sábado, 11 de dezembro de 2010

BDpress #200: ENTREVISTA COM LEONARDO DE SÁ A PROPÓSITO DO DICIONÁRIO UNIVERSAL DA BANDA DESENHADA, no Diário de Notícias de hoje (11 de Dezembro 2010), por Eurico de Barros.

Inédito. Leonardo De Sá, arquitecto, investigador de banda desenhada (BD) e autor de muitas obras da especialidade, acaba de publicar "Dicionário Universal da Banda Desenhada - Pequeno Léxico Disléxico" o primeiro léxico enciclopédico sobre BD saído entre nós. Uma obra que se autonomizou de um exaustivo catálogo de toda a BD publicada em Portugal, ainda à espera de editor

"ESTE LIVRO É PARTE DE UM OUTRO MAIOR, QUE ESTÁ POR PUBLICAR"

Eurico de Barros

Como apareceu este livro, que tem um toque de humor no título: é um Dicionário Universal da Banda Desenhada, mas também um Pequeno Léxico Disléxico?

Este livro tem uma história diferente de outros que fiz, por ser uma parte apenas de um outro livro muito maior, que está feito e por publicar, à espera de um editor com coragem, porque tem cerca de mil páginas: é um catálogo de toda a banda desenhada publicada em Portugal, álbuns, revistas, etc., com um índice a sério. A certa altura desse trabalho, comecei a sentir necessidade de explicar alguns termos – porque estava a utilizá-los –, a duvidar que toda a gente percebesse o âmbito que estava a tratar. E comecei a juntar ao prefácio um léxico, que por sua vez saiu do âmbito e passou a ser o que chamei um "léxico disléxico" por brincadeira, pois tinha-se tornado num léxico enciclopédico. A certa altura, por volta de 2005-6, o meu editor, o Jorge Machado-Dias, da pedranocharco, precisava de colaboração para a sua revista, o BDjornal e perguntou-me com que artigos eu podia participar. E uma das coisas que eu lhe propus foi tornar autónomo este Pequeno Léxico Disléxico. Depois, o editor achou que seria um título demasiado ligeiro para um livro e optou-se por este, um pouco mais pomposo. mas sempre mantendo o humor.

O que foi uma óptima ideia…

Acho que é importante guardar o sentido de humor, porque a matéria banda desenhada pode ser séria, mas muitas vezes tem uma forte componente de humor. E estar a falar de forma absolutamente séria de uma coisa que tem uma componente lúdica, divertida, não faria muito sentido.

Este trabalho é pioneiro no seu género! Não havia nada publicado em Portugal neste âmbito, sobre a terminologia específica da banda desenhada?

Sim, há apenas pequenos léxicos, pequenas contribuições. Não conheço nenhum léxico autónomo que exista como livro. São léxicos que aparecem no fim de obras. E como explico na introdução do livro, houve uma forma primitiva de léxico, que saiu em Os Comics em Portugal: Uma História da Banda Desenhada, que era do António Dias de Deus, e meu, por extensão, e onde já havia esse lado de humor. Aquilo que eu fiz foi voltar a esse léxico que já existia e usá-lo como corpo, como esqueleto. digamos assim, e expandi-o. Tornei-o autónomo, por assim dizer.

Este livro saiu numa editora ligada à banda desenhada. Teria sido difícil, ou mesmo impossível, publicá-lo numa editora não especializada?

Neste caso, a questão não se pôs, porque já havia uma ligação à revista, ao BDjornal, e a
certa altura tornou-se lógico publicar o texto como livro. Com uma editora mais mainstream, provavelmente teria sido mais complicado, sim.

Em Portugal continua a haver para com a banda desenhada, por parte das entidades oficiais, culturais, académicas, uma atitude de menosprezo e paternalismo?

Sim. Em Portugal. nunca vi, por exemplo, nenhum organismo investir na investigação em termos de banda desenhada. e noutros temas intimamente ligados a ela, porque no meu livro, embora o fundamento seja a banda desenhada, acabo por falar na caricatura, no cartoon, na ilustração, etc.

Ainda persiste a ideia de que a banda desenhada não é "séria".

Sem dúvida. Há vários indicadores desse facto. Por exemplo, praticamente todas as bibliotecas nacionais dos principais países europeus já fizeram grandes exposições de banda desenhada. Mesmo a Biblioteca Nacional do Brasil fez uma grande exposição dos quadrinhos brasileiros. Em Portugal, a Biblioteca Nacional não fez nunca, jamais, uma exposição dessas, com um catálogo a acompanhar. Penso que seria uma iniciativa muito interessante por parte de uma entidade que tem um acervo colossal do género em relação a Portugal, que, penso, está relativamente preservado. E estou a falar da Biblioteca Nacional como referente. E falta também algum investimento a nível de organismos clássicos. Por assim dizer, caso das universidades ou de entidades ligados ao livro e à edição.


ENTREVISTA LEONARDO DE SÁ
Arquitecto e investigador de BD

- Nasceu em Lisboa, em 1960
- Formou-se em Arquitectura pela École d'Architecture de Grenoble
- Fez parte dos corpos dirigentes do Clube Português de Banda Desenhada
- Começou a escrever em revistas especializadas em 1978.
- Leonardo De Sá colaborou em vários jornais, revistas, catálogos e fanzines portugueses, bem como em publicações especializadas francesas e norte-americanas. Foi co-comissário e responsável por catálogos de exposições de BD no Instituto Franco-Português, na Bedeteca de Lisboa e no Festival Internacional de BD da Amadora, entre outros. Já publicou, em colaboração ou sozinho, vários livros, álbuns e monografias, caso do Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal (1999).

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