sexta-feira, 4 de novembro de 2011

DEBATE SOBRE O AmadoraBD AMANHÃ NO AUDITÓRIO DO FESTIVAL – OS DADOS DO DEBATE NO BDjornaleco #2




O presente “apóstrofo” #2 do BDjornal, ou BDjornaleco, como já vai sendo conhecido, pretende lançar à discussão o actual modelo do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Contudo existem notas prévias que será preciso expôr:

O Amadora BD – designação oficialmente adoptada desde 2009 por questões de marketing – é sempre a Festa da Banda Desenhada em Portugal, mesmo tendo perdido quase todo o “ar de festa” que tinha na velha Fábrica da Cultura. O Festival apresenta, desde 2005, uma estrutura física pesada e pomposa, quase que diríamos assumindo um aspecto de “novo rico”, mas que na edição deste ano se começou a aligeirar, obviamente por força das presentes restrições orçamentais.

No entanto, embora mereçam discussão algumas soluções dessa estrutura física – a mais gritante este ano, foi a dos autógrafos terem ficado virados de costas para o espaço comercial e de convívio – o que nos importa sobretudo é a linha programática de exposições que, a continuar, persistirá em deixar de fora faixas etárias de público que já se afastaram, há muito tempo, do Festival.

Onde estão, por exemplo, os visitantes adolescentes no Festival? Como toda a gente verificará, são raríssimos.

Dirão alguns, que eles aparecem aos milhares nos dias do cosplay... é verdade. Aparecem para os concursos de Cosplay. E mal terminam os ditos concursos, precipitam-se para os stands que vendem livros de mangá ou comics americanos. Mas ignoram olimpicamente todas as exposições. Porquê?

Festival de 2009 - Entrada para o dia de Cosplay

Simplesmente porque não existem exposições para eles no Festival.

Se tivermos em conta que esta geração de adolescentes vai crescer, ficando eventualmente a grande maioria desligada do Festival e talvez mesmo da Banda Desenhada, mal se desliguem das suas actuais preferências, o número de visitantes do Amadora BD irá inapelavelmente decrescer...

As características deste Festival, foram estabelecidas desde há vinte e dois anos e foram caracterizadas pelo actual director, o Arqº. Nelson Dona, presente na recente entrevista com o Vereador da Cultura da Câmara da Amadora, (BDjornal #28) como tendo “ (...) vários eixos programáticos: um tema e os respectivos “autores-estrela”, os premiados do ano anterior, as efemérides e os destaques editoriais (...)”. Estão, pensamos nós, ultrapassadas, na actual conjuntura da edição de banda desenhada em Portugal.

Se bem que esta seja uma maneira ágil de programar um Festival deste tipo, ela não abrange nunca TODO o mercado de Banda Desenhada. E não basta dizer, como já ouvimos, que “este ano as exposições são melhores e mais leves...”, é preciso ir ao cerne das coisas.

Estas e outras questões, estiveram na origem do documento (onde se abordou sobretudo a edição de 2010) que redigimos e enviámos à direcção do Festival em Maio passado e que apresentamos nas páginas seguintes. E antevendo uma maior restrição financeira para o Festival de 2012, por força dos cortes orçamentais impostos aos Municípios, antecipando mesmo a discussão que o Vereador da Cultura propôs na entrevista atrás referida, pensamos que o Amadora BD deve, por força de todas as circunstâncias apontadas, alterar os eixos programáticos com que se estrutura.

E é com base no documento acima citado, em versão corrigida e actualizada, que convidamos o público interessado nestes assuntos, a estar presente no Auditório do Amadora BD, para um debate com vários editores, livreiros e autores, às 17:00h de hoje, dia 5 de Novembro.
J. Machado-Dias

Amadora BD
QUESTÕES SOBRE O FESTIVAL

A 21ª edição do Amadora BD, em 2010, que teve o maior orçamento de sempre da história deste Festival Internacional de BD da Amadora, com cerca de 750.000 euros atribuídos, pareceu-nos ter acolhido também uma das mais fracas afluências de público dos últimos anos. Com a falta da informação de dados relativos à afluência de públicos, ninguém sabe quantos foram os visitantes pagantes, quantos foram os que entraram por convite ou com “livre trânsito” e quantos foram os alunos que, através das visitas guiadas pelas escolas, visitaram o Festival. A organização informa apenas por grosso: o número de visitantes foi 30.000, ou 32.000, etc... E seria da máxima importância saber quantos pagaram as entradas, porque os que pagam querem mesmo ir ao Festival e são esses que contam, já que os que não pagam, não saberemos nunca se iriam lá, se pagassem.

