quarta-feira, 23 de março de 2011

BDpress #243: A TRAGÉDIA JAPONESA VISTA PELOS CARTOONS + OS 65 ANOS DE “PLÁCIDO E MOSCA” – PEDRO CLETO NO JORNAL DE NOTÍCIAS


Jornal de Notícias, 19 de Março de 2011

A TRAGÉDIA JAPONESA VISTA PELOS CARTOONS

F. Cleto e Pina

Numa época em que o cartoon editorial está presente em quase todos os jornais, a tragédia que o Japão ainda vive não escapou ao olhar e ao traço dos criadores gráficos.

Uma simples pesquisa na Internet permite descobrir um grande número de desenhos alusivos, nos quais se destaca o uso recorrente de alguns símbolos: a bandeira japonesa, em especial o círculo vermelho, representando uma ferida, sol posto (desespero) ou sol nascente (esperança); o sinal nuclear associado ou substituindo elementos da cultura nipónica; variações sobre a pintura “A grande onda”, de Katsushika Hokusai, feita sinónimo de destruição, com a montanha original substituída por chaminés nucleares ou destroços urbanos.

E se à maior parte deles é comum uma grande sensibilidade e contenção, apelando mais à reflexão do que ao riso, a verdade é que algumas polémicas têm surgido, com alguns leitores a insurgirem-se, obrigando mesmo, nalguns casos, os autores a explicarem-se ou os jornais a pedirem desculpas públicas, como aconteceu, por exemplo no Brasil e na Malásia.

Ao mesmo tempo, têm sido criados sites como Tsunami – Des images pour le Japon, do ex-argumentista de Spirou, Jean-David Morvan, que reside no Japão, que reúnem ilustrações de solidariedade de autores de proveniências e estilos diversos.



 


 ____________________________________


Jornal de Notícias, 17 de Março de 2011

PLÁCIDO E MOSCA, A MEMÓRIA DE OUTROS TEMPOS

F. Cleto e Pina

A 17 de Março de 1946, estreava na revista francesa “Vaillant” #56 uma nova série intitulada “Placid et Muzo”, protagonizada por dois animais antropomorfizados, um urso negro e uma raposa, que juntos viviam divertidas aventuras que raramente ultrapassavam uma página.

Se aquele título poderá dizer pouco aos leitores portugueses, o caso mudará com certeza de figura entre aqueles que leram histórias aos quadradinhos nas décadas de 50 e 60 do século passado, se lhes dissermos que em Portugal os dois heróis, numa aproximação à pronúncia original, foram rebaptizados como Plácido e Mosca.

E foi com esta designação que foram presença recorrente em títulos da Agência Portuguesa de Revistas como o Mundo de Aventuras, Condor ou Tigre, a preto e branco ou a uma cor, chegando até a estampar cadernos escolares em meados de 1950.

Inicialmente usando apenas umas calças com alças, os dois amigos – frequentemente em conflito, devido ao seu carácter distinto, mais pacífico Plácido, mais irrequieto Mosca – comporiam depois o seu visual vestindo pólos ou coletes, protagonizando tanto cenas quotidianas quanto episódios como polícias, cowboys, exploradores ou aventureiros, cuja leitura fácil e directa, os desfechos inesperados e os jogos de palavras contribuíram para conquistarem os leitores.

O seu criador foi o catalão José Cabrero Arnal (1909-1982), que os portugueses já conheciam como colaborador de “O Mosquito” onde, entre muitas outras bandas desenhadas, tinha brilhado com o cão Top, antepassado daquele que seria a sua mais famosa criação, Pif le chien, publicado pela primeira vez em 1948. Claramente inspirado pelo traço Disney, as suas diversas criações, quase sempre animais com postura humana, combinavam humor, charme e poesia de forma harmoniosa.

Plácido e Mosca, que originalmente tinham argumentos de Pierre Olivier, seriam retomados por Jacques Nicolaou, quando Arnal se dedicou a Pif, perdendo no entanto um pouco da poesia e da originalidade dos gags iniciais.



