domingo, 8 de fevereiro de 2015

GAZETA DA BD #38 – NA GAZETA DAS CALDAS - OS NOSSOS CLÁSSICOS DA BD (2) – CARLOS BOTELHO E OS “ECOS DA SEMANA”

Homenagem de Nuno Saraiva a Carlos Botelho, por enquanto o autor de BD em Portugal detentor do recorde de pranchas editadas na imprensa escrita - Painel com 8 x 6 metros, edifício Capitólio, Parque Mayer, 2009.

No Catálogo da Exposição da Bedeteca de Lisboa, Bandeiras Pinheiro e Paiva Boléo escrevem que “(...) Carlos Botelho, a par da sua for­mação artística, em que foi importan­te a componente autodidacta, e das suas actividades gráficas, provou, especialmente na segunda metade dos anos 20, na revista ABCzinho, que podia ter sido, na esteira de Stuart Carvalhais e Cottinelli Telmo, um autor fundador da banda desenhada europeia, antecipando clara e significativamente Hergé, desde que isso tivesse sido a sua opção consciente, como foi, desde muito cedo – nos anos 30 –, o caso do autor belga (...)”

OS NOSSOS CLÁSSICOS DA BD (2) 
CARLOS BOTELHO 
E OS “ECOS DA SEMANA” 

Gazeta da BD #38 – na Gazeta das Caldas, 6 de Fevereiro de 2015
Jorge Machado-Dias

Texto completo, tendo sido publicada na Gazeta da BD #38 – da Gazeta das Caldas, de 6 de Fevereiro de 2015, uma versão reduzida, devido à falta de espaço.

Carlos Botelho nasceu a 18 de Setembro de 1899, em Lisboa, e faleceu a 18 de Agosto de 1982, na mesma cidade. Foi principalmente pintor, sendo mesmo considerado “o pintor de Lisboa”, mas desdobrou-se em múltiplas actividades gráficas, como decorador, ilustrador e autor de banda desenhada. E é esta última actividade que mais nos interessa aqui.

Carlos Botelho, auto-retrato (1926)

Esteve ligado ao ABCzinho, onde publicou banda desenhada (1924-1929), para o qual Botelho realizou cerca de 400 pranchas, e foi presença assídua no suplemento "Sempre Fixe" do Diário de Lisboa, onde semanalmente apresentou uma página de BD, os "Ecos da Semana". Foram publicadas 1178 páginas dos "Ecos", em que o autor abordava assuntos, nacionais ou estrangeiros que tinham sido referência na semana anterior. Como se calcula, várias foram as páginas censuradas (pelos serviços de Censura da ditadura de Salazar), que o autor discretamente assinalava desenhando nelas um pequeno mocho – como veremos mais abaixo. Os "Ecos da Semana" foram publicados durante 22 anos e meio, entre 17 de maio de 1928 e 14 de dezembro de 1950.

ABCzinho: Punhos de Bronze – O Terror do Ring, O Dragão Amarelo (12/04/1926)

ABCzinho: Punhos de Bronze – O Terror do Ring, No Banco Morgan (03/05/1926)

De 17/05/1928 a 14/12/1950, com uma regularidade semanal impressionante e sem falhas, mesmo quando se encontrava no estrangeiro (o que terá originado um ou outro extravio — mas a esmagadora maioria das "falhas" teve outra e bem mais desagradável causa: a Censura, que lhe cortou/proibiu cerca de 14 pranchas), Carlos Botelho publicou no Sempre Fixe cerca de 1200 páginas — 1178 se tivermos em conta a contabilização do próprio na despedida, que tudo indica ser (como era seu hábito) bastante rigorosa, pois, perante o levantamento exaustivo constante do final deste Catálogo, foram publicadas 1159 páginas, o que, se considerarmos que houve pelo menos 14 páginas integralmente censuradas, a que se poderão acrescentar eventualmente alguma(s) perdida(s), tudo aponta de facto para um número dessa ordem.

Ou seja: quando começa os ECOS DA SEMANA, as outras facetas da sua obra, hoje menos lembradas, estão em plena afirmação, como gráfico, cartoonista e autor de BD. No ABCzinho, estamos poeticamente "No tempo em que havia fadas", e "O rei da publicidade" lembra-nos com particular inventividade, premonição e humor outra faceta importante dos anos iniciais da carreira de Botelho. No Sempre Fixe, a primeira ilustração (desportiva) surge logo em 23/06/1926, no n° 7, e o primeiro cartoon/BD logo a seguir, em 01/07/1926, começando cedo, pois, a tactear o mundo dos cartoon, alternando entre a crítica social e sobre­tudo o comentário desportivo, sentindo-se o mo­delo da geração modernista e particularmente de Cottinelli (que o levara para o ABCzinho), adqui­rindo em poucos meses uma solidez que lhe per­mitiria dar o salto para os ECOS DA SEMANA, prefigurados em "Uma semana fecunda em música", no Sempre Fixe de 01/03/1928, simbolica­mente em torno de outro pilar essencial da sua for­mação e sensibilidade (não faltando o violino – a que também se dedicou), e a que não deixaria de prestar regular atenção nos ECOS. Ainda não tinha, então, iniciado publica­mente a sua carreira de pintor; ainda não fora a Paris, estadia que «assume a importância de anos de estudo! Terá certamente sido a responsável prin­cipal pela determinação com que vai, a partir de então, assumir a pintura», nem tinha apresentado o seu primeiro quadro "oficial" sobre Lisboa (o "Zimbório da Estrela", curiosamente uma das perspectivas de Lisboa mais presente nos ECOS), o que aconteceria em 1929. Quando acaba, é há muito um pintor com uma obra consolidada e consagrada, embora ainda se prolongasse e renovasse por mais 30 anos.

