quarta-feira, 30 de novembro de 2011

JOBAT NO LOULETANO – 9ª ARTE - MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (XIX e XX) – SUA MAGESTADE EL-REY “O MOSQUITO” – SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA BD EDITADA EM PORTUGAL – TEXTOS DE A.J.FERREIRA

Após longa interrupção, devido ao Amadora BD e à mudança de fornecedor de Internet
retomamos a republicação das páginas d'O Louletano, por Jobat.
Aqui ficam as páginas publicadas em 3 e 10 de Agosto de 2004


9ª ARTE
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA 
(XIX - XX)

Criterioso pesquisador e coleccionador, e simultaneamente reconhecido como um dos comentadores mais abalisados na área das histórias aos quadradinhos – HQ – A.J. Ferreira inicia hoje uma série de artigos que muito irá valorizar a coluna de texto desta página. Ao amigo de longa data, o reconhecimento do coordenador da secção 9a Arte. J.B.

Sua Magestade El-Rei
"O Mosquito" – 1
Subsídios para a história da BD editada em Portugal



A simples leitura da ficha técnica de O MOSQUITO logo nos mostra que estamos em presença de qualquer coisa muito fora do comum: naqueles l7 anos de vida e 1412 números publicados estão contidos alguns recordes no campo do jornal infantil em Portugal.

Claro que há muitos tipos de recordes, e os resultados das estatísticas estão à mercê da força da imaginação interpretativa. Pode, por exemplo, dizer-se que O AMIGO DA INFÂNCIA durou muito mais: 66 anos pelo menos. Mas era um mensário e a quantidade de números publicados terá sido metade do «enxame» de «Mosquitos», além de que a sua projecção no mundo infantil foi de tal modo discreta, que se poderá considerar próxima do zero. O PIM-PAM-PUM! excedeu-o de longe em anos de vida e em números publicados; mas não era um jornal independente, vivia na bolsa marsupial de O SÉCULO.

Recordista ou não, O MOSQUITO representava 28 volumes, segundo os procedimentos normais de encadernação, e ocupa um metro de prateleira. Chegou a ter uma difusão de 25 000 exemplares, e já no segundo ano de publicação exigia que a Litografia Castro trabalhasse em regime de dois turnos, com pessoal duplicado.

A tiragem do número do Natal de 1936, com 20 páginas, acumulada com o álbum de HQ «GUERRA NO PAIS DOS INSECTOS», causou atrasos que levaram meses a recuperar. Foi um sucesso, com S bem grande.

Surgiu em plena Idade de Ouro do Jornal infatil, bastando dizer que à data do seu aparecimento estavam em publicação o TIC-TAC, O SENHOR DOUTOR, O PAPAGAIO e o MICHEY. O MOSQUITO contribuiu com o último retoque para que essa Idade de Ouro atingisse o esplendor máximo.

Visto de fora, O MOSQUITO apresenta cinco fases, marcadas pela variação de formato. O que, no caso da primeira redução, em 1942, nos foi explicado (a nós, leitores) como uma consequência das dificuldades de obter papel em tempo de guerra. Mas as explicações editoriais subsequentes foram sendo cada vez menos convincentes.

Visto por dentro, nas linhas gerais da sua orientação, teve "O MOSQUITO" duas fases. A primeira obedece ao óptimo modelo concebido pelos fundadores, é fechada a colaboração portuguesa, mantendo razoável contacto com os leitores, e tem o grafismo de Cardoso Lopes. A segunda é uma fase de evolução (até à morte), é progressivamente aberta à colaboração portuguesa, perde o contacto com os leitores, e tem o grafismo de Eduardo Teixeira Coelho.
(Continua...)

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Sua Magestade El-Rei
"O Mosquito" – 2
Subsídios para a história da BD editada em Portugal

A primeira fase de "O Mosquito" durou seis anos e meio. Cardoso Lopes (cuidando do arranjo gráfico) e Raul Correia (escrevendo os textos), fazem praticamente tudo, sobre uma base de desenhos importados de fontes inglesas e espanholas.

Na contribuição inglesa sobressaíam Walter Booth*, Reg Perrott, Roy Wilson, Colin Merritt e Percy Cocking; na espanhola, Cabrero, Arnal e Arturo Moreno.

Algumas contribuições de textos de Fidalgo dos Santos, Irene Cardoso Lopes, Manuel Henriques Guimarães, «Velho Akélá», «Andorinha Sisuda», Pedro Sagunto (?) e Roberto Ferreira, e a contribuição artística de Ruy Manso e de Manuel - são uma gota de água no oceano. Os desenhos do próprio Cardoso Lopes limitam-se à capa do n.° 1, aos cabeçalhos, e a oito proezas do Zé Pacóvio... o equivalente a meia dúzia de números do TIC - TAC ou de O BÉBÉ, seus jornais anteriores.

Após dois anos foi introduzida uma secção charadística de António Ezequiel Antunes. Ao fim de quatro anos, Raul Correia admite dois suplentes (Lúcio Cardador e Orlando Marques) tão completamente enquadrados na forma basilar, que nada alteram ao aspecto ou ao sabor da revista.

A meio do sétimo ano, com a «aquisição» de E.T. Coelho, O MOSQUITO entrou na dita segunda fase. A importação de ilustrações estrangeiras para contos e novelas, cessou; Coelho ilustrava todas as histórias de texto. A importação de BD começa também a ser reduzida, pois são publicados trabalhos de Vitor Péon, depois de Jaime Cortez, do próprio Coelho, de Servais Tiago, José Garcês, Monteiro Neves e José Ruy. A BD espanhola é enriquecida com trabalhos de Emílio Freixas, dos três irmãos blasco, Puigmiquel, Blanco, Mestres, Iribarren, Roca, etc. Vão também aparecendo banda-desenhistas americanos, como John Lehti, Harold Foster, Darrell McClure, Dirk Knerr, etc.

Cardoso Lopes contrai interesses diferentes do jornalismo infantil e a sua actuação n'O MOSQUITO torna-se tão pouco significativa, que a sua saída passou despercebida. Raul Correia vai também gozando algum repouso (merecidamente), confiando na caneta operosa de um colaborador, José Padinha.

Progressivamente, O MOSQUITO adquire e intensifica uma obcecação pela história pátria e pelos clássicos da língua portuguesa. Fala cada vez menos à imaginação infantil e vai-se tornando num prolongamento da escola.

E deixou de ser o jornal infantil mais barato, relativamente. O último número de O MOSQUITO dava, por 1$50, oito HQ, e tinha a colaboração artística portuguesa limitada a E.T. Coelho. Na mesma semana o CAVALEIRO ANDANTE dava, por 1$80, quinze HQ, e tinha a colaboração de F. Bento, J. Garcês e J. Felix. O vigoroso «insecto» de 1936 tinha perdido a vontade de viver.

Renunciamos, por impraticável, a detalhar o conteúdo d'O MOSQUITO. Nele foram publicadas umas 1512 curtas histórias aos quadradinhos, completas num número; 250 QH de continuação; 381 contos e novelas; e numerosas secções de assuntos diversos, como sejam 425 cartas do «Avozinho» (Raul Correia). »

* "Pelo Mundo Fora", do ilustrador Inglês Walter Booth
(Continua...)

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ULISSES (XVI e XVII)
Texto e desenhos de Jobat



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