domingo, 22 de fevereiro de 2015

GAZETA DA BD #39 – NA GAZETA DAS CALDAS: PRÉMIO NACIONAL DE BD – 2014 – MELHOR ALBUM PORTUGUÊS DO ANO – ZONA DE DESCONFORTO

GAZETA DA BD #39 – NA GAZETA DAS CALDAS
PRÉMIO NACIONAL DE BD – 2014 
MELHOR ÁLBUM PORTUGUÊS DO ANO
ZONA DE DESCONFORTO

Gazeta das Caldas, 20 Fevereiro 2015

Jorge Machado-Dias

Texto integral que não foi possível publicar completo na Gazeta das Caldas por falta de espaço


ZONA DE DESCONFORTO
Por Christina Casnellie (Holanda 2006), Ondina Pires (Londres 2008-10), Daniel Lopes (Brasil 2013), Tiago Baptista (Berlim 2013), José Smith Vargas (Holanda 2007), Amanda Baeza (Bilbao 2010), Francisco Sousa Lobo (Londres 2010-13), André Coelho (Barcelona 2006), David Campos (Cap Skirring 2007) e Júlia Tovar (Buenos Aires 2013).
144 págs.
Associação Chili com Carne, 2014 (http://www.chilicomcarne.com/)
Edição de Marcos Farrajota
Design de Joana Pires

Como aqui escrevemos, na edição de 2 de Janeiro passado, o Prémio Nacional de BD – Melhor Álbum Português do ano 2014 foi atribuído a Zona de Desconforto, editado pela Associação Chili com Carne, na sua colecção “Lou Cost” (que inclui Boring Europa e Kassumai e tem já programado novo livro: Convento da Cartuxa, de Francisco Sousa Lobo). Dissemos nessa altura que era um facto completamente inédito nas edições anteriores destes Prémios, uma vez que nunca um editor underground o tinha ganho.

Comecemos pelo princípio: a Associação Chili com Carne foi fundada em 1995 por Marcos Farrajota, depois de, em 1992 ter criado com Pedro Brito o fanzine “Mesinha de Cabeceira”, que ainda se edita. Depois criou a editora MMMNNNRRRG – “para gente bruta”, já com uma boa série de livros editados. Farrajota também é autor de BD e tem feito capas, cartazes e BD's para bandas punks e afins, sendo também o único funcionário daquilo que resta da antiga Bedeteca de Lisboa, agora integrada na Biblioteca dos Olivais. Criou e escreveu a série "Loverboy", em parceria com João Fazenda na ilustração. Tem vários artigos sobre BD, fanzines e música espalhados em várias publicações.

Como autor, Farrajota, para além de ter realizado e publicado alguns fanzines com apoio da Associação Chili com Carne estreou-se na colecção Lx Comics (da Bedeteca de Lisboa), cujos primeiros volumes foram publicados a pretexto da exposição "Pranchas necessariamente incolores". Com Pedro Moura desenhou a bd "História de Deus" nos três números da revista CriCa. Participou na antologia Crack On. Compilou todas as suas bd's autobiográficas em dois livros, Noitadas, Deprês e Bubas (2008) e Talento Local (2010) e fez o livro do DVD do 15º Steel Warriors Rebellion Metalfest.

Assim, as edições da Chili com Carne (e também as da MMMNNNRRRG) reflectem – pensamos nós – as convicções anarquistas, contestatárias, do seu editor, que escreve na introdução a Zona de Desconforto:

“(...) Muitos portugueses têm ido estudar para o estrangeiro graças a programas universitários ou outras bolsas institucionais. Outros têm ido para fora trabalhar, ou porque não encontram estímulos para a sua criatividade num país pe­riférico e atrasado como o nosso, ou porque tiveram mesmo de procurar emprego para sobreviver dando razão a um político filho-da-puta que afirmou nos media que "o melhor que os jovens portugueses tinham a fazer era emigrar". O que poderia ser uma abstracção ou uma demagogia bizarra tornou-se rea­lidade. Muitos de todos nós, já o sentimos, muitos dos nossos amigos e conhecidos "desapareceram" e sabemos que nem todos voltarão a este canto europeu.

