sábado, 1 de maio de 2010

BDpress #126 – João Miguel Lameiras no Diário “As Beiras”, Pedro Cleto no Jornal de Notícias e Carlos Pessoa no Público

Vamos por ordem: João Miguel Lameiras no Diário “As Beiras” de 24 de Abril, Pedro Cleto no Jornal de Notícias de 29 de Abril e Carlos Pessoa no Público de 30 de Abril. As abordagens a livros, de Lameiras sobre o excelente trabalho de edição que Mário de Freitas está a realizar com a sua Kingpin Books, de Carlos Pessoa sobre a colecção ALIX, que o Público está a distribuir em conjunto com a ASA e o texto de Pedro Cleto sobre os avultados números que estão a atingir transacções de clássicos da BD – já em anteriores posts publicámos aqui recortes de jornal com textos de PC sobre esta matéria - desta vez, a compra dos direitos da série Peanuts.

Diário “As Beiras”, 24 de Abril de 2010


A FÓRMULA DA FELICIDADE

João Miguel Lameiras

Pouco mais de um ano após a publicação do 1º Volume eis que chega finalmente às livrarias, a 2ª e última parte de “A Fórmula da Felicidade”, a fulgurante primeira colaboração entre Nuno Duarte e Osvaldo Medina e que este 2º volume vem confirmar como um dos mais interessantes títulos nacionais lançados nos últimos anos.
Embora se trate de uma história única de 88 páginas, razões editorais levaram a que “A Fórmula da Felicidade” fosse publicada em dois volumes, pois publicar a história toda num só álbum de mais páginas e preço mais elevado, implicava um investimento inicial maior e era comercialmente mais arriscado. Provavelmente, as mesmas razões editoriais terão levado a um aumento de preço do 1º para o 2º volume e, o que é mais grave, a uma clara diminuição da gramagem do papel, que não agarra tão bem as cores de Gisela Martins e companhia.
“A Fórmula da Felicidade” conta-nos a história de Victor, um génio da matemática enterrado numa aldeia do Baixo Alentejo, onde vive com a mãe, uma antiga hippy toxicodependente, e que um dia descobre a fórmula matemática da felicidade, para rapidamente se aperceber que é bem mais fácil transmitir felicidade aos outros, do que obtê-la para si… E se a associação com Abraão, um poderoso empresário sem escrúpulos, lhe traz fama e dinheiro para satisfazer todos os seus caprichos, afasta-o cada vez mais da sua própria felicidade. Victor terá (literalmente) que descer da sua torre de marfim até aos esgotos, para finalmente perceber que a felicidade só faz sentido quando partilhada com aqueles que dela mais necessitam e que a sua redenção só será possível através do sacrifício.

Apesar de algum simbolismo demasiado óbvio, de um fim algo previsível, mas perfeitamente coerente com o desenrolar da história, e do toque melodramático/ telenovelesco da figura do pai, bem mais interessante quando era apenas uma figura ausente de quem nada sabíamos, para além de que gostava de Jimmy Hendrix, Nuno Duarte faz um excelente trabalho com a “Fórmula da Felicidade”, criando uma história interessante e (muito) bem contada, que Osvaldo Medina passa a imagens com o talento e eficácia que o confirma, já não como a revelação que foi quando saiu o 1º volume, mas como uma das maiores certezas da BD nacional.

Veja-se, por exemplo, o tratamento que dá à expressão dos animais, o dinamismo das cenas de acção e o magnífico plano/ sequência da página 42, que aqui reproduzo. Igualmente eficaz, apesar do papel não ajudar, é o trabalho de cor, que marca claramente a diferença entre a corrupção da grande cidade e a pureza do campo, com as suas cores bem mais luminosas.

(“A Fórmula da Felicidade” Vol. 2, de Nuno Duarte e Osvaldo Medina, Kingpin Comics, 46 pags, 14,99 €)

Capa e pranchas sacadas pelo Kuentro no blog da KINGPIN BOOKS
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Jornal de Notícias, 29 de Abril de 2010

PEANUTS VENDIDOS POR 175 MILHÕES DE DÓLARES

F. Cleto e Pina

A família de Charles Schulz (1922-2000) e a Iconix Brand Group Inc. anunciaram ontem a compra dos direitos da série Peanuts por 175 milhões de dólares (cerca de 131,5 milhões de euros).

Até agora, eram pertença do United Feature Syndicate, que distribuiu esta popular tira de banda desenhada desde o seu início, a 2 de Outubro de 1950, e da E. W. Scripps. Segundo Jane Schulz, a viúva do criador de Charlie Brown e Snoopy, que exprimiu a sua satisfação pela óptima relação profissional mantida com a United ao longo de quase 60 anos, o negócio, que foi feito de forma amigável, permitirá trabalhar com uma empresa “que tem um grande respeito pelas personagens e pelo espírito com têm sido tratadas pela família”.

A Iconix Brand Group Inc., uma empresa vocacionada para o licenciamento de grandes marcas para revendedores e fabricantes, especialmente nas áreas de calçado e vestuário, ficará com 80 % da joint-venture agora estabelecida, ficando os herdeiros de Schulz com os restantes 20 %.

