terça-feira, 6 de janeiro de 2015

JOBAT NO LOULETANO — MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (177-178) — VICTOR PÉON E A MEMÓRIA DOS SONHOS (2 – 3)


JOBAT NO LOULETANO
MEMÓRIAS DA BANDA DESENHADA (177-178)
VICTOR PÉON 
E A MEMÓRIA DOS SONHOS (2 – 3)

O Louletano, 17, Agosto, 2009


Embora a alguns puristas da BD possa parecer abusiva a inclusão, na passada quinzena, da página inicial da série "Tomahawk" Tom na história que só hoje verdadeiramente principia, tal inclusão apenas visa facultar, aos leitores de hoje, o espectacular começo desse – de facto –, "herói" de papel, "nascido" em 1950, no n° 62 da revista juvenil "O Mundo de Aventuras" (MdA). Essa antológica página é, na minha opinião, o início natural para a primeira publicação que se faça de quaisquer histórias desse herói, e mormente para um público que – maioritariamente, como será o caso dos leitores desta página de BD –, porventura as desconheçam.

A história "Tomahawk" Tom, em Reg Tooper, o renegado", que damos à estampa, foi inicialmente publicada no primeiro número mensal da "Colecção Condor", em 1951, e jamais foi reeditada. Cronologicamente, é a segunda que Vítor Péon (VP) ilustrou desse herói, de entre as várias que a seguir foram publica­das nalgumas revistas de BD da Agência Portuguesa de Revistas (APR), tal como no 3° número, nessa colecção, dois meses depois. Esse é um período em que a pesquisa e o apuro na composição e acabamento dos desenhos ressaltam nas ilustrações de VP, ainda longe da influência do autor de "Cisco Kid", o argentino José Luis Salinas, o qual marcaria de forma notória, a partir daí, toda a futura obra de Péon.

Para os alunos da António Arroio, em 1950, o trabalho deste ilustrador não era benquisto, não propriamente devido à sua então colaboração na APR, mas ao sofrível acabamento de muitas páginas de histórias que anteriormente publicou na revista "Diabrete", as quais eram pagas a um preço irrisório pela editora dessa publicação, remuneração nada comparável à que Eduardo Teixeira Coelho auferia por página, ao tempo, no jornal "O Mosquito".

Só conheci pessoalmente Vítor Péon em meados da década de 60, numa sua exposição de pintura que teve lugar na Sociedade Nacional de Belas-Artes, na Rua Barata Salgueiro, em Lisboa. Era um fim de tarde ameno, e o autor estava presente na expo­sição, que me atraiu mais para pessoalmente o conhecer do que propriamente apreciar a sua obra de pintura, a qual era agradável de se ver. Encerradas as portas, creio que já a noite despontava, ficámos cá fora a cavaquear, talvez umas duas horas ou mais, mais de histórias aos quadradinhos que de pintura. O calor e interesse da conversa, não me permitiram notar o frescor húmido da noite. Recordo prioritariamente desse encontro, uma quase pneumonia que me reteve mais de uma semana de cama.

Rimos, a bom rir, 20 anos depois, em 1974, no meu atelier, que Vítor Péon quase diariamente frequentava, quanto lhe contei as consequências desse primeiro encontro. Disse-me, com aquele seu ar alegre, brincalhão e loquaz de criança grande, beberricando um cálice de Licor Beirão: – Se nada sobrasse desse encontro é que me admirava. A minha amizade tem um preço elevado para aqueles com quem simpatizo! »»

Vitor Péon (1923-1991)

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O Louletano, 31, Agosto, 2009


Ao folhearmos as páginas do "Mundo de Aventuras" (MdA) ante­riores ao número 62 - no qual teve início a série "Tomahawk" Tom -, à procura de indícios que nos dessem pistas para o incomum "nascimento" desse herói, encontrámo-las no n° 60, na rubrica de correio "O Mundo Fala". Há dicas em duas respostas que nos sugerem que a ideia de como a personagem surgiria já estava há semanas delineada na mente dos seus autores: o escritor Edgar Caygill, pseudónimo de Roussado Pinto (RP), e Vitor Péon (VP), o desenhador.

A pesquisa incidiu nos textos dessa coluna por ser o local onde as questões postas pelos leitores eram respondidas. Em todas as revistas de Histórias aos Quadradinhos desse tempo, essa coluna era o lugar privilegiado onde os dirigentes da publicação espicaçavam a curiosidade e simultaneamente captavam as preferências dos leitores. Alguns autores dos textos dessas rubricas eram autênticos especialistas no contacto com o seu jovem público leitor, captando-lhes a simpatia pelo modo afável e carinhoso como respondiam aos seus anseios e curiosidade.

Como paradigma do que afirmamos, Raul Correia (RC), o "Avozinho" de "O Mosquito" foi, nessa área, um mestre inigualável que fez escola e discípulos, contando-se entre eles Roussado Pinto. Ainda hoje, passadas várias décadas, os textos de RC são recordados com saudade e carinho pelos que ainda teimosamente resistem nos caminhos da vida, tal como o autor destas linhas.

Regressando ao referido n° 60 do MdA, encontramos nessa rubrica, como acima referimos, na página 15, a seguinte resposta –da qual respigamos um trecho –, a uma leitora da Venda Nova: "... Quanto ao Vítor Péon ficou tão "babadinho" com as suas felicitações, que foi necessário o D. Gastão de Araújo* e o Fernão de Montalvor* SAÍREM DOS QUADRADINHOS – sublinhado nosso – e chamarem-no ao trabalho, em termos nada amigáveis. Vê o que originou a sua cartinha?". Um pouco mais abaixo, na mesma coluna e número, na resposta a um leitor da Covilhã, respigámos: ".. .A propósito, aproveitamos para lhe dizer um segredo, que Vítor Péon em colaboração com Edgar Caygill, estão a preparar uma história extraordinária, com um herói não menos extraordinário, e cuja apresentação é feita de uma maneira tão original como nunca se fez em todo o mundo. Atenção ao n° 62!"

Na semana seguinte, o MdA n° 61 publicaria, ocupando 2/3 da página sete, um resumo completo da programação do número 62, onde, a abrir com a palavra ATENÇÃO!!, em letras garrafais, se anunciavam, além das séries em publicação, as estreias de "Tommy, o rapaz do circo", "Mandrake, o mágico" e "D. Mendo o Cavaleiro Andante", de Vítor Péon, referindo depois, da forma seguinte, esta novidade: "E ainda... UMA EXTRAOR­DINÁRIA HISTÓRIA DE "COW-BOYS" em páginas de 9 quadrados, desenhadas por Vítor Péon e escritas por Edgar Caygill. Uma história, cuja apresentação é uma perfeita novidade em todo o mundo."

Conclui-se, por estes excertos, sem margem para qualquer dúvida, que Roussado Pinto, o coordenador da revista na altura - embora o seu nome nela não figurasse -, se referia de forma implícita ao invulgar começo da série que na semana seguinte apareceria nas bancas. »»

* Personagens das séries "Heróis do Salado" e "A Reconquista de Angola"


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