____________________________________________

Imagens da responsabilidade do Kuentro
____________________________________________

terça-feira, 22 de março de 2011

BDpress #242: AMANHÃ COM O PÚBLICO MAIS UM ÁLBUM DE "OS INCONTORNÁVEIS DA BD" – ADÈLE BLANC-SEC

E agora que já viram o filme, aí vem mais um "Incontornável da BD": Adèle Blanc-sec", numa edição Público/Asa, a distribuir com o jornal de amanhã, dia 23 de Março. A Asa já tinha editado em Setembro passado o àlbum duplo "Adèle Blanc-Sec" Volume 1, com as histórias "Adèle e o Monstro" e "O Demónio da Torre Eifel"...


Público, 19 Março 2011

Uma aventura inédita de Tardi no quarto álbum da colecção Os Incontornáveis da BD

MISTÉRIOS NOS LOUCOS ANOS 1900

Carlos Pessoa

Em Janeiro de 1912, Paris treme e frio. Adele Blanc-Sec sente-se perseguida na rua e agride violentamente Robert Esperandieu. Afinal, o pobre homem apenas queria convidar uma "rapariga tão bonita" para ver uma coisa extraordinária: dar vida a um homem•macaco com 300 mil a 400 mil anos que estava conservado em turfa gelada, algures na Sibéria...

Esta sequência de O Sábio Louco dá bem uma ideia do tom que Jacques Tardi imprimiu a esta obra. Antes de mais, ela revela "uma predilecção estética pelo universo de 1900", como afirmou um dia. Além disso, o autor considera que o seu "desenho se adequava melhor a essa arquitectura, a esses cenários sobrecarregados em que encontrava toda a espécie de referências gráficas".

De certo modo, esta é uma série inclassificável. O registo dos primeiros episódios é clássico e os preciadores de Hergé, Jacobs ou Jacques Martin identificá-lo-ão com facilidade. O equilíbrio cromático notável, a narrativa compacta e densa; o traço "claro" e legível. O conteudo, porém, perturba essa matriz, pois remete para atmosferas, dimensões e situações onde a improbabilidade e a inverosimilhança assentam arraiais.

De seguida, Tardi libertar-se-á dessa herança clássica para enveredar por terrenos menos trilhados, construindo uma narrativa folhetinesca muito aberta, com evoluções e desenlaces de todo inesperados.

O Demónio dos Gelos, que completa este álbum, é uma deliciosa história dos "verdes anos" de Jacques Tardi. A aventura inclui ingredientes que viriam a tornar-se recorrentes com o passar dos anos: sábios loucos, um misterioso monstro tentacular, pessoas congeladas e maravilhas científico-tecnológicas são algumas das peças com que Tardi tece a malha narrativa desta paródia tragicómica inspirada pelas Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne. Mas esta não é a única presença tutelar da história, desenhada a preto e branco, cujo traço faz lembrar intencionalmente o ilustrador Gustave Doré. Nesta exposição de uma particular visão do mundo – a perversão generalizada dos homens e os seus comportamentos intrinsecamente demenciais – iria Tardi ancorar; nos anos seguintes, uma parte essencial da sua obra, bem traduzida nas narrativas que têm os horrores da Primeira Grande Guerra Mundial como tema central...

Álbum 4
O Sábio Louco
O Demónio dos Gelos
Quarta-feira. 23 de Março
Por + €7,40
______________________________________

Edição da Bertrand, 1979





_________________________________________________

Imagens da responsabilidade do Kuentro
_________________________________________________

quinta-feira, 17 de março de 2011

BDpress #241: UMA REFLEXÃO DE DAVID SOARES + EDITORES DE BD FRANCO-BELGAS EM FORMATO DIGITAL + IVO MILAZZO NO VII FESTIVAL DE BEJA

Um pequeno texto de reflexão de David Soares, publicado anteontem no seu blogue Cadernos de Daath, sobre o que se deveria fazer quando, às vezes, se quer mudar o estado de coisas a que chegamos. Depois, nota das movimentações concertadas das editoras franco-belgas para a edição de livros de banda desenhada online. E a seguir, a notícia de José Carlos Francisco, no blogue do Tex, sobre a participação do autor italiano Ivo Milazzo no próximo Festival de BD de Beja...
_______________________________________________________________

Terça-Feira, 15 de Março de 2011

DAVID SOARES EM CADERNOS DE DAATH

MUDANÇA

A única maneira de mudar a sociedade é a mesma maneira de mudar-se seja o que for: através do exemplo do indivíduo. Alguém sonha e faz – e ao fazer não só mostra a forma como se faz, como, mais importante ainda, mostra que é possível fazer.