Apesar de a tira ter terminado há uma década, devido ao falecimento do seu criador, os dissabores quotidianos de Charlie Brown, Lucy ou Linus são ainda publicados diariamente em cerca de 2000 jornais de todo o mundo. A Iconix estima que a marca Peanuts, licenciada em mais de 40 países, gera receitas anuais na ordem dos 2 mil milhões de dólares, e espera que os respectivos direitos permitam um encaixe de 75 milhões de dólares por ano.

Algumas vozes aventam já a hipótese de a família de Schulz, que durante meio século escreveu e desenhou a série sozinho, sem recurso a qualquer colaborador, vir a autorizar a continuação dos Peanuts por outro autor.

Jacquelen Cohen, da editora Fantagraphics Books, declarou ao site Newsarama esperar que o negócio não afecte em nada a edição integral dos Peanuts, de que já foram publicados 13 dos 25 tomos previstos, uma colecção multi-premiada que em Portugal é seguida pelas Edições Afrontamento que prevêem lançar o sexto volume já em Maio.

Imagem da responsabilidade do Kuentro!
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Público • sexta-feira 30 Abril 2010

oTúmulo Etrusco, oitavo álbum da colecção de banda desenhada Alix


DESCIDA AOS MUNDOS INFERIORES

o herói volta a enfrentar os temíveis adoradores do culto de Moloch. Os
rituais sacrificiais de crianças, abordados na história, valeram a]acques
Martin acusações injustas de anti-semitismo


O Túmulo Etrusco
Quarta-feira, 5 de Maio
Por + 6,40 €


Carlos Pessoa

Um espaço circular subterrâneo dedicado ao culto de Moloch. No seu interior, labiríntico e obscuro, evoluem Alix, Enak Octávio e Lídia.

Os horizontes infinitos, a presença vivificante da luz solar, os ambientes naturais inspiradores, tudo parece coisa do passado. O fulgor solar evidenciado no episódio anterior dá, agora, lugar a um confinamento acentuado da narrativa, trazendo de volta uma realidade temática que já estivera presente em A Ilha Maldita.

Jacques Martin joga tudo nesse efeito de recondução ao "centro". Estados de alma, inquietações psicológicas, situações dramáticas ou atmosferas conspirativas são os ingredientes básicos deste regísto intimista procurado intencionalmente pelo autor.

Com efeito, os ambientes estão saturados de angústia e depressão enquanto o drama caminha irreversivelmente para o clímax. A complexidade do que está em jogo é dada, por exemplo, através de uma representação física e literal - o labirinto que conduz à tenebrosa cripta onde têm lugar os sacrifícios humanos.

Afiliação clássica desta aventura é evidente. Os protagonistas do drama são, indubitavelmente, seres humanos, vivendo de forma mais ou menos consciente os seus papéis, oscilando entre o sonho e a consciência de vigíIia. Mas há algo mais, por vezes indizível, que paira sobre a narrativa - e isso remete de forma evidente para o território da divindade, que tem no sacerdote louco o seu eminente representante.

"A genealogia das formas religiosas sempre me apaixonou", confessou Jacques Martin aos seus biógrafos Thierry Groensteen e Alain de Kuyssche. "Ela constitui um aspecto essencial da história das civilizações. Contrariamente aos meus hábitos - mas não sou um daqueles autores que aplicam receitas feitas por medida -, voltei de novo a pedir emprestados à História a maior parte dos principais personagens. Octávio, claro, mas também a sua irmã Lídia, futura esposa de Pompeu e, depois, de Marco António, e o odioso prefeito Vesius Pollion, apreciador de moreias... Já Brutus é um personagem fictício, que pretende ser (e talvez o seja) o último descendente dos reis tarquinios."

A publicação desta história provocou na época um violentíssimo ataque do diário francês Le Monde, assinado por Emmanuel Todd. O articulista viu nos sacrifícios de crianças realizados pelos adeptos de Moloch uma alusão simbólica a ritos que levaram os nazis a acusar os judeus, concluindo que com Martin todos os maus eram semitas. "Evidentemente, é erróneo pretender que atribuo todos os papéis de 'maus' a judeus. Arbacés é grego, Varius Munda, Marcus, Lívion Spura e outras personagens detestáveis são romanos, e poderia citar gauleses, egípcios ou fenícios igualmente pouco recomendáveis", contestou Martin. "Face a ataques tão absurdos só há uma atitude possível: o desprezo."

Na companhia do jovem Octávio, sobrinho deJúlio César, Alix eEnak percorrem a Via Aurélia em direcção a Roma. Quando chega a noite, avistam fumo no horizonte. Ao aproximar-se, encontram as ruínas de uma quinta quefoi recentemente atacada. Nelas, descobrem, com horror, os restos carbonizados de uma criança atada a um poste. Nessa mesma noite, não muito longe dali, outra exploração agricola é atacada por misteriosos cavaleiros mascarados...
OTúmulo Etrusco (argumento e desenho de Jacques Martin) é o oitavo álbum da colecção de banda desenhada Alix. A história foi publicada pela primeira vez na revista Tintin (edição belga) entre 17 de Novembro de 1967e 28 de Maio de 1968. A primeira edição em álbum saiu em 1968 (Casterman).

Nota do Kuentro: Leiam, já agora um comentário de Pedro Cleto in As Leituras do Pedro

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