.

No Portugal do Estado Novo, as histórias de ficção científica, ou passadas em ambientes exóti­cos, eram a escapatória perfeita. "Comprava-se por alguns tos­tões e ficava-se com a revista, enquanto num filme ou no tea­tro as entradas eram mais caras',' diz Leonardo De Sá.

SÉRIES E FORMATOS

Quem tenha colecionado desde o início apercebeu-se de mu­danças, incluindo o facto de as aventuras de heróis mais populares passarem a ter princípio, meio e fim. Também não pode­rá ter deixado de notar que o formato tabloide original, pouco manuseável, foi reduzido naquilo a que os editores convencionaram chamar segunda sé­rie. Mais duas séries existiriam, sem que a numeração fosse alterada, até que depois do número 1.252, que animou a quinta-feira de 20 de setembro de 1973 a rapazes que tinham no hori­zonte a Guerra do Ultramar, teve início aquilo a que a Agência Portuguesa de Revistas chamou quinta série. E dessa vez, a 4 de outubro de 1973, regressou-se mesmo ao número um.

Aos últimos anos do Mundo de Aventuras ficou umbilical­mente ligado Jorge Magalhães, cujo entusiasmo pela banda desenhada o levara a assinar a revista em Porto Aboím, onde trabalhava no Instituto do Café, que fora transferido para Angola por decretodo ex-ministro do Ultramar Adriano Morei­ra. Era a forma de a conseguir ler sem os seis meses de atraso ha­bituais que as sobras de cada número demoravam a chegar à então província ultramarina.

Aproveitando uma licença graciosa de seis meses, que os funcionários públicos no Ultramar podiam gozar de quatro em quatro anos, entrou nos escri­tórios da Agência Portuguesa de Revistas no verão de 1973, recomendado por Vasco Granja, então diretor da revista Tintim Não era a primeira vez que o fazia. "Em 1959, ainda era menino e moço, mas já gostava de escrever, fui à redação do Mundo de Aventuras, em Campo de Ouri­que, e mostrei alguns dos meus contos de aventuras a José de Oliveira Cosme" recorda à Do­mingo o homem de 76 anos que foi o responsável pela revista até ao fim, quando ainda tinha uma tiragem de dez mil exemplares.

HERÓIS E POLICIÁRIO

Mário de Aguiar tinha desfeito a sociedade, deixando a Agência Portuguesa de Revistas - com dezenas de publicações, que iam da Crónica Feminina à ci­néfila Plateia - nas mãos de António Dias e António Verde (pai de Rui Verde, futuro vice-reitor da Universidade Inde­pendente), sendo este último o director 'formal' do Mundo de Aventuras.

Estando Jorge Magalhães sem nada para fazer, começou a relizar traduções. "Eram pagas por ba­lão, à terça-feira, e não era mau" recorda. Chegou a ter passagem para Angola, onde deixara "a livralhada encaixotada", pois ti­nha em vista a transferência para o Lobito. Deu-se o 25 de Abril e ficou com um lugar de revisor, que depressa acumulou com o de coordenador editorial do Mundo de Aventuras.

"Pedi logo o mapa de vendas, para ver quais eram os heróis que vendiam mais", recorda. Não teve surpresas: Mandrake, O Fantasma, Flash Gordon e Rip Kirby eram garantia de es­coamento da tiragem, então nos 25 mil exemplares. Nos tempos do PREC escapou às pressões, mesmo ouvindo protestos con­tra o "colonialismo" de Tarzan ou o "imperialismo" de Johnny Hazard. "Os heróis mais con­testados foram deixados à sombra dos outros" comenta.

Revitalizar a revista envolveu introduzir novos heróis, recu­perar talentos (incluindo José Baptista e Augusto Trigo), e en­contrar colaboradores, como Artur Varatojo e o Sete de Espa­das, grande dinamizador da secção Policiário cujos encontros juntavam centenas de lei­tores em várias partes do País.

O declínio começou nos anos 80, por "má gestão empresa­rial" após a morte prematura de António Dias, em 1976. Pouco antes, convencera-o a aprovar um número especial de Natal, "pois tinha um trunfo na man­ga" que era a predileção do ad­ministrador pelas histórias do Príncipe Valente.

"No final era desolador ver aquela casa a afundar-se" la­menta Jorge Magalhães, que só saiu quando a Agência Portu­guesa de Revistas fechou por­tas. Uma nova administração ainda a tentou recuperar, mas o Mundo de Aventuras e outras publicações, já só vivem nas memórias de quem os leu. 

 




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