A sociedade não muda com manifestações derivativas, nem com manifestos. Muda quando alguém, no isolamento do seu génio, pensa e aplica o pensamento em algo que perdure no tempo. Se perdurar, mais cedo ou mais tarde vai servir de exemplo e o exemplo é que é mimetizado, não são as palavras.

Talvez nunca como neste período, em que todos os indivíduos se acham inteligentes e bem-informados só porque a profusão de informação à sua volta lhes oferece essa ilusão, a sociedade exigiu tanto dos seus elementos constituintes: dos seus "heróis" individuais. Querem mudar o estado das coisas? Então leiam mais, opinem mais, trabalhem mais, criem mais e, dentro da área em que estiverem inseridos, seja ela qual for, tentem ser os melhores naquilo que fazem.

Comecem por mudar, para melhor, aquilo que podem, com efeito, mudar.
O resto vem a seguir.

____________________________________________________



Diário Digital / Lusa, terça-feira, 15 de Março de 2011

BD: EDITORES FRANCO-BELGAS JUNTAM-SE NO FORMATO DIGITAL

As principais editoras franco-belgas de banda desenhada anunciaram hoje que assinaram um acordo para uma política concertada na área digital, colocando um comum os respetivos meios e catálogos.

As editoras Bamboo, Casterman, Dargaud, Delcourt, Dupuis, Glénat, Le Lombard e Soleil propõem, através da "Bande Numérique", uma "oferta comum legal, simples e atrativa, que responde ao duplo desafio da pirataria e da ambição dos grandes operadores internacionais num mercado da leitura digital em formação", explicam em comunicado citado pela AFP (Agence France Presse).

Decidiram assim constituir uma "bedeteca on-line exaustiva, em atualização permanente, que se torne uma referência em matéria da banda desenhada francófona na Internet nos diferentes suportes, como o Ipad e outros ‘tablets’ de leitura”.

Esta oferta comum é proposta por uma primeiro ferramenta interprofissional chamada Izneo, plataforma de difusão e de distribuição de bandas desenhadas digitais, em formato idêntico à versão em papel.


_______________________________________________

IVO MILAZZO É UMA DAS ESTRELAS PRESENTES NA 7ª EDIÇÃO DO FESTIVAL INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA DE BEJA, EM PORTUGAL

Março 15, 2011 – Blogue do Tex

Por José Carlos Francisco

Entre os dias 28 de Maio e 12 de Junho de 2011 o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, que em edições anteriores nos trouxe Mestres da 9ª Arte do calibre de Mattotti, Dave McKean, Miguelanxo Prado, Frantz Duchazeau, George Pratt, David B., Hermann, Max, Denis Deprez, Craig Thompson, Gipi e Fabio Civitelli, volta a fazer da cidade alentejana a capital da banda desenhada no nosso país, juntando autores consagrados e talentos emergentes.

E integrada na 7ª edição do Festival ocorrerá uma Exposição Individual de um dos mais consagrados desenhadores italianos e que tem no seu brilhante currículo a participação em uma das mais emblemáticas personagens da BD italiana de aventuras, Tex Willer, da Editora Bonelli, para além de ser também o co-criador de Ken Parker, junto ao argumentista Giancarlo Berardi, uma das personagens mais cults dos westerns aos quadradinhos italianos.

Obviamente que estamos a falar de IVO MILAZZO, consagrado autor de banda desenhada que nasceu a 20 de Junho de 1947 em Tortona, região do Piemonte na província de Alexandria.

Ainda jovem transfere-se para a Liguria, no noroeste da Itália, frequentando amiúde a cidade de Rapallo, onde cresce artisticamente sob a orientação de Luciano Bottaro, Carlo Chendi e Giorgio Rebuffi, os fundadores do Estúdio Bierrecì. É aí, em 1973, que entre uma e outra história Disney, conhece Giancarlo Berardi, com o qual realiza a breve história Il Cieco para a revista Horror da editora Sansoni.

A dupla Milazzo & Berardi depois deste primeiro projecto, continuará a produzir um bom número de histórias, até que em 1974 criam Ken Parker, um introvertido cowboy de características muito semelhantes ao actor americano Robert Redford, publicado pela Sergio Bonelli Editore, na altura denominada Editoriale Cepim.

