domingo, 1 de fevereiro de 2015

Bdpress #455: O CHARLIE JÁ NÃO SERÁ O CHARLIE


O Festival Internacional de BD de Angoulême termina hoje. Já foi escolhido o Grande Prémio do ano: Katsuhiro Otomo e foi atribuído um Grande Prémio Especial à redacção do Charlie Hebdo – assunto que domina o Festival deste ano, como não podia deixar de ser. Falta noticiar quais os livros premiados deste ano, que esperamos publicar amanhã aqui no Kuentro. Hoje deixamo-vos um texto excelente de José Marmeleira publicado no PÚBLICO de quinta-feira, dia 29 – complementado com um curto de Claudia Carvalho – que faz a História do Charlie Hebdo.


O CHARLIE JÁ NÃO SERÁ O CHARLIE

 Publico, 29 JAN 2015

A história do Charlie Hebdo é indissociável da história da banda desenhada francesa. Ouvimos três especialistas para pensar o futuro no dia da abertura do Festival de Angoulême

Cartoon

José Marmeleira

Foi em 1995 que a banda desenhada francesa se viu dividida por uma po­lémica inédita. A entrega do Grande Prémio, em Angoulême, a Philippe Vuillemin provocou a ira de Morris e o incómodo de outros autores. O desenhador de Lucky Luke che­gou mesmo a abandonar o júri do famoso Festival, que regressa hoje [quinta feira, dia 29] sob o signo de Charlie Hebdo, o semanário satírico francês alvo de um atentado em Janeiro que matou doze pessoas.

A que se deveu aquela polémica em An­goulême? Mais do que ao estilo de desenho, ao conteúdo das bandas desenhadas de Vuillemin, em parti­cular Hitler=SS, com textos de Jean-Marie Gourio. A sua publicação em formato de jornal e a exposição em galerias fora proibida em 1989 e os dois autores acabaram condenados, apesar das intervenções do advogado Thierry Levy e do autor Gotlib (am­bos franceses de origem judia). O que continham as páginas de Hitler=SS? Uma sátira brutal ao Holocausto, que representava, com o mesmo escár­nio, vítimas e algozes.

Este intróito é útil para contextua­lizar culturalmente o Charlie Hebdo e pensar a sua eventual singularidade francesa. Vuillemin também dese­nhou na revista satírica que (renas­ceu em 1970 das cinzas da "bete et méchant" Hara-Kiri, proibida pelas autoridades depois de fazer humor com a morte de Charles de Gaulle. Resumindo, o jornal que deve o seu nome a Charlie Brown (sim, é verda­de: foi emprestado pela irmã Charlie Mensuel, uma notável revista de BD) [Nota do Kuentro: na verdade, o nome Charlie não tem nada a ver com os outros Charlie que o autor do texto menciona, mas sim com o petit nom de Charles – Charlie – De Gaulle, por causa do último número do Hara-Kiri, que parodiava a morte do antigo Presidente Francês e ter sido, por isso, proibido pelo então Presidente Pompidou – tratou-se, portanto de uma pequena vingança] inscreve-se na tradição do desenho humorístico e da banda desenhada francesa. "Nasceu do Maio de 68, da laicidade, de uma tradição rabelaisiana", sublinha o historiador e crítico francês Jean-Christophe Boudet, evo­cando François Rabelais (1494-1553), autor de Pantagruel e Gargântua, co­mo um antepassado directo do jor­nal. "Tem antepassados na imprensa satírica francesa, como o Le Charivari [publicação do século XIX]. A sua sátira significa emancipação da censu­ra. Troça de todos os poderes, sejam políticos, religiosos ou económicos. Não tem mestre, nem Deus".

Já no mundo anglófono a realida­de é distinta, e por várias razões. "O espírito do Maio 68 extinguiu-se rapi­damente nos Estados Unidos e na In­glaterra", lembra Jeet Heer, jornalista e crítico canadiano. "E as publicações dependem mais da publicidade do que as francesas, os anunciantes não gostam de imagens controversas. No mundo anglófono, os editores são muito sensíveis a esse tipo de humor, pois as minorias estão mais atentas e mais bem organizadas politicamente. E os seus protestos são eficazes."

Curiosamente, a Hara-Kiri e o Charlie Hebdo, nas suas diferentes encarnações, foram bastante perme­áveis à influência da banda desenha­da americana. A Mad, revista humo­rística fundada por Harvey Kurtzman em 1952, e na qual colaboraram Will Eisner, Tom Wolfe ou Jules Feiffer, "teve um impacto libertador nos au­tores franceses, como teve o Robert Crumb", polémico e premiado autor americano de BD, recorda o crítico canadiano. "A tradição do underground americano revelar-se-ia mais profunda em França que nos EUA, in­clusive na composição das páginas".

