domingo, 24 de abril de 2016

GAZETA DA BD#57 – BANDA DESENHADA EM ANGOLA – O 12º FESTIVAL INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA – LUANDA CARTOON/2015



GAZETA DA BD#57 NA GAZETA DAS CALDAS

BANDA DESENHADA EM ANGOLA
O 12º FESTIVAL INTERNACIONAL 
DE BANDA DESENHADA
LUANDA CARTOON/2015 


Gazeta da BD #57 - na Gazeta das Caldas, 22 de Abril de 2016
Jorge Machado-Dias

O cartaz de 2015, com "Kianda", deusa das águas e protectora dos pescadores – montada numa palanca negra, símbolo nacional de Angola.

A Banda Desenhada em Angola tem alguma tradição, se bem que quase só circunscrita à captial, Luanda. Nomes como Henrique Abranches, Rui Galhanas, Sérgio Piçarra ou Francisco Carnoth, não dizem nada à esmagadora maioria dos bedéfilos portugueses. Contudo foram eles os iniciadores da difusão da BD em Angola, sobretudo com o português Henrique Abranches (Lisboa, 1932 – Luanda, 2004) que, obrigado a exilar-se pela PIDE na Argélia, já depois de estar em Angola, começou a afirmar-se na Banda Desenhada, criando aí o jornal de BD “Mquidesh”. E foi na Argélia que desenhou a célebre banda desenhada "Pela Liberdade, contra a escravidão", baptizada pelo público angolano como "O tio André é bufo". Essa banda desenhada, de cariz nacionalista, era especialmente destinada aos guerrilheiros do MPLA nas matas de Angola, e é considerada como a primeira manifestação da Banda Desenhada Angolana. Corria o ano de 1965. Abranches, depois do 25 de Abril começou a formar jovens nas técnicas da narração figurativa e foi responsável pela edição de uma série de álbuns, mantendo-se sempre no apoio aos novos autores que foram surgindo.

Pepetela e Henrique Abranches, 2000

O único autor angolano com quem me correspondi, nos anos de 1980, depois de ter trabalhado nas Edições 70, em capas de livros para a União de Escritores Angolanos e para as Obras de Luandino Vieira, foi Sérgio Piçarra. Este autor publicou em 1990 “Man’kiko, o Imbutável” no Jornal de Angola e depois em edição própria mensal “O Jornal do Man’Kiko”, de que saíram oito números em 1993. Piçarra teve a gentileza de me enviar alguns exemplares do jornal, se não me engano os três últimos números.

Man'Kiko, de Sérgio Piçarra, 1993

Mas foi já no século XXI, com o legado recebido de Henrique Abranches e o seu ensino da Banda Desenhada, que os irmãos Lindomar e Olímpio de Sousa, seus alunos, sentiram o desejo de criar um estúdio onde se pudesse concretizar a sua crescente paixão pela BD. Formaram um Estúdio (seguindo o exemplo de Abranches), em instalações provisórias e mais tarde, herdando eles uma vivenda de dois pisos da família Sousa, transferiram para aí o Estúdio, dotando-o de uma Bedeteca. Nasceu assim o Olindomar Estúdio. 

"Cabetula", 2006, revista de Lindomar e Olímpio de Sousa - a exemplo do "Man'Kiko" de Sérgio Piçarra...

Penso que foi em 2003 que iniciaram o Festival de Banda Desenhada – Luanda Cartoon, com três pequenas edições nesse ano, na Galeria Humbi-Humbi, do já falecido artista plástico Tirso Amaral. Em 2006, garantindo o apoio do Instituto Camões – Centro Cultural Português, na Avenida de Portugal em Luanda, que disponibilizou as suas instalações para o evento, os irmãos Sousa prosseguiram com o Festival, agora também de Animação, mas desta vez em edições anuais. A partir daí o Luanda Cartoon tornou-se incontornável para o mundo da BD. Mais tarde foi-se estendendo com exposições também no Belas Shopping e outros locais.

Nuno Saraiva no Luanda Cartoon de 2014, com os irmãos Lindomar e Olímpio de Sousa (à direita)


Todos os anos têm sido convidados autores portugueses e de outros países de língua portuguesa a estarem presentes no Festival de Luanda. Já lá estiveram João Mascarenhas (do Grupo Extractus), João Amaral, Hugo Teixeira, Nuno Saraiva e Teresa Câmara Pestana.

A mais recente edição do Festival, em 2015, de cujo cartaz foi autor o angolano Carlos Alves tendo como tema "Kianda" abarcou, como nos anos anteriores, várias componentes entre as quais se destacaram a Exposição Central Internacional (no Instituto Camões), a Expo 40/40 de Carnot Júnior e Tché Gourgel, e o lançamento do nº4 do fanzine BDLP – Banda Desenhada de Língua Portuguesa (que foi premiado como "Melhor Fanzine" pelo Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora e com o HQMIX no Brasil). O fanzine BDLP (Banda Desenhada de Língua Portuguesa) é produzido em parceria com o grupo português Extractus, desde 2011, em colaboração com o Olindomar Estúdio e tem vindo a publicar autores portugueses, angolanos, brasileiros, etc... O fanzine tem sido sempre apresentado no Amadora BD, tendo sido o nº5 o último editado até agora, lançado em Novembro de 2015.

BDLP #5, 2015

Portugal foi representado desta vez por Paulo Monteiro, autor de BD, director da Bedeteca de Beja e do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja (que realizou vários workshops de BD). Ele e os autores Pahé, do Gabão, e Jerémie Nsingui, da República Democrática do Congo, foram os Autores Convidados no 12º Luanda Cartoon 2015.

As temáticas apresentadas pelos autores nas exposições foram como sempre diversas, desde a crítica social, falta emprego, delinquência juvenil, brutalidade policial, prostituição, má governação, abuso de poder, multipartidarismo falso, zunga (“venda ambulante”), futebol, recreação, que encheram as paredes do Centro Cultural Português – Instituto Camões. Houve mesmo lugar a críticas ao poder político angolano, sobretudo sobre a censura existente no País. Tal como as coisas estão politicamente em Angola, penso que qualquer dia, na linha do que se passou com Luaty Brandão e companheiros, vai o Festival todo “de cana”, mas enfim, é preciso insistir sempre.

Já agora, refiro que em 2015 se realizou também a 1ª edição Festival de Banda Desenhada de Benguela.


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