Pareceu-nos que em 2010 o Festival teve uma fraca afluência de visitantes e eventualmente está a ter mais em 2011, talvez porque o tema do “humor” atrai mais gente. Mas a fraca afluência em 2010 ficou patente, o que poderá querer dizer que o desinteresse por este tipo de Festival pode ter começado a instalar-se, tanto no público mais jovem como nos habituais frequentadores.

E porquê? Se alguém se der à paciência de ler tudo o que escrevemos sobre o FIBDA, desde 1992, veria que uma constante é repisada até à exaustão: a estruturação do Festival não é a mais adequada à captação de novos públicos nem, a partir de certa altura, à manutenção dos habituais.

O Festival Internacional de BD da Amadora terá que, em primeira mão e de forma muito acutilante e permanente, ter em conta o mercado de banda desenhada – mesmo que insípido, no caso português – e não fazê-lo só de vez em quando (como em 2006 e 2007), para calar as “más-línguas”, voltando depois ao mesmo, a programar e a realizar o Festival sem ouvir os parceiros interessados. E deverá proceder em conformidade. Falar – antes de programar a edição de cada ano – com autores, com todos os editores de Banda Desenhada, com livreiros especializados, críticos, etc... para saber em que “param as modas”. Caso não o faça, estará a “perder o pé” de ano para ano, apoiando-se apenas num tema (que pode ou não atrair público), nos premiados do ano anterior (naquela anedota que são os Prémios “Nacionais” de Banda Desenhada), nas eventuais efemérides e nas “novidades editoriais” de cada ano. Ninguém se interessará muito, actualmente, por exemplo, em saber quem foi o Quim e o Manecas, ou o que era a banda desenhada nos tempos da Primeira República, senão por mera curiosidade passageira – nada que justifique a grande aposta que o FIBDA fez em 2010 (embora saibamos porque o fez). Isto não quer dizer que o Festival não possa ter uma ou outra exposição histórica, mas não será ela que motivará, por si só, os vários públicos.

A estruturação do FIBDA deveria contemplar em cada edição SEMPRE, TODAS as vertentes que compõem o universo dos leitores da banda desenhada, tomando como linha estruturante as “idades dos públicos”, correndo o risco de, se não o fizer, ter inevitavelmente como visitantes as “mesmas caras do costume” – e mesmo essas cada vez mais cansadas daquilo que o Festival lhes oferece.

Vejamos, em termos práticos, a que chama-mos “idades do público”, onde não incluímos a infância, uma vez que o Festival consegue tornear a falta de autores de BD infantil em Portugal, de maneiras quase sempre airosas:

1 – LEITORES DE MANGÁ

Os jovens que começam a ler banda desenhada actualmente, estão exarcerbadamente focados na mangá e nada mais lhes interessa! E quem tenha acompanhado o fenómeno, sabe que isso acontece desde há 20 anos – diga-se, já agora, de passagem, que o Festival nem sequer soube comemorar em 2010, os “20 anos de mangá na Europa”.

E onde estão as grandes exposições de mangá no Festival da Amadora? Não esta-mos a referir-nos a coisas esporádicas e que passam quase despercebidas, como a exposição colectiva de Animé (em 2010), ou mesmo a exposição Animé, Mangá e Mangá Europeia, de 2009 – apesar de esta ter já atraído algum publico que não é habitual no Festival. Referimo-nos a autores de mangá japoneses, europeus e, sobretudo, portugueses, em grandes exposições. Neste momento existem mais de vinte autores portugueses em actividade neste estilo de BD, uma revista (Banzai) com algum frenesim criativo – tendo mesmo sido anunciado que se está a preparar a edição de uma nova revista (KarpaKoi) que já suscitou uma série de pedidos de esclarecimento sobre como participar nela. Isto para além dos eventos específicos sobre mangá e cultura japonesa, que se vão realizando todos os anos por diversos locais. Mas para se organizar neste aspecto, o Festival terá também de falar com especialistas na matéria, para saber quais são as tendências do mercado e as apetências do público. É nesta vertente que se conquistará novo público que, vendo eventualmente as outras exposições, poderá talvez descobrir outros mundos desenhados...