O QUE MUDOU

O historiador Jean-Christophe Bou­det concorda e acrescenta o nome do Saul Steinberg, ilustrador e cartoonista, que figurou em 1947 ao lado de Arshille Gorky e Robert Motherwell na exposição Fourteen Americans. "No entanto", assevera, "a partir dos anos 70, a mais importante in­fluência surgiu da primeira geração de autores franceses da Hara-Kiri". Charb, o director do Charlie Hebdo que morreu no atentado, e Riss, que estava na redacção na altura do ata­que, continua Boudet, "encontraram as suas referências em Cabu [também vítima do atentado] e Jean-Marc Reiser", que publicou em várias revistas de BD e cujo humor cru e minima­lista não poupava as classes popu­lares. "Em contrapartida, o Charlie não teve qualquer impacto na banda desenhada anglófona”.

A história do Charlie Hebdo é indis­sociável das mutações que a banda desenhada e a sociedade francesa co­nheceram desde os anos 70. Apagado o nome Hara-Kiri, a Charlie Hebdo so­breviveria até 1981: a descida do nú­mero de assinaturas e das vendas nas bancas assinalava o progressivo de­clínio das revistas periódicas de ban­da desenhada, que atingirá a Charlie Mensuel. Regressará em 1992, com os autores da primeira geração, mas a outra sociedade. "Sim, é verdade, vão encontrar uma sociedade mais conservadora, de que o regresso das religiões me parece um sintoma, e um contexto económico mais difícil. O politicamente correcto e o merca­do transformaram-se em ideologias. Eles tiveram a oportunidade, no en­tanto, de 'capitalizar' a sua gloriosa luta contra a censura, o que lhes permitiu manter a independência".

O arqueólogo português Cláu­dio Torres, especialista em cultura islâmica, também acompanhou a evolução do jornal. "Um autor co­mo o Wolinski”, outra das vítimas, "foi muito importante para a minha geração, pelo modo como cultivou, no seu desenho atávico, o protesto e o humor. Simbolizou, mais do que a França, a Paris do Maio do 68, da contestação". Mas os tempos foram mudando. "Era uma publicação de esquerda, anticlerical, que troçava dos poderosos, e começou a troçar dos mais fracos, dos pobres, dos que estão em baixo. A sua sátira deixou de ter a mesma imaginação e subti­leza", lamenta. Entretanto, o jornal terá esquecido que também Paris mudara e que, sobretudo, reflectia uma realidade mais complexa. "Esse espírito herdado dos anos 60 e 70 confronta-se ainda hoje com uma for­te comunidade magrebina que fugiu da guerra e da pobreza dos seus paí­ses e à qual só resta a religião. É com o Islão que tem forjado a sua identi­dade, no seguimento da colonização e do terrível conflito que foi a Guerra da Argélia".

O historiador português não pre­tende explicar o massacre de 7 de Ja­neiro, mas enfatizar, cautelosamente, a complexidade das circunstâncias que são também políticas e globais. "Não podemos desligar o massacre terrível da reacção dos EUA ao 11 de Setembro e à criação de Israel numa zona que foi sempre um ponto de encontro entre civilizações. Foram acções estúpidas e retrógradas que arrastaram as pessoas para um am­biente de violência e guerra".

Nesta encruzilhada terrível e ex­plosiva, faça-se a pergunta: é possível encontrar representações de Mao­mé no mundo muçulmano? "Sempre existiram, sobretudo no mundo de expressão xiita, influenciada pela cul­tura persa. Mas nunca se represen­tou a grande divindade. O deus-pai nunca foi representado em nenhuma religião. As representações dentro da iconografia religiosa são muito recentes. É uma figura tão forte que não é representável." Esta iconofobia religiosa não é um atributo apenas do Islão. Marcou a história do Judaísmo e do Cristianismo. "De uma forma geral, nas religiões monoteístas, há uma tendência para a abstracção, sobretudo quando a dominante civili­zacional é o grande comércio. Nas zo­nas rurais, no mundo dos mosteiros, no continente europeu, sobreviveu uma representação figurativa muito forte. Foi dominante no catolicismo bizantino e romano, enquanto no Mediterrâneo sobreviveu uma re­presentação abstractizante".

IR MAIS LONGE

Regresse-se, entretanto, ao Charlie Hebdo. Ouviram-se críticas ao modo como o jornal representava as mi­norias, ultrapassando, várias vezes, a fronteira da sátira racista, com as suas óbvias distorções. Nada de no­vo. Apesar de importantes excepções (Farid Boudjella, Baru, Yvan Alagbé, entre outros), a história da BD franco-belga está cheia de estereótipos, de imagens que reduzem o outro asiáti­co, africano, árabe a uma caricatura (quem se recorda de Iznogoud, de Goscinny e Tabary?).

