quarta-feira, 23 de outubro de 2013

BDpress #392: ENTREVISTA COM JEAN-YVES FERRY (NOVO ARGUMENTISTA DE ASTERIX) – NO PÚBLICO (FUGAS) – por J.M.Lameiras


Devido ao lançamento do novo álbum de Astérix (Entre os Pictos), amanhã – dia 24 de Outubro – e o início da publicação da Colecção Astérix à Volta do Mundo (16 volumes), o caderno Fugas do Público, de sábado passado, foi quase todo ele dedicado à personagem criada por Goscinny e Uderzo – que pela primeira vez mudam de autores. Vejamos a entrevista com o novo argumentista, Jean-Yves Ferry, que João Miguel Lameiras conduziu para esta edição do Fugas.


Edição especial

ENTREVISTA COM JEAN-YVES FERRY
ARGUMENTISTA DE 
ASTERIX ENTRE OS PICTOS
QUE É LANÇADO AMANHà
COM O "PÚBLICO"

 Fugas - Público, Sábado 19 Outubro 2013

Um novo álbum para recuperar "o que sentimos ao ler as histórias pela primeira vez"

Jean-Yves Ferry é o autor do novo álbum de Astérix, Astérix entre os Pictos, que terá o lançamento mundial no dia 24 e que, diz, será um "álbum de transição suave" do passado para o futuro dos irredutíveis gauleses. Desta vez, Astérix e o inseparável Obélix vão à Escócia. O resto é mantido em absoluto segredo até à data do lançamento. Ferry só revela uma coisa: tudo irá acabar, como sempre, num grande banquete na aldeia gaulesa.

João Miguel Lameiras (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotos)

Jean-Yves Ferry nasceu em 1959, justamente o ano em que foi publicada a primeira aventura de Astérix. Esteve em Portugal pela primeira vez para a apresentação da colecção Astérix à Volta do Mundo

Desenhador e argumentista, nascido em 1959, tal como Astérix, o francês Jean-Yves Ferry é o responsável pelo argumen­to da nova aventura do irredutível gaulês e dos seus companheiros que, pela primeira vez, não conta com nenhum dos seus criadores como autor. Astérix entre os Pictos, o 35.° álbum da série, é publicado a nível mundial no dia 24 de Outubro (sairá em Dezembro, numa versão em capa mole, com o PÚBLICO, in­tegrado na colecção Astérix à Volta do Mundo. Ferry, que passou por Lisboa em Setembro, para a apre­sentação da colecção, falou à Fu­gas deste importante desafio e da sua experiência como sucessor de Goscinny no argumento de umas das mais populares séries da BD mundial.

Nasceu em 1959, precisamente o mesmo ano em que a série Astérix começou a ser publicada na revista Pilote. Vê o facto de ser escolhido como o novo argumentista de Astérix como uma simples coincidência ou um sinal do destino?

O mais engraçado é que também o desenhador, Didier Conrad, nasceu em 1959. Por isso, talvez o próprio Uderzo tenha visto nisso um sinal de que seríamos as pessoas certas para continuar Astérix.

Como é que foi escolhido para ser o novo argumentista?

Fui contactado pela editora Hachette (que detém os direitos da série desde 2011), tal como vários outros argumentistas, para apresen­tar uma proposta para uma história. O processo foi rodeado de grande secretismo, tendo sido obrigado a assinar uma cláusula de confidencialidade, que não me permitia contar a ninguém, nem à minha família, o que estava a fazer. As diversas pro­postas foram apresentadas, sem indicação dos autores, a Uderzo, que escolheu uma, que por acaso era a minha.

Considera-se um fã de Astérix?

Claro! Tanto eu como o Conrad fazemos parte de uma geração que cresceu a ler BD nas revistas sema­nais como o Tintin, Spirou e Pilote. Por isso, conhecíamos perfeitamen­te todos esses heróis e temos uma ligação afectiva com o Astérix, o que faz com que abordemos a série de um modo algo particular. O nosso objectivo, com este álbum, é recupe­rar aquelas impressões de infância, que sentimos ao ler as histórias pela primeira vez.

Por isso, procurei que este álbum estivesse na linha de alguns dos meus álbuns preferidos da década de 70, como o Astérix Legionário, O Escudo de Arverne, Astérix na His­pânia, ou Astérix na Córsega. Que fosse uma homenagem a esses ál­buns que tanto me marcaram. Posteriormente, espero conseguir impor o meu cunho próprio à série, mas este ainda é um álbum de transição. Uma transição suave, marcada pela minha admiração pela escrita de Goscinny.

