terça-feira, 22 de outubro de 2013

BDpress #391: CARLOS ALBERTO SANTOS e a EXPOSIÇÃO DOS 60 ANOS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL NO CORREIO DA MANHÃ


Revista Domingo, do Correio da Manhã, 20 de Outubro de 2013

Texto de Leonardo Ralha

Exposição de cromos portugueses em 2014

A mostra 60 Anos da His­tória de Portugal em Cro­mos, que incluiu um en­contro com Carlos Alberto Santos, realizado na sex­ta-feira, avançou agora para assinalar a efeméri­de, mas os seus organiza­dores já têm planos para uma exposição mais am­biciosa, dedicada a mos­trar o que foi a produção de cromos no século pas­sado, que poderá ser vista na Biblioteca Nacional no final de 2014. Segundo Leonardo de Sá, um arqui­teto perito em banda de­senhada e ilustração – co­missário da mostra sobre a História de Portugal –, foram os próprios respon­sáveis pela instituição pú­blica a sugerir a outra ex­posição, que irá preparar nos próximos meses, em colaboração com João Manuel Mimoso.

Armas e barões na caderneta

OS CROMOS DA
'HISTÓRIA DE PORTUGAL' APARECERAM HÁ 60 ANOS. 
O AUTOR DIZ
QUE FARIA TUDO DIFERENTE

Muitos milha­res de jovens portugueses aprenderam a gostar de História de Portugal ao colarem desenhos de alguém que começara a trabalhar logo de­pois de fazer a quarta classe. Poucos ou nenhuns poderiam adivinhar que Carlos Alberto Santos acabara de recriar sé­culos de batalhas e descobertas (e os milénios que antecede­ram a fundação do País) quan­do tinha apenas 20 anos.

Seis décadas após a primeira edição de História de Portugal a inovadora coleção de cromos que teria pelo menos duas dezenas de reedições entre 1953 e 1973, transformando-se num símbolo da Agência Portuguesa de Revistas, o autor dos dese­nhos, feitos ao longo de três anos, não sabe quantos milha­res de cadernetas e milhões de carteiras - chamadas envelopes-surpresa que custavam.40 centavos e davam direito a três 'estampas' - foram vendidas.

O pintor de 80 anos tem, no entanto, uma certeza, partilha­da com a Domingo numa sala da Biblioteca Nacional, em Lisboa, onde está patente, até ao dia 31, uma pequena mostra – organizada por João Manuel Mimoso e Leonardo de Sá – que assinala o 60º aniversário do lançamento da coleção: não foi o maior beneficiado pelo êxito da História de Portugal "Se fosse lá fora, era natural que, com direitos de autor e tantas reedições, ficasse rico."

Fascinado pela História

Desenhar sempre fora a escapa­tória de Carlos Alberto Santos, que começara a trabalhar aos 12 anos na gráfica Bertrand & Ir­mãos, onde o pai era tipógrafo. O jeito para traçar figuras humanas no papel abriu-lhe as portas de um ateliêr de publici­dade, tal como as suas ilustrações chamariam a atenção da Agência Portuguesa de Revis­tas." O editor sabia que eu desenhava e que gostava muito de coisas históricas" recorda, ad­mitindo que o desfile criado por Leitão de Barros, em 1947, para comemorar o oitavo centenário da tomada de Lisboa aos mou­ros foi uma grande inspiração.

Para trás ficara a estreia, na revista Camarada publicação da Mocidade Portuguesa, dirigida pelo futuro governador-geral de Moçambique e ministro Balta­sar Rebelo de Sousa – o pai de Marcelo Rebelo de Sousa –, tal como a banda desenhada His­tória Maravilhosa de João dos Mares no primeiro número da revista O Mundo de Aventuras.

Maiores eram os desafios co­locados pela História de Por­tugal como constatou ao rece­ber o texto correspondente a cada um dos 203 cromos origi­nais – edições posteriores ti­nham os novos Presidente da República e presidente do Con­selho de Ministros, Américo Tomás e Marcelo Caetano –, que foi elaborado pelo escritor e jornalista António Feio.

''Dentro do bloco de texto cor­respondente ao cromo tinha de escolher a melhor cena e desenhá-la" conta o autor, que co­meçou a fazê-lo quando tinha apenas 17 anos. Em tão extensa encomenda havia de tudo. "Uns eram trabalhosos e outros me­nos. Seria um dia inteiro a fazer cada um, e noutros até demora­va mais. Outros eram mais sim­ples e até fazia dois num só dia" explica. Cada cromo, fosse uma batalha sangrenta, o descobri­mento de terras novas ou o mapa da Península Ibérica que aparecia no número 1, come­çava por ser desenhado a tinta da China. Os originais eram en­viados para a gráfica, reduzidos e impressos a azul, regressando ao autor para serem pintados com guache.

"Tinha mais dúvidas e problemas para saber como eram os trajes. Hoje há muitos elemen­tos, muitos livros sobre solda­dos. Naquele tempo havia mui­to pouco" refere. A única solu­ção era "fazer grandes serões" na Biblioteca Nacional, então localizada na zona do Chiado.

Insatisfação

Apesar do sucesso da História de Portugal e da importância que teve para crianças e adolescentes nas últimas décadas do Estado Novo, Carlos Alberto Santos admite que não é a sua obra favorita no que toca a cro­mos. Prefere Camões que che­gou às bancas em 1966, mas também foi o autor de História de Lisboa, Romeu e Julieta e Pedro Álvares Cabral.

Aos famosos cromos que de­senhou e coloriu entre os 17 e os 20 anos reserva uma crítica im­placável. "Aceito o que fiz na­quela altura, pois era o que eu sabia. Não me repugnava nada que se fizesse uma nova edição, mas hoje não a faria assim. Não aceito muito estes desenhos. Posso considerá-los um bocado ingénuos" explica, acrescen­tando que um eventual regresso da caderneta só poderia ocorrer com a concordância dos herdeiros do autor do texto.

A última reedição ocorreu em 1973. pouco antes do derrube de Marcelo Caetano, o que contribuiu para o ponto final. "Deve ter tido influência. Tudo o que era histórico era visto como es­tando ligado ao Estado Novo, e o editor terá parado por isso. Certa vez, estava no Algarve, a expor numa galeria, e tinha um quadro com o infante D. Henri­que . Passaram uns revolucionarios e disseram: 'Olha, o primeiro fascista da História!' recor­da, entre risos.

Leonardo de Sá avança outra teoria. "Esta Historia de Portugal corresponde à visão do Estado Novo, mas também é a vi­são do livro escolar único. De­pois do 25 de Abril houve uma época de mudança no Ministé­rio da Educação, em que come­çou a haver mais livros e mais visões. A própria História tor­nou-se relativa" afirma. Ultra­passado estava o tempo em que eventos como a Exposição de 1940 terá feito com que "a História de Portugal fosse mais popular do que agora".

Outro motivo do desapareci­mento da coleção tem a ver com os problemas da Agência Portuguesa de Revistas, que encer­raria nos anos 80. Antes disso, Carlos Alberto Santos tentou recuperar, sem grande sucesso, direitos de autor em tribunal. "Fui um bocadinho maltratado, entre aspas" diz.

Quantos mais cromos poderia ter juntado aos 205 da derradei­ra edição caso tivesse continuado? O pintor hesita. "Perante certas situações, não sei se não ficou bem acabar ali. Mas talvez pudesse ter ido mais para a fren­te." A convite de outra editora chegou a desenhar o 25 de Abril de 1974, num estilo tão diferen­te quanto as diferenças entre o anterior e o presente regime.


Carlos Alberto Santos no estúdio

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