No universo dos comics e das no­velas gráficas americanas, embora com os seus casos – destaque-se o debate provocado por Habibi, de Craig Thompson –, o cenário alte­ra-se, pois os críticos e os jornalistas são velozes a identificar os exageros e os "desvios" dos autores. Robert Crumb que o diga: depois de várias controvérsias em torno da sua re­presentação de homens e mulheres afro-americanos, abandonou o pa­ís natal e estabeleceu-se numa vila francesa.

Fale-se então de sátira racista que, como toda a sátira racista, se abate, nos países ocidentais, sobre as minorias. "Sim é verdade, ela existe [no Charlie Hebdo]. Mas a melhor resposta a esse tipo de sátira só po­de ser uma: a da crítica, nunca a da violência", diz Jeet Heer.

Jean-Christophe Boudet tem reser­vas quanto ao uso da palavra "racis­ta". "Os desenhos humorísticos do Charlie Hebdo troçam de todas os sistemas e estruturas. São imagens de imagens e, por isso, incompre­ensíveis para quem olha para uma imagem apenas como uma represen­tação. A capa do 'Charlie dos sobre­viventes' é nesse aspecto exemplar. Não é o profeta que é caricaturado, mas as imagens que algumas pessoas têm do profeta, por razões que nem sempre têm a ver com a religião".

Para o historiador, o que está em causa é um "analfabetismo" de imagens que ainda grassa na so­ciedade, por isso "gostava de ver o mundo muçulmano a debater ou a clarificar a sua posição em relação às imagens". Mas não terão ido os caricaturistas longe de mais na sua sátira? "Não, pelo contrário. Os seus trabalhos denunciavam, pelo riso, tudo o que era norma ou que se es­tava a tornar norma, como o racis­mo. É importante também salientar que, no Charlie, todo o insulto que prometia a morte e o sofrimento era visto como um encorajamento para ir mais longe. O radicalismo das edi­ções mais recentes, antes do ataque, foi proporcional ao aumento cres­cente das ameaças".

Todavia, no ano passado, o Islão e a comunidade muçulmana não cons­tituíram os alvos preferidos do jornal. O "pódio" foi ocupado pela família Le Pen, o Presidente François Hollande e o primeiro-ministro Manuel Valls. A acusação de islamofobia soará, portanto, injusta. Mais adequada é a conclusão de que o mundo em que morreu e ressuscitou o Charlie He­bdo – aquele em que cresceram os irmãos Kouachi e em que os EUA são aliados assumidos da Arábia Saudita – não é o mesmo que o viu nascer. Que futuro o aguarda? "Não há uma resposta, apenas perguntas", sugere Jean-Christophe Boudet. "Passará a deter um poder editorial inédito? Correrá o risco de se transformar numa instituição? Ver-se-á obrigado a reinventar-se na Internet? Tornar-se-á numa revista mensal, reservando as polémicas para as redes sociais, para os blogues? Não sei."

Se nos devemos congratular com o poder que o papel e a caneta ainda conservam, também devemos acei­tar que a memória do Charlie (Bro­wn) está cada vez mais distante.



ANGOULÊME ENTRE RISOS E LÁGRIMAS

Cláudia Carvalho

É considerado um dos mais impor­tantes festivais de banda desenhada e arranca hoje, ainda na sombra do ataque de Janeiro ao Charlie Hebdo. Na 42.a edição do Festival Interna­cional de Banda Desenhada de An­goulême, a liberdade de expressão vai ser celebrada, mas as medidas de segurança foram reforçadas.

É às doze vítimas do atentado, entre as quais cinco importantes desenhadores de imprensa, que Angoulême dedica esta edição, des­de logo com a entrega do primeiro Prémio Charlie da Liberdade de Expressão e com a atribuição sim­bólica do Grande Prémio Especial à redacção do jornal (paralelamente à entrega do Grande Prémio, como dita a tradição, a um autor de BD). Há ainda uma exposição consagrada ao Charlie Hebdo, onde se poderão ver alguns dos mais controversos cartoons.

Sob o lema Aproximemo-nos do de­senho porque o desenho aproxima-nos, mais do que lembrar a tragé­dia, o Festival quer celebrar o espí­rito Charlie. Não pode ser esquecido que Angoulême é a festa da banda desenhada e não faltarão persona­gens conhecidas como Mafalda ou Astérix.

"O Festival vai ser para lembrar mas também para demonstrar que a vida continua", disse na apresenta­ção aos jornalistas Franck Bondoux, um dos organizadores de Angoulê­me, revelando que a organização do evento espera bater o recorde do ano passado, em que passaram pelo Festival 200 mil pessoas.

O Festival, que este ano tem como presidente Bill Waterson, que mante­rá a sua postura discreta e não estará no Festival, prolonga-se até domingo, dia 1, e contará com a visita, entre outras, do japonês Katsuhiro Otomo (criador de Akira) e do argumentista britânico Alan Moore (Watchmen, V de Vingança). Destaque ainda para a primeira grande retrospectiva na Europa do japonês Jirô Taniguchi. A programação completa pode ser consultada no site do Festival.


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