Nos anos seguintes Milazzo colabora, sempre em dupla com Berardi, com Il Giornalino, Skorpio, Lanciostory e realiza uma série de histórias para a colecção Orient Express. Entre os títulos do duo Berardi & Milazzo assinala-se Welcome to Springville, Tiki, Marvin o detective, Tom’s bar e o inacabadoGiuli Bai.

Em 1985, com o encerramento de Orient Express, Berardi e Milazzo iniciam uma colaboração com a Comic Art, que lhes permitirá retomar velhas personagens e continuar as publicações de Ken Parker. Com a conclusão da saga de Ken Parker, Milazzo volta a trabalhar para a Sergio Bonelli Editore realizando algumas histórias de Nick Raider e uma edição especial de Tex (Tex Gigante “Sangue no Colorado”; 1999) com argumento de Claudio Nizzi, o seu primeiro trabalho após a dissolução da parceria artística com Berardi.

Após a realização da aventura dedicada aoRanger, passa a fazer parte do staff deMágico Vento, permanecendo desse modo no género western até 2004, quando abandona a série de Gianfranco Manfredi para dedicar-se a projectos independentes tais como Impeesa – La grande avventura di Baden Powell, escrito por Paolo Fizzarotti e dedicado ao fundador do escutismo, e Il boia Rosso, volume escrito por Francesco Artibani.

O seu trabalho mais recente é Man Faber, uma graphic novel escrita por Fabrizio Calzia e dedicada à vida de Fabrizio De André que foi publicada o ano passado pela De Agostini.

Ivo Milazzo que deste modo visitará Portugal pela primeira vez e por isso brindar-nos-à com a sua presença no fim de semana inaugural do Festival, nos dias 28 e 29 de Maio próximos, terá uma Exposição que contará com cerca de três dezenas de ORIGINAIS, onde se incluem pranchas a preto e branco e igualmente a cores, mas também capas, que serão seleccionadas pelo próprio desenhador e que são representativas do seu trabalho e da sua evolução ao longo dos anos e onde obviamente trabalhos realizados em Tex, Ken Parker, Tom’s Bar, Baden-Powell e Uomo Faber estarão expostos em Beja.

Recorde-se entretanto que é a quinta vez (a primeira foi no Salão de Viseu 2005, a segunda no MOURABD2007, a terceira no FIBDA 2008 e a quarta no Festival de Beja 2010) no curto de espaço de 6 anos, queTEX WILLER está presente em exposições em Portugal (sendo Ivo Milazzo o terceiro desenhador de Tex a participar no nosso país nestes eventos, sucedendo a Fabio Civitelli que por três vezes esteve presente como convidado em Portugal e a Marco Bianchini que esteve presente no FIBDA 2008), facto de grande realce, inclusive porque Portugal é um país onde Tex não é publicado, embora receba as edições brasileiras desde 1971 e que mostra bem o interesse, empenho e carinho dos Texianos portugueses pelo míticoRanger e mostra sobretudo a importância que a Sergio Bonelli Editore concede a Portugal, ao colaborar neste tipo de iniciativas.

Realce ainda para o facto de que uma vez mais estarão portanto expostas páginas originais de Tex, algo que somente Portugal, e obviamente a Itália, se podem orgulhar até ao presente.

Em breve daremos mais informações a respeito de mais esta Exposição de Ivo Milazzo, que decerto ficará gravada a letras de ouro no historial do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, assim como na própria história de Tex Willer (e também de Ken Parker) no nosso país, por isso caro pard não deixe de marcar presença em Beja para revivermos todos os maravilhosos momentos vividos o ano passado aquando da presença de Fabio Civitelli para comemorar os seus 25 anos de carreira a desenhar Tex Willer!

Ivo Milazzo

Giancarlo Berardi, Ken Parker e Ivo Milazzo






___________________________________________________

Imagens da responsabilidade do Kuentro
___________________________________________________


terça-feira, 15 de março de 2011

BDpress #240: SOBRE O FILME BASEADO EM ADELE BLANC-SEC, PEDRO CLETO NO PROGRAMA CINEMAX - RTP2 + UM TEXTO DE TIAGO RAMOS NO BLOGUE SPLIT SCREEM


Três histórias da personagem Adèle Blanc-Sec, criada por Jacques Tardi na década de 70, foram adaptadas ao cinema por Luc Besson. O filme, baseado nos álbuns Adèle e o Monstro, O Sábio Louco e Múmias Loucas tem por título As Múmias de Faraó – As Aventuras de Adèle Blanc-Sec (na versão original francesa, Les Aventures Extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec),
foi estreado em Portugal no passado dia 10.