O exemplo narrativo mais longo nos ECOS DA SEMANA é o “filme” PIÚNOCCA (o mocho Piu), uma história em continuação, apresentada no final da página de 03/10/1940 e que depois se desenvolve em nove pranchas até 05/12/1940. Além do mocho Piu (criado em 1930 – numa óbvia piada à censura do regime), os restantes protagonistas são o Senhor Paracemal (1931), o sempre actual Escarr&cospe (1934), a Dona Encrenca (1935) e a Dona Arrepanhada (1940), presenças regulares nos ECOS e símbolos da certeira crítica social do autor.

A BD produzida por Carlos Botelho também surgiu noutros periódicos, como as revistas Turismo (1929), Notícias Ilustrado (1930), Crónica Cinematográfica (1930) e Eva (1938) - o que, somando as pranchas no ABCzinho e no Sempre Fixe, poderá somar um total de cerca de 2000 pranchas publicadas pelo autor na imprensa escrita). Fez também caricatura, ilustração para livros, para publicidade e para a imprensa periódica (O Domingo Ilustrado, Ilustração, ABC, O Século e Tic Tac).

PEQUENA RESENHA BIOGRÁFICA

Aos 20 anos Botelho ingressou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1919), tendo saído um ano depois, frustrado com um ensino marcadamente clássico, rumou para França dez anos depois (1929), para um ambiente muito mais propício ao contacto com a vanguarda artística da época. Em Paris estudou nas Academias de Chaumière e de Colarossi. De regresso a Portugal, expôs no Salão dos Independentes (1930).

No célebre filme A Canção de Lisboa (1933), "o primeiro filme português feito por portugueses" foi assistente de realização de Cottinelli Telmo.

Ao serviço do SNI (Secretariado Nacional de Informação), o braço propagandístico do regime do Estado Novo, sob a chefia de António Ferro, foi enviado, juntamente com outros designers, ilustradores e artistas plásticos, em missões oficiais a diferentes países, como responsável pela concepção dos pavilhões de Portugal presentes em diferentes exposições internacionais, o que permitiu a Carlos Botelho contactar com autores de diferentes nacionalidades.

Como notável pintor que foi, participou em diversas exposições e salões em Portugal e no exterior (Paris, Londres, Veneza...), realçando-se que na Bienal de Arte Moderna de São Paulo (Brasil) foi distinguido por duas vezes: na primeira edição com o Prémio Portugueses de São Paulo e Rio de Janeiro e na terceira edição com uma Menção Honrosa.


Nocturno – New York, óleo sobre contraplacado, 78 x 61 cm, 1940


Llisboa, óleo sobre tela, 57 x 76,5 cm, 1962

Na avenida Infante Santo, em Lisboa, encontra-se uma das suas mais representativas obras, um painel de azulejos que retrata casas típicas. Aliás, foi no retrato da sua Lisboa natal que, por ventura, o seu trabalho mais se distinguiu.

Os seus quadros encontram-se representados nos principais museus nacionais, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (Brasil), no Museu de São Francisco (Estados Unidos da América), para além de diversas coleções particulares em Portugal e no estrangeiro.

O pintor que imortalizou Lisboa nas suas telas, com atelier na Costa do Castelo, era uma referência incontornável do modernismo em Portugal ao nível das artes plásticas.

A Câmara Municipal de Lisboa atribui, desde 1989, o Prémio Municipal "Carlos Botelho" de Pintura, para a melhor Pintura sobre a cidade.

No centenário do seu nascimento (1999) realizou-se uma importante exposição retrospetiva de Pintura na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, em Lisboa. Já agora, Arpad Szenes e Vieira da Silva são dois nomes maiores da pintura europeia que Botelho conheceu na década de 30 do século XX. Realizaram-se duas outras Exposições, focadas no Desenho e na Banda Desenhada: na Bedeteca de Lisboa “A Cidade nos Ecos da Semana de Carlos Botelho”, em 1998 e Botelho – Desenho, na Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea de Almada, em 1999.

Bibliografia consultada: Catálogo da Exposição A CIDADE NOS ECOS DA SEMANA DE CARLOS BOTELHO (Bedeteca de Lisboa, Outubro-Novembro de 1998)) – textos de João Paulo Cotrim, João Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro. Catálogo da Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento do autor BOTELHO – DESENHOS (Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea de Almada, Maio de 1999). Textos de Rogério Ribeiro, Manuel Botelho, Raquel Henriques da Silva, João Pinharanda e José Luís Porfírio.

Ecos da Semana: O Almoço à Fragateira (07/06/1928)

Ecos da Semana: Senas na Rua de São Ró... ça (11/11/1937)

Sempre Fixe (03/10/1940)

Sempre Fixe (10/10/1940)

O “Mocho Piu”

Ecos da Semana - Em Paris, Maio 1929, tinta-da-china sobre papel, 44,5 x 30,5 cm



Carlos Botelho - Dezembro de 1968 e Março de 1969

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