De resto o FIBDA tem tido a demonstração cabal da quantidade de público que a mangá atrai, através da realização dos concursos de Cosplay. Só não compreendemos como é que a organização teima em não compreender o fenómeno.

Assim que termina o Concurso de Cosplay os jovens precipitam-se para os stands da zona comercial que vendem livros de mangá, ignorando olimpicamente as exposições...

2 – LEITORES DE COMICS E AFINS

Depois, um público um pouco mais velho, especialmente na adolescência avançada, é adepto dos comics americanos. E aqui, vale exactamente quase tudo o que escrevemos atrás para os adeptos da mangá. Para mais, com a quantidade crescente de autores portugueses a trabalhar para o mercado americano, não se compreende que o Festival esteja nesta altura apenas dependente dos autores que a Kingpin Books possa trazer ao Festival. Porque, para além dos Sean Murphy que este editor traga à Amadora (e felizmente tem trazido alguns de grande interesse), nem todos os editores têm capacidade para o fazer, cabendo à própria organização providenciar mais três ou quatro autores e respectivas exposições, incluindo no leque um ou outro autor português com trabalhos recentes para os comics americanos.

3 – LEITORES DE BD FRANCO-BELGA E DE GRAPHIC NOVELS (romance gráfico)

A camada de público afecto que deixamos para o fim, é a maioritariamente habitual frequentadora do Festival, na generalidade um público já adulto, que não precisará de ser “chamado à causa da BD”. É um público que normalmente “vai a todas” mas que também se cansa quando lhe é apresentado sistematicamente “mais do mesmo”. Aqui é preciso criatividade e descobrir coisas novas. E o que não faltam são coisas novas, tanto no domínio da BD franco-belga como, para um público mais “intelectual”, as graphic novels que são editadas cada vez com mais frequência, parecendo estar a implantar-se como um paradigma da BD adulta, afastada já do conceito da BD de aventuras que ainda caracteriza o mercado franco-belga. Obras do tipo FOOTNOTES IN GAZA de Joe Sacco, BLANKETS de Craig Thompson ou PERSÉPOLIS de Marjane Satrapi deveriam ser sempre, obrigatóriamente, objecto de exposições no FIBDA.

DEPOIS, OUTRAS LINHAS OBRIGATÓRIAS:


4 – BANDA DESENHADA PORTUGUESA

Terá que haver sempre exposições de autores portugueses, logicamente, baseadas ou não no nosso escasso mercado editorial. E isso o FIBDA já faz satisfatoriamente, embora por vezes mais espalhafato-sa do que incisivamente.

5 – BANDA DESENHADA “ALTERNATIVA”

Seria muito importante conquistar o público deste tipo de banda desenhada, sistematicamente arredado do FIBDA – afecto, por exemplo, às edições da Chili Com Carne / MMMNNNGGGR, da El Pep, do Gambuzine, etc... Daí que nos pareça ser obrigatório haver, em todas as edições do FIBDA uma exposição da banda desenhada dita “alternativa”, ou mesmo “de autor”. Basta ir aos eventos organizados pela Chili/El Pep, etc... para perceber que a coisa movimenta muito mais gente do que possamos imaginar. Já para não falar da exposição “Tinta nos Nervos”, cuja filosofia de mostrar autores que rompem com o tradicional na forma de contar histórias em BD, nos mostrou um arco de autores que conhecemos pouco e nunca foram abrangidos pelo FIBDA.

6 – OUTRAS BANDA DESENHADAS

Neste ponto um espaço para a descoberta de outras bandas desenhadas (Inglaterra, Itália, Alemanha, Polónia, Argentina, Brasil – lusófonia, etc...), domínio onde o FIBDA tem (aqui sim) conseguido algumas exposições surpreendentes, mas quase sempre sem a obrigatória correspondência em livros à venda no espaço comercial, o que é grave, indigno e penoso para os autores convidados. Lembremos os casos deste ano, dos brasileiros Spacca e Luis Gê, do galego Xaquin Marin, ou dos angolanos Olímpio e Lindomar de Sousa, por exemplo, todos sem obras editadas em Portugal e que tiveram que dar autógrafos em simples folhas de papel branco... É, no mínimo, confrangedor.