Para falar sobre este filme, Pedro Cleto foi convidado pelo programa Cinemax, que passou na RTP2 no dia 12 de Março. Quem não teve oportunidade de seguir o programa, pode agora vê-lo AQUI.

Mais abaixo fica também um texto de Tiago Ramos em Split Screem.

Pedro Cleto no programa Cinemax, da RTP2, dia 12 de Março.

Ficha Técnica:

Título: «A Maldição do Faraó - As Aventuras de Adèle Blanc-Sec»
Título original: «Les aventures extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec»
Realização: Luc Besson
Elenco: Gilles Lellouche, Louise Bourgoin, Jean-Paul Rouve e Mathieu Amalric
Género: Acção/Aventura
País: França
Ano: 2010
Duração: 107 minutos
______________________________________________

AS MÚMIAS DO FARAÓ: AS AVENTURAS DE ADÈLE BLANC-SEC
Em Split Screem
por Tiago Ramos

Sejamos francos. Por mais que a nossa cinefilia possa tender para o drama bem orquestrado, para o épico sumptuoso, para o realismo social, para o experimentalismo ou para o art-house, a verdade é que poucos são os que ficam indiferentes ao verdadeiro filme de entretenimento, vulgo cinema pipoca. Uns são mais tolerantes que os outros nos limites desse cinema entretenimento, mas na hora da verdade, acabamos sempre por ceder ora por nossa própria intenção e gosto, ora por arrastamento de uma terceira pessoa.

As Múmias do Faraó: As Aventuras de Adèle Blanc-Sec recupera esse tipo de cinema cada vez mais ausente dos grandes ecrãs, o típico filme de aventuras, divertido e sem mais para reflexão. Vencedor do Prémio do Público no Fantasporto 2011, o filme é um reencontro do espectador comum ao velho Luc Besson da altura de The Fifth Element (1997), de características pitorescas e com um sentido de humor excepcional. Escolha interessante por parte do cineasta em aproveitar uma bem-sucedida banda-desenhada franco-belga de Jacques Tardi, com uma (rara) protagonista feminina, embora não tenha tido retorno financeiro em terras francesas.

O filme é claramente um daqueles casos extremos: ou ama-se ou detesta-se. Dificilmente alguém lhe ficará indiferente pela ligeireza e humor com que segue as aventuras de uma intrépida e corajosa (uma mistura de Indiana Jones com Lara Croft, com mais inteligência e classe e num ambiente – não só pelo argumento - ao género de The Mummy) escritora e jornalista num mundo com tanto de fantasia que nem parece uma Paris dos anos 70, não fossem as indumentárias utilizadas pelas personagens e os cenários. O argumento simples, com grandes apetências infanto-juvenis, é despretensioso e virado para a gargalhada fácil desde o início ao fim, capaz de deixar uma audiência inteira rendida ao seu encanto (como se viu no Fantasporto). Embora, de facto a mistura de dois eventos de elevado surrealismo na trama (pterodáctilos e múmias) possam acabar por ser exagerados – talvez resultassem melhor individualmente – o humor com que os conjugam é delirante, sempre com grande ritmo e energia.

Mas essa energia e humor nunca estariam completos não fosse a extasiante interpretação da jovem francesa Louise Bourgoin (Le Petit Nicolas) que deixa uma plateia rendida ao seu talento e na expectativa de uma promissora carreira. É o seu charme e a sua determinação que encantam e tão bem se adequam a esta invulgar personagem de banda-desenhada.

Tecnicamente o filme surpreende e não fica aquém da concorrência norte-americana. A começar pela fotografia de Thierry Arbogast (The Fifth Element), passando pela direcção artística de Hugues Tissandier (Arthur et les Minimoy) até ao guarda-roupa de Olivier Bériot (Le scaphandre et le papillon). Destaque ainda para os efeitos visuais e CGI, bastante competentes e que resultam bem melhor que o esperado.