Nesta antologia, os nossos autores de BD re­latam as suas experiências enquanto estudan­tes ou trabalhadores no estrangeiro, expondo os seus extremos, da leve piada do choque cultural às reflexões profundas e intimistas. Se os obrigamos a trabalhar nas questões da autobiografia, garantimos no entanto, que o estilo pessoal de cada autor em nada foi pre­judicado (...)”

Zona de Desconforto é pois uma recolha de relatos de autores de Banda Desenhada que foram estudar ou trabalhar para fora de Portugal. Escreve o editor, na apresentação do livro na página do Facebook da Chili com Carne (https://www.facebook.com/chilicomcarne/posts/674136689309644):

“(...) Os autores apesar de terem sido “obrigados” a trabalharem em registo autobiográfico para relatarem as suas experiências, que vão da leve piada do choque cultural às reflexões profundas e intimistas, ainda assim o estilo pessoal de cada autor não foi prejudicado. Organizado por ordem cronológica, o livro começa com André Coelho, que estudou em Barcelona, em 2006, e expõe as questões nacionalistas catalãs, mas a experiência similar de Amanda Baeza no País Basco (estudou em Bilbao, em 2010) é mostrada de uma forma oposta e “leftfield”. Holanda vai ser uma coincidência de país para a “globe trotter” Christina Casnellie (em 2006) e um ano mais tarde, José Smith Vargas, maior é a coincidência é que ambos desmontam a sociedade holandesa e a “pan-ibérica”. Londres também é uma “coincidência” para encontramos Ondina Pires (ex-Pop Dell’Arte, ex-The Great Lesbian Show) entre 2008 e 2010, e Francisco Sousa Lobo (vencedor do concurso “500 paus”) entre 2010 e 2013, que usam “comic relief” q.b. para contar a depressão que se sente na capital inglesa, e no caso de Lobo esta sua BD é uma “companion” para o badalado romance gráfico O Desenhador Defunto. Mas antes, David Campos complementando a sua experiência da Guiné-Bissau (relatada no Kassumai) visita o resort de Cap Skirring (Senegal) em 2007 para alertar-nos da exploração não só de recursos económicos mas também sexuais de África. Em 2013 ainda temos as instrospecções políticas de Tiago Baptista em Berlim, durante uma residência artística; e mais extremas as deslocações sul-americanas de Júlia Tovar para Buenos Aires, decidida a criar a sua família, e com alguma ponta de ironia Daniel Lopes mostra o Brasil como o “futuro”, na sua recente visita profissional, como académico. Esta edição foi coordenada por Marcos Farrajota, frustrado e impotente em testemunhar a emigração, em alguns casos forçada, dos seus amigos e conhecidos à procura de melhores condições de vida. O livro não tem uma “agenda política” porque deixa que o relato de cada autor siga o seu rumo, com saldo positivo ou negativo, deixando ao leitor a interpretação que desejar. Longe de nós impormos seja o que for (...)”

Quanto a mim, o único “desconforto” que me provocou a leitura de Zona de Desconforto, foi a cor vermelha em que foi impresso – tive que suspender várias vezes a leitura porque todo aquele vermelho “ofende” (cansa) um bocado os olhos – embora pense que a cor utilizada terá eventualmente um significado ideológico. Mas é, apesar desse pequeno “desconforto”, um excelente livro!

Os interessados podem ler a crítica de Pedro Moura a este livro em http://lerbd.blogspot.pt/2014/06/zona-de-desconforto-aavv-chili-com-carne.html

Pranchas de Christina Casnellie e Francisco Sousa Lobo

Nota técnica: a cor destas duas pranchas foi trabalhada para que pudessem ser reproduzidas "no vermelho vivo" directo (a partir de um Pantone, por exemplo, ou a duas cores: 100% Amarelo + 100% Magenta) na impressão a quatro cores (CMYK) da Gazeta - o que é muito difícil de conseguir: o resultado não foi famoso e é o que se vê aqui, muito diferente das pranchas reproduzidas abaixo, que se assemelham mais ou menos com os originais impressos no livro. 
Apesar de tudo a capa do livro não saiu mal...

Pranchas de Amanda Baeza e Daniel Lopes

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