quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

BDpress #459: AMANHÃ: LANÇAMENTO DE NOVA COLECÇÃO COM O PÚBLICO: NOVELAS GRÁFICAS


WILL EISNER ABRE NOVA COLECÇÃO DEDICADA À NOVELA GRÁFICA
COM O JORNAL PÚBLICO

Publico, 20 e 21 Fev 2015

João Miguel Lameiras


Novela Gráfica, Vol. 1
Um Contrato com Deus 
Argumento e desenhos – Will Eisner
Quinta, 26 de Fevereiro Por + 9,90 €

É já na próxima quinta-feira [amanhã] que a BD regressa ao PÚBLICO numa ino­vadora colecção dedicada aos maio­res nomes da novela gráfica, que se prolongará pelas próximas onze semanas. Uma colecção marcada pela qualidade e pela diversidade. Diversidade de autores, de estilos, de nacionalidades, de formatos, mas que tem como elemento unifi­cador a vontade de contar histórias de grande fôlego, difíceis de conter nos formatos mais tradicionais das 48 páginas dos álbuns franco-belgas e ainda menos nas 22 páginas dos comics americanos. A acompanhar-nos nesta emocionante viagem pe­lo universo da novela gráfica, temos uma verdadeira selecção mundial dos maiores nomes da banda dese­nhada, tal a importância dos auto­res presentes – de Eisner a Moebius, passando por Toppi e Breccia, para citar apenas os que já nos deixaram – e a indiscutível qualidade dos seus trabalhos, muitos deles amplamente premiados.

É precisamente o caso de Um Con­trato com Deus, o livro que abre esta colecção, considerado por muitos como título iniciador do género novela gráfica - conta a lenda que, quando Eisner apresentou os origi­nais de Um Contrato com Deus ao edi­tor e ele lhe perguntou o que é que aquilo era, Eisner respondeu: "Ifs a graphic novel" - e o mais marcante trabalho do seu criador, Will Eisner, falecido em 2005.

Nascido em 1917, Eisner estreou-se na BD em 1936, como desenhador, argumentista e responsável (com Jerry Eiger) por um estúdio encar­regado da criação de uma série de heróis para os suplementos domini­cais dos jornais, por onde passaram alguns autores que também ficaram na história, como Jack Kirby (cria­dor, com Stan Lee, da maioria dos super heróis da Marvel), Lou Fine e Bob Kane, o criador de Batman. Apesar de desenhar dezenas de sé­ries diferentes (a mais célebre foi a história de piratas Hawks of the Sea) sob outros tantos pseudónimos, Will Eisner soube manter um elevado pa­drão de qualidade, o que lhe valeu ser contratado em 1939 pela Quality Comics Group para assegurar as 16 páginas de um suplemento domini­cal encomendado pelo Des Moines Register - TribuneSyndicate. É aí que vai nascer a sua maior criação, o Spirit, um detective mascarado que o vai acompanhar durante 12 anos e mais de 700 histórias, das quais bem mais de uma centena são clássicos incontornáveis e intemporais.

Apesar de, durante mais de 25 anos, ter trocado as suas criações pe­la BD comercial e didáctica (durante duas décadas, ilustrou manuais para o exército americano) e pelo ensino (foi durante muitos anos professor na School Of Visual Arts, de Nova Iorque, e autor de Comics and Sequen­cial Art, um livro incontornável sobre a técnica e linguagem da BD), Eisner regressou em grande força em 1978. Um regresso que se deu com este Um Contrato com Deus, livro que recolhe quatro histórias que se desenrolam num mesmo prédio de apartamentos dos anos 1930, no Bronx, traçando uma imagem sentida das frustrações, alegrias, desilusões e violência da vi­da das classes mais pobres da Grande Depressão na América.

Verdadeiro romance em banda desenhada, inspirado nas memó­rias da infância do autor, passada no Bronx, em que acontecimentos autobiográficos surgem ligeiramente ficcionados, Um Contrato com Deus mostra também uma forma diferente de Eisner tratar a página de BD, ab­dicando muitas vezes da tradicional divisão em tiras e quadrados, fazen­do as personagens evoluir suspensas ao longo da página, ao mesmo tempo que o texto e os balões se fundem com a arte. Também o uso das som­bras, as perspectivas dramáticas e o expressivo tratamento das atitudes e expressões das muitas personagens que povoam este grande romance vi­sual, revelam um autor maduro, mas suficientemente irrequieto para ino­var os códigos da linguagem da BD, ou arte sequencial, como lhe preferia chamar, que ajudou a criar.


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