As Múmias do Faraó: As Aventuras de Adèle Blanc-Sec pode não ser um filme perfeito, mas cumpre completamente o seu objectivo e assume-se como uma interessante proposta de cinema familiar e de aventura, um género cada vez mais ignorado no cinema actual. A sua simplicidade e honestidade são raras, deixando o espectador ansioso pelos capítulos que completarão esta trilogia de aventuras de Adèle Blanc-Sec.
______________________________________________________







________________________________________

Imagens da responsabilidade do Kuentro
_______________________________________

segunda-feira, 14 de março de 2011

BDpress #239: 60 ANOS DE DENIS O PIMENTINHA E O WOLKSWAGEN TEX – Pedro Cleto no Jornal de Notícias


Jornal de Notícias, 12 de Março de 2011

UM TRAQUINAS SEXAGENÁRIO
Nascido há 60 anos, Dennis, o pimentinha, continua a fazer das suas

F. Cleto e Pina

Com 5 anos, louro, sardento e um sorriso cândido, Dennis, protagonista de um cartoon estreada há 60 anos nos Estados Unidos, era o exemplo perfeito de um diab(inh)o em corpo de anjo, como aliás deixava antever o seu apelido: the menace (a ameaça).


Na verdade, justiça lhe seja feita, as diabruras provocadas pelo miúdo, conhecido em Portugal como Denis o Pimentinha, por via das edições brasileiras distribuídas em tempos no nosso país, devem-se mais à sua vontade de ajudar os outros e à inocência própria da idade, do que propriamente a um desejo de fazer o mal ou prejudicar. Só que, infelizmente para ele, “de boas intenções está o Inferno cheio”, pelo que os fundilhos das suas calças frequentemente acabam por ser fraca protecção para as palmadas com que muitas vezes terminam as confusões que originou.

Até porque, nos anos 1950, Dennis era bem mais rude e mesmo algo violento, sendo capaz de dar um nó (literalmente) no pescoço dum cisne, de rasteirar o pai ou de dizer à mãe para ir ralhar com o marido e não com ele. Depois, com o passar dos anos, amoleceu um tanto, e as suas partidas e travessuras tornaram-se mais leves e inocentes, sem que isso signifique que os cartoons e bandas desenhadas tenham perdido humor. Claro que não será essa a opinião dos seus pais, o casal Mitchell, nem de Mr. Wilson, o vizinho do lado, os seus alvos de eleição.
Como imagem de marca Dennis veste umas jardineiras vermelhas, geralmente sujas de lama ou chocolate, tem quase sempre o cabelo revolto e andava na companhia do seu cão Ruff, companheiro de brincadeiras e (involuntárias) partidas. Da sua roda de amigos, alternadamente cúmplices ou vítimas, fazem parte Joey, Margaret e Gina.

O seu criador foi Hank Ketcham (1920-2001), que fez a sua aprendizagem como ilustrador nos estúdios de animação de Walter Lantz e de Walt Disney, tendo neste último participado nas longas-metragens Fantasia, Bambi e Pinóquio. Durante a II Guerra Mundial, baseado na sua experiência na Marinha, estreou-se nos quadradinhos com o marinheiro Half Hitch, surgindo em 1951 a sua grande criação, o traquina Dennis the Menace, que, estreado em apenas 18 jornais, em poucos meses chegava já a mais de uma centena e, nos seus tempos áureos foi publicado em mais de um milhar de títulos, por todo o mundo.

Originalmente, Dennis protagonizava cartoons de imagem única, pontualmente divididos em duas vinhetas verticais. O seu sucesso imediato levaria o autor a desenvolver uma prancha dominical, logo no ano seguinte, e à criação de uma revista homónima, em 1953. Ketcham, com recurso a alguns assistentes, assumiu a sua criação até 1994, quando se reformou. A popularidade de Dennis faz com que continue em publicação, actualmente assinado por Marcus Hamilton e Ron Ferdinand.

A Fantagraphics Books, a exemplo do que faz com os Peantus, tem em curso a reedição integral da obra de Ketcham, e, no ano passado, os correios norte-americanos incluíram Dennis the menace (juntamente com Calvin, Garfield, Beetle Bailey e Archie) numa emissão filatélica intitulada Sunday Funnies Stamp.