O tema do novo álbum, os Pictos e a Escócia, foi ideia sua ou sugestão de Uderzo?

Foi ideia minha. Tive inteira liber­dade na criação da história. Entre­guei uma primeira sinopse de uma página e quando foi aprovada come­cei a escrever o argumento. Como também sou desenhador, fiz também um story board com a planificação da história, quadrado a quadrado, para o desenhador seguir.

E a editora impôs algumas alterações?

Praticamente nenhumas. Apenas Uderzo sugeriu duas pequenas alte­rações. Uma tinha a ver com a esta­ção do ano em que se desenrola a acção e a outra consistiu em algumas pequenas observações a propósito da psicologia do Obélix. Uderzo es­teve muito mais atento ao trabalho do desenhador.

Por falar em desenhador. Sei que Conrad não foi o desenhador inicialmente escolhido. Houve um primeiro desenhador, Frédérick Mébarky, que acabou por abandonar o projecto. O que é que realmente se passou?

É simples. Frédérick não aguen­tou a pressão e literalmente explo­diu. O problema é que ele era um desenhador do estúdio de Uderzo, que fazia ilustrações publicitárias e passava a tinta os desenhos de Uderzo, mas que não tinha nenhuma experiência da planificação e da narrativa em BD. Por isso, tinha muitas dificuldades em contar uma história em banda desenhada. Quando percebemos que a coisa não ia resultar, tivemos que arranjar um substituto, que foi Conrad.

E Conrad introduziu alguma alteração na história, em relação à versão com que Mébarky tinha trabalhado?

Não, e por duas razões. Primeiro, porque quando ele chegou o story board já estava todo feito; depois, como ele teve um prazo muito curto para desenhar o álbum, o meu story board até lhe deu jeito.

E o que é que nos pode adiantar sobre o novo álbum?

Oficialmente, a única coisa que posso adiantar é que a história ter­mina com um banquete na aldeia gaulesa, como sempre (risos)... De resto, não posso dizer nada, mas como há algumas pequenas informações que já apareceram na Internet, posso dizer que, como é habitual nos álbuns de Astérix, haverá uma série de elementos típicos da tradição do país, como o monstro de Loch Ness, e vamos saber também a verdadeira razão por que a Muralha de Adriano foi construída.

Foi à Escócia fazer pesquisa para escrever a história?

Já conhecia a Escócia e voltei lá por causa do álbum. Mas o cenário não é o principal. A história passa-se numa Escócia que, mais do que cor­responder à Escócia histórica real, tem que corresponder à ideia que as pessoas têm da Escócia. Ou seja, há que jogar com os estereótipos de forma divertida. Do mesmo modo, a pesquisa histórica é importante, mas não é decisiva. Quando decidi escrever sobre os Pictos, fui natu­ralmente investigar. Mas a verdade é que não há grande informação sobre os Pictos, o que até me deu jeito, pois assim pude inventar os meus Pictos que, na boa tradição de Astérix, são os ascendentes dos escoceses modernos.

E já tem ideias para os próximos álbuns?

Ideias, tenho algumas. Mas a ver­dade é que o contrato que assinei foi só para este álbum. Vamos a ver como é que as coisas correm, como é que o livro é recebido... E depois, se a editora estiver interessada, tam­bém é preciso que eu arranje uma boa história que queira contar e que agrade ao editor. Sem estar entusias­mado com a história, não consigo trabalhar.

Qual é a diferença entre trabalhar numa série como Astérix ou em projectos mais pessoais como a série Le Retour à la Terre, feita com o seu amigo Manu Larcenet.

São coisas diferentes. Com um personagem que eu criei, sou eu que comando o jogo. No caso de Astérix, não me sinto inteiramente responsável pelo universo da série. Astérix já existia, não fui eu que o criei. As regras do jogo são outras. É um desafio muito particular.

Até agora, a presença dos lusitanos na série Astérix limitou-se a um escravo no álbum o Domínio dos Deuses, que não sabia cantar, mas recitava poesia. Será que vamos ver algum dia Astérix na Lusitânia?

Astérix na Lusitânia é um bom título para um álbum. Soa mesmo a um título de Astérix! Já vi algumas sugestões nesse sentido na Internet. E porque não? Mas para isso preciso de conhecer Portugal. Esta é a pri­meira vez que aqui venho e não vou ter tempo para ver grande coisa. Te­nho que voltar com tempo, conhecer o país e arranjar uma história que justifique a visita de Astérix.


 
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