7 – EFEMÉRIDES DA BANDA DESENHADA

Aqui refeririamos as tais exposições que mostrem a História da Banda Desenhada, do género das que foram dedicadas a Fernando Bento, ou a BD na Républica e mesmo as dedicadas este ano ao Humor na Banda Desenhada – com os 60 anos dos Peanuts, etc... mas devidamente enquadradas, organizadas por especialistas, investigadores, historiadores, etc... e não por simples curiosos.

8 – ARGUMENTISTAS

Como elemento inalienável da criação de histórias contadas em banda desenhada, o argumentista teve sempre muito pouca visibilidade no Festival, com uma ou outra excepção. Parece-nos que todas as edições do FIBDA deveriam conter uma exposição dedicada a um argumentista. E nesta altura começa (finalmente) a haver a sensibilidade, em Portugal, de que o argumentista é parte essencial da equipa que elabora histórias em banda desenhada, talvez porque estejam a despontar alguns talentos nesta área. Este pressuposto também é válido quando o argumentista é o autor dos desenhos, (o FIBDA já faz isso com alguns autores que apresenta) mas neste aspecto não estaremos a falar da mesma coisa, uma vez que raros são os desenhadores que conseguem realizar obras com algum valor literário sem o suporte de um argumentista – são muito raros os Hugo Pratt, ou os Enki Bilal – embora esta dicotomia pudesse até servir de suporte a um tópico importante do Festival: como se constrói uma história em Banda Desenhada. E porque cada autor tem uma maneira própria de o fazer, haveria larga quantidade de matéria a abordar.

9 – EDIÇÃO / NOVIDADES / LANÇAMENTOS DE BANDA DESENHADA

Neste ponto o FIBDA tem-se mantido coerente, apesar de algumas exposições irrelevantes, ou mal tratadas, que por vezes apresenta.

PROPRIEDADES E ARTICULAÇÃO DOS ESPAÇOS DO FESTIVAL


10 – ESPAÇO COMERCIAL / ESPAÇO FANZINES

O Espaço Comercial tem que ser um espaço nobre e central do Festival: porque a Banda Desenhada só faz sentido no seu suporte próprio – o livro (a revista, o jornal, o fanzine, etc...)! Para quem visita regularmente o Festival de Angoulême, sabe que é esse o tratamento que por lá é dado ao livro – não sendo por acaso que chamam ao espaço comercial deste Festival, “Le plus grande librairie de BD du monde” !!! E é assim que tem de ser: a banda desenhada, apesar de impropriamente designada “nona arte”, não é de facto uma “arte pura”: vive apenas e tão só daquilo que rendem as edições em livro (outros tempos houve em que jornais e revistas – onde tudo começou – não prescindiam da BD)! Não são as exposições de BD que alimentam os autores, ao contrário da pintura, portanto é um erro apresentar exposições de BD apenas como de obras de arte se tratasse: a banda desenhada é, quer queiramos, quer não, uma indústria, apesar de, no caso português, essa industria ser cada vez mais residual. Mas o que se pretenderá, com um Festival, é precisamente ajudar, na medida do possível, a que essa indústria, de algum modo, cresça e com ela floresçam os autores.

Às exposições de banda desenhada apresentadas têm que corresponder livros à venda no espaço comercial. De outro modo essas exposições são meras curiosidades improdutivas – a não ser que digam respeito à História da própria Banda Desenhada e mesmo estes temas têm sempre alguma publicação para venda: recordamos que a exposição dedicada a Fernando Bento no Festival de 2010, pôde contar, pelo menos, com as publicações dos Salões de Moura e Viseu e do grupo Bedéfilo Sobredense que, já agora, esgotaram rapidamente.

O actual espaço comercial do FIBDA é bem localizado e bem estruturado, geograficamente no centro do Festival, com os stands em volta, mas que, apesar de tudo, nas duas últimas edições do Festival sofreu “assassinatos” que se reflectiram (e muito) nas vendas. O espaço comercial tem que ser desafogado e livre de obstáculos visuais que escondam os stands (como aconteceu em 2010 e este ano).

Por outro lado lembramos que existiu desde o início do Festival – e até 2005 – um espa-ço dedicado à venda de fanzines e de originais no FIBDA, seja numa denominada Feira dos Fanzines e mais tarde com stand próprio. Este ano conseguiu-se recuperar, numa solução de última hora, um espaço próprio, gratuito, para os fanzines, o Mercado dos Fanzines, com a exuberância que todos podemos verificar.

 Festival de 2008 - a melhor zona comercial e de convívio desde 2004...

Festival de 2009 - A pior zona comercial de sempre...

Festival de 2010 - Uma zona comercial frustrante, escondida por colunas à volta do espaço de convívio e... uma desoladora presença de público...

11 – ARQUITECTURA DOS ESPAÇOS

Mesmo com projectos de arquitectura dos interiores encomendados, cabe ao cliente (organização do Festival) fazer o programa daquilo que quer, impondo o corte a exageros arquitectónicos dos projectistas, na fase de projecto, que prejudicam gravemente o próprio Festival. Não queremos com isto dizer que, de um modo geral, a arquitectura da estrutura de suporte no núcleo central, um espaço enorme que é necessário dividir para realizar as exposições e os eventos necessários, seja desagradável ou, de todo inútil. Conseguem-se belos efeitos de alinhamentos e de volumetrias. A questão é quando as coisas são excessivas e determinados aspectos pautam pela inutilidade e mesmo contraproducência. E, atendendo aos cortes orçamentais previstos, não seria mau que se começasse a racionalizar toda a estrutura, tal como já se fez este ano.

 "Praça Central" do festival de 2010 - um espaço inútil e de construção cara, que só serviu para a Festa da Caricatura e o Cosplay...

Festival de 2011: Espaço na frente dos Autógrafos (virados inexplicavelmente "de costas" para a zona comercial e de convívio), enorme e inútil, que poderia ter sido aproveitado de melhor maneira...

12 – CENOGRAFIAS

Toda a gente reconhece que as cenografias das exposições no FIBDA são quase sempre de alta qualidade. Contudo, por vezes as cenografias são de tal modo sobrecarregadas, que quase não se dá pelas pranchas expostas – a essência da exposição. Seria preciso aqui também, conter alguns excessos dos cenógrafos. Damos como exemplo uma exposição cenograficamente sobrecarregada: REI de Rui Zink e António Jorge Gonçalves.

13 – DISPERSÃO DO FESTIVAL PELA CIDADE

Compreende-se a pretensão da autarquia em querer o Festival espalhado pela cidade, ocupando edifícios que se pretendem emblemáticos, para cativar a população do município. Contudo esta opção deixa sempre uma parte do Festival fora dos olhares dos visitantes. Tenta seguir-se aqui o exemplo do Festival de Angoulême, só que em Angoulême existe um casco histórico de pequenas dimensões, onde todos os núcleos podem ser visitados a pé, em agradáveis passeios. Na Amadora, não só não existe qualquer casco histórico, como a cidade não é agradável e não é possível visitar os núcleos dispersos sem ser de carro – que nem toda a gente que visita o Festival possui.

Deveria acabar-se com esta dispersão inútil, ou reduzi-la ao mínimo, porque leva a que a esmagadora maioria do público não visite as exposições montadas fora do Forum Luís de Camões. Esses núcleos são, logo à partida, um razoável desperdício de trabalho e, já agora, de dinheiros públicos.

14 – O FESTIVAL / FESTA DA BD – 
FORMALIDADE EXACERBADA vs DESORGANIZAÇÃO ORGANIZADA

A partir de certa altura, mais concretamente a partir de 2005, o Festival, que no espaço da Fábrica da Cultura, se caracterizava pelo verdadeiro espírito de um evento desta natureza: a Festa (um Festival é uma Festa) da Banda Desenhada, onde predominava um certo improviso, participação activa dos autores, livreiros e público, começou a tornar-se cada vez mais formal e restritivo de participações avulsas. Seja pelo impedimento devido ao espaço “limpinho” e “arrumadinho”, ou pela imposição restrita à exibição das marcas dos patrocinadores, actualmente o FIBDA parece-se mais com um museu do que com um Festival !!!

A participação espontânea dos autores, livreiros e público, deve voltar a ter alguma liberdade, com participações extra-programação e extra-patrocinadores, apenas dentro dos limites que a boa civilidade impõe.

15 – DIVULGAÇÃO

Os timings de divulgação da programação do FIBDA têm sido, ultimamente, no mínimo, desatrosos. A sensação que passa para o público é a de uma tremenda desorganização, ou até mesmo o característico “deixa andar” que se costuma atribuir à função pública. Não cabe na cabeça de ninguém fazer a divulgação de um evento da dimensão deste Festival com uma semana de antecedência (como foi em 2010), ou que não houvesse programas impressos senão no último fim-de-semana – ou mesmo não haver catálogos durante todo o Festival, como tem acontecido quase sempre. Tudo isto faz com que o público se desinteresse cada vez mais e não apareça. Chamamos a atenção, mais uma vez, para o Festival de Angoulême, cuja programação para a edição de Janeiro de 2012 já está on line – a três meses de distância...

A única nota positiva a reter este ano, para já, é o facto de tanto o Catálogo como o Programa terem estado prontos logo no primeiro dia do Festival, coisa que raramente aconteceu.

16 – LOCALIZAÇÃO

Claro que a estrutura física e a localização do “núcleo central” do festival, no Fórum Luís de Camões, são péssimas: estruturalmente porque o escasso pé-direito do estacionamento de viaturas, que constitui o piso -1 do Festival, torna o local claustrofóbico quando há um bocadinho de gente a mais. Mas já foi pior, lembrando a Escola Intercultural e a Estação do Metro da Falagueira. Toda a gente que frequenta o Festival há longos anos, recorre com frequência (às vezes irritante, por aquilo que já foi explicado pela autarquia) à lembrança da velha Fábrica da Cultura. Cremos que esta memória daquelas instalações tem a ver sobretudo com a facilidade de acessos que possibilitava, uma vez que se encontrava numa zona central da Amadora, mas devido também ao modo (que quanto a nós já nessa altura pecava na sua estruturação programática) descontraído, de festa – na linha da tal desorganização-organizada – como as coisas se desenrolavam. Mas quanto a este problema não haverá muito a dizer nesta altura, embora seja motivo das principais críticas ao FIBDA.

17 – CONCLUSÕES

Tudo isto quererá apenas dizer que, mau grado a experiência acumulada de vinte e um anos na montagem de Festivais de Banda Desenhada, haverá, da parte da organização do FIBDA (ou Comissariado), que ter a humildade de apreender as mudanças nos públicos diversos, juntando a experiência acumulada às novas tendências do mercado, organizando um evento bem estruturado nos seus espaços e suficientemente abrangente em matéria de exposições, de todas as vertentes que fazem parte das apetências dos públicos da Banda desenhada, tendo em conta a especificidade das suas diversas idades, as quais impõem os seus gostos como consumidores de BD. Ou seja, numa palavra: as ofertas terão sempre de ir ao encontro das procuras. Se não encontrarem nada no Festival que os cative, não o visitarão. Tudo isto apontando para uma utilização racional dos cada vez mais parcos recursos financeiros, realizando um Festival mais barato em termos estruturais, mas talvez mais visitado por público pagante.

-------------------------------------------

Ficaram por abordar dois temas importantes, que deixaremos para próxima ocasião, dada a urgência da presente análise:

a) a limitadora escolha de temas para cada edição do Festival, que podem resultar ou não na cativação de um público aleatório.

b) algum disparate e contraproducência geral em que navega uma coisa chamada “Prémios Nacionais de Banda Desenhada”.

EXEMPLOS DE ESPAÇOS COMERCIAIS EM "OPEN SPACE":

 Festival International de la Bande Dessinée d'Angoulême 2011

  Festival International de la Bande Dessinée d'Angoulême 2011

  Festival International de la Bande Dessinée d'Angoulême 2011

 Saló del Comic Barcelona 2011

 Saló del Comic Barcelona 2011

____________________________________________________________


 
Locations of visitors to this page