Do papel, a ameaça saltou para o audiovisual, em 1959, numa série televisiva protagonizada por Jay North que durou 4 anos. Regressaria no final da década de 80, em 78 episódios animados, antes de fazer a sua estreia cinematográfica em 1993, com Mason Gamble como protagonista e Walther Matthau como o infeliz Mr. Wilson.

(Caixa)

O OUTRO DENNIS

Curiosamente, a 17 de Março de 1951, apenas 5 dias após a estreia do Pimentinha, estreava no reino Unido um outro Dennis the Menace, posteriormente baptizado de Dennis and Gnasher (o seu cão), para evitar confusões.

Publicado na revista infantil “The Beano”, é a banda desenhada mais antiga em publicação em Inglaterra, tendo como protagonista um miúdo considerado “o mais malcriado do mundo”. Criado por David Law, que o assinou até 1970, passaria depois pelas mãos de diversos autores, entre eles David Sutherland e David Parkins.

Este Dennis, que já teve duas adaptações animadas televisivas, é em tudo diferente do seu homónimo americano: mais velho, mais alto, tem cabelo escuro, usa camisola às riscas vermelhas e pretas e é também mais rude e malvado.

O autor, Hank Ketcham (1920-2001) 


________________________________________________

Imagens da responsabilidade do Kuentro
________________________________________________

Jornal de Notícias, 12 Março 2011

TEX TROCA O CAVALO PELO AUTOMÓVEL?

F. Cleto e Pina

Aberto ao público até ao próximo dia 13, o Salão Automóvel de Genebra 2011, um dos mais importantes do género, tem como principais novidades diversos modelos eléctricos e com motorizações ecológicas, entre os quais está o Volkswagen Tex, um protótipo da marca alemã dedicado a Tex Willer, o mais antigo western da BD em publicação.

A viatura em questão, uma criação da Italdesign para o maior fabricante europeu de carros, é um coupé que utiliza a tecnologia Blue e-motion e o sistema de direcção Twin Drive, pois é um modelo híbrido que tanto pode funcionar a gasolina (com o seu motor de 1.4 turbo) como a electricidade (com a bateria de 85 Kw). Com uma transmissão de sete velocidades sequenciais, atinge a velocidade máxima de 220 km/h, tendo uma autonomia de 35 km quando utiliza apenas o motor eléctrico.

Giorgetto Giugiaro, o estilista que apostou na combinação entre ecologia e desportivismo, afirmou que o Volkswagen Tex “é a nossa interpretação dos carros do futuro, pensados especialmente para a cidade”. E acrescentou: “além dos automóveis, eu e Fabrizio (o patrão da Italdesign), partilhamos outra paixão: o ranger Tex Willer, herói dos quadradinhos italianos. O Volkswagen Tex é uma homenagem aos homens que escreveram e desenharam uma página importante da nossa cultura popular”.

No caso Giovanni Luigi Bonelli (argumento) e Aurelio Gallepini (desenho), que em 1948 imaginaram o ranger, duro e com um sentido de justiça muito próprio, que frequentemente o transforma em juiz e carrasco dos malfeitores que persegue. E que é um caso ímpar de popularidade em Itália, onde chegou a vender mais de um milhão de exemplares mensalmente, estando na base do sucesso da editora Bonelli, que em 2007 encetou a reedição a cores das suas aventuras, com o jornal “La Reppublica” e a revista “L’Espresso”, numa colecção que, prevista para 50 números, já ultrapassou os 200 volumes.

Em Portugal, onde dispõe de muitos fãs, Tex está presente nos quiosques quase ininterruptamente desde a década de 1970, através de edições brasileiras de pequeno formato, que actualmente têm a chancela da Mythos Editora que, mensalmente, disponibiliza diversos títulos de Tex, entre novas histórias e reedições.

Resta saber se, em aventuras futuras, Tex Willer e o seu parceiro Kit Carson vão trocar os fogosos cavalos de sempre pelo novo Volkswagen Tex! Com a certeza de que tanto eles como os seus fãs, terão que esperar até 2018, para verem o carro ser produzido em série, se tal vier a suceder.



__________________________________________________

Imagens do Wolkswagen Tex sacadas do Blogue do Tex
__________________________________________________

 
Locations of visitors to this page