sexta-feira, 18 de novembro de 2016

«O Mosquito» e «Chicos» - AS PUBLICAÇÕES INFANTO-JUVENIS QUE ABALARAM A PENÍNSULA IBÉRICA (6) – por José Ruy

AS PUBLICAÇÕES 
INFANTO-JUVENIS
QUE ABALARAM A PENÍNSULA IBÉRICA

O Mosquito
Chicos

(6)

A IMPORTÂNCIA DO TEXTO
NAS HISTÓRIAS DESENHADAS

Por José Ruy

O texto de muita qualidade de Raul Correia, um dedicado queirosiano, acrescentava aos desenhos a poesia que levava a criança até ao «reino do faz-de-conta». E era mesmo em poema que escrevia o chamado artigo de fundo, que assinava de «Avozinho» que ininterruptamente manteve em toda a longa publicação do jornal.


O Mosquito dava ao público, não o que ele estava habituado, mas o que lhe devia ser dado. Criou hábitos de uma leitura educativa, sem que o leitor desse por isso. Tanto «Chicos» como «O Mosquito» Iniciaram uma cruzada que de semana para semana se foi transformando num enorme êxito.


Consuelo Gil Roësset, era uma mulher sensível de origem burguesa, com formação Universitária, doutorada em Filosofia; teve oportunidade de frequentar aulas de pintura, e fora criada desde a infância num ambiente musical, literário e poético. Também dominava línguas. Seu marido era compositor e chefe de orquestra.

Incluiu no jornal além das histórias em quadrinhos, novelas acompanhadas de uma ou duas ilustrações, com um texto bem redigido e sempre com um sentido educativo, tal como «O Mosquito» mantinha desde os seus primeiros números.
Ao leitor menos prevenido, por vezes podia parecer terem as duas publicações a mesma direção.
Consuelo publicou em «Chicos» muitas novelas de sua autoria, mas usando pseudónimos, como o de «Luis de Villadiego.
Era esquerdina, o que a aproximava de ETCoelho, que era ambidestro.

A EQUIPA FEMININA

António de Mateo escreveu sobre ela: Consuelo Gil Roësset superou os valores consignados às mulheres do seu tempo. A sua sombra pairou sobre amigas e colaboradoras que em boa medida seguiram o seu exemplo e formaram equipa. Desde o início se preocupou em escolher as melhores.

Os nomes das redatoras, guionistas e desenhadoras:

Mercè Llimona, Carmen Parra, Marisa Villadefrancos, Mercedes Garcia Valiño Borit Casas, Maria Luisa Fillias de Becker, Patricia Montes, Maria Luisa Alberca, Carmen de Icaza, Maria Luisa Spiegelberg Y Horno, Francisca Saenz de Tejada, Antoin, Gloria Fuertes Garcia (Gloriña), Carmen Anadón, Ana Serrano e Pilar Blasco que assinava Pili Blasco.

Esta era a irmã mais velha da «tribo» Blasco e tal como os seus irmãos deu um grande contributo para o êxito das publicações produzidas a partir de «Chicos».

Maria luisa Villardefrancos, Mercedes Garcia Valino, Borita Casas, Maria Luisa Spiegelberg e Gloria Fuertes (Glorinha)

Merce Llimona e Carmen Parra

No que dizia respeito à parte literária «Chicos» teve um notável grupo de argumentistas e guionistas:
Huertas Ventosa que usava o pseudónimo de «Torralbo Martin», Canellas Casals, Tony Lay, Marisa Villardefrancos, Alberto Lomas e Borita casas.

Um bom Elenco em comparação com o de «O Mosquito» que se resumia aos dedos de uma mão.

Novela no jornal «Chicos» com uma magnífica ilustração de Tomas Porto.

Em «O Mosquito» Raul Correia para além das novelas que criava, também escrevia as legendas de todas as histórias em quadrinhos da publicação.

Nas de origem estrangeira, não se limitava a traduzir, mas incluía no texto, primorosamente construído, ora uma comicidade saudável ou uma eloquente descrição chamando a atenção para pormenores nos desenhos apresentados, valorizando assim as histórias.

Exemplo do texto de legendas para as histórias de origem inglesa em que a prosa ficou muito melhor do que o original. 

Os autores portugueses entregavam as suas histórias em quadrinhos n’«O Mosquito» com o respetivo texto, mas este era substituído pelo que Raul Correia escrevia depois, alterando por vezes até os nomes das próprias personagens, por achar mais sonantes ou melhor adequadas. Mas ficava um texto mais valorizado do que qualquer de nós fazia.

Este cuidado na parte literária para além dos desenhos foi, quanto a mim, um dos principais motivos para o êxito das duas publicações.

Eduardo Teixeira Coelho como grande animalista criou n’«O Mosquito» uma série dedicada aos animais. Limitava-se a fazer os desenhos e deixava ao Raul Correia a tarefa de criar um texto explicativo.


Então o poeta e escritor dava largas à sua imaginação humorística. Ao rigor do desenho estilizado juntava-lhe o precioso tempero, transformando cada uma destas páginas numa pequena (?) obra de Arte (!) por vezes ilariante.

Uma delícia.

EDUCANDO DISTRAINDO 

Consuelo Gil aplicou no «Chicos» o lema de ensinar distraindo, criando através de secções bem concebidas uma grande fonte de conhecimentos, despertando e potencializando a imaginação dos jovens, estimulando-lhes o gosto pelas Artes, utilizando o trabalho dos grandes desenhadores e escritores que recrutou para «Chicos».

O mesmo resultado conseguiam António Cardoso Lopes e Raul Correia em Portugal, embora este tenha sempre afirmado nunca ter sido sua intensão fazerem um jornal didático.

Exemplo de como «Chicos» apresentava curiosidades, em que o leitor aprendia sempre qualquer coisa. Divulgava monumentos nacionais, como«Fontes Célebres» de espanha. 

Mantinha uma página dedicada ao Desporto e também ao Cinema, com notícias e respostas a perguntas dos leitores. 

Repare-se o tom escurecido do papel reciclado em que «Chicos foi impresso. Nada evitou a reação positiva dos leitores. Não há dúvida do que faz a fama de um restaurante não é o edifício bonito com mesas de bom material, mas sim a qualidade da cozinha, a sua confeção e o tempero. Numa tasquinha manhosa come-se muitas vezes melhor.

O mesmo se pode aplicar às revistas e jornais, e aqui está a prova.

Se conseguirem ler o texto desta página da «Secção dos Sábios» verificarão a riqueza da prosa de Raul Correia e o modo como prendia os seus leitores àquelas folhas de papel impresso que faziam a felicidade de muitos miúdos e miúdas. 

Durante a existência das duas publicações, umas vezes «O Mosquito» inspirava Chicos a criar uma secção, outras vezes era «Chicos» a influenciar o seu congénere português.

«Chicos» criou um Clube e publicava as fotos dos seus associados, e «O Mosquito» mantinha a sua galeria onde apresentava as fotos enviadas por qualquer leitor, não se limitando aos assinantes que chegaram a atingir - os dezanove mil!


Há muitos intelectuais a confessarem hoje terem aprendido a ler com «O Mosquito» quando crianças. Em Espanha por certo quantos dirão o mesmo. Sabemos que o Príncipe Juan Carlos quando menino, era leitor dileto de «Chicos».

Consuelo deslocava-se muitas vezes ao local onde residia Juan Carlos, o futuro Rei espanhol, no Estoril, para trocar impressões.


Foto de Juan Carlos em menino, a ler o «Chicos» numa viagem de comboio.
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No próximo artigo

Guerra e Sonho 

José Ruy 
